terça-feira, 26 de junho de 2018

A Tiago Rodrigues, Mário Centeno e António Costa



Senhores Ministros,
Embora sem qualquer mandato para falar em nome dos docentes deste país, mas com sólido conhecimento resultante de trinta e três anos de salas de aula e de salas de professores — dez dos quais em constante vigília, devido a esta interminável luta que, infelizmente, temos sido obrigados a manter com o poder político — escrevo-lhes esta breve missiva para lhes transmitir uma férrea convicção: não vamos recuar.
Ao longo desta belígera década, já vi os mestres de Portugal erguerem-se muitas vezes e, infelizmente, também já os vi ceder, recuar, dobrar, encolher, desesperar e soçobrar em demasia. Conheço muito bem, na primeira e na terceira pessoas, os frutos do medo, as fragilidades da divisão, o gosto amargo da desilusão e a perseverança das tentações de desistência. Porém — posso afirmá-lo — nenhuma dessas brisas doentias varre, atualmente, o âmago das nossas escolas. O sentimento dominante é de uma determinação similar àquela que nos conduziu à gigantesca indignação de 2008, mas muito mais sólida, porque é menos romântica, mais consciente e, por isso mesmo, muito mais preparada para os delongados sofrimentos que a resiliência impõe. Não vamos recuar, Senhores Ministros!
“Todos” os Portugueses sofreram as corrosivas consequências da crise financeira e da consequente austeridade que foi imposta a Portugal. Como é óbvio, os funcionários do Estado não ficaram isentos desse doloroso esforço, bem pelo contrário. E entre eles estamos nós, os professores, a quem foram pedidos e exigidos esforços maiores e mais diversificados. Todos bebemos o fel mais amargo, muitos abandonaram a profissão, e alguns puseram mesmo termo à vida. Portanto, senhores ministros, não aceitamos, de ninguém, lições de generosidade nem de patriotismo. Nós temos sido a mais viva alegoria desses valores. A última década foi, para nós, um longo e doloroso quarto minguante. E é por isso, e por respeito próprio, que não abdicaremos da recuperação dos nove anos, quatro meses e dois dias mais negros da nossa exigentíssima carreira profissional. Não, nós não recuaremos, Senhores Ministros!
Estando o Governo de boa-fé (como diz), e reconhecendo a legitimidade das nossas reivindicações (como diz), não pode a conjuntural falta de dinheiro servir de argumento para se divorciar definitivamente dessa obrigação, seja no todo ou apenas em parte. Sendo legítima essa dívida, o Estado tem o dever de a saldar. Não tendo possibilidades de a suportar totalmente no imediato — circunstância facilmente entendível e aceitável — tem sempre a honrosa possibilidade de negociar o seu faseamento, que é a nossa exigência irredutível, a condição sine qua non para pormos termo a esta determinadíssima greve. Compete, pois, ao Governo definir o término desta irreversível forma de luta. No instante em que decidir negociar o negociável, nós retomaremos todas as nossas funções e devolveremos toda a normalidade ao sistema de ensino. Enquanto não formos respeitados como merecemos, não cederemos! Não cederemos, Senhores Ministros da Nação!

4 comentários:

  1. Bonito! Mas já estamos a ceder - e mais uma vez quem nos representa, nos trai.

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    1. Apesar das vicissitudes, saibamos resistir, fiquemos no nosso posto a lutar!

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  2. As declarações de Leitão e depois de Costa uma vez a apontar a antecipação da aposentação para a saída da crise, assim como o silêncio na net de alguns militantes do PS que conheço a penar em Juntas Médicas que poderão beneficiar com medida, faz-me pensar que em breve poderá ser moeda de troca. Mas como diz Paulo Guinote "Uma refeição suculenta que está no meio de uma estrada movimentada." A luta não deve parar!

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    1. É claro que não!!! Não é com rebuçados atirados para o ar que nos vão enganar!

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