“O pão que sobra à riqueza, distribuído pela razão, matava a fome à
pobreza e ainda sobrava pão.”
António
Aleixo
Não tenho pejo em assumir
que a relação que mantenho com os problemas da minha profissão de professor
ganha muitas vezes prevalências sentimentais, porque esta actividade
profissional não se resume a um emprego como tantos outros. O seu exercício
afirma uma identidade e expõe obrigatoriamente quem somos. Em milhares de colegas,
com quem tive e tenho a honra de trabalhar, sempre vi dedicação para dar o que
de melhor tinham e têm. Quando os maltratam, só posso estar, incondicionalmente,
do lado deles.
1. Quando António Costa,
qual discípulo de Vítor Gaspar, disse aos professores que “não há dinheiro”,
fê-lo porque o governo a que pertenceu e o seu senhor de outros tempos
contraíram uma dívida, vendendo o país e a sua autonomia para enriquecimento de
uns tantos, a quem ele, António Costa, não disse, nem diz: não há dinheiro! Se
isto já é suficientemente escandaloso, mais escandaloso ainda é que haja quem
faça coro com a narrativa, quando todos sabemos que as ajudas do Estado aos
bancos somam 17,5 mil milhões de euros.
Em retórica política e
ideológica, o desconstrucionismo é um método que permite substituir o
significado de um texto ou de uma realidade por uma narrativa falsa,
convenientemente urdida. António Costa é um exímio desconstrutivista que,
apesar de já ter tropeçado muitas vezes na verdade, logo prossegue o caminho como
se nada tivesse acontecido. Não me surpreende, por isso, que tenha instruído o
pequeno ministro da Educação para entortar a Lei do Orçamento do Estado para
2018, a resolução n.º 1/2018 da AR e o compromisso de 18 de Novembro de 2017.
Quem lhe siga o jogo de cintura já viu como lida com as leis: para os
adversários, aplica-as; quando são os amigos ou os seus interesses que as
infringem, “melhora-as”, “aperfeiçoa-as” ou manda “interpretá-las”.
Era bom que Costa
pensasse no que aconteceu a Sócrates quando os professores se cansaram,
substituísse as banalidades que diz pelo estudo do problema que tem a
rebentar-lhe nas mãos e mudasse de oráculos.
2. As greves dos
professores são sempre acompanhadas por homilias pseudo-moralistas sobre os
seus “interesses corporativos”. À posição do Governo neste psicodrama, que tem
por fim a ideia inverosímil de destruir a carreira dos docentes, recuperando os
caminhos do ódio do tempo de Maria de Lurdes Rodrigues, podia dar uma arrogante
resposta, tipo serem precisos três Costas e dois Tiagos encavalitados para
chegarem aos calcanhares dos professores. Mas vale mais ser pedagógico e
explicar do que falamos.
Tomemos por exemplo a
situação de um professor que entrou na carreira em 2005. Quando assinou o
contrato com o Estado foi-lhe dito que, se cumprisse o que a lei estabelece,
estaria hoje no 7.º escalão. Ele cumpriu mas o Estado não. Está no 2.º escalão
e, contas por alto e tudo somado, o Estado ter-lhe-á ficado com cerca de 50.000
euros, pagando-lhe hoje, com mestrado ou doutoramento por habilitação, 1200
euros mensais por semanas de trabalho real que se aproximam das 50 horas. Este
professor não está a pedir que o Estado lhe devolva o que unilateralmente lhe
retirou. Está a exigir, apenas, em conformidade com a lei vigente, os efeitos
futuros de um tempo que foi trabalhado, ainda assim repartidos por vários anos
vindouros.
3. A narrativa
contabilística do Governo sobre a repercussão da contagem de todo o tempo de
serviço nas contas públicas é enganadora. Começa por escamotear que boa parte
dos salários nominais corrigidos pelo descongelamento volta de imediato aos
cofres do Estado, via IRS e contribuições obrigatórias para a CGA e ADSE.
