terça-feira, 24 de julho de 2018

Carta de despedida – Um voo triste



De forma impulsiva, pensei em escrever este texto antes da publicação das listas do concurso interno antecipado. Cheguei mesmo a sentar-me aqui, diante do computador, e a escrever algumas linhas, que acabei por apagar. Afinal, as minhas palavras poderiam ser mal interpretadas, caso o “destino” ditasse a minha continuidade na Mosteiro e Cávado (pareceria que estava a tentar remendar uma tentativa frustrada). Mas agora estou livre de dizer, uma vez que vou mesmo embora.
Fui lá colocado no ano passado. A minha adaptação, como sempre, não foi nada fácil, apesar de ter encontrado um ambiente acolhedor. “Erros” meus (juramentos desta interminável cruzada docente), má fortuna (as eternas “fadas merdinhas” deste mundo) e amor ardente (a convicções, princípios e valores) trataram, como sempre, de me preceder e de criar o já rotineiro calvário que sou obrigado a subir. E foi ainda nesse contexto de adaptação que tomei e comuniquei, oralmente e por escrito, de forma circunstanciada, a decisão de sair, vaticinando que haveria um concurso interno, que eu seria colocado noutra escola e que os resultados dos meus alunos na Prova Final seriam a minha última palavra. Isto passou-se nos derradeiros dias de outubro e culminou no dia 1 de novembro, numa missiva de nove páginas. E tudo acabou por acontecer como eu então previ, até a dor que agora tenho a morder-me o peito! Infelizmente, já vou estando habituado!
Muitas manhãs, entretanto, foram dourando os dias; veludo de pétalas, entretanto, dado e recebido; mãos, entretanto, firmemente apertadas; braços, entretanto, genuinamente entrelaçados; olhares, entretanto, desvelados e tornados cristalinos. O entretanto… sem dúvida alguma… foi AMOR. Fomos transformando o meu calvário numa ingremidade de afetos. No entanto… abril, já cativo de cores e odores primaveris, fez-me arrostar o granítico peso da decisão tomada. Podia (e talvez devesse) ter recuado, mas não o fiz. O meu coração não foi capaz de vencer a força da palavra tão perentoriamente assumida. Sísifo fadado.
Nos últimos tempos, sobretudo nos declives do terceiro período, a pergunta, sempre acompanhada de expressões faciais e de olhares que não iludiam, tornou-se diária: “Achas que vais sair?”. Sim, achava que sim! E erguia-se-me a habitual ventania que faz rodopiar doces tristezas em mim! Suaves prestações deste fel!
Saio da Mosteiro e Cávado com a certeza da saudade no cais e na bagagem que transporto. De lés a lés, amei e fui amado. O meu calvário foi alando a minha cruz até ao azul intenso. Não levo, por isso, nenhum travo de amargor a não ser o da despedida. Sinto-me condor… a voar contra o vento! É outono!

4 comentários:

  1. Que texto lindo!....Bom.amigo voa.. !É agora o teu tempo!...O meu já passou!...Mas ainda gosto de voar!

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    1. Obrigado, Isabel!
      Desta vez, apetecia-me... demorar um pouco mais neste pouso. Mas, se é fado meu...

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  2. Os lobos solitários, livres e selvagens, não se deixam domesticar. Fiéis aos seus códigos, só eles podem decidir conjugar o verbo cativar. E tu decidiste, Luís, ainda bem.
    Guardador da liberdade, escolheste partir, e eu respeito. Respeito, mas tenho pena. A escola do Cávado perdeu um excelente professor, eu perdi um companheiro de trabalho, ficou, contudo, o maior ganho, um amigo.

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  3. Obrigado por tudo, Soni! Os sentimentos que expressaste são recíprocos. Como já te disse, diversas vezes, vou ter saudades...

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