domingo, 20 de maio de 2018

942 - SOS




É um título que dispensa apresentações: uma reivindicação que, num país mais justo e menos desigual, jamais precisaria de assumir tal estatuto. Deveria, por isso mesmo, ser uma causa absolutamente agregadora e unificadora, mas, infelizmente, não é.
Não acredito que haja professores que não considerem esta reivindicação mais do que justa. Não acredito que haja professores que não queiram recuperar este tempo de serviço, assegurado com tantos sacrifícios (alguns pagos com a própria vida). Alguns podem não acreditar, de todo, na sua recuperação; alguns (como é o meu caso) podem estar na disposição de aceitar a conversão desse tempo numa bonificação da contagem do tempo para a reforma; alguns (como é o caso dos colegas da ILC) podem acreditar mais em iniciativas diferentes das tradicionais, mas… todos — estou plenamente convicto — queremos basicamente o mesmo: aquilo que é nosso, por direito. Portanto, não compreendo por que razão estamos tão desmobilizados, tão divididos e tão fundamentalistas na defesa dos estandartes que decidimos erguer.
É normal termos opiniões divergentes relativamente à municipalização, à flexibilidade, ao fim das retenções, ao regime de gestão… mas é absolutamente, tristemente, desoladoramente incompreensível que estejamos tão divididos, tão alheados e tão indiferentes numa causa como esta, que a todos interessa, que todos prejudica de forma tão contundente. Se uma causa tão justa não nos mobilizou a todos, se uma causa tão aglutinadora não levou a Lisboa o CORPO INTEIRO, então…
Às petições e às iniciativas legislativas, respondemos com a nossa assinatura. É assim que formalizamos a nossa concordância e o nosso envolvimento ativo. Ninguém nos pede, nem nos exige, militância propagandística. É do número de assinaturas que vivem essa vias da cidadania ativa. Às manifestações, respondemos não com assinaturas nem com palavras de apoio, mas com a nossa presença. É do número de manifestantes que vivem as manifestações. Não ir a uma manifestação é como não subscrever (preto no branco) um abaixo-assinado, é como não assinar uma petição ou uma iniciativa legislativa. Se todos assim procedêssemos, ficariam os nossos representantes sindicais a gritar palavras de ordem para os agentes policiais de serviço à debandada. Aos olhos de todos — os de dentro e os de fora — o corpo de uma manifestação representa a dimensão do descontentamento e do caráter de quem decidiu erguer-se para reclamar os seus direitos sonegados.
Coerente com o que disse nos parágrafos precedentes, reconheço à dita blogosfera docente — refiro-me à mais frequentada, àquela que mais influência granjeou no nosso universo profissional — o direito de não se ter empenhado mais ativamente na promoção da manifestação convocada para o dia de ontem, quedando-se por algumas notas de circunstância. No entanto, constato com pesar que proliferam agora as notícias sobre a escassa cobertura mediática do evento. Como podemos nós censurar a comunicação social por não dar à manifestação de professores a importância que nós próprios, os mais interessados, não soubemos dar, de forma arrasadora?
Reservo as últimas linhas para os devidos agradecimentos aos sindicatos, por se terem unido nesta causa, uma manifestação que foi um exemplo de civismo, de convivialidade e de organização. Aos muitos milhares de colegas que, com os sacrifícios que todos conhecem, percorreram o país para serem células do gigantesco corpo que se formou, do Marquês ao Rossio, para defenderem também os interesses dos que optaram pela indiferença ou pelo comodismo, o meu cingido abraço, O MEU COMOVIDO ORGULHO!   

8 comentários:

  1. Guerreamo-nos uns aos outros com conivência de poderes instalados. Não vamos contribuir mais que o nevoeiro nos dívida. Falta a consequência do esforço de todos com a continuação da luta ainda este ano letivo.

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  2. Tens toda a razão, Duilio. Todavia, o nosso problema não está no facto de termos opiniões diferentes (o pluralismo e a divergência são saudáveis), o nosso problema é não sermos militantes disciplinados nos momentos em que somos chamados para a luta, seja na forma de um abaixo-assinado, seja na forma de uma greve, seja na forma de uma manifestação... É nesses momentos fulcrais que temos de saber dizer "Presente!".

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  3. Totalmente de acordo parabéns pelo texto. Como é que é possível só 50000 mil (pouco mais de 1/3 de professores) na manifestação? Será que 2/3 dos professores acha isto justo? E já agora que os sindicatos prolonguem os acertos até 2023...Nós quando não pagamos no prazo,levamos logo multa! Eles nem multa, nem juros...nem o que devem...

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    1. Muito obrigado pelas palavras de apreço! Foi uma manifestação muito significativa, mas também é verdade que havia condições para ser demolidora. Enquanto classe docente, devíamos também neste campo ser exemplo.

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  4. Olha, o teu texto deixou-me comovida. Tens toda a razão. E levo-o, ok?

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    1. Muito obrigado pelas palavras e pela partilha do texto, Anabela!

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  5. Quer-se dizer... levaria se o conseguisse copiar... :(

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  6. Contigo, sempre farei discriminação positiva. O texto já mora na tua caixa de correio eletrónico.

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