sexta-feira, 4 de maio de 2018

Dia de sol


Imagem retirada daqui.

Vou contar-vos um segredo que ainda não contei a ninguém. Todos sabem que foi roubado, do céu, o Sol, mas não se sabe quem. Pois… fui eu que o tirei.
Namorei-o muitas vezes, longamente, durante muitos dias. Cheguei até a pensar fazer uma escada gigantesca com todas as minhas poesias para lhe tocar. Mas… nem chegaram para me aproximar. O Sol é… coisa de muitas alturas. Lá no alto, ninguém o pode alcançar!
Pensei, repensei e voltei a pensar. Tinha de arranjar estatura para o caçar! Mas como?
Certa noite, não preguei olho de tanto matutar. E foi então que o vi, lá longe, sobre um peito de planura a acordar. Estava mesmo à mão de semear. Dali… quem quer o podia agarrar.
Ao outro dia, antes do romper da aurora, plantei-me no cimo da colina, à espera de o ver chegar. E ele não se fez esperar. Quase logo, o loiro redondinho abriu os olhos e bocejou. Deitei-lhe logo a mão e escondi-o no bolso da camisa, debaixo da camisola de lã, bem quietinho, para ninguém perceber! Nem chegou a ser manhã. E nunca mais amanheceu.
Toda gente, hoje, se queixa que é sempre noite no céu, mas ninguém sabe a verdade: que o único culpado sou eu. Devolvê-lo? Não posso! Porque não? Não sei bem porquê. Talvez ele me tenha sentido tão garboso e tão satisfeito com ele tão juntinho a mim, que se aninhou — sem eu dar conta — num cantinho escuro do meu peito. Agora tenho-o no coração, e… só brilha para mim! Cá dentro, é sempre sol radioso e azul perfeito!

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