segunda-feira, 16 de abril de 2018

Do antissenexismo


A caravana do discurso sobre os malefícios do envelhecimento da classe docente vai cheia. É um corso muito heterogéneo, que integra muita gente isenta, bem-intencionada, mas também conta com muitos mal-intencionados, gente com segundos e terceiros propósitos, que procura surfar essa onda para atingir outros fins: atiçar o “antissenexismo” (fabriquei a palavra) contra a classe docente.
É um facto que a classe docente está a envelhecer, como… estão a envelhecer outras classes e grupos profissionais, como está a envelhecer a população portuguesa em geral. Para além da fraca natalidade (que não se reflete apenas nos alunos) ainda há que contar com finanças fracas e com o aumento progressivo da idade da reforma, algo que é transversal a todas as profissões. Porquê, então, tanta ênfase no discurso sobre envelhecimento dos professores e tanta perpetuação do tema, que, ciclicamente, volta à ribalta?
Muitos professores fazem eco deste filão mediático, acreditando estar chamar a atenção para a necessidade urgente de renovação do corpo docente. Embora estejam conscientes de que tudo isso, a curto prazo, é uma miragem, fazem-no como quem lança uma garrafa ao mar. Compreendo. É o grupo bem-intencionado deste imenso cortejo. Porém, mais não fazem do que dar corpo e força à minoria insidiosa, que pretende, por esta via (alvejando os “mais velhos”), atingir os professores em geral. Por que estandarte pugnam, então, estes franco-atiradores?  
Nesta animada caravana do discurso sobre os malefícios do envelhecimento da classe docente, à boleia de muitos ingénuos, fazem festa aqueles que, aleivosamente, pretendem continuar a lançar anátemas sobre os professores, aqueles que pretendem reduzir a Escola Pública a uma espécie de serviços mínimos de educação e instrução, a custo mínimo e com máximo sucesso administrativo. À boleia desse discurso, fomenta-se o “antissenexismo” contra os professores. É uma cinzenta teia de desfavores: o envelhecimento da classe surge associado às baixas médicas, à resistência à mudança, a métodos de ensino ultrapassados, a uma escola retrógrada, à desmotivação dos alunos, ao insucesso… Enfim, subjacente a todo este pérfido discurso, está a culpabilização implícita dos professores mais velhos por muitos dos males de que — dizem — a Escola Pública sofre. É uma infâmia, é um crime contra todo um grupo profissional. Trata-se de uma infâmia, porque é uma gigantesca mentira, um inominável logro.
Sei que os apóstolos do século XXI sonham com um oásis povoado de professores novinhos, muito precários, muito amarrados e condicionados, muito dependentes, muito obedientes… para manipularem, a seu bel-prazer, em absoluto, a forma e o conteúdo da educação e do ensino; sei que sonham com um corpo de aplicadores de conteúdos, executores reduzidos ao grau zero da docência. É caso para dizer, com alguma ironia: ainda bem que que as finanças vão mal!
É este o corrosivo corso do discurso sobre os malefícios do envelhecimento da classe docente. Só quem é muito ingénuo e quem não percebe absolutamente nada de educação é que se junta a esta procissão de vozes promovida pelos mