sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Loro Sae



Quando escrevi, no artigo anterior, “ é chegada a hora de fechar a porta e partir, à procura ― quem sabe? ― de um clarim qualquer que, inesperadamente, acorde lá longe, ou em mim, algo azul que me faça reviver”, estava a léguas de saber quão proféticas eram essas minhas palavras. De facto, foi lá longe, muito longe, do outro lado do mundo, que soou o clarim que ecoou na minha alma.
Ao quieto mar de lamúrias, que, em sonhos, se vê revolto e capaz de derrubar paredões e engolir arribas… nada tenho a dizer. Já não acredito que seja capaz de acordar da letargia. Sobre a minha mais do que provável partida para Timor, tudo dirão as brisas sussurrantes, menos a essência, a verdade, única, gelada, impactante: a minha profundíssima objeção de consciência.

domingo, 14 de outubro de 2018

Até sempre!



Dou-me por inteiro, até à exaustão, quando acredito. Até à exaustão (disse bem), que só me acontece verdadeiramente quando deixo de acreditar. Sou então muito má companhia. E é por isso que prefiro partir, para — como diz Torga — eventualmente recomeçar, se puder, algures, sem angústia e sem pressa, noutra loucura qualquer em que, lucidamente, me reconheça. Mais tarde, talvez, porque agora a lucidez não mo permite. Vejo-me num mar frustrado e quieto, feito de passado e presente, povoado de gente que rema desalmadamente sem realmente navegar. Não!
O Quadro Negro completa hoje um ano de vida, o seu ano de vida. Deu à luz 195 verduras, prenhes de sonho e ilusão. Aqui vieram, em sucessiva visitação, 247 mil caminheiros. Dei-lhes, graciosamente, tudo o que tinha. Casa cheia, à luz do dia, sala vazia quando o breu sobre mim se abatia, mesmo em noites de lua cheia. Depois do sol-pôr, a dor sem dó nem remissão: fiquei sempre invariavelmente só; só eu e a minha solidão.
Agora, porém, é chegada a hora de fechar a porta e partir, à procura — quem sabe? — de um clarim qualquer que, inesperadamente, acorde lá longe, ou em mim, algo azul que me faça reviver. 
Entretanto, um pequeno favor: não me presenteiem com o verbo “desistir”, nem por bem nem por mal. Creio que ninguém tem autoridade para tal.

PS – Desta vez, não encerrarei o blogue. Fica aqui… a boiar, como uma garrafa verde lançada ao mar.

sábado, 13 de outubro de 2018

Oremos




Primavera Sindical


Há dez anos que estamos em confronto direto com o Ministério da Educação: a dita “luta dos professores”. E, salvo raríssimas e pequeníssimas exceções, há uma década que acumulamos gravíssimos prejuízos, a todos os níveis e com consequências devastadoras para todos nós, profissional e pessoalmente. O território que ocupamos é uma planície atulhada de derrotas.
Talvez esteja na hora de os principais rostos da Plataforma Sindical fazerem um balanço e dele retirarem as devidas lições e consequências. É muito provável que o território frustrado, em clamoroso silêncio, esteja reclamar uma esperançosa primavera sindical.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

O ministro contra-ataca

Regressámos às “ilegalidades” de junho e julho. Uma vez mais, pergunto aos sindicatos: o que é preciso acontecer para marcarem uma greve mesmo a doer?
Visto que esta greve já estava condenada ao fracasso, talvez devêssemos fazer “a vontade” ao ministro da Educação: cancelava-se a dita e entregava-se um novo pré-aviso com um anúncio explosivo.
Se acredito que tal proeza vai acontecer? Não!

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Lollipop


Dois “retoques” que conferem à imagem um verdadeiro realismo: o estado de alma do Senhor Presidente e a prenda que ele deu a Mário Nogueira.

Quero abandonar o ensino!


Prometi, a mim mesmo, no início da carreira, que jamais daria explicações. Nada tenho contra essa atividade, como é óbvio (os meus filhos tiveram esse apoio a Matemática e o mais novo ainda tem). Foi um voto de dedicação exclusiva à profissão que, até ao momento, cumpri mais do que escrupulosamente. Como é sabido, tenho mesmo dado muitas aulas (às dezenas por ano), em regime de voluntariado, sem qualquer tipo de reconhecimento, nem da entidade patronal nem de quem a representa a nível escolar. Adiante.
Hoje, porém, a minha generalizada desilusão face aos descaminhos da Escola Pública dita-me outra orientação de vida. Sinto-me só, numa cidade bombardeada, e já só pretendo deixá-la, para poder regressar a mim mesmo, preservando de mim o professor que — até agora, muitas vezes à sobreposse e lutando contra quase todos — sempre consegui ser. Mas agora… está iminente o limite de todos os limites que tenho sabido alargar. A minha objeção de consciência já me tortura quase a tempo inteiro. A degenerescência da missão docente tem, para mim, um limite. Tem de ter um limite! Quero, por isso, dar outro rumo à minha vida.
Não, não tenho empregos nem ocupações remuneradas à minha espera. Não tenho absolutamente nada à minha espera. E é apenas por essa razão que ainda não saí. Mas tenho a promessa inicial, que soube preservar e que não pretendo quebrar: a das explicações. Sem falsas modéstias, acho que poderei ser um bom explicador de Português (afinal, é o que tenho feito, gratuitamente, nas escolas, com salas cheias e escassíssimo absentismo). Estou decidido a deixar o ensino para continuar a ser apenas o professor que quero ser. Se tal for possível, é meu propósito, doravante, trocar os polos ao “juramento”: ser explicador, em exclusividade, e abandonar o palco onde, até agora, apenas representei uma personagem.
Dou, por isso, o primeiro passo. Sem ele, jamais sairia/sairei das intenções. No momento em que atingir os “mínimos olímpicos”, trocarei o salário seguro pela insegurança fiel.
Aos eventuais interessados nos meus serviços, solicito que me contactem através da seguinte conta de correio eletrónico: luisfernandoribeirodacosta@gmail.com.
Obrigado!

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Luta de almofadas




Apesar de tudo… ainda consigo ter mais fé nos bons auspícios do Senhor Presidente do que neste putativo fiasco absoluto, cuja primeira pedra será lançada no dia 15 de outubro, precisamente o dia em que colocarei aqui a minha última. Que pena!
Não é por nada, mas… acho que fui o primeiro a marcar tal data.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Auto da Visitação


Gostei de ver o Mário Nogueira em Belém, todo ele em pose estadista e tal e coisa… Senhor Presidente para cá, Senhor Presidente para lá… Senhor Presidente para lá, Senhor Presidente para cá…, Senhor Presidente, Senhor Presidente, Senhor Presidente, Senhor Presidente…
É desta que vamos lá das pernas!

domingo, 7 de outubro de 2018

Estamos feitos… à manife!



Como tenho dito, inúmeras vezes, chegada a hora de lutar, luta-se. As críticas, os lamentos e as divergências ficam para depois. É o que agora faço, de forma muito sumária.
Esperava mais dos sindicatos, no final da manifestação da passada sexta-feira. Penso que será esse espírito da grande maioria dos professores. Perante a provocação que o Governo fez na véspera, talvez se exigisse muito mais contundência. Contudo, o que se viu foi mais ou menos o habitual: pedido de audiência ao Presidente da República, promessas de guerra aberta com combates nos tribunais, regresso da luta lá para finais do primeiro período… Confesso que, talvez por ser demasiado impetuoso, esperava já algo de mais concreto. Ousei supor que os sindicatos não iriam deixar arrefecer os ânimos. Na minha vertigem marciana, ousara mesmo sonhar que a Plataforma Sindical iria reunir de emergência e avançar com uma greve demolidora. Mas não, a realidade não se compadece com os meus delírios.
Quanto ao STOP, que me empolgou no final do ano letivo, está agora a inspirar-me o Prémio Wally: onde está o STOP de junho, julho e agosto? Foram à manife exigir a demissão de Brandão e Leitão, mas nem nisso foram suficientemente assertivos: esqueceram-se do João, o pai da “exclusão” e da “flexi(ha)bilidade”. Assim, não!
Acho que os professores estão muito mais fartos do que os sindicatos. Porque estão no terreno, cada vez mais insuportável, a carregar todas as pedras e a levar todas as chicotadas. É por isso que clamam por uma luta que os sindicatos talvez não consigam ousar. A Plataforma repete os rituais de sempre, o STOP parece que fez jus ao nome. E nós… continuamos a fritar.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Mário Nogueira continua a surpreender governantes


