terça-feira, 31 de julho de 2018

O meu poeta


Este texto foi escrito em 2011. Estava eu a lecionar na EB 2/3 de Real. Todavia, embora a inspiração tenha surgido numa aula concreta, numa experiência vivida — o primeiro teste do ano letivo — trata-se de uma visão poetizada da paisagem educativa a nível nacional. Subtraindo o facto de, no presente, estarmos em plenas férias escolares (antípodas do momento retratado no texto), a sua atualidade — creio eu — permanece intacta.  

Ontem, as minhas turmas da manhã, todas de sétimo ano, fizeram teste. Dia místico para o professor-poeta.
Depois da leitura integral do conteúdo da prova, o mesmo manto de silêncio, que parecia encolhido no céu da boca da sala, desceu três vezes, sobre os três grupos, como em peça de três atos. Três vezes me sentei à secretária, para ligar o computador e dar vida à cadeia musical que preparara na minha velha retorta de pequeno alquimista: o violino da Sarah Chang, acariciando uma sinfonia de Bach; o piano de Keith Jarrett, soltando pétalas de rosa; um sereníssimo oceano musical de Mozart; várias brisas de Roy Todd… Fez-se paz no mundo.
Saudade do silêncio! Saudade do meu outeiro pedagógico! Saudade de soltar o olhar dos meus pastores pela jovem paisagem verdejante e quieta! Finalmente, o tão ansiado momento! Deixei entrar o poeta.
Alado se tornou o tempo. Atei a razão ao meu cajado cravado no chão, e desarvorei, voei com ele, criançamente intuitivo. Voei… E o tempo fez-se-me primeiro dia: aula de apresentação. Entraram as crianças, trajando sinestesias, humanizando o meu manso rebanho.
Ao fundo, os olhos da Gisela, descaídos sobre a mesa, seguiam o serpenteio da sua pena, que contava à folha o que ouvira ao coração. Eram tristes os seus olhos, dois órfãos que, de vez em quando, afilhavam para mim e me rasgavam o peito. Serena por fora, em lava por dentro, a Gisela estava-me chorando a vida.
Um pouco mais perto, junto à janela, as botas puídas do Tiago, cruzando e descruzando sem parar, lutavam com o frio dos seus pés inseguros. A camisola interior, branqueando até à palma da mão que não escrevia, escreveu-me tudo o que o seu dono menino — rosto pálido, olhar trémulo — não pôde.
Mesmo à minha frente, a Cátia: um girassol. As suas pétalas loiravam sobre uma aveludada folhagem de marca. Parecia que as teclas do piano tocavam para ela. Parecia que a música se ia caligrafando no confiante movimento das suas mãos; que o teste fora feito para ela; que o próprio mundo se fizera para ela.
Junto à porta… mais ao centro… no canto oposto da sala… paulatinamente, os meus catraios foram-se-me desoutrando, um a um, como meninos de cristal acabados de nascer. E o meu olhar rasgou-se. Bebi as dicotomias da vida, e souberam-me a fel. Apeteceu-me bater no mundo!
De súbito, uma sinistra figura invadiu o meu pasto. Na sua mão macilenta, balanceava uma lanterna apagada, que se abriu e soltou corvos famintos de amanhãs. Fez-se breu num instante, e o tempo desasou. Fiquei a sós com a noite. Fui à janela e encarei-a, como se ela fosse o meu poeta. Mas ela baixou o seu olhar amofinado, e contraiu o ventre como se fosse abortar um dia sem sol e sem fim. Depois soluçou, e acabou por verter copiosamente o que eu não pude.

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