segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Condor



Condor

Quando a ventania te castiga
e o tom do trovão te abalroa;
quando as vagas te batem na proa
e a tempestade não se mitiga,
porque temes a fúria inimiga?
Porque te encolhes, Professor,
se tu tens nas nervuras da mão
a força bruta de um tufão?

Quando vês a seara atacada
pela pulha praga predadora,
e a tua lida geradora
se agiganta multiplicada,
porque choras na eira estragada?
Porque te conformas, Professor,
se tu tens nas nervuras da mão
o renovo que cresce do chão?

Quando o labor do teu longo dia
se confunde com a noite escura,
e a cava voz da escravatura
te acusa de ócio e de abulia,
porque atrofias a rebeldia?
Porque consentes, ó Professor,
se tu tens nas nervuras da mão
o viço da nova geração?

Tu, que trazes rasgadas no peito
as fundas chagas da humilhação,
porque aceitas essa condição?
Porque choras o trilho desfeito
e te anulas num nicho de preito?
Porque te curvas, ó Professor,
se tu tens nas nervuras da mão
a luz dos amanhãs da nação?

Porque temes tanto, ó Professor,
ser livre e voar como um condor?

LC

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