sábado, 4 de agosto de 2018

O Xaile da Noite

"Noite Estrelada", Vincent Van Gogh

Um dos textos mais populares do DaNação (um dos meus blogues extintos). Escrevi-o em dia de profunda deceção, madrugada adentro. Apertava-me o coração a entrega progressiva dos professores ao desânimo, à desistência imediata e ao ostracismo daqueles que se mantinham de armas na mão. Sentei-me onde agora me encontro, coloquei os auscultadores, para não incomodar ninguém, selecionei o tema “Bistro Fada”, com o volume no máximo, e teclei de rajada “O Xaile da Noite”, um texto cujas palavras são genes meus.

Mesmo quando ela se debruça sobre mim, loiramente sensual, e me conquista um sorriso de sol estampado de alegria de viver, eu digo-lhe francamente:
― Manhã, adoraria ver os teus olhos azuis em todos os meus acordares, mas não há noite em que não me despoje dessa tua luz, para reaprender diariamente a perder-te, e não ter medo de ser sem ti!
A seiva da minha liberdade, eu bebo-a em cada rodopio da esfera azul, numa estranha taça de dois fundos simétricos: empenho o meu tutano em tudo o que quero e acredito; beijo quotidianamente as mãos do mundo, este mundo, mas sem nada do que nele conquistei. E segredo-lhe:
― Plantaria no teu seio a minha liberdade, ó velado astro dos meus dias. No teu corpo árido seria capaz de reinventar a vida, e de nela pintar a minha estrela! No teu vazio eu aninharia um fascinante recomeço, como quem amanhece noutra encarnação. Não te temo! Talvez até te deseje em segredo de mim mesmo!
A estranha força do meu caráter, aquela que me permite dizer o mundo tal como ele se timbra nos meus olhos ― sem medo de não ganhar, sem medo de ver esfumar-se a minha sala de troféus ― brota abundantemente desta fonte em que me banho, ao deitar e ao acordar dos dias. Mas tu, caro leitor, tu deixaste apagar no céu as poucas estrelas cintilantes que nele, juntos, acendemos! Bebeste a resignação desse véu triste, como se as tuas retinas já não tivessem sede de luz. Talvez até já nem creias que a Fénix possa reerguer-se do chão lunar onde jazem, exangues, os teus sonhos. E eu, sem ti, sem o teu pigmento essencial, não posso pôr amarelo na noite escura. De nada vale a minha força! É inútil o meu labor aqui! Apenas te dou da minha presença, plangente violino ecoando em sepultura!
Nos parapeitos rasgados neste breu, pálidas, tremeluzem ainda algumas candeias, mas dão apenas de comer à noite faminta, fazendo parecer ainda mais negro o infinito luto do seu xaile. Cansadas e descrentes, um pouco como tu, também elas já desistiram de querer atear a madrugada. Algumas fenecem, outras parecem mesmo abraçar a sua luz, espelhada nas vítreas paredes do seu corpo. Alados como morcegos, em ansioso e cobiçoso revolteio, esvoaçam livremente os impostores, inconfessos amantes da escuridão. E o negrume é feito de silêncio e de marmórea paz!
O que fizeste ao teu Principezinho, amigo leitor? Em que encruzilhada da tua razão o abandonaste? Como deixaste amortecer em ti a sua chama? Sim, deixaste que todo o teu céu se fizesse adulto, e agora nada tens que cintile. Olha que leva com ele o dia, o teu Principezinho cadente! Um dia sem vontade de nascer!
Quando o pez da noite se fizer gelo no teu peito, e tu já nada tenhas a perder, talvez então queiras reacendê-lo com um beijo. Como um pirilampo de vida, também eu virei por ti! E se quiseres comigo pintar de véspera a negrura dessa noite, a teu lado lutarei!
Agora deixa-me dar-me a mim mesmo, que de mim, há muito, saudoso ando!

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