domingo, 23 de setembro de 2018

Da inclusão aos guetos escolares



Como não tenho dados científicos provenientes de rigorosos estudos feitos por reputadas instituições, esclareço desde já os leitores: tudo o que vão ler é fruto da minha observação empírica, da modesta opinião e… da minha pueril sinceridade e incorrigível inconveniência. Por isso, quem pretender ficar por já aqui… faça a fineza!
Os meus olhos dizem-me que as escolas que ostentam o brasão TEIP definham de ano para ano. Quem pode, foge delas a sete pés, não porque os professores sejam maus (são docentes tão competentes como os demais; por inerência, mais mouros de trabalho e não só), mas por outros motivos, relacionados com a indisciplina, com a violência, com as expectativas… Enfim, com base nas minhas retinas, constato que essas escolas vão divergindo fatal e perversamente do seu propósito inicial. Com uma naturalidade assustadora, vão atraindo alunos com determinadas características, enquanto outros vão procurando outras paragens, com outras garantias e outros horizontes. As escolas TEIP vão-se transformando em guetos, que a recém-nascida “inclusão”, inquestionável no princípio, mas desastrosa na concretização, se prepara para agravar. Estranha forma de incluir!
Há punhado de anos, quando a escola “não era tão inclusiva como agora”, um aluno com necessidades educativas especiais era “excluído” numa turma que, no máximo, poderia ter vinte alunos. Nesse tempo, só em casos muito especiais era possível “desintegrar” dois alunos com tais características na mesma turma, ainda que com um número total de discentes inferior ao mencionado. Hoje, por decreto, tudo mudou. Sob as inspiradoras e protetoras capas da igualdade e da inclusão — valores indiscutíveis — acabou-se com o estigma, com o conceito discriminador e… como por magia… acabaram também as diferenças (na prática da conceção das turmas, pelo menos). Agora, como para o referido efeito (que nada tem a ver com poupanças de verbas, mas com os mais elevados direitos humanos) já não há nenhum iníquo rótulo em vigor, é possível incluir, na mesma turma, vários dos alunos outrora estigmatizados com nomes ou siglas profundamente discriminadoras, juntamente com mais vinte e tantos colegas, em grupos de superlativa heterogeneidade: etnias nada identificadas com a cultura escolar, refugiados que não sabem falar português, imigrantes recém-chegados de África,  lusodescendentes e imigrantes oriundos e da América do Sul, quer do Brasil, quer de outros países em crise, como a Venezuela (estou a pensar em casos concretos). São todos muito bem-vindos às nossas escolas, como é óbvio, até porque Portugal precisa de rejuvenescimento, mas  — dizem-me os meus olhos — tanta “biodiversidade” numa turma só é… missão impossível para os professores e ação contraproducente, quer a nível pedagógico que a nível social. Porquê? Pelo que foi dito no início: os alunos com mais expectativas escolares (caso não consigam integrar uma turma-redoma) vão procurado outras paragens, agravando assim o efeito de guetização que certas medidas, levianamente integradoras, trazem no ventre. Neste sentido, a recém-nascida “inclusão” será especialmente nefasta para as escolas TEIP. É inevitável.
E como é que os nossos sapientes governantes, e seus eloquentíssimos apóstolos, preveem resolver tantos e tão e diversificados desafios despejados sobre os largos ombros dos professores? Elementar, caro Watson! Com sagradas panaceias que a moda deu à luz em dia de solstício de verão: articulações, coadjuvações, assessorias… Enfim, salas de aula cosmopolitas, a todos os níveis. E tudo se resolve (estatisticamente)!
Desculpem-me os leitores, mas… tenho de dizer o que me vai na alma. Na minha humilde opinião — um professorzito que, comparado com quem o governa, nada sabe da arte de ensinar — isto não é verdadeira inclusão, é salgalhada. E os professores que se desembrulhem! Dá-me algum conforto o facto de achar que sou capaz de, subitamente, num ímpeto de sanidade, mandar toda esta loucura àquela banda.

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