quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Um barquinho de papel



Este texto foi escrito dias depois do anterior — “O meu poeta” — e na mesma escola, como é óbvio. É uma psicografia dos primeiros folhos crepusculares desta longa noite desaluada que se abateu sobre a Escola Pública.

O som da campainha desencaixotou o bulício da escola. Ao canto da sala, acotovelado sobre o mármore do balcão do pequeno bar, com todo o volumoso vazio à minha frente, curiosava a ansiosa entrada dos atores.
Pasta numa mão, livro de ponto na outra, eles foram chegando. Os primeiros… mais solitários, os restantes já em grupo, desenhando o mesmo ritual, o mesmo cénico percurso: o encarceramento dos livros de ponto, o estacionamento das cargas livrescas e… a ubiquação, antes do banquete de mimos no prazeroso cantinho. Num instante, o docentáculo parecia uma sala de espelhos apinhada: de um lado (o tangível), um grupo exuberando em sons, cores, odores, macios tocares, olhares luminares…; do outro, o mesmíssimo grupo, mas quieto e intangível, em tons de cinza, demorando plumbeamente nos lugares, de pé e de assento, de companhia a paredes e janelas… desfolhando lentos malmequeres.
Libertei o espaço, para que outros pudessem ofertar-se alguns minutos de consolo, e fui sentar-me num atalaiado canto, com as espectrais figuras evanescendo diante de mim. Por momentos, consegui subtrair-me com elas e mergulhar no seu silêncio, nas suas brumas, na sua quieta inquietude, nas pétalas malquerentes que estavam atapetando todo o quadriculado envernizado do chão. Estatuei-me: empederni por fora, e fui… mar profundo adentro.
O Telmo, plantado diante da vidraça, estatuava como eu, com a claridade de fora decalcada nas retinas inertes. Parecia um pedaço de tempo parado. A Jacinta, virgulada sobre uma pequena mesa circular, afundou o seu olhar encovado nas palmas das mãos, que acabaram por se arrastar lentamente pelas têmporas, acariciando depois os seus longos cabelos lisos, caídos na ravinosa curvatura do seu tronco. A Manuela, aninhada num pequeno assento, dava colo ao coração, desespinhando-o pacientemente como a um menino, o seu menino, caído num fractal de catos. A Noémia, tal como o Telmo, arrostando outra abertura, também tinha os olhos perdidos em penumbrosas veredas de uma mata de nenhures. Colava mais alguns cromos tristes nas páginas da sua já longa e deprimente coleção. A Custódia — mão esquerda escorando o cotovelo direito, onde se alavancava o braço que lhe chegava uma mão segurando um verdolengo pomo — parecia um engenho humano a esmoer pensamentos, a macerar frustrações. A Raquel, a sereníssima Raquel, com um longo fio de lã e uma velha agulha de tricô, retecia a malha desfiada do seu corpete de tristezas. O Carlos…
Retiniu o grito de chamada como se tivesse terrintado às avessas. E o ritual acordou obediente, seguindo-lhe o monótono compasso. Vi então que todos os espectros eram soldadinhos de chumbo pesando solidamente sobre o chão. Mas a porta, impiedoso bueiro, deglutiu o meu cenário de um só trago. Do outro lado, para onde escorreu toda a minha contemplação, estavam esbracejando silvas, que encobriam e ensombreciam o esqueleto de um antigo olival abandonado.
Eu não tinha aulas. Por isso, só por isso, continuei ali, chumbado ao meu canto, vertido no meu forro, a escrever um doloroso barquinho de papel.

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