domingo, 5 de agosto de 2018

O último lobo de Fearland



Não tive tempo, nem serenidade nem inspiração súbita que salvasse a minha promessa. Decidi então, em vez do pretendido naco de poesia inédito, recuperar um pequeno conto, que representa a solidão de quem luta e se mantém fiel a uma causa,  aqui representado pela Lua.

Só restava ele da numerosa alcateia que, outrora, dominara a temerosa montanha de Fearland. A maior parte dos seus pares fora definhando e morrendo paulatinamente, à medida que a caça fora rareando naquele habitat. Outros, por necessidade extrema, tinham-se aproximado demasiado da terra dos homens, acabando mortos, decapitados, embalsamados e exibidos para alimento do ego dos seus predadores. Alguns, atraídos por farejadas promessas de fartura, tinham partido em direção à mítica planície de Godland, em cujo coração estava o mais prodigioso bosque da Terra: Wonderwood.
Fearland, agreste e plena de estrias escarpadas, era como um gigantesco seio encimado por um enorme rochedo. Era ali que os habitantes de Treason Town — uma pequena cidade feita de casas de madeira, que ladeavam a única rua do burgo — viam diariamente o ascender da Lua na imensidão noturna. Mas também era ali que, invariavelmente, no preciso instante em que o astro começava a exibir o seu brilho e a sua redondez no céu, viam o único lobo de Fearland trepar até ao topo rochoso, esperar pacientemente o momento em que o corpo lunar ficava completamente suspenso no vão, e dar início a um delongado e plangente uivo, que parecia subir às alturas como um sinuoso fio de fumo saído de uma chaminé. Essa ode lupina só cessava quando a Lua já ia bem alta na negridão, com a distância expressa na sua decrescente forma, que, muito lentamente, se afastava no horizonte infinito. Nesse momento, o lobo descia pausadamente a aspereza do granítico mamilo de Fearland e mergulhava nas trevas, despertando o medo em Treason Town, cujos habitantes, conhecedores da escassez de caça — eles próprios a tinham gananciosa e desportivamente esgotado — temendo uma investida súbita da besta, se encerravam nos seus ventres amadeirados, espingardas prontas e estrategicamente colocadas. Mais tarde, à luz da candeia, cumprindo uma longeva tradição oral, semeavam, nas mentes dos mais novos, histórias terríveis de atrocidades cometidas pelas assassinas alcateias que habitaram aquele perigoso lugar.
O último lobo de Fearland, apesar das ameaças humanas e da fome que, amiúde, era obrigado a suportar durante vários dias, mantinha a sua simples rotina de animal selvagem: de dia — sempre ousou caçar à luz do dia — farejava, catava, perseguia e tomava as presas necessárias à sua tão temida sobrevivência; à noite, tinha aquele mágico e intrigante encontro com a Lua, a sua efémera companheira, que nunca se atardava, a única luz de presença que visitava regularmente a sua solidão. Depois da sua misteriosa vocalização, recolhia ao seu fojo e dormitava até aos primeiros folhos da madrugada. Antes mesmo de o canto dos galos se alargar nos ares frescos do crepúsculo, já ele sondava, com os seus prodigiosos sentidos, todas as brisas matinais. Instantes depois, num relâmpago, fazia-se à sua incerta e dificultosa jornada. Como no seu instinto animal não cabiam amanhãs, encarava cada dia como se fosse o único, respondendo à vida com o profundo e poderoso apelo vindo das profundezas do seu ser. Era o que a Natureza determinara que fosse. Era, simplesmente. Contudo, também o encantamento diário pelo luminoso astro e a sua lenta partida eram diariamente sentidos como únicos e últimos, intuídos e sofridos como morte. Era, enfim, este o mundo do animal mais odiado e mais perseguido daquela região: o último lobo de Fearland.
Um dia, as contingências da predação forçaram-no a uma exaustiva busca, seguida de uma obsessiva e extenuante perseguição por territórios que não conhecia perfeitamente. Já sucumbia a tarde quando, por fim, cravou os dentes na presa que lhe garantiria a centelha da vida por mais alguns dias. Todavia, no momento em que ergueu o seu poderoso pescoço, com a vítima suspensa na boca, estacou como se tivesse sido subitamente petrificado. A Lua já insinuava brilhos e alores no azul morrente do céu, bem por detrás do seu imponente trono rochoso. Tinha de ser célere como o vento! O seu instinto ditava-lhe que corresse imediatamente para lá. No entanto, um perigoso abismo se abria no seu já vertiginoso caminho: Treason Town. Tinha-se desviado imprudentemente dos seus habituais trilhos. Só atravessando Treason Town poderia chegar a tempo de se encontrar face a face com o astro celeste, no mágico momento em que parecia pousar no seu alçado rochedo. E o seu instinto ordenava-lhe que fosse, que fosse sem demoras.
Maquinalmente, abriu a boca e deixou cair a vítima. De seguida, num ápice, fez a primeira leitura do trajeto e lançou-se às encostas da montanha numa correria louca, ziguezagueando como o vento, entre arbustos, árvores e fragas. Nada parecia capaz de o deter ou de lhe refrear a vertiginosa cavalgada. Parecia correr não pela Lua, mas pela vida.
