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sexta-feira, 12 de outubro de 2018

O ministro contra-ataca

Regressámos às “ilegalidades” de junho e julho. Uma vez mais, pergunto aos sindicatos: o que é preciso acontecer para marcarem uma greve mesmo a doer?
Visto que esta greve já estava condenada ao fracasso, talvez devêssemos fazer “a vontade” ao ministro da Educação: cancelava-se a dita e entregava-se um novo pré-aviso com um anúncio explosivo.
Se acredito que tal proeza vai acontecer? Não!

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Amanhã, sejamos um só!


Imagem retirada daqui.

Outrora, nas aldeias transmontanas, em situação de emergência, os sinos tocavam a rebate. E todo o povo acorria ao palco do perigo. Nessas ocasiões, todos os ódios, todas as inimizades e todas as desavenças eram postas de lado, por uma causa maior. Depois de salvar o que havia a salvar, a vida retomava as suas rotinas e os velhos afastamentos. Mas, por vezes, certas distâncias eram mesmo ultrapassadas.
É este espírito coletivo, comunitário, que nos falta. Por muitas queixas que tenhamos dos sindicatos, devíamos acorrer todos à luta, sempre que os sinos sindicais tocam a rebate. Por muitas queixas que possamos ter dos sindicatos, não chegam aos calcanhares das queixas que temos do Ministério da Educação, não é verdade? Se morasse em nós essa disciplina e essa força coletiva, deixávamos as nossas divergências para antes e depois de cada luta. Em dia de greve, respondíamos a 100%. E tudo seria radicalmente diferente, tenho a certeza.
Amanhã, aqui no Norte, os sinos tocarão a rebate. Sejamos todos “aldeãos, aldeões e aldeães”.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Condor



Condor

Quando a ventania te castiga
e o tom do trovão te abalroa;
quando as vagas te batem na proa
e a tempestade não se mitiga,
porque temes a fúria inimiga?
Porque te encolhes, Professor,
se tu tens nas nervuras da mão
a força bruta de um tufão?

Quando vês a seara atacada
pela pulha praga predadora,
e a tua lida geradora
se agiganta multiplicada,
porque choras na eira estragada?
Porque te conformas, Professor,
se tu tens nas nervuras da mão
o renovo que cresce do chão?

Quando o labor do teu longo dia
se confunde com a noite escura,
e a cava voz da escravatura
te acusa de ócio e de abulia,
porque atrofias a rebeldia?
Porque consentes, ó Professor,
se tu tens nas nervuras da mão
o viço da nova geração?

Tu, que trazes rasgadas no peito
as fundas chagas da humilhação,
porque aceitas essa condição?
Porque choras o trilho desfeito
e te anulas num nicho de preito?
Porque te curvas, ó Professor,
se tu tens nas nervuras da mão
a luz dos amanhãs da nação?

Porque temes tanto, ó Professor,
ser livre e voar como um condor?

LC

domingo, 30 de setembro de 2018

Somos fracos (?)


