segunda-feira, 30 de julho de 2018

Depois... libertaria!



Hoje e nos próximos dias, até domingo, o meu poeta será senhor soberano deste planalto solitário. Depois… vamos ambos à deriva, numa face da Lua. Senta-te, leitor. A… asa é tua.

— E tu, poeta, o que fazias depois?
— Depois… abria portas e janelas, como braços para abraços, e oferecia os espaços interiores ao ar e ao sol. Deixava-os correr a escola como crianças caprinas. Depois… reunia todos os mestres lá fora, sobre a verdura do jardim. Depois… dava as mãos ao azul e convocava as aves brancas para virem volitar sobre nós, fazendo círculos, em chilreio permanente. Depois… que fossem colher água em nascente pura e que vertessem uma gota em cada rosto, em cada olhar cinzento, para que as retinas pudessem também verter todas as lágrimas secas, purgar todas as dores internadas no silêncio. Depois… que me abrissem o peito. Um a um, com a delicadeza aveludada de uma pétala, beijava-lhes o coração. Depois… libertação. As aves partiam, em todas as direções, e os mestres fruíam da contemplação do ato, até o céu ser só azul, azul denso, intenso e sem fim.
— E depois…
— Depois… um frenesim de poesia. Os libertos plantar-se-iam na terra. Depois… dos seus pés brotariam raízes fundas, os seus troncos cresceriam, e os seus braços dariam ramos, dezenas de ramos, que dariam folhas e flores, que dariam amores, que seriam crianças, que cresceriam como árvores, que abririam os seus longos ramos, plenos de folhagem, e se fariam aves, aves sedentas de azul.
— E depois?
— Depois… os dias suaves. Todos compreenderiam que os mestres são olmos que dão aves.

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