domingo, 30 de setembro de 2018

Somos fracos (?)


 
Começo por acrescentar ao título a parte que ele não abrange, esclarecendo desde já o âmbito do restante: somos fortes na entrega diária à nossa nobre missão, e na resiliência necessária para a ir cumprindo, mas somos fracos, muito fracos, na luta pela defesa e recuperação dos nossos direitos. Só isso justifica o imenso vale de perdas acumuladas na última década.
Já lá vão dez anos de luta constante contra os abusos do Ministério da Educação, mas… apenas contamos com ganhos subjetivos (“Seria muito pior se não tivéssemos lutado!”). Excluindo esse elixir moral, os rombos no nosso casco são muitos, e é por isso que, tragicamente, talvez inexoravelmente, nos afundamos. Saliento apenas alguns dos mais significativos: os cortes reais nos salários (diretos e indiretos); a cleptómana conversão dos escalões, um autêntico empurrão escada abaixo; o aumento brutal do nosso horário de trabalho, com a exploradora invenção da dita “componente não letiva de trabalho a nível de estabelecimento”, que é uma máquina exploradora e trituradora de energias; um humilhante horário de trabalho contado em minutos; o furto de nove anos, quatro meses e dois dias às nossas carreiras (devemos recusar liminarmente o prémio de consolação que nos querem dar)… Isto, para falar apenas das questões estritamente laborais, porque se desenrolasse a negra passadeira de abusos no domínio pedagógico… e a das culpabilizações, desautorizações e desconsiderações nos palcos sociais… não chegariam as contas de um terço para as lembrar. E ainda poderia juntar ao cortejo fúnebre as perdas sofridas enquanto funcionários públicos. Somos fortes no espírito de missão, mas temo que também essa estoica resiliência (por vezes, muito para lá da sensatez) seja, senão a maior, uma das nossas maiores fraquezas. Somos, de facto, muito vulneráveis na nossa luta contra os abusos desta prepotente entidade patronal.
Sim, já fizemos excelentes manifestações em Lisboa, mas jamais soubemos ser suficientemente determinados no dia seguinte, nos diferentes palcos escolares, onde, desde sempre, tudo se decidiu (e continua a decidir). Nesses espaços, retoma-se sempre a aquiescência, a obediência, a subalternização e… o medo. Aí, como diz Paulo Freire, alguns oprimidos, porque podem, tornam-se rapidamente opressores e completam a pesada cadeia de medo que alguém, um dia, criou para nos vergar. Nas redes sociais, paralelamente, sucede um fenómeno que, embora involuntariamente, complementa esse quadro de anulação progressiva: a quase permanente campanha fratricida contra os sindicatos. Não digo que os eloquentes críticos nunca têm razão. Digo que, demasiadas vezes, elevam as suas previsões e as suas suposições acima dos interesses do coletivo. Há nesse constante escrutínio mais narcisismo do que coletivismo. Não se revelam capazes de, sobretudo nos momentos em que a exortação é premente, pôr a mobilização da classe acima de uma certa lucidez de que querem fazer prova. Nada mais “conveniente” para quem já pouco acredita; nada mais “conveniente” para quem receia legais retaliações nos dias vindouros; nada mais “conveniente” para quem espera apenas um pretexto para iludir a sua própria consciência; nada mais “conveniente” para quem apenas espera aproveitar-se de eventuais troféus da luta alheia. E é dessas céticas fontes que nós mais temos bebido nos últimos anos. Anulamo-nos. Nas escolas, embora a contragosto (por vezes, bebendo lágrimas), obedecemos; nos pontos culminantes de luta, desconfiamos da seriedade e/ou da capacidade de quem nos representa nas negociações, e dispersamo-nos, com mil e uma desculpas. Acho que os políticos já não nos levam a sério, e apenas se limitam a esperar que os tufões que prometemos se transformem em suaves chuvas molha-tolos. Penso que, bem no íntimo, no limiar do inconsciente, muitos professores esperam que, vindo do céu, montado num branco cavalo alado, um cavaleiro providencial os venha resgatar da negridão. Esperam a morte e ainda não se aperceberam.
Amanhã, começa uma nova jornada de luta. Estou preparado: pus de lado as minhas razões de queixa dos sindicatos da Plataforma; pus de lado as minhas divergências relativamente à recente linha estratégica do STOP; tranquei, em câmara escura, todas as tentações de ceticismo e de recuo; anestesiei a lucidez mais aguda; amordacei os custos materiais e todas as más memórias das lutas passadas; bebi toda a ilusão; vesti a farda mais dura e empunhei as minhas melhores armas. A partir de amanhã, e enquanto a luta durar, darei tudo. Farei apenas uma pequena parte, mas fá-la-ei na plenitude, como se disso tudo dependesse. Por mim, todas as escolas encerrariam. 
Eu assim farei. Vós… fazei o que a vossa consciência vos ditar.

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