 
Começo por acrescentar ao título a parte que ele não abrange, esclarecendo desde já o âmbito do restante: somos fortes na entrega diária à nossa nobre missão, e na resiliência necessária para a ir cumprindo, mas somos fracos, muito fracos, na luta pela defesa e recuperação dos nossos direitos. Só isso justifica o imenso vale de perdas acumuladas na última década.
Já lá vão dez anos de luta constante contra os abusos do Ministério da Educação, mas… apenas contamos com ganhos subjetivos (“Seria muito pior se não tivéssemos lutado!”). Excluindo esse elixir moral, os rombos no nosso casco são muitos, e é por isso que, tragicamente, talvez inexoravelmente, nos afundamos. Saliento apenas alguns dos mais significativos: os cortes reais nos salários (diretos e indiretos); a cleptómana conversão dos escalões, um autêntico empurrão escada abaixo; o aumento brutal do nosso horário de trabalho, com a exploradora invenção da dita “componente não letiva de trabalho a nível de estabelecimento”, que é uma máquina exploradora e trituradora de energias; um humilhante horário de trabalho contado em minutos; o furto de nove anos, quatro meses e dois dias às nossas carreiras (devemos recusar liminarmente o prémio de consolação que nos querem dar)… Isto, para falar apenas das questões estritamente laborais, porque se desenrolasse a negra passadeira de abusos no domínio pedagógico… e a das culpabilizações, desautorizações e desconsiderações nos palcos sociais… não chegariam as contas de um terço para as lembrar. E ainda poderia juntar ao cortejo fúnebre as perdas sofridas enquanto funcionários públicos. Somos fortes no espírito de missão, mas temo que também essa estoica resiliência (por vezes, muito para lá da sensatez) seja, senão a maior, uma das nossas maiores fraquezas. Somos, de facto, muito vulneráveis na nossa luta contra os abusos desta prepotente entidade patronal.
Sim, já fizemos excelentes manifestações em Lisboa, mas jamais soubemos ser suficientemente determinados no dia seguinte, nos diferentes palcos escolares, onde, desde sempre, tudo se decidiu (e continua a decidir). Nesses espaços, retoma-se sempre a aquiescência, a obediência, a subalternização e… o medo. Aí, como diz Paulo Freire, alguns oprimidos, porque podem, tornam-se rapidamente opressores e completam a pesada cadeia de medo que alguém, um dia, criou para nos vergar. Nas redes sociais, paralelamente, sucede um fenómeno que, embora involuntariamente, complementa esse quadro de anulação progressiva: a quase permanente campanha fratricida contra os sindicatos. Não digo que os eloquentes críticos nunca têm razão. Digo que, demasiadas vezes, elevam as suas previsões e as suas suposições acima dos interesses do coletivo. Há nesse constante escrutínio mais narcisismo do que coletivismo. Não se revelam capazes de, sobretudo nos momentos em que a exortação é premente, pôr a mobilização da classe acima de uma certa lucidez de que querem fazer prova. Nada mais “conveniente” para quem já pouco acredita; nada mais “conveniente” para quem receia legais retaliações nos dias vindouros; nada mais “conveniente” para quem espera apenas um pretexto para iludir a sua própria consciência; nada mais “conveniente” para quem apenas espera aproveitar-se de eventuais troféus da luta alheia. E é dessas céticas fontes que nós mais temos bebido nos últimos anos. Anulamo-nos. Nas escolas, embora a contragosto (por vezes, bebendo lágrimas), obedecemos; nos pontos culminantes de luta, desconfiamos da seriedade e/ou da capacidade de quem nos representa nas negociações, e dispersamo-nos, com mil e uma desculpas. Acho que os políticos já não nos levam a sério, e apenas se limitam a esperar que os tufões que prometemos se transformem em suaves chuvas molha-tolos. Penso que, bem no íntimo, no limiar do inconsciente, muitos professores esperam que, vindo do céu, montado num branco cavalo alado, um cavaleiro providencial os venha resgatar da negridão. Esperam a morte e ainda não se aperceberam.
Amanhã, começa uma nova jornada de luta. Estou preparado: pus de lado as minhas razões de queixa dos sindicatos da Plataforma; pus de lado as minhas divergências relativamente à recente linha estratégica do STOP; tranquei, em câmara escura, todas as tentações de ceticismo e de recuo; anestesiei a lucidez mais aguda; amordacei os custos materiais e todas as más memórias das lutas passadas; bebi toda a ilusão; vesti a farda mais dura e empunhei as minhas melhores armas. A partir de amanhã, e enquanto a luta durar, darei tudo. Farei apenas uma pequena parte, mas fá-la-ei na plenitude, como se disso tudo dependesse. Por mim, todas as escolas encerrariam. 
Eu assim farei. Vós… fazei o que a vossa consciência vos ditar.