No dia 15 de outubro



No próximo dia 15 de outubro, o Quadro Negro faz um ano de idade. Não esqueço essa data, uma vez que publiquei aqui o meu primeiro artigo na noite em que o país foi varrido por incêndios, de lés a lés.
Foram muitas centenas de horas as que, ao longo destes 365 dias, dediquei à causa docente: muitos textos de análise crítica, outros tantos de exortação à resiliência e à luta, muitas sugestões para mudar rumos na educação… e uma proposta que foi muito longe (a da conversão do tempo congelado em bonificação da contagem do tempo para a reforma).
Não foi nada de extraordinário — poderão dizer — mas, ainda assim, à semelhança do que tenho feito desde 2008, soube estar no pequeníssimo grupo daqueles que, aqui e na escola, mais têm dado à dita luta dos professores. E é por isso que, uma vez mais, atingi o cúmulo das náuseas provocadas pela ingratidão e pela baixeza de linguagem de muitos dos meus colegas de profissão.
Hoje, ao fim do dia, retirar-me-ei dos grupos de professores do Facebook (Escola Aberta, Professores e Educadores de Portugal e Movimento Pela Vinculação de Professores). No dia 15, despedir-me-ei deste blogue. Tal como Camões, não é do canto que estou cansado!
A Escola Pública nada perderá, pois poderá continuar a contar com o denodo, com a inteligência e com a nobreza de espírito e de linguagem daqueles e daquelas que, a partir da longínqua ponta da cauda do último batalhão, disparam aleivosas e ingratas setas contra quem está a dar o peito às balas. É por estas e por outras que estamos como estamos!
É triste dizer isto no Dia Mundial do Professor e no momento em que, na Capital, se prepara uma manifestação, mas… é assim mesmo. Não quis nem o procurei, como é óbvio. Aconteceu.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Um dia muito especial



Neste dia tão especial, não podia esquecer os nossos fiéis amigos de estimação. Aqui fica, pois, a minha sentida homenagem. Obrigado por existirem!
We all love you!

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Amanhã, sejamos um só!


Imagem retirada daqui.

Outrora, nas aldeias transmontanas, em situação de emergência, os sinos tocavam a rebate. E todo o povo acorria ao palco do perigo. Nessas ocasiões, todos os ódios, todas as inimizades e todas as desavenças eram postas de lado, por uma causa maior. Depois de salvar o que havia a salvar, a vida retomava as suas rotinas e os velhos afastamentos. Mas, por vezes, certas distâncias eram mesmo ultrapassadas.
É este espírito coletivo, comunitário, que nos falta. Por muitas queixas que tenhamos dos sindicatos, devíamos acorrer todos à luta, sempre que os sinos sindicais tocam a rebate. Por muitas queixas que possamos ter dos sindicatos, não chegam aos calcanhares das queixas que temos do Ministério da Educação, não é verdade? Se morasse em nós essa disciplina e essa força coletiva, deixávamos as nossas divergências para antes e depois de cada luta. Em dia de greve, respondíamos a 100%. E tudo seria radicalmente diferente, tenho a certeza.
Amanhã, aqui no Norte, os sinos tocarão a rebate. Sejamos todos “aldeãos, aldeões e aldeães”.

A grande balbúrdia, a que chamam inclusão



