domingo, 14 de outubro de 2018

Até sempre!



Dou-me por inteiro, até à exaustão, quando acredito. Até à exaustão (disse bem), que só me acontece verdadeiramente quando deixo de acreditar. Sou então muito má companhia. E é por isso que prefiro partir, para — como diz Torga — eventualmente recomeçar, se puder, algures, sem angústia e sem pressa, noutra loucura qualquer em que, lucidamente, me reconheça. Mais tarde, talvez, porque agora a lucidez não mo permite. Vejo-me num mar frustrado e quieto, feito de passado e presente, povoado de gente que rema desalmadamente sem realmente navegar. Não!
O Quadro Negro completa hoje um ano de vida, o seu ano de vida. Deu à luz 195 verduras, prenhes de sonho e ilusão. Aqui vieram, em sucessiva visitação, 247 mil caminheiros. Dei-lhes, graciosamente, tudo o que tinha. Casa cheia, à luz do dia, sala vazia quando o breu sobre mim se abatia, mesmo em noites de lua cheia. Depois do sol-pôr, a dor sem dó nem remissão: fiquei sempre invariavelmente só; só eu e a minha solidão.
Agora, porém, é chegada a hora de fechar a porta e partir, à procura — quem sabe? — de um clarim qualquer que, inesperadamente, acorde lá longe, ou em mim, algo azul que me faça reviver. 
Entretanto, um pequeno favor: não me presenteiem com o verbo “desistir”, nem por bem nem por mal. Creio que ninguém tem autoridade para tal.

PS – Desta vez, não encerrarei o blogue. Fica aqui… a boiar, como uma garrafa verde lançada ao mar.

sábado, 13 de outubro de 2018

Oremos




Primavera Sindical


Há dez anos que estamos em confronto direto com o Ministério da Educação: a dita “luta dos professores”. E, salvo raríssimas e pequeníssimas exceções, há uma década que acumulamos gravíssimos prejuízos, a todos os níveis e com consequências devastadoras para todos nós, profissional e pessoalmente. O território que ocupamos é uma planície atulhada de derrotas.
Talvez esteja na hora de os principais rostos da Plataforma Sindical fazerem um balanço e dele retirarem as devidas lições e consequências. É muito provável que o território frustrado, em clamoroso silêncio, esteja reclamar uma esperançosa primavera sindical.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

O ministro contra-ataca

Regressámos às “ilegalidades” de junho e julho. Uma vez mais, pergunto aos sindicatos: o que é preciso acontecer para marcarem uma greve mesmo a doer?
Visto que esta greve já estava condenada ao fracasso, talvez devêssemos fazer “a vontade” ao ministro da Educação: cancelava-se a dita e entregava-se um novo pré-aviso com um anúncio explosivo.
Se acredito que tal proeza vai acontecer? Não!

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Lollipop


Dois “retoques” que conferem à imagem um verdadeiro realismo: o estado de alma do Senhor Presidente e a prenda que ele deu a Mário Nogueira.

Quero abandonar o ensino!