sábado, 21 de julho de 2018

Os Senhores Extraterrestres



Filinto Lima está cada vez mais extraterrestre. É um facto. Mas não é o único: aqueles que ele diz representar também estão. Jazem nas escolas, mas parecem pertencer a outro planeta, de outra galáxia, que os telecomanda.
Ainda há dias esta personagem disse A no dia D e, dias mais tarde (dia D+X), já dizia B (refiro-me à sua vénia diante da malfadada nota informativa do dia 11 de junho, dias depois transformada em recusa por, supostamente, ter sido considerada ilegal). Hoje, a mesma pessoa (Lima himself), novamente em modo protocolar, veio à praça bendizer, aclamar e subscrever uma diretiva que é ainda mais grave do que a citada nota. 
Desculpem-me os leitores, mas vou ter de adequar o registo de língua ao referente.
Na minha juventude, costumávamos chamar graxistas a estes gajos. Os graxistas eram uma casta que estava sempre de acordo com a autoridade das escolas, dos colégios e dos liceus: professores, presidentes, reitores… Estavam-se borrifando para os colegas, pois o que eles queriam era que a sua vidinha fosse fofinha e corresse sempre bem debaixo daquele guarda-chuva impermeável. E como nós adorávamos tratar da saúde aos graxistas! Alguns deles até eram mesmo bufos, e a esses… Adiante! 
O problema atual está na generalização do “graxismo”. Foi instituído por lei e agora há pelo menos um gaxista autómato em cada escola. Um “estudante pálido”, como diria Bernardo Santareno. São, em geral, gajos e gajas solitários, amedrontados e dispostos a quase tudo, no escrupuloso cumprimento da sua religiosa obediência. Que se danem os colegas, pois o que eles querem é ver-se livres das saraivadas vindas do céu dos manda-chuvas: “Meu querido S. Rodrigo, não me castigues a mim, castiga o meu amigo!”. E, como uma desgraça nunca vem só, também o “graxismo” é altamente contagioso. Que o digam aqueles que juram representar os pais e encarregados de educação.  A graxa já é tanta que até parece que vivemos numa mina de carvão.
Os diretores (nem todos, como é óbvio, mas quase) são uma espécie de peça de engrenagem. Lá longe, ao cair da tarde, uma mão aciona o maquinismo e… as peças, todas engatadas umas nas outras, entram num movimento simultâneo, compassado, sincronizado, automático, acéfalo, desumano… mas eficiente e eficaz. Já ninguém tem ideias próprias, objeções de consciência, limites para a obediência. Não, tudo isso é coisa do passado, letra morta e ultrapassada. Agora… tudo é administrativo e maquinal. O cérebro e o caráter tornaram-se exuberantes extravagâncias. 

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Os professores acordaram



Não há dúvidas: os professores estão mobilizados e em plena superlativação do seu ímpeto reivindicativo.  Mas também é verdade que esta onda contestante, que vai fazendo mossa nos corredores do poder e ganhando protagonismo na comunicação social, aquém e além-fronteiras, se deve à força agregadora e legitimadora dos sindicatos.
Como não pretendo enveredar pelos trilhos da especulação em territórios conspirativos — não quero dizer que jamais o faço, mas apenas que é absolutamente errado fazê-lo em hora de luta — tenho de concluir que a FENPROF e a FNE subestimaram os sinais dados pelo professorado na mais recente manifestação em Lisboa. Esteve bem o STOP (também precisa de se afirmar) ao lançar para a arena reivindicativa uma greve capaz de abranger as primeiras reuniões de avaliação, ou seja, as que têm no horizonte provas finais e exames. O resultado tem sido euforicamente surpreendente (confesso). Os professores estão a dar, ao Governo e às federações sindicais “cautelosas”, um sinal claro de que, finalmente, acordaram para a luta: o número de reuniões de avaliação adiadas (em muitas escolas, a cem por cento) não para de aumentar. Acho que Mário Nogueira e João Dias da Silva precisam de fazer uma leitura muito rápida e muito lúcida do que está e emergir nas escolas, e agir em conformidade e com celeridade.
Aos diretores escolares, uma vez que deles já ninguém espera que venham a terreiro juntar-se a nós — é cada vez mais óbvio que querem fazer parte do velho “Eles” — peço que libertem os professores. Como?  Que mostrem o seu sorriso limpo e solidário, sem esgares prometedores de subtis retaliações ao abrigo da Lei. Esse rosto lavado é quanto basta para quebrar o grilhão mais pesado: o do medo. Afinal, os professores estão apenas a reivindicar um direito que também abrange aqueles que dirigem as escolas. Aos coordenadores de diretores de turma, peço a mesmíssima franqueza, com um aditivo vedado aos diretores: juntem-se aos colegas, façam também a vossa parte. Libertem-se desse modo. Se o fizerem, quebrarão grilhões em cadeia.
Afinal, os NOVE ANOS, QUATRO MESES E DOIS DIAS que estamos a reivindicar não representam um tempo normal: é uma generosíssima parcela do tempo mais sofrido, mais doloroso e mais humilhante da nossa carreira. Para muitos de nós, da própria vida. Saibamos, pois, responder com a dignidade que nossa causa nos impõe. E saibamos também dar continuidade à ação iniciada, pois não faria sentido absolutamente nenhum — seria mesmo ridículo — se a onda agora crescente fosse, doravante, sem frutos, esmorecendo paulatinamente.

