sábado, 7 de julho de 2018

Aos professores do meu país


Édouard Detaille - "Le rêve"


Caros colegas,

Decorrido o primeiro mês de greve — o primeiro da História do Ensino em Portugal —, a alguns dias de uma nova ronda negocial entre sindicatos e Governo, já com muito desgaste acumulado e com o merecidíssimo mês de férias no horizonte, mas ainda sem resultados absolutamente nenhuns, é importante relembrar a justeza da causa que nos fez erguer e a honra que devemos à luta já travada e a todos — foram tantos! — os que a ela se têm dado.  Dobrámos a Boa Esperança, mas só a Índia é nosso destino.
Não são animadores os sinais que emanam dos preparativos para a reunião agendada para o próximo dia 11. As sombras do passado, a marginalização do STOP e o silêncio da Plataforma Sindical relativamente a este facto ciciam receios à minha intuição: temo ver entronizar um eventual prémio de consolação. Se assim for — porque esta luta é tão justa, tão intrínseca e tão grande que não admite senão a totalidade —, exorto-vos a permanecer na luta, ao lado deste sindicato, que espelha na perfeição os nosso anseios, dando corpo às eventuais ações de luta que venha a desenvolver. Esperemos que tal não aconteça, que estes meus receios não passem de sombras do passado, mas estejamos preparados para essa eventualidade. É importante prepararmos a mente para o largo oceano, pois só assim teremos a necessária força de vencer.
Colegas, quando as causas são justas só a razão pode triunfar. Mas, para que a razão triunfe, temos de saber preservá-la religiosamente, com os pilares que a suportam: o nosso respeito, a nossa dignidade, a nossa deontologia e a nossa honra. Só venceremos de verdade, se o fizermos com exemplaridade. Uma vez que não admitimos ceder — e muito menos lançar a toalha ao chão — então façamos o que tivermos ainda de fazer, suportemos com dignidade o calvário que os dias vindouros nos trouxerem: não admitamos, nem no íntimo do nosso pensamento, fazer férias sem avaliar os alunos. Se as circunstâncias nos obrigarem a manter esta longa luta, então façamos esse sacrifício com toda a elevação moral e profissional. Saibamos continuar a ser dignos dos problemas que estamos a causar aos nossos alunos, aos seus encarregados de educação e à comunidade, em geral. Ganhar assim seria a pior forma de perder. Otium cum dignitate. As férias só o serão, se a elas chegarmos íntegros. Se assim for, recuperaremos bem mais do que o tempo congelado: muito do respeito que quotidianamente reclamamos.
Termino, colegas desta tão nobre profissão, com a expressão sinceríssima da minha convicção mais profunda: sairemos vencedores. É apenas uma questão de tempo e de capacidade de sofrer.   Sigamos, pois — de cabeça erguida —, o nosso auspicioso rumo.

Sem comentários:

Enviar um comentário