Estaremos a falar, como é sabido, de uma percentagem variável, mas que nunca é
inferior a 30%. Estivessem certos os propalados 600 milhões e mirrariam para,
pelo menos, 420. Mas não estão. Com efeito, quando o Governo compara os dois
anos e nove meses que propôs (e agora retirou em cavernícola chantagem) com os
nove anos e quatro meses que os sindicatos reclamam, estabelece um raciocínio
que multiplica o número a que chegou por um factor tempo, proporcional. Ora tal
proporcionalidade não existe; o custo não quintuplica porque o tempo
quintuplica. Tão-pouco podem as contas ser feitas como o Governo as faz, isto
é, partindo do princípio que toda a gente muda imediatamente de escalão.
Obviamente que não muda, já porque há ciclos em curso, longe do fim, já porque
na passagem do 4.º para o 5.º escalão e do 7.º para o 8.º existem garrotes
limitativos que só o Governo controla, arbitrariamente. E como se o anterior
não bastasse, aos vácuos bestuntos dos contabilistas de serviço assomou ainda a
ideia de apresentar, como sendo de hoje, números que, se estivessem certos, só
se verificariam em 2023. Como se o impacto médio que a dinâmica do crescimento
dita não fosse muito menor!
Dr. António Costa,
permita-me um conselho, porque a realidade da vida dos portugueses é muito
menos cheia de prosápia do que o seu discurso irritante: não volte ao palanque
do Parlamento para nos dar lições de contabilidade criativa. A sua
responsabilidade política na produção destas aleivosias foi uma aula prática
mais que bastante!
4. Sobre o anterior,
comentadores e cronistas, vindos da idade do gelo de Sócrates e Passos Coelho,
dizem e escrevem vulgatas que tilintam como ouro aos ouvidos dos prosélitos.
Eles torturam a verdade e põem a mensagem a dizer o que lhes interessa. Eles
sabem que a sequência das mentiras gera na comunicação social desistente a
tendência para as repetir, não sendo sinal de saúde ver boa parte dos
jornalistas adaptados a esta prática doentia. Por outro lado, é doloroso
constatar como na nossa sociedade há audição para comentadores e cronistas
intelectualmente desonestos, peritos em transformar simples bullying político e
ideológico em manifestações de consciências bem pensantes. Um Trump qualquer
apreciaria muito a cruzada sectária e enviesada desta gente, que toma os
professores por sacos de boxe. Mas as pessoas sérias só têm que a denunciar e
combatê-la como praga infestante da opinião pública.
Ouvir (SIC) Miguel Sousa
Tavares dizer que os professores querem subir três vezes mais rápido que os
restantes funcionários públicos, enquanto as operárias de uma fábrica de Rabo
de Peixe estão como estavam há 46 anos, espelha a eloquência e o rigor dos
analistas que se acomodam com um país rico em pobreza.
Ler (Notícias Magazine)
que o ministro da Educação fundamenta a sua competência no facto de ter passado
toda a vida rodeado de professores, alguns dos seus melhores amigos e a maioria
dos amigos dos seus pais serem professores, no activo ou já aposentados, para
concluir que, por isso, o mundo das escolas e o mundo vivido pelos docentes não
lhe é estranho, esclarece, de modo cartesiano, a quem Costa entregou a pasta da
Educação.
Abençoado país que tem
governantes com tais créditos e é informado por um jornalismo tão exigente!
5. Deixo vénia ao STOP e
à sua greve rebelde, que fugiu ao controlo dos sindicatos do sistema. Toco a
reunir as assinaturas que faltam para obrigar o Parlamento a votar a Iniciativa
Legislativa de Cidadãos para Recuperar todo o Tempo de Serviço Docente. Juntos,
talvez tenham posto fim à luta mansa dos professores.
in Público, 13/06/2018