PS - Na minha escola, hoje, não foi realizada nenhuma das reuniões agendadas. A minha vénia a quem foi capaz de avançar para a linha da frente.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Eles disseram silêncio




Eles disseram silêncio. E esse silêncio irmanou indistintamente. Sob o seu manto inerte, estiveram todos, e todos o silêncio amalgamou: os que sentei na galeria dos bons, os que sentei na galeria dos audazes, os que sentei na galeria dos independentes, os resistentes, os vendidos, os calculistas, os individualistas, os prepotentes, os castradores… Por estes dias, o silêncio a todos abraçou.
Não fosse o meu cérebro lupino — todo ele feito de instinto e coração — e ter-me-ia sentido um bandeirante idiota, agitando um estandarte esfarrapado, de um tempo deserdado, de um exército eternamente derrotado por maldição. Não fosse o meu cérebro selvagem — todo ele feito de instinto e coração — e ter-me-ia sentido um patriota apólida, defendendo um velho território desertado. Não fosse o meu cérebro lupino — todo ele feito de instinto e coração — e ter-me-ia sentido alma penada num purgatório agrilhoado. Não fosse meu cérebro lupino… e eu ter-me-ia sentido um jacobino sem revolução.
Eles disseram silêncio, e o seu silêncio foi apenas negridão.

Fiz a minha parte



Fiz a parte que me competia, não por imposição alheia, nem por simpatia, mas por imperativo de consciência. Continuo em paz com o espelho (meu ou alheio).
Solitário por vocação, gregário quando dobram os sinos. Sou assim, e sempre assim serei.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Farei greve!




Pela intervenção de Mário Nogueira, em geral, e pelo que diz sobre as (im)possibilidades de conversão do “tempo congelado” em bonificação na contagem do tempo de serviço para a reforma, em particular,  manda a disciplina “militar” que me posicione na linha da frente da greve. Enterro, pois, durante este tempo de combate, o machado da contestação à frouxidão e à ansiedade negocial dos sindicatos. “Outro valor mais alto se levanta”.
Os sindicatos — como todos nós — têm os seus defeitos e as suas virtudes, mas não podemos cometer a maior das asneiras: abandonar a retaguarda. Perderemos em toda a linha. Sejamos “disciplinados” agora e contestemos depois, veementemente, o que, na nossa opinião, devemos contestar. 

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Súplica




Inerte sobre um dos peitos da montanha. Diante de mim, lá ao fundo, a imensa seara abandonada parece um instante capturado de um mar revolto. Paradoxo visual: o relevo amorfo de uma medonha agitação jazendo sob um plácido manto de quietude sepulcral. Morrem-me as retinas no prenúncio crepuscular!
Tantas vezes calcorreei estas encostas! Tantas vezes deixei pele na rude aspereza das escarpas frias! Tantas vezes tive de comer a terra deste chão íngreme para ir suster as ventanias, desviar as pragas, afugentar os abutres que pairavam sobre o meu mar de oiro aveludado! Tantas vezes caí! Tantas vezes acabei só! Tantas vezes abandonado! Tantas vezes enganado! E sempre me reergui! Eterno nascituro do tempo, sempre me reinventei, sempre me multipliquei, sempre me fiz ironia do meu próprio fado!  
Mas todo o sempre de um simples ser humano tem um fim. O meu não sei se aconteceu na última descida aflita ao meu sacrário ameaçado. Sei apenas que, agora, estou aqui, novamente só, estranhamente estatuado defronte do rosto exangue da minha seara sem vida, praça da razão, que me avassala. Porém, o meu coração —  menino em rejeição — ainda me suplica veementemente que vá salvá-la!