No início deste ano lectivo, ecoam os violinos líricos da inclusão, das metodologias diferenciadas e da flexibilidade a galope. Porém, para a geração dos “professores do século XIX”, sarcasticamente ferrados de “mortos” pelo iminente pedagogo da Escola da Ponte, tudo fede a coisa já vista (área-escola, área de projecto, gestão flexível do currículo e projectos curriculares de turma) e falhada. As aulas expositivas, proscritas pela modernidade bacoca de João Costa e dos seus prosélitos, estão longe de ser recurso único da geração mais velha dos professores portugueses. Quem guarde memória de tempos menos frenéticos, viu-os sempre empenhados em actividades transdisciplinares, mobilizadoras de saberes diversos e geradoras de inovação. Fossem eles simplesmente “passadistas”, como se teria chegado à era digital? Quem os pretende domesticar hoje com algoritmos pedagógicos toscos e absurdas flexibilidades, deveria considerar esta perspectiva.
Das festividades fátuas actuais sobressai um excelente diploma sobre educação inclusiva. O que o atrapalha é a realidade: as escolas que temos, os meios que não temos e os alunos que existem com necessidades educativas especiais severas (assim continuarei a designá-las). Dito de outro modo, se o modelo tivesse sido pensado a partir das realidades, que não de abstracções e de teorias diletantes, teríamos melhorado o que existia. Assim, retrocedemos. Embora habituados, custa.
Ter todos dentro da escola é um excelente princípio, que nenhum civilizado contesta. Mas os demagogos iludem, em nome do populismo pedagógico, a necessidade de dotar a escola dos meios, humanos e materiais, para que ela seja uma via de inclusão. E mais que isso (ou pelo menos a par disso), a dura realidade da vida impõe que reconheçamos que uma escola igual para todos é uma abstracção utópica, inconciliável com a circunstância de termos muitos, à entrada, que nunca poderão ser iguais aos outros, lá dentro. Trabalhar a diversidade supõe, numa escola forçosamente orientada para as massas, sair, em situações extremas, dos ambientes de homogeneidade, voltando a eles quando seriamente for viável. Isso é perseguir a integração possível. Outra via, qual seja a de fingir que determinados alunos podem dar respostas que sabemos que nunca poderão dar, pedindo do mesmo passo aos restantes que fiquem parados, é (afirmação politicamente incorrecta) promover a exclusão dupla.
Ou a inclusão é pensada a partir das realidades dos alunos, ou a inclusão é pensada a partir do discurso dos teóricos. No primeiro caso, cabe à escola descobrir soluções. No segundo basta-lhe aceitar imposições. Difere o grau de responsabilidade política quando o que se faz é por ignorância ou por consciente demagogia. Mas a consequência para os que nasceram diferentes é a mesma: ficam para trás, em nome de uma falsa inclusão.
Recentemente, foi tornado público o caso de um aluno do 10.º ano, com problemas do foro físico e psíquico, que originam dificuldades severas de aprendizagem. Este aluno, no contexto anterior, estava a tempo inteiro numa sala de actividades consideradas adequadas ao seu quadro, na sede do agrupamento a que pertence, acompanhado por uma equipa de Educação Especial (terminologia agora proscrita) e só era integrado na turma correspondente nas aulas de Educação Física. O que mudou para ele este ano e até ao momento? Foi “integrado” na turma “normal” do 10.º ano da escola secundária respectiva, onde o confrontam com disciplinas que nunca teve, nada lhe dizem, nem podem dizer. O apoio pedagógico é-lhe agora dado por um professor de Educação Inclusiva (terminologia do século XXI) que, por mais competente e esforçado que seja, não pode contar com o vínculo relacional e afectivo, extremamente crítico nestes casos, que já ligava a anterior equipa a este jovem. Deixou de frequentar as anteriores sessões de equitação terapêutica, determinantes para o seu equilíbrio psíquico. O aluno está revoltado, chora e começou a recusar a escola. Eu, do século passado, compreendo-o bem. Mas os normativos modernos dizem que é por aqui que vamos.
in Público, 3/10/2018