Prometi, a mim mesmo, no início da carreira, que jamais daria explicações. Nada tenho contra essa atividade, como é óbvio (os meus filhos tiveram esse apoio a Matemática e o mais novo ainda tem). Foi um voto de dedicação exclusiva à profissão que, até ao momento, cumpri mais do que escrupulosamente. Como é sabido, tenho mesmo dado muitas aulas (às dezenas por ano), em regime de voluntariado, sem qualquer tipo de reconhecimento, nem da entidade patronal nem de quem a representa a nível escolar. Adiante.
Hoje, porém, a minha generalizada desilusão face aos descaminhos da Escola Pública dita-me outra orientação de vida. Sinto-me só, numa cidade bombardeada, e já só pretendo deixá-la, para poder regressar a mim mesmo, preservando de mim o professor que — até agora, muitas vezes à sobreposse e lutando contra quase todos — sempre consegui ser. Mas agora… está iminente o limite de todos os limites que tenho sabido alargar. A minha objeção de consciência já me tortura quase a tempo inteiro. A degenerescência da missão docente tem, para mim, um limite. Tem de ter um limite! Quero, por isso, dar outro rumo à minha vida.
Não, não tenho empregos nem ocupações remuneradas à minha espera. Não tenho absolutamente nada à minha espera. E é apenas por essa razão que ainda não saí. Mas tenho a promessa inicial, que soube preservar e que não pretendo quebrar: a das explicações. Sem falsas modéstias, acho que poderei ser um bom explicador de Português (afinal, é o que tenho feito, gratuitamente, nas escolas, com salas cheias e escassíssimo absentismo). Estou decidido a deixar o ensino para continuar a ser apenas o professor que quero ser. Se tal for possível, é meu propósito, doravante, trocar os polos ao “juramento”: ser explicador, em exclusividade, e abandonar o palco onde, até agora, apenas representei uma personagem.
Dou, por isso, o primeiro passo. Sem ele, jamais sairia/sairei das intenções. No momento em que atingir os “mínimos olímpicos”, trocarei o salário seguro pela insegurança fiel.
Aos eventuais interessados nos meus serviços, solicito que me contactem através da seguinte conta de correio eletrónico: luisfernandoribeirodacosta@gmail.com.
Obrigado!

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Luta de almofadas




Apesar de tudo… ainda consigo ter mais fé nos bons auspícios do Senhor Presidente do que neste putativo fiasco absoluto, cuja primeira pedra será lançada no dia 15 de outubro, precisamente o dia em que colocarei aqui a minha última. Que pena!
Não é por nada, mas… acho que fui o primeiro a marcar tal data.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Auto da Visitação


Gostei de ver o Mário Nogueira em Belém, todo ele em pose estadista e tal e coisa… Senhor Presidente para cá, Senhor Presidente para lá… Senhor Presidente para lá, Senhor Presidente para cá…, Senhor Presidente, Senhor Presidente, Senhor Presidente, Senhor Presidente…
É desta que vamos lá das pernas!

domingo, 7 de outubro de 2018

Estamos feitos… à manife!



Como tenho dito, inúmeras vezes, chegada a hora de lutar, luta-se. As críticas, os lamentos e as divergências ficam para depois. É o que agora faço, de forma muito sumária.
Esperava mais dos sindicatos, no final da manifestação da passada sexta-feira. Penso que será esse espírito da grande maioria dos professores. Perante a provocação que o Governo fez na véspera, talvez se exigisse muito mais contundência. Contudo, o que se viu foi mais ou menos o habitual: pedido de audiência ao Presidente da República, promessas de guerra aberta com combates nos tribunais, regresso da luta lá para finais do primeiro período… Confesso que, talvez por ser demasiado impetuoso, esperava já algo de mais concreto. Ousei supor que os sindicatos não iriam deixar arrefecer os ânimos. Na minha vertigem marciana, ousara mesmo sonhar que a Plataforma Sindical iria reunir de emergência e avançar com uma greve demolidora. Mas não, a realidade não se compadece com os meus delírios.
Quanto ao STOP, que me empolgou no final do ano letivo, está agora a inspirar-me o Prémio Wally: onde está o STOP de junho, julho e agosto? Foram à manife exigir a demissão de Brandão e Leitão, mas nem nisso foram suficientemente assertivos: esqueceram-se do João, o pai da “exclusão” e da “flexi(ha)bilidade”. Assim, não!
Acho que os professores estão muito mais fartos do que os sindicatos. Porque estão no terreno, cada vez mais insuportável, a carregar todas as pedras e a levar todas as chicotadas. É por isso que clamam por uma luta que os sindicatos talvez não consigam ousar. A Plataforma repete os rituais de sempre, o STOP parece que fez jus ao nome. E nós… continuamos a fritar.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Mário Nogueira continua a surpreender governantes