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Greve salta-pocinhas



Uma coisa é certa: não podemos acusar os sindicatos de não aprenderem com as sucessivas experiências negociais em território ministerial. De tantas vezes reunirem com o Governo, acabaram por integrar no seu modus faciendi toda a sofisticação da atuação política. Tem mais requinte, agora, a postura sindical.
Fartos de greves do tipo beliscão, os professores reclamaram algo mais contundente, mais fraturante… enfim, uma greve de vários dias. E o que fizeram os sindicatos? Aquilo que têm feito os últimos elencos governamentais da Nação: fizeram a vontade aos seus eleitores, disseram que sim (à maneira política). A tática dos memorandos aplicada à arraia-docente: uma greve de vários dias, sim senhor, MAS sem deixar de ser uma greve de um só dia; uma espécie de greve salta-pocinhas com efeitos altamente demolidores, como facilmente se adivinha. E foi porque não se lembraram (ou porque os professores não reclamaram), senão teriam marcado uma greve nuclear, até ao final do período, quiçá do ano letivo: de agrupamento em agrupamento, ou de escola em escola; uma espécie de volta a Portugal grevista, ou seja, um autêntico tufão reivindicativo.
Estou entusiasmadíssimo com esta espécie de forma de luta que ontem foi anunciada. Espero que o Governo, no dia 12, não se lembre de propor uma qualquer declaração de compromisso, na qual se comprometa a prometer que vai prometer, só para se livrar dos efeitos destruidores desta terrível coreografia salta-pocinhas. Até tremo, só de pensar!



quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Os professores entre a frouxidão e a má-fé



Quem tenha acompanhado o comportamento negocial do Ministério da Educação após a assinatura do compromisso estabelecido com os sindicatos, em 18 de Novembro de 2017, vê inflexibilidade e má-fé. Entre outras, duas questões são determinantes no conflito latente, sendo que a ordem para as resolver não é arbitrária: primeiro, o reposicionamento correcto na carreira (porque os professores recém-vinculados não podem ser alvo das interpretações delirantes da secretária de Estado Alexandra Leitão); depois, (e só depois para não se amplificarem as injustiças de reposicionamentos incorrectos) a recuperação do tempo de serviço, como referido na declaração de compromisso e recomendado pela Resolução n.º 1/2018, da Assembleia da República.
O Estatuto da Carreira dos Educadores de Infância e dos Professores dos Ensinos Básico e Secundário diz, no número 3 do seu artigo 36º, que o ingresso na carreira se faz “no escalão correspondente ao tempo de serviço prestado em funções docentes e classificado com a menção qualitativa mínima de Bom, independentemente do título jurídico da relação de trabalho subordinado, de acordo com os critérios gerais de progressão”. Parece-me um texto claro, à luz da semântica linguística. Mas conhecendo a apetência da secretária de Estado Alexandra Leitão para apresentar como girafas gatos a quem simplesmente puxou pelo pescoço, percebo que queira colocar em escalões mais baratos os professores recentemente integrados na carreira, depois de décadas de trabalho escravo em funções docentes. O que não percebo é que sindicalistas experientes tenham caído na armadilha de “delegar” no Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República a decisão sobre se o tempo de serviço antes da profissionalização pode ser considerado para reposicionamento na carreira. Desconhecem, acaso, que quando ouvimos dois juristas esperam-nos, pelo menos, três opiniões? Para quê correr o risco de substituir factos por fictos?
A história da aplicação do estatuto é a história da consideração de todo o serviço docente, incluso o cumprido antes da profissionalização. Somar esse facto à clareza do supracitado artigo teria sido evidência suficiente para uma posição de força, negocial e ética, que não para a frouxidão das guerras de alecrim e manjerona em que os sindicatos sistematicamente se envolvem e que terminam, também invariavelmente, com a desistência no momento da ruptura clarificadora. Foi assim com o “memorando de entendimento” de 2008, foi assim com o “acordo de princípios” de 2010, foi assim com a greve à avaliação do 12º ano no tempo de Nuno Crato, está a ser assim com o compromisso de 18 de Novembro último. Trata-se de efemérides com traços comuns; num primeiro momento, provisório, os sindicatos parecem ganhar e o ministério consegue acalmar os ânimos das massas; num segundo momento, definitivo, o ministério, com má-fé, impõe por lei o que, anteriormente, tinha “acordado” ou “entendido” ser para negociar.
Findo o encantamento nupcial com Tiago Brandão Rodrigues, finda a coreografia negocial, traduzida em reuniões sem resultados, que se prolongam para além do que o senso comum faria supor, perde a força da razão e ganha a razão da força. Soçobra a coesão e substitui-se firmeza por frouxidão. A nova proposta de “reposicionamento” na carreira é um ardil arbitrário e injusto para atacar os professores. Mas a confusão que já introduziu serve bem a estratégia do Governo para arrastar o processo e multiplicar os conflitos dentro da classe docente. A resposta dilatada no tempo (12 a 16 de Março) e o instrumento escolhido no plenário de 2 de Fevereiro (greve pingada por regiões, de duvidoso impacto) pode prejudicar uma mobilização expressiva dos professores, num momento particularmente grave.
Não, não é discurso anti-sindicatos, que sem eles seria bem pior. É simples reconhecimento do que tem sido e receio de que volte a ser.

