sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Casco e churrasco



Este é o pior da tríade. Assinala o fim do reinado da Lurdocas e qualquer coisa mais. Tal como os anteriores, tem múltiplas significâncias de natureza local, ou seja, de índole escolar. Todavia, fui acometido de um ataque fulminante de amnésia seletiva e já não me lembro do que quis representar. Coisa da vida! Se não quiserem ler, podem crer que eu não me ralo muito. Amanhã, regressam os prosemas.


Na Quinta do Soslaio, a galinhada, unida e persistente, tanto cacarejou, tanto cacarejou, que a D. Gertrudes, cheia até à ponta dos seus cabelos lacados, decidiu vender a propriedade e ir montar a tenda para outras paragens. Ao que consta por aquelas bandas, ela fugiu com o padeiro, que já não via desde… sabia lá quando! Tudo se perdia já nas teias de aranha do tempo. Mas não se foi sem levar na trouxa os proventos da venda da herdade.
Quem comprou a quinta foi um tal Casco, especialista em passes e trespasses, em sociedade com o Baltasar, o dono da churrascaria Pitas e Sopitas e com uma simbólica participação acionista do Presidente da Junta, o senhor Caramelo. Mas, como o primeiro estava mais habituado a lidar com patos, decidiram «pular, ligeiramente, para outro ramo, sem, contudo, saírem da mesma árvore»: um daria ração a patos e o outro… enfim… trataria de os bronzear. O Caramelo ficaria apenas com parte dos lucros.
Os primeiros dias da sociedade foram consumidos com questões do domínio conceptual, intrinsecamente associadas à função apelativa da linguagem, com concomitâncias inerentes à problemática do marketing comercial, ou seja, havia que dar outro nome à churrascaria, pois não podia continuar a chamar-se Pitas e Sopitas.

— Que balente porcaria! — exclamou o Casco. — Chó nos faurtava mais esta despeja!
— Porcaria não, caneco, que num bamos bender recos! — Corrigiu o Baltasar.

E a tertúlia filosófica assim continuou, com este elevado nível, até altas horas da noite, desfiada ao sabor de uns mata-ratos e umas quantas garrafas de cerveja da marca Roskof. Mas a reunião foi deveras criativa e assaz frutífera. Vejamos alguns ensaios rejeitados, não por falta de qualidade estética — e até poética —, mas apenas porque só era possível escolher um nome, aquele que brilharia «dia e noute, nas letras gordas do telhado» (que virá no fim, como convém):
  Patos e Sopatos.
— Demajiado óbebio!
— Cascobal, ou Baltasco.
— Hummm… já munto batido!
— Patitas.
— Nada mal, num senhor, mas tínhamos que manter as pitas!
— Num forchojamente!
— Chim… comprendo, mas habiam de pensar qu’aqui chó che comia patas, ou cheja, patos do sexo femenino! Já biu a bronca qu’icho ia dar?! E o Caramelo? Certamente num ia aprobar, embora…
— Bom, adiante que che faz tarde, ou chedo, dependendo da prespetiba!
— Daqui a um cibo já cantó galo e nós inda aqui! Por falar no galo… num achas que le debíamos torcher qualquer couja?
— Boa ideia, Balta, deste-me uma ideia germinal! Olha-me chó este:

CASCO E CHURRASCO”.

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