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Condor



Condor

Quando a ventania te castiga
e o tom do trovão te abalroa;
quando as vagas te batem na proa
e a tempestade não se mitiga,
porque temes a fúria inimiga?
Porque te encolhes, Professor,
se tu tens nas nervuras da mão
a força bruta de um tufão?

Quando vês a seara atacada
pela pulha praga predadora,
e a tua lida geradora
se agiganta multiplicada,
porque choras na eira estragada?
Porque te conformas, Professor,
se tu tens nas nervuras da mão
o renovo que cresce do chão?

Quando o labor do teu longo dia
se confunde com a noite escura,
e a cava voz da escravatura
te acusa de ócio e de abulia,
porque atrofias a rebeldia?
Porque consentes, ó Professor,
se tu tens nas nervuras da mão
o viço da nova geração?

Tu, que trazes rasgadas no peito
as fundas chagas da humilhação,
porque aceitas essa condição?
Porque choras o trilho desfeito
e te anulas num nicho de preito?
Porque te curvas, ó Professor,
se tu tens nas nervuras da mão
a luz dos amanhãs da nação?

Porque temes tanto, ó Professor,
ser livre e voar como um condor?

LC

domingo, 30 de setembro de 2018

Somos fracos (?)


 
Começo por acrescentar ao título a parte que ele não abrange, esclarecendo desde já o âmbito do restante: somos fortes na entrega diária à nossa nobre missão, e na resiliência necessária para a ir cumprindo, mas somos fracos, muito fracos, na luta pela defesa e recuperação dos nossos direitos. Só isso justifica o imenso vale de perdas acumuladas na última década.
Já lá vão dez anos de luta constante contra os abusos do Ministério da Educação, mas… apenas contamos com ganhos subjetivos (“Seria muito pior se não tivéssemos lutado!”). Excluindo esse elixir moral, os rombos no nosso casco são muitos, e é por isso que, tragicamente, talvez inexoravelmente, nos afundamos. Saliento apenas alguns dos mais significativos: os cortes reais nos salários (diretos e indiretos); a cleptómana conversão dos escalões, um autêntico empurrão escada abaixo; o aumento brutal do nosso horário de trabalho, com a exploradora invenção da dita “componente não letiva de trabalho a nível de estabelecimento”, que é uma máquina exploradora e trituradora de energias; um humilhante horário de trabalho contado em minutos; o furto de nove anos, quatro meses e dois dias às nossas carreiras (devemos recusar liminarmente o prémio de consolação que nos querem dar)… Isto, para falar apenas das questões estritamente laborais, porque se desenrolasse a negra passadeira de abusos no domínio pedagógico… e a das culpabilizações, desautorizações e desconsiderações nos palcos sociais… não chegariam as contas de um terço para as lembrar. E ainda poderia juntar ao cortejo fúnebre as perdas sofridas enquanto funcionários públicos. Somos fortes no espírito de missão, mas temo que também essa estoica resiliência (por vezes, muito para lá da sensatez) seja, senão a maior, uma das nossas maiores fraquezas. Somos, de facto, muito vulneráveis na nossa luta contra os abusos desta prepotente entidade patronal.
Sim, já fizemos excelentes manifestações em Lisboa, mas jamais soubemos ser suficientemente determinados no dia seguinte, nos diferentes palcos escolares, onde, desde sempre, tudo se decidiu (e continua a decidir). Nesses espaços, retoma-se sempre a aquiescência, a obediência, a subalternização e… o medo. Aí, como diz Paulo Freire, alguns oprimidos, porque podem, tornam-se rapidamente opressores e completam a pesada cadeia de medo que alguém, um dia, criou para nos vergar. Nas redes sociais, paralelamente, sucede um fenómeno que, embora involuntariamente, complementa esse quadro de anulação progressiva: a quase permanente campanha fratricida contra os sindicatos. Não digo que os eloquentes críticos nunca têm razão. Digo que, demasiadas vezes, elevam as suas previsões e as suas suposições acima dos interesses do coletivo. Há nesse constante escrutínio mais narcisismo do que coletivismo. Não se revelam capazes de, sobretudo nos momentos em que a exortação é premente, pôr a mobilização da classe acima de uma certa lucidez de que querem fazer prova. Nada mais “conveniente” para quem já pouco acredita; nada mais “conveniente” para quem receia legais retaliações nos dias vindouros; nada mais “conveniente” para quem espera apenas um pretexto para iludir a sua própria consciência; nada mais “conveniente” para quem apenas espera aproveitar-se de eventuais troféus da luta alheia. E é dessas céticas fontes que nós mais temos bebido nos últimos anos. Anulamo-nos. Nas escolas, embora a contragosto (por vezes, bebendo lágrimas), obedecemos; nos pontos culminantes de luta, desconfiamos da seriedade e/ou da capacidade de quem nos representa nas negociações, e dispersamo-nos, com mil e uma desculpas. Acho que os políticos já não nos levam a sério, e apenas se limitam a esperar que os tufões que prometemos se transformem em suaves chuvas molha-tolos. Penso que, bem no íntimo, no limiar do inconsciente, muitos professores esperam que, vindo do céu, montado num branco cavalo alado, um cavaleiro providencial os venha resgatar da negridão. Esperam a morte e ainda não se aperceberam.
Amanhã, começa uma nova jornada de luta. Estou preparado: pus de lado as minhas razões de queixa dos sindicatos da Plataforma; pus de lado as minhas divergências relativamente à recente linha estratégica do STOP; tranquei, em câmara escura, todas as tentações de ceticismo e de recuo; anestesiei a lucidez mais aguda; amordacei os custos materiais e todas as más memórias das lutas passadas; bebi toda a ilusão; vesti a farda mais dura e empunhei as minhas melhores armas. A partir de amanhã, e enquanto a luta durar, darei tudo. Farei apenas uma pequena parte, mas fá-la-ei na plenitude, como se disso tudo dependesse. Por mim, todas as escolas encerrariam. 
Eu assim farei. Vós… fazei o que a vossa consciência vos ditar.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Falham as retaguardas



