sábado, 21 de abril de 2018

O meu doentio jogo de espelhos




Uma década de resistência, a tempo (quase) inteiro, deixa sempre muitas marcas. É inevitável. No meu caso, desenvolveu-se-me uma paranoia tão grande e tão completa, que já é ela que vê por mim. Portanto, caros leitores, não confundam com a realidade o que vão ler nos parágrafos seguintes. São alucinações minhas.
Com tamanha paranoia, ninguém estranhará (nem eu próprio) que a blogosfera docente se me afigure, presentemente, como um autêntico jogo de espelhos. É, para mim, extremamente difícil discernir com alguma lucidez, ainda que mínima. Até me parece que nada é o que parece (passo o pleonasmo). Depois… vejo coisas que mais ninguém vê. Está na cara que o vesgo sou eu. Paciência!  
Sinceramente (sinceridade doentia, pois claro), já não sei distinguir quem põe, realmente, a causa da Escola Pública e da classe docente acima das suas ambições, dos seus interesses pessoais, da sua notoriedadezinha, do seu protagonismo, da sua razão… Vejo pouca gente capaz de saber arriscar e de perder, em prol de um bem maior do que o seu. Parece-me (PARECE-ME) que, em muitos cérebros, pesa muito mais o ganho de provar que tiveram e têm razão do que o verdadeiro benefício coletivo. Talvez porque, na verdade, seja mesmo esse o primeiríssimo estandarte da sua luta (ainda que inconsciente). Na hora H, esses cérebros ficam na tribuna a exibir os interstícios da sua orgulhosa razão e a apontar incoerências, insuficiências e incompetências (frequentemente, às únicas organizações que nos podem defender, mal ou bem). Desnudá-las na praça pública (com o custo do enfraquecimento ou anulação do nosso protesto) é um imperativo que a razão, egocentricamente, lhes impõe.
Caso algo diferente (para muito pior) é o de quem, realmente (na minha paranoia, claro), anda a fazer jogo duplo. Na verdade, trata-se gente que serve um Senhor, mas que quer parecer servir todos os senhores e todas as senhoras, todos os meninos e meninas da grandiosa roda do ensino. Quando apertados, esses cavaleiros das concórdias transformam-se em paladinos da luta da classe, e até mandam uns "bitaites" contra quem realmente servem (areia). E a prole, crente e confiante, vai toda atrás. Depois, aos pouquinhos, com habilidade, deixam serenar as coisas e conduzem o rebanho para onde querem (na minha disfunção visual, claro!).
Quando, no fim de uma conversa “esquisita”, fico sem saber o que o meu interlocutor realmente pretendia transmitir-me — ou porque foi muito sinuoso ou demasiado hermético para a minha pequena ervilha cerebral — eu faço, por norma, a decantação do colóquio. Uma vez que não descodifiquei a teia de mensagens, procuro um significado naquilo que essa pessoa me fez sentir: inveja, incapacidade, culpa, vergonha, inferioridade… De seguida, com mais ou menos tempo de ignição, é costume as palavras ficarem mais iluminadas.
É este método que recomendo aos meus leitores. Neste autêntico labirinto de espelhos, onde é extremamente difícil (mesmo para quem tem olho clínico) distinguir quem é quem, usem o método deste paranoico incurável: desviem o olhar das teias discursivas (autênticas sucatas de palavras) e foquem as retinas nos resultados; avaliem os arautos e os paladinos, não pelo que dizem, mas pelo que fazem realmente, quando chega a hora H. Onde estão? Apelam ao levantamento, fecham-se no silêncio, quando toca a reunir, ou falam do sexo dos anjos? As suas palavras e as suas iniciativas (ainda que deslumbrantes) unem ou desunem? Dão força, ou enfraquecem a nossa luta? Apelam realmente ao levantamento, à indignação, à firme ação reivindicativa, ou geram em nós uma lenta, mas progressiva, noção de inevitabilidade, de irreversibilidade, de acomodação, de resignação… de verdadeira rendição?
E “prontes”, já estou novamente a ver elfos, duendes, sereias, minotauros, unicórnios… Olha ali um moinho que é um castelo de fadas...!

5 comentários:

  1. Li com atenção e compreendo as tuas dúvidas. Também eu as partilho e não compreendo se só haverá segundas intenções, quando
    Já desconfio de terceiras.

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  2. Não havia necessidade do ostracismo a que condenaram a iniciativa (só lhe vieram a dar mais publicidade e a iniciar uma guerra entre professores). A dificuldade do registo na plataforma AR e confirmação fariam o trabalho de a inviabilizar. Assim perdem mais alguns sócios e comprometem a manifestação de maio. Mas depois do que me aconteceu e pelo que sei dos bastidores já pouco me admira..Infelizmente perdemos todos.

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  3. Caro anónimo, começo por esclarecer que não represento (nem quero representar) nenhum sindicato. Já regressei, aliás, regressar à condição de professor não sindicalizado. Quanto à divisão de que fala (que eu corroboro, dado que foi precisamente por isso que escrevi este artigo) e ao enfraquecimento das nossas ações de protesto, não se fique por uma leitura simplista e parcial (culpar só os sindicatos).Pense também, por uma questão de rigor intelectual, na ação que motivou esta divisão que constata. Perca alguns minutos a praticar o método que sugeri no antepenúltimo parágrafo.

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    1. Eu também não gostei da reação dos sindicatos à minha proposta de troca do "tempo congelado" por uma bonificação na contagem do tempo para a reforma (acho que não querem que os professores tomem iniciativas). Todavia, por uma questão de disciplina e pelo superior interesse de toda a classe, não só fiz greve (2 dias) como também apelei ao envolvimento de todos nessa ação de luta, coisa que muita gente (com visibilidade) ignorou deliberadamente.

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  4. A pergunta do nosso saudoso Baptista-Bastos (sobre o 25 de Abril), é "fatal", Duilio.

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