in Público, 07/02/2018

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Sinais auspiciosos




Diz-me o meu “olho clínico” que amanhã vamos realizar uma extraordinária ação de luta. Será, sem dúvida, a terceira maior manifestação desta “era maldita”. Quanto à greve… todos os sinais indicam que os números serão altos, mas é preciso que sejam arrasadores. A diferença estará, creio eu, na mão dos professores que estão em situação contratual mais frágil. Serão eles o fiel desta balança.
Estão, de Norte a Sul, muitos autocarros preparados para rumar até à capital. A Correia Garção e a S. Bento serão muito pequeninas para tanta gente descontente. Esta é uma certeza, antecipada, à qual se juntam sinais a ter em forte consideração: os que vêm da mobilização dos professores na internet. As escolas estão no silêncio (há medo), mas a internet fervilha a bom fervilhar: multiplicam-se as publicações, multiplicam-se extraordinariamente os comentários (excelente sinal), multiplicam-se as partilhas dos artigos alusivos à greve, e as suas visualizações atingem números idênticos aos de 2008 e 2009 (a carta aberta que escrevi aos professores já vai a caminho dos 22 000 leitores). É soberbamente animador!
 Uma derradeira palavra aos contratados: Non abbiate paura!


domingo, 12 de novembro de 2017

Bilhete (aberto) aos diretores


A greve agendada para o próximo dia 15 não é um ataque à tutela nem um atropelo aos direitos dos alunos à educação e ao ensino, é apenas uma legítima ação de luta dos professores pelos seus direitos (entre os quais, por exemplo, consta um inquestionável e justíssimo descongelamento da progressão na carreira que não subtraia uma década de trabalho muito esforçado). É, pois, uma ação reivindicativa perfeitamente enquadrada nos elementares princípios democráticos.
Se é verdade que ainda vos considerais professores, então esta também é causa vossa. Deveis, por isso, assumir uma posição, sair do habitual silêncio multifuncional em que vos abrigais, quando se pugna pelos direitos da classe. Afinal, também é por vós que todos estamos a lutar.
Ninguém espera que façais greve, mas penso que é vosso dever dizer, pelo menos, se estais ou não estais inscritos nesta luta, se apoiais ou não apoiais esta importantíssima greve dos professores. Como? É muito fácil. Basta fazerdes o que fazeis já por rotina: mandatais o vosso prolixo representante (pode ser por e-mail) e, através da sua eloquência, dizeis claramente ao país de que lado estais. Que tal?  
Se não o fizerdes, a populaça docente vai pensar que preferis perder enquanto professores para ganhar como diretores. Não seria justo! 


sábado, 11 de novembro de 2017

Carta aberta aos professores


Caros colegas,
Está marcada uma greve para o próximo dia 15 de novembro. Sei que muitos de vós estais saturados de “pequenas” ações de luta que, aparentemente, não resultam em nada, ou em muito pouco. No entanto, se, na forma, esta é uma ação de luta igual a muitas outras, na essência é radicalmente diferente. Como já vos disse (creio que repetidamente), tem muito de derradeiro.
Embora sem a capacidade dinamizadora de outros tempos (para promover reuniões em muitas escolas, por exemplo), os sindicatos, conscientes da especial gravidade do momento, estão a investir fortemente neste protesto, elevando diariamente as expectativas (da classe, da sociedade e do Governo) relativamente à adesão dos professores. É, pois, crucial que a resposta seja esmagadora. Não direi que é o momento “do tudo ou nada”, uma vez que não creio que mesmo uma greve a 100% nos garanta tudo (estou convicto de que nenhum professor pensa assim). Todavia, tenho duas certezas, que passo a expor muito telegraficamente: só uma greve arrasadora nos dará capacidade negocial suficiente para recuperarmos o que ainda é possível recuperar; uma greve tímida, medrosa e avulsa será certidão de óbito — de óbito, disse bem — das nossas esperanças, das mais propaladas e daquelas que costumam ser as últimas a morrer, aquelas que ainda acalentamos, no nosso íntimo, mesmo quando já verbalizamos o contrário. Quem nos governa pensará, lucidamente, que se já não somos capazes de nos unir e erguer perante tão gigantesca injustiça (penso na questão mais objetiva e material: o apagamento de uma década, uma década de autêntica escravatura) então jamais seremos classe com força, união e solidariedade suficientes para reivindicar mais nada de vulto. Esmagar-nos-ão.
No próximo dia 15 de novembro, a nossa maior conquista não será de natureza material (a acontecer, será ainda difícil e virá a seu tempo); o nosso melhor troféu será a prova de vida. No próximo dia 15, toda a sociedade saberá se ainda estamos vivos ou se já somos aquilo em que muitos creem: sombras do que já fomos. No próximo dia 15, o nosso tesouro maior — o respeito — vai a leilão, mas a um leilão com um único licitador: a classe docente. É pegar ou largar!
O próximo dia 15 não será, de certeza, o dia de tudo, mas pode (facilmente) transformar-se no dia de nada. É isto que está em jogo, caros colegas!



sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Fazei lá mais uma forcinha, meus diretores!


No momento em que os professores deste país se preparam para uma greve que promete um reerguer da classe contra uma enxurrada de injustiças, de humilhações, de múltiplas explorações, de atentados à sua autoridade, de faltas de respeito e de consideração, vem à praça a figura que personifica toda esta repugnante situação.
Em crónica publicada anteontem no Diário de Notícias, a ex-ministra Lurdes Rodrigues decidiu — ou alguém lhe encomendou o servicinho — vir a terreiro falar dos diretores das escolas, exacerbando o que, na sua materna opinião, tem sido o superlativo contributo destes líderes para os grandes progressos que a Escola Pública fez desde que foram por ela criados, e que os professores, com o anunciado “levantamento”, no próximo dia 15, se preparam para começar a estragar (digo eu).
Creio ser inevitável estabelecer uma associação entre estes dois factos. No meu entender, esta senhora veio pedir, a quem criou, um reforço de gratidão, nestes dias em que o despertador da classe docente parece estar a tocar. É como se todas as palavras da crónica, sob as roupagens gráficas e fonéticas, transportassem uma única mensagem, repetida de lés a lés:   “Fazei lá mais uma forcinha, meus diretores!”



segunda-feira, 6 de novembro de 2017

A classe-caracol


Atualmente, poucos duvidarão que a classe política do chamado arco da governação decidiu usar os professores como otários privilegiados da crise. Será castigo pelo laxismo geral? Será pena pesada por abuso de incompetência? Ou será por ser uma classe calada, resignada e obediente?
 As duas primeiras questões têm, na minha perspetiva, resposta fácil e rápida. Não querendo arriscar extrapolações nem generalizações, direi apenas (com modéstia) que os professores não receiam nenhuma comparação, no que toca a tempo dedicado à profissão. Também não receiam comparações no que toca a formação e qualificações para o exercício da profissão e das inúmeras vertentes que abrange. Os professores constituem, presentemente, uma autêntica classe-caracol, sempre com a escola às costas, seja a que horas for, estejam onde estiverem. Não é, de certeza absoluta, por falta de competência(s) nem de dedicação plena (muito mais do que plena) que os professores sofrem de discriminação negativa. Só nos resta, portanto, a terceira questão.
Para mim, a resposta também é óbvia. Vejo-a tão concreta e tão nítida como este ecrã de computador que tenho diante das retinas: somos maltratados porque estamos muito divididos, porque não somos tão solidários uns com os outros como somos com os alunos e com as comunidades que servimos; porque somos ousados, megalómanos, a aceitar todas as incumbências e responsabilidades que descarregam sobre nós, mas receamos dizer “não”, dizer “basta” quando se trata de nós mesmos; porque somos absolutamente renitentes quando se trata de um eventual prejuízo causado a alunos e/ou encarregados de educação, mas aceitamos pacificamente todos os prejuízos que nos infligem, como se fosse esse o nosso fado, a nossa única via; porque nos secundarizamos constantemente! É por isso que nos secundarizam tão facilmente!
Desta vez — porque o tempo tem muito de derradeiro — é chegada a hora de dizermos (POR UMA VEZ) “Nós primeiro!”