sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Ovos sem casca



É a segunda narrativa da tríade “Galinhas ao poleiro”. Escrito em novembro de 2008, antecipa os desmandos dos xerifes de Nottingham e os arrabaldes do facilitismo instituído, o sucesso a qualquer preço e a expropriação da dignidade dos professores. Comicidade e seriedade fazem, aqui, um par perfeito.


Era noite cerrada na Quinta do Soslaio. O sol, veraneante e folgazão, estava ainda entretido, beijando as bronzeadas costas orientais africanas. Toda a bicharada dormia placidamente, sonhando com a quinta do lado, com as quintas a seguir, com as quintas mais distantes... Enfim, a galinhada, em corajosos sonhos, ia voando com asas de condor e atrevia-se a pular a cerca. Mas… uma figura sinistra estava prestes a cortar-lhes as rédeas aladas e a devolvê-las, abruptamente, «à sua mísera condição de animais de capoeira».
Tchícala, tchácala, tchícala, tchácala, tchícala, tchácala… Lá ia a Dona Gertrudes, acolitada pelos ludros rafeiros, direitinha ao galinheiro, batendo com as chinelas tailandesas nos calcanhares encardidos. A cabeleira esquálida, as narinas inchadas, arejando como boca bovina, os olhos vidrados de raiva, os punhos cerrados, espetados na ilharga avantajada e gelatinosa, anunciavam raios e trovões.
— Caaaapaaaataaaazaaaa! — expeliu a despótica proprietária da quinta, à entrada do chiqueiro.
Encolhida de medo — embora já muito menos do que outrora —, crista pálida, olhar errante perdido no chão, a galinha-capataz lá se abeirou da dona tirana, disposta a obedecer! Tudo, afinal, parecia um sonho, quando comparado com a tenebrosa carrinha do Pitas e Sopitas, a churrascaria do burgo.
— Há noutes que num drumo à bossa conta! Isto são obos que se beijam, suas parasitas dos infernos, suas gordas, alambazadas duma figa?! Ou te pões a pôr e fajes pôr como debe de ser, ou… faço contigo uma canja! Oubistejê?
E não tardou a saraivada de ordens, incontinentemente vomitadas sobre a desgraçada da galinha, que, enterrada nas suas penas pedreses salpicadas de saliva, lhe aparava a verborreia: a velhaca queria saber, ao certo, quantos ovos punha cada uma; se estavam a pôr às horas mais adequadas e seguindo os mais modernos métodos chilenos de pôr, como se fazia nas quintas dos “arrabaldesjê lá de longe”; queria que as galinhas fuinhas “olhassem” toda a galinhada, para impedir que alguma atrevida fosse pôr fora do ninho; “egigia” que todas, mas mesmo todas, se comprometessem a comer mais depressa, a passar mais tempo no ninho e a pôr “xijobos” por dia; e nada de tentar enganá-la com a “dibisão da obada” senão… senão… Já tinha mandado as “pitas-chefas” tirar um curso de puxar, para ensinarem as outras a “desobar” mais, mais e mais… e ainda mais!
— Mas… sucede que… todo o galinheiro se nega a pôr… nestas condições, que dizem ser desumanas! — atreveu-se a galinha, com as penas faciais coradíssimas.
— Tem piada! Vós nem sequer sois humanas! Não passais de reles galináceos! Como-bos os miolos! E rilho-bos os ossos! Bendo as bossas penas ò pelicreiro de Giestas de Baixo! Oubistejê? Mando-bos pó Pitas e Sopitas! Ou pondes, ou dezeis proque num pondes! Quero obos, obos, obos e maijobos! Sejam como forem… quero maijobos! Xijobos por dia!
Finda a preleção, mostradas as asquerosas e tartarosas dentuças dos canídeos rafeiros, a tirana avicultora  regressou ao seu casebre, tartamudeando injúrias babosas e repetindo o melódico efeito especial das suas chinelas tailandesas, compradas nos saldos: tchícala, tchácala, tchícala, tchácala, tchícala, tchácala…
Os saiotes da noite ainda não se tinham levantado completamente e a penumbra era ainda rainha sobre todo o galinheiro. A bicharada explodiu em ruidosos cocorocós de revolta, prometendo mundos e fundos, vendavais de indignação! A velhaca tinha ultrapassado todos os limites! A algazarra no galinheiro era tal, que aquele mais parecia uma barulhenta fábrica de pregos de aço.
Uma horita volvida, quando os primeiros cabelos do sol começaram a atravessar as largas nesgas das paredes de madeira velha, revelando a vermelhidão das cristas, toda aquela agitação atingiu um clímax de intensidade, seguido de uma súbita chuva de silêncio, um silêncio que parecia pesar como chumbo sobre o galinheiro. No entanto, toda aquela aparente calmaria desembocou num novo cacarejo, ainda mais ruidoso, mais estridente — tão sonoro que conseguiu arrancar a ditadora do seu sono roncante e vazio. Cambaleou até à janela, esfregou as pálpebras bugalhudas, arregalou os seus olhos bovinos e… ficou catatónica, cataléptica, paralítica de estupor. Lá fora, na fachada do galinheiro, uma longa faixa branca, pintada com excremento de galinha, dizia o seguinte:

DONA RASCA, TOMA LÁ OVOS SEM CASCA!

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