terça-feira, 15 de maio de 2018

No coração de Lisboa, a alma de Portugal


Imagem retirada daqui

No pretérito dia 11 de novembro — quatro dias antes de uma greve que qualifiquei como crucial, porque, mais do que a recuperação do tempo de serviço congelado, estava em causa o respeito que pretendemos resgatar — escrevi a todos os meus colegas uma carta. Infelizmente, tive razão no que disse: a adesão não foi arrasadora (longe disso), e, por isso, ninguém nos tratou com respeito. E sempre assim será, enquanto permitirmos que nos dividam, nos enfraqueçam e nos anulem. Sempre assim será (é já uma incontestável evidência).
Multiplicam-se e avolumam-se as críticas contra os sindicatos e as ações tendentes a desvalorizar e a enfraquecer a sua ação reivindicativa e mobilizadora. E, por incrível que pareça, não é apenas de fora que elas vêm, é também de dentro, do âmago do corpo docente, umas por geração espontânea e outras resultantes de esperanças e compromissos com interesses alheios ao coletivo. Contudo, sem os sindicatos — com todos os defeitos que possam ter — nós, atualmente e num futuro próximo, não valemos absolutamente nada enquanto grupo reivindicativo. Sem os sindicatos, somos autênticas ovelhas em altar de sacrifício. Acreditai, caros colegas, os sindicatos — com todos os defeitos que possam ter — são, para nós, os melhores sindicatos do mundo, simplesmente porque são a nossa única defesa válida, a nossa única firewall. Ninguém mais nos defende, ninguém mais está em condições reais de nos defender. É esta a nossa verdade, e é com ela que temos de sobreviver.
Se não nos unirmos em torno dos sindicatos, se não respondermos em uníssono ao seu clarim, se não dermos força à sua voz, como vamos unir-nos? O que vai ser de nós? Podemos ter fé numa epifania súbita dos políticos que temos? Podemos sequer esperar que eles venham a terreiro defender-nos, quando somos barbaramente agredidos dentro e fora da sala de aula, dentro e fora da escola? Podemos contar com uma epifania súbita dos diretores? Podemos sequer esperar que eles não sejam os primeiros a abafar a nossa voz indignada, explorada, ferida, humilhada, cansada… exaurida? Podemos esperar uma epifania de todos aqueles que, a dedo, foram colocados na eficiente cadeia de imposições, sujeições e subserviências que é o atual regime de gestão? Podemos sequer esperar que, nessa autêntica cadeia de produção de medo, alguma voz solidária se junte a uma voz solitária capaz de dizer “NÃO!”? Podemos creditar que, subitamente, ou em tempo útil, outra qualquer organização vai emergir, agregar, crescer, fortalecer e… fazer explodir esta situação? Podemos sequer esperar que, em tempo útil, uma tal organização possa, ao menos, nascer com condições para se afirmar? Podemos ter fé numa epifania daqueles que nunca ousaram agitar, levantar, mover, reunir… revoltar? Com quem podemos, então, contar?
Como disse, em tempo oportuno, a dita “Iniciativa legislativa de cidadãos para recuperar todo o tempo de serviço docente” — embora não fosse esse o seu propósito, pelo menos o de todos os seus subscritores — poderia (e ainda poderá) ter um efeito nocivo na mobilização para a manifestação do próximo dia 19. Involuntariamente — acredito — acabou mesmo por superlativar uma certa hostilidade latente contra os sindicatos. E, subitamente, fez recrudescer a ilusão de que poderíamos “contorná-los” (o que, implícita e perversamente, implica considerá-los como forças de inércia ou de bloqueio) e obrigar os políticos, os nossos políticos, a aprovarem algo que não querem mesmo aprovar. Não quem mesmo! Porquê? Porque sabem que estamos desunidos, divididos, encolhidos… Porque nos veem fracos, tendentes a amouchar. Porque neste Portugal sem escrúpulos, é o banco dos fracos que acaba sempre por quebrar.  
Todavia… a “Iniciativa Legislativa” não chegará a esse ponto. Diz-me o meu olhar que não atingirá, em tempo útil, as assinaturas necessárias para forçar a entrada no Parlamento. Se não foi capaz de empolgar os professores na sua eclosão, apesar de todas as dinâmicas geradas à sua volta, tal já não acontecerá, no atual contexto. Só um facto imprevisível e deveras impactante poderia alterar o que, infelizmente, se prevê. E creio que os seus proponentes — todos mais sagazes, mais informados e mais inteligentes do que eu — já terão consciência desse previsível desfecho. Espero estar rotundamente equivocado!
Por tudo isto, caros colegas, unamo-nos todos em torno daqueles que, há muito, nos representam e nos defendem. Levemos todos os nossos corações ao coração de Lisboa, no próximo sábado! Façamos de Lisboa, novamente, o nosso coração coletivo! Que a Capital não seja apenas o lugar onde nos vamos reunir para reclamar o que é nosso, por direito! Façamos da Capital a tábula da nossa união, o gineceu do nosso tão merecido respeito! Podeis crer, colegas: só em Lisboa nos erguemos, só em Lisboa nos voltaremos a erguer!

3 comentários:

  1. Como sempre, a tua visão lúcida e certeira sobre os nossos reais problemas num excelente artigo.

    Vou partilhar... e lá estaremos :)

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  2. Lá estaremos! E teremos as 20 mil em tempo útil.

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