quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Falham as retaguardas



O verdadeiro ventre da aprendizagem é a sala de aula. Contudo, para que esse espaço gestativo funcione adequadamente é necessária a ação contínua, coerente e convergente de várias retaguardas. Sem esta ampla base de apoio, todo o processo fica seriamente comprometido. É, no meu entender, o que se passa atualmente na Escola Pública deste país. Os professores estão praticamente sós a segurar todas as pontas.
A primeira retaguarda é a dos encarregados de educação. Todavia, salvo honrosas exceções, ele falha precisamente nos casos em que é mais premente. Sei que as causas não são meramente individuais ou estritamente familiares — há motivos culturais, económicos, sociais, laborais, etc. — mas… esta lacuna é um facto. E pior que a ausência pura é a presença desautorizadora do professor. Um significativo número dos que mais precisam da escola, para além de não procederem ao devido acompanhamento dos seus educandos, incutindo neles os valores do cumprimento do dever, do respeito por colegas, pessoal auxiliar e professores, ainda adotam, quer em casa quer na escola, um discurso culpabilizante de quem ensina e educa e práticas que, indiretamente, permitem que os jovens cresçam no incumprimento de múltiplos deveres. Dir-me-ão que, de algum modo, sempre assim foi. Concordo. No entanto, relembro que, outrora, apesar da escassa formação escolar (elevado número de analfabetos) a sintonia entre pais e professores era muito forte, a autoridade destes era efetiva e a retaguarda que tinham dos seus superiores hierárquicos não faltava quando era necessária.
A segunda retaguarda do ventre pedagógico está na escola: auxiliares de ação educativa (continuo a preferir esta designação) e todo o corpo docente, dos diretores de turma, professores do conselho de turma até à Direção. Os auxiliares, agora denominados “assistentes técnicos operacionais”, para além de serem muito poucos para tantas demandas, também padecem da ausência de uma sólida retaguarda. Não raramente, estão sós, com receio de dizer e de fazer o que é preciso, quando o desrespeito e a indisciplina imperam. Não me admira nada que sintam constrangimentos, pois sabem que a primeira retaguarda vai mais depressa à escola para fazer injustiça pelas próprias mãos do que para repreender e corrigir quem deve ser repreendido e corrigido. Em idêntico desapoio estão os professores, que, com inadmissível regularidade, também se encontram sós, temendo que os seus atos de exercício da disciplina resultem em desautorizações, por atos ou omissões, vindas de todas as retaguardas (dos pais, dos seus pares e das direções escolares, que, muitas vezes, quando não viram o feitiço contra os feiticeiros, lhes sugerem o silêncio e a acomodação). E todas estas perversidades acontecem porque também os diretores escolares sentem falta da sua retaguarda. Sabem que têm todo o superior apoio, se procederem de determinada maneira, e que terão o contrário, se saírem dos trâmites de um determinado diktat mais ou menos informal, mais ou menos oculto. Também os diretores têm os seus medos. Vivem em contexto mais ou menos pavloviano, ou seja, em regime de condicionamento clássico.
A terceira retaguarda — a grande retaguarda — é a das cúpulas supraescolares  (direções regionais e Ministério da Educação). É, evidentemente, a mais poderosa e, por isso mesmo, a mais responsável. Mas tem falhado em toda a linha: exemplar na afronta, na culpabilização, na exploração e na desautorização dos professores. Há dez anos que mantém uma guerra aberta com a classe, que trata com sobranceria e desdém, como se fosse um grupo desqualificado que precisa de orientações/imposições para tudo, desde o nível político ao ato didático. A sua crescente e arrogante ingerência neste domínio (é para isso que serve a desconcentração funcional a que chamam “autonomia”) contrasta com a sua invisibilidade, sempre que é necessário defender os professores. Se não é promotor de certas campanhas miseravelmente difamatórias — quero acreditar que não — é, pelo menos, responsável pelos sistemáticos silêncios coniventes.
Vivemos numa prolongada conjuntura de debilidade e demissão em todas as retaguardas do ensino. E é este o monstro do maior impulsionador do insucesso escolar em Portugal: a indisciplina. É com ele que cada professor, no seu dia a dia, nas arenas educativas, tem de se digladiar, desmunido e praticamente só.

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