No dia 15 de outubro



No próximo dia 15 de outubro, o Quadro Negro faz um ano de idade. Não esqueço essa data, uma vez que publiquei aqui o meu primeiro artigo na noite em que o país foi varrido por incêndios, de lés a lés.
Foram muitas centenas de horas as que, ao longo destes 365 dias, dediquei à causa docente: muitos textos de análise crítica, outros tantos de exortação à resiliência e à luta, muitas sugestões para mudar rumos na educação… e uma proposta que foi muito longe (a da conversão do tempo congelado em bonificação da contagem do tempo para a reforma).
Não foi nada de extraordinário — poderão dizer — mas, ainda assim, à semelhança do que tenho feito desde 2008, soube estar no pequeníssimo grupo daqueles que, aqui e na escola, mais têm dado à dita luta dos professores. E é por isso que, uma vez mais, atingi o cúmulo das náuseas provocadas pela ingratidão e pela baixeza de linguagem de muitos dos meus colegas de profissão.
Hoje, ao fim do dia, retirar-me-ei dos grupos de professores do Facebook (Escola Aberta, Professores e Educadores de Portugal e Movimento Pela Vinculação de Professores). No dia 15, despedir-me-ei deste blogue. Tal como Camões, não é do canto que estou cansado!
A Escola Pública nada perderá, pois poderá continuar a contar com o denodo, com a inteligência e com a nobreza de espírito e de linguagem daqueles e daquelas que, a partir da longínqua ponta da cauda do último batalhão, disparam aleivosas e ingratas setas contra quem está a dar o peito às balas. É por estas e por outras que estamos como estamos!
É triste dizer isto no Dia Mundial do Professor e no momento em que, na Capital, se prepara uma manifestação, mas… é assim mesmo. Não quis nem o procurei, como é óbvio. Aconteceu.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Um dia muito especial



Neste dia tão especial, não podia esquecer os nossos fiéis amigos de estimação. Aqui fica, pois, a minha sentida homenagem. Obrigado por existirem!
We all love you!

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Amanhã, sejamos um só!


Imagem retirada daqui.

Outrora, nas aldeias transmontanas, em situação de emergência, os sinos tocavam a rebate. E todo o povo acorria ao palco do perigo. Nessas ocasiões, todos os ódios, todas as inimizades e todas as desavenças eram postas de lado, por uma causa maior. Depois de salvar o que havia a salvar, a vida retomava as suas rotinas e os velhos afastamentos. Mas, por vezes, certas distâncias eram mesmo ultrapassadas.
É este espírito coletivo, comunitário, que nos falta. Por muitas queixas que tenhamos dos sindicatos, devíamos acorrer todos à luta, sempre que os sinos sindicais tocam a rebate. Por muitas queixas que possamos ter dos sindicatos, não chegam aos calcanhares das queixas que temos do Ministério da Educação, não é verdade? Se morasse em nós essa disciplina e essa força coletiva, deixávamos as nossas divergências para antes e depois de cada luta. Em dia de greve, respondíamos a 100%. E tudo seria radicalmente diferente, tenho a certeza.
Amanhã, aqui no Norte, os sinos tocarão a rebate. Sejamos todos “aldeãos, aldeões e aldeães”.