Porém, quando pôs as patas nos descampados átrios de Treason Town, abradou subitamente o ímpeto e, surpreendentemente, acabou mesmo por se deter na soleira da rua, sondando, primeiro uma sucessão de ruídos secos, confusos e apressados, depois os silêncios da cidade já recolhida e penumbrosa. Seria, por isso, mais fácil e mais cauteloso atravessar aquela fileira de abrigos como uma seta corrente. Não havia ali, com certeza, armadilhas montadas, e dificilmente lhe acertariam com um tiro. Todavia, irracionalmente, o lobo não retomou a corrida. Ancorou os olhos na Lua, cujo coração já se afeiçoava à dura redondez do penedo mais alto de Fearland, e enfrentou a passo lento o único corredor do burgo, repentinamente emudecido, mergulhado numa marmórea e agoirenta quietude. O animal parecia uma assombração atravessando vagarosamente um cemitério. Arriscava morrer ou, pior ainda, perder o seu vital momento de magia.
No momento em que começou a ladear as primeiras casas, já os seus sentidos tinham alcançado o seu mais perfeito apuramento. O olhar estava distante, mas o faro e a audição tinham-se tornado omnipresentes, quase divinos. Na sua lenta marcha, tão provocadora quão suicida, ousada e paradoxalmente frágil, o lobo conseguia pressentir toda a subtil e muda agitação que as tábuas e as vidraças das fachadas pretendiam ocultar: uma tranca lentamente deslizada, uma cortina ligeiramente aberta, uma exclamação abafada, um ranger interrompido, um cicio apenas labiado, o metálico som de uma carabina muito lentamente fechada, o gemer de um gatilho ligeiramente premido por um dedo trémulo, respirações contidas, corações galopantes, suores fétidos de ansiedade, ódio e medo. Seria fácil, muito fácil, abater a fera, que ousadamente desfilava naquele autêntico campo de tiro, sob o olhar inerte de duas longas filas de espingardas apontadas ao seu corpo. Por detrás daquelas duras paredes de madeira tosca, qualquer âmago aleivoso poderia tornar-se herói. Um indicador obediente, um estrondo de pólvora, um projétil atravessando um cano assente numa frincha estreita e… seria o fim da criatura má dos contos infantis. Contudo — fosse por medo, por falta de sangue frio, por hesitação, por paralisação dos movimentos ou… pelo respeito exalado por ousado animal selvagem, o último da sua espécie, que perpassava lenta e ostensivamente, de forma tão abnegada, tão à mercê dos ódios, das forças e das humanas fraquezas — ninguém ousou atentar contra a fera. Talvez alguns tivessem temido perder, com o assassinato do lobo, a última réstia de dignidade que lhes permitia encarar o seu próprio olhar no espelho e ainda sentir algum respeito; talvez outros, quiçá a maioria, tivessem apenas querido preservar o seu precioso alibi. Eram cobardes os adultos de Treason Town.
Estava estranhamente estranha aquela noite recém-nascida: o tempo parecia suspenso e a Lua, milagrosamente, não se movera. Parecia paciente, esperando o lobo.
Chegado ao fim da rua, o bicho bravio abeirou-se do pelourinho, alçou uma pata traseira, aqueceu-lhe a aspereza da base e retomou a sua estonteante galopada pelo escarpado peito montanhoso de Fearland. Atrás de si, Treason Town também pareceu regressar à vida, vomitando para a rua os seus habitantes, que preencheram o breu noturno com uma farta e prolongada saraivada de tiros aéreos e gritos despeitados.
Pouco depois, o silêncio caiu novamente sobre o burgo. Todos os olhares tinham sido subitamente atraídos para o rochedo mais alto, por cujo peito o lobo trepava, perto da exaustão. Viram-no alcançar o topo, desenhar-se perfeitamente diante da Lua e erguer-se para ela. Nesse instante o corpo celeste redobrou o brilho e inundou a Terra com um luar nunca visto. Parecia dia. Todos ficaram quedos, contemplativos e introspetivos. E já o astro ia alto, quando o silêncio foi quebrado pelas crianças, que apontavam exultantemente para a face cheia da Lua, onde — diziam — aparecera uma nova forma: a tatuagem de uma silhueta lupina.
O lobo nunca mais foi visto em Fearland. Para uns, morrera, para outros… partira apenas. Todavia, os adultos não o deixaram morrer no imaginário infantil de Treason Town, tentando gerar e perpetuar medos e ódios, descarregado sobre ele todos males, purgando nele as suas negras culpas. E acrescentaram a Lua ao seu vasto rol de maldições. No entanto apesar dessa educação, as crianças de Treason Town, no seu íntimo, em segredo, alimentavam uma admiração imensa por aquele lobo solitário, pela nobreza do seu porte, pela bravura que nunca viram nas suas humanas referências, que constantemente o esconjuravam e maldiziam. E quando a lua cheia beijava as alturas de Fearland, fosse da janela ou da rua, todas esperavam ansiosamente aquele momento mágico em que a sua lupina tatuagem coincidia com o mais alto rochedo da montanha, devolvendo, por momentos, o lobo ao seu velho e sólido trono. Acreditavam que aquele instante, aquele brevíssimo instante, despertava amores eternos.
As novas gerações de Treason Town acabaram por mudar radicalmente os topónimos.

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