O verdadeiro ventre da aprendizagem é a sala de aula. Contudo, para que esse espaço gestativo funcione adequadamente é necessária a ação contínua, coerente e convergente de várias retaguardas. Sem esta ampla base de apoio, todo o processo fica seriamente comprometido. É, no meu entender, o que se passa atualmente na Escola Pública deste país. Os professores estão praticamente sós a segurar todas as pontas.
A primeira retaguarda é a dos encarregados de educação. Todavia, salvo honrosas exceções, ele falha precisamente nos casos em que é mais premente. Sei que as causas não são meramente individuais ou estritamente familiares — há motivos culturais, económicos, sociais, laborais, etc. — mas… esta lacuna é um facto. E pior que a ausência pura é a presença desautorizadora do professor. Um significativo número dos que mais precisam da escola, para além de não procederem ao devido acompanhamento dos seus educandos, incutindo neles os valores do cumprimento do dever, do respeito por colegas, pessoal auxiliar e professores, ainda adotam, quer em casa quer na escola, um discurso culpabilizante de quem ensina e educa e práticas que, indiretamente, permitem que os jovens cresçam no incumprimento de múltiplos deveres. Dir-me-ão que, de algum modo, sempre assim foi. Concordo. No entanto, relembro que, outrora, apesar da escassa formação escolar (elevado número de analfabetos) a sintonia entre pais e professores era muito forte, a autoridade destes era efetiva e a retaguarda que tinham dos seus superiores hierárquicos não faltava quando era necessária.
A segunda retaguarda do ventre pedagógico está na escola: auxiliares de ação educativa (continuo a preferir esta designação) e todo o corpo docente, dos diretores de turma, professores do conselho de turma até à Direção. Os auxiliares, agora denominados “assistentes técnicos operacionais”, para além de serem muito poucos para tantas demandas, também padecem da ausência de uma sólida retaguarda. Não raramente, estão sós, com receio de dizer e de fazer o que é preciso, quando o desrespeito e a indisciplina imperam. Não me admira nada que sintam constrangimentos, pois sabem que a primeira retaguarda vai mais depressa à escola para fazer injustiça pelas próprias mãos do que para repreender e corrigir quem deve ser repreendido e corrigido. Em idêntico desapoio estão os professores, que, com inadmissível regularidade, também se encontram sós, temendo que os seus atos de exercício da disciplina resultem em desautorizações, por atos ou omissões, vindas de todas as retaguardas (dos pais, dos seus pares e das direções escolares, que, muitas vezes, quando não viram o feitiço contra os feiticeiros, lhes sugerem o silêncio e a acomodação). E todas estas perversidades acontecem porque também os diretores escolares sentem falta da sua retaguarda. Sabem que têm todo o superior apoio, se procederem de determinada maneira, e que terão o contrário, se saírem dos trâmites de um determinado diktat mais ou menos informal, mais ou menos oculto. Também os diretores têm os seus medos. Vivem em contexto mais ou menos pavloviano, ou seja, em regime de condicionamento clássico.
A terceira retaguarda — a grande retaguarda — é a das cúpulas supraescolares  (direções regionais e Ministério da Educação). É, evidentemente, a mais poderosa e, por isso mesmo, a mais responsável. Mas tem falhado em toda a linha: exemplar na afronta, na culpabilização, na exploração e na desautorização dos professores. Há dez anos que mantém uma guerra aberta com a classe, que trata com sobranceria e desdém, como se fosse um grupo desqualificado que precisa de orientações/imposições para tudo, desde o nível político ao ato didático. A sua crescente e arrogante ingerência neste domínio (é para isso que serve a desconcentração funcional a que chamam “autonomia”) contrasta com a sua invisibilidade, sempre que é necessário defender os professores. Se não é promotor de certas campanhas miseravelmente difamatórias — quero acreditar que não — é, pelo menos, responsável pelos sistemáticos silêncios coniventes.
Vivemos numa prolongada conjuntura de debilidade e demissão em todas as retaguardas do ensino. E é este o monstro do maior impulsionador do insucesso escolar em Portugal: a indisciplina. É com ele que cada professor, no seu dia a dia, nas arenas educativas, tem de se digladiar, desmunido e praticamente só.