A grande balbúrdia, a que chamam inclusão



No início deste ano lectivo, ecoam os violinos líricos da inclusão, das metodologias diferenciadas e da flexibilidade a galope. Porém, para a geração dos “professores do século XIX”, sarcasticamente ferrados de “mortos” pelo iminente pedagogo da Escola da Ponte, tudo fede a coisa já vista (área-escola, área de projecto, gestão flexível do currículo e projectos curriculares de turma) e falhada. As aulas expositivas, proscritas pela modernidade bacoca de João Costa e dos seus prosélitos, estão longe de ser recurso único da geração mais velha dos professores portugueses. Quem guarde memória de tempos menos frenéticos, viu-os sempre empenhados em actividades transdisciplinares, mobilizadoras de saberes diversos e geradoras de inovação. Fossem eles simplesmente “passadistas”, como se teria chegado à era digital? Quem os pretende domesticar hoje com algoritmos pedagógicos toscos e absurdas flexibilidades, deveria considerar esta perspectiva.
Das festividades fátuas actuais sobressai um excelente diploma sobre educação inclusiva. O que o atrapalha é a realidade: as escolas que temos, os meios que não temos e os alunos que existem com necessidades educativas especiais severas (assim continuarei a designá-las). Dito de outro modo, se o modelo tivesse sido pensado a partir das realidades, que não de abstracções e de teorias diletantes, teríamos melhorado o que existia. Assim, retrocedemos. Embora habituados, custa.
Ter todos dentro da escola é um excelente princípio, que nenhum civilizado contesta. Mas os demagogos iludem, em nome do populismo pedagógico, a necessidade de dotar a escola dos meios, humanos e materiais, para que ela seja uma via de inclusão. E mais que isso (ou pelo menos a par disso), a dura realidade da vida impõe que reconheçamos que uma escola igual para todos é uma abstracção utópica, inconciliável com a circunstância de termos muitos, à entrada, que nunca poderão ser iguais aos outros, lá dentro. Trabalhar a diversidade supõe, numa escola forçosamente orientada para as massas, sair, em situações extremas, dos ambientes de homogeneidade, voltando a eles quando seriamente for viável. Isso é perseguir a integração possível. Outra via, qual seja a de fingir que determinados alunos podem dar respostas que sabemos que nunca poderão dar, pedindo do mesmo passo aos restantes que fiquem parados, é (afirmação politicamente incorrecta) promover a exclusão dupla.
Ou a inclusão é pensada a partir das realidades dos alunos, ou a inclusão é pensada a partir do discurso dos teóricos. No primeiro caso, cabe à escola descobrir soluções. No segundo basta-lhe aceitar imposições. Difere o grau de responsabilidade política quando o que se faz é por ignorância ou por consciente demagogia. Mas a consequência para os que nasceram diferentes é a mesma: ficam para trás, em nome de uma falsa inclusão.
Recentemente, foi tornado público o caso de um aluno do 10.º ano, com problemas do foro físico e psíquico, que originam dificuldades severas de aprendizagem. Este aluno, no contexto anterior, estava a tempo inteiro numa sala de actividades consideradas adequadas ao seu quadro, na sede do agrupamento a que pertence, acompanhado por uma equipa de Educação Especial (terminologia agora proscrita) e só era integrado na turma correspondente nas aulas de Educação Física. O que mudou para ele este ano e até ao momento? Foi “integrado” na turma “normal” do 10.º ano da escola secundária respectiva, onde o confrontam com disciplinas que nunca teve, nada lhe dizem, nem podem dizer. O apoio pedagógico é-lhe agora dado por um professor de Educação Inclusiva (terminologia do século XXI) que, por mais competente e esforçado que seja, não pode contar com o vínculo relacional e afectivo, extremamente crítico nestes casos, que já ligava a anterior equipa a este jovem. Deixou de frequentar as anteriores sessões de equitação terapêutica, determinantes para o seu equilíbrio psíquico. O aluno está revoltado, chora e começou a recusar a escola. Eu, do século passado, compreendo-o bem. Mas os normativos modernos dizem que é por aqui que vamos.
in Público, 3/10/2018

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Condor



Condor

Quando a ventania te castiga
e o tom do trovão te abalroa;
quando as vagas te batem na proa
e a tempestade não se mitiga,
porque temes a fúria inimiga?
Porque te encolhes, Professor,
se tu tens nas nervuras da mão
a força bruta de um tufão?

Quando vês a seara atacada
pela pulha praga predadora,
e a tua lida geradora
se agiganta multiplicada,
porque choras na eira estragada?
Porque te conformas, Professor,
se tu tens nas nervuras da mão
o renovo que cresce do chão?

Quando o labor do teu longo dia
se confunde com a noite escura,
e a cava voz da escravatura
te acusa de ócio e de abulia,
porque atrofias a rebeldia?
Porque consentes, ó Professor,
se tu tens nas nervuras da mão
o viço da nova geração?

Tu, que trazes rasgadas no peito
as fundas chagas da humilhação,
porque aceitas essa condição?
Porque choras o trilho desfeito
e te anulas num nicho de preito?
Porque te curvas, ó Professor,
se tu tens nas nervuras da mão
a luz dos amanhãs da nação?

Porque temes tanto, ó Professor,
ser livre e voar como um condor?

LC