domingo, 23 de setembro de 2018

Da inclusão aos guetos escolares



Como não tenho dados científicos provenientes de rigorosos estudos feitos por reputadas instituições, esclareço desde já os leitores: tudo o que vão ler é fruto da minha observação empírica, da modesta opinião e… da minha pueril sinceridade e incorrigível inconveniência. Por isso, quem pretender ficar por já aqui… faça a fineza!
Os meus olhos dizem-me que as escolas que ostentam o brasão TEIP definham de ano para ano. Quem pode, foge delas a sete pés, não porque os professores sejam maus (são docentes tão competentes como os demais; por inerência, mais mouros de trabalho e não só), mas por outros motivos, relacionados com a indisciplina, com a violência, com as expectativas… Enfim, com base nas minhas retinas, constato que essas escolas vão divergindo fatal e perversamente do seu propósito inicial. Com uma naturalidade assustadora, vão atraindo alunos com determinadas características, enquanto outros vão procurando outras paragens, com outras garantias e outros horizontes. As escolas TEIP vão-se transformando em guetos, que a recém-nascida “inclusão”, inquestionável no princípio, mas desastrosa na concretização, se prepara para agravar. Estranha forma de incluir!
Há punhado de anos, quando a escola “não era tão inclusiva como agora”, um aluno com necessidades educativas especiais era “excluído” numa turma que, no máximo, poderia ter vinte alunos. Nesse tempo, só em casos muito especiais era possível “desintegrar” dois alunos com tais características na mesma turma, ainda que com um número total de discentes inferior ao mencionado. Hoje, por decreto, tudo mudou. Sob as inspiradoras e protetoras capas da igualdade e da inclusão — valores indiscutíveis — acabou-se com o estigma, com o conceito discriminador e… como por magia… acabaram também as diferenças (na prática da conceção das turmas, pelo menos). Agora, como para o referido efeito (que nada tem a ver com poupanças de verbas, mas com os mais elevados direitos humanos) já não há nenhum iníquo rótulo em vigor, é possível incluir, na mesma turma, vários dos alunos outrora estigmatizados com nomes ou siglas profundamente discriminadoras, juntamente com mais vinte e tantos colegas, em grupos de superlativa heterogeneidade: etnias nada identificadas com a cultura escolar, refugiados que não sabem falar português, imigrantes recém-chegados de África,  lusodescendentes e imigrantes oriundos e da América do Sul, quer do Brasil, quer de outros países em crise, como a Venezuela (estou a pensar em casos concretos). São todos muito bem-vindos às nossas escolas, como é óbvio, até porque Portugal precisa de rejuvenescimento, mas  — dizem-me os meus olhos — tanta “biodiversidade” numa turma só é… missão impossível para os professores e ação contraproducente, quer a nível pedagógico que a nível social. Porquê? Pelo que foi dito no início: os alunos com mais expectativas escolares (caso não consigam integrar uma turma-redoma) vão procurado outras paragens, agravando assim o efeito de guetização que certas medidas, levianamente integradoras, trazem no ventre. Neste sentido, a recém-nascida “inclusão” será especialmente nefasta para as escolas TEIP. É inevitável.
E como é que os nossos sapientes governantes, e seus eloquentíssimos apóstolos, preveem resolver tantos e tão e diversificados desafios despejados sobre os largos ombros dos professores? Elementar, caro Watson! Com sagradas panaceias que a moda deu à luz em dia de solstício de verão: articulações, coadjuvações, assessorias… Enfim, salas de aula cosmopolitas, a todos os níveis. E tudo se resolve (estatisticamente)!
Desculpem-me os leitores, mas… tenho de dizer o que me vai na alma. Na minha humilde opinião — um professorzito que, comparado com quem o governa, nada sabe da arte de ensinar — isto não é verdadeira inclusão, é salgalhada. E os professores que se desembrulhem! Dá-me algum conforto o facto de achar que sou capaz de, subitamente, num ímpeto de sanidade, mandar toda esta loucura àquela banda.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Três notícias convenientes



No dia 7 de Setembro, o ministro da Educação reuniu-se com um conjunto de organizações sindicais de professores. Depois dessa reunião inútil, o Governo decidiu, unilateralmente, apagar mais de seis anos e meio ao tempo de trabalho efectivamente prestado pelos docentes. À decisão, a que, para cúmulo, chamou “bonificação”, oponho um argumento legal, inscrito na Lei do OE para 2018 (artigo 19.º), e dois argumentos, um de natureza ética, mínima, e outro de índole democrática, máxima, a saber: compromisso assumido pelo Governo em 2017 e a resolução da AR, votada por maioria. Que a hipocrisia e a tendência para a traição de António Costa os ignore, não me surpreende, porque é sinal persistente do seu carácter. Que a opinião pública se deixe tão facilmente contaminar pela barragem de falsas notícias, que tão a propósito vieram a público na mesma altura, causa-me uma enorme perplexidade. Será possível que uma sociedade, que confia os seus filhos aos professores durante 12 anos, aceite vê-los serem humilhados de modo tão soez? Poderão pessoas com particular responsabilidade, pelo acesso que têm aos meios de comunicação, deduzir e concluir de modo tão ligeiro e falso sobre a vida profissional daqueles que lhes ensinam os filhos?
A primeira notícia conveniente tinha por título: “mais de metade das baixas na Educação foram fraudulentas”. Teve origem em dados divulgados pela comissão Europeia, relativos a cerca de 3000 doentes, que juntas médicas mandaram regressar ao trabalho. Fraudulentas? Se uma junta delibera em desacordo com o médico que segue o doente, trata-se de uma fraude? Saberão os autores da notícia que a maioria dos médicos que integram as juntas são tarefeiros, cuja contratação arbitrária pela Segurança Social deixa legítimas reservas sobre o seu grau de autonomia? Que se guiam por tabelas de duração média das doenças? Tendo as depressões o peso que têm na classe docente, poderá uma pronúncia de escassos minutos derrogar o parecer de um psiquiatra, fundamentado em horas de consultas, ao longo de meses? À memória veio-me o caso escabroso do funcionamento de uma junta, que testemunhei, onde o mais inocente do processo foi o relatório final ser assinado por alguém que nem sequer esteve presente naquele acto médico. À memória vieram-me mais casos. De Manuela Estanqueiro, doente de leucemia, em estado terminal, mandada regressar às aulas na EB 2/3 de Cacia, por uma junta médica. Morreu um mês depois, em sofrimento atroz, para não ser despedida por faltas injustificadas. De Artur Dias, professor na Escola Secundária Alberto Sampaio, de Braga, vítima de um cancro na garganta, que uma junta médica mandou regressar às aulas, apesar de não ter laringe. Morreu três meses depois. De Manuela Jácome, professora de Faro, doente oncológica que, apesar de não ter um quarto do estômago, vesícula, baço, duodeno e parte do intestino, foi considerada, por uma junta médica, apta para dar aulas.
A segunda notícia conveniente dizia: “Bruxelas avisa que descongelamento da carreira dos professores pode pressionar OE”. Assim, impressivo, retirado com supimpa proficiência jornalística às entranhas do oitavo relatório de avaliação pós-resgate, produzido pela Comissão Europeia. Escreveu a dita uma linha de preocupação com os 19,5 mil milhões servidos às falências canalhas da banca lusa? Não! Referiu-se ela, temerosa, ao bónus fiscal de 800 milhões servidos ao Montepio? Outra vez não! Aos 450 milhões mais recentes, fora os outros, que foram direitinhos para o Novo Banco? Nem um débil vagido! Aos 1,15 mil milhões dissipados ruinosamente nos contratos swap das empresas públicas? Não, não e não, com dissimulação mais fina que a do Vaticano em matéria de pedofilia. Mas sim, todas as luzes vermelhas a tremular para o custo do descongelamento das carreiras dos malandros dos professores. E qual é esse custo? Lembram-se da comissão técnica mista que o iria calcular, depois de ficar claro que os 600 milhões que Costa usou na AR não passavam de pura mentira? Porque se tratou de mais um expediente para queimar tempo sem nada concluir, perdoar-me-ão que recorde o que já aqui escrevi: a narrativa contabilística do Governo sobre a repercussão da contagem de todo o tempo de serviço nas contas públicas é falsa. Começa por escamotear que boa parte dos salários nominais corrigidos pelo descongelamento volta de imediato aos cofres do Estado, via IRS e contribuições obrigatórias para a CGA e ADSE. Estaremos a falar de uma percentagem variável, mas nunca inferior a 30%. Estivessem certos os propalados 600 milhões e mirrariam para, pelo menos, 420. Mas não estão. Com efeito, quando o Governo compara os dois anos e nove meses que propôs com os nove anos e quatro meses que os sindicatos reclamam, estabelece um raciocínio que multiplica o número a que chegou por um factor tempo, proporcional. Ora tal proporcionalidade não existe. Tão-pouco podem as contas ser feitas partindo do princípio que toda a gente muda imediatamente de escalão. Obviamente que não muda, já porque há ciclos em curso, longe do fim, já porque existem quotas administrativas limitativas, que só o Governo controla, arbitrariamente. E como se o anterior não bastasse, o Governo considera como sendo de hoje números que, se estivessem certos, só se verificariam em 2023. Como se o impacto médio, que a dinâmica do crescimento dita, não fosse muito menor!
Por fim, a terceira notícia conveniente foi o dilúvio de mentiras que a divulgação do relatório Education at a Glance proporcionou. Dólares, euros e paridades de poder de compra foram alegremente misturados, atirados ao ar e caíram onde calhou, para serem traduzidos em letras de imprensa e sons de rádio e televisão. Por negligência ou pura malícia, mas sem que uma só voz soprasse dos lados do Ministério da Educação para repor a verdade e defender os professores, miseravelmente enxovalhados.
O relatório coloca os salários dos professores portugueses no topo da carreira acima da média da OCDE. Mas os números apresentados são muito superiores aos reais e não têm em conta os anos em que as carreiras estiveram congeladas. Situação que determina que não há no activo um só professor no último escalão, o 10.º. E quanto teria de vencimento líquido esse hipotético professor (não casado, sem dependentes), depois de um mínimo de 36 anos de serviço? Uns milionários 1989,70 euros.
O relatório situa um professor com 15 anos de carreira no 4.º escalão. Mas porque durante 9 anos, 4 meses e 2 dias as carreiras estiveram congeladas, ele está, de facto, no 1.º escalão, com o invejável salário líquido de 1130,37 euros.
O relatório diz que os directores de estabelecimentos de ensino, em Portugal, ganham o dobro dos restantes licenciados. Tenho à minha frente o recibo do vencimento de Agosto de um director, com 30 anos de serviço. Recebeu 1708.16 euros.
Durante os tempos negros da austeridade, relatórios deste tipo lograram pôr escravos pobres, modernos, contra pobres escravos, antigos. António Costa disse-nos que a austeridade acabou. Mas os relatórios e os seus efeitos continuam.
in Público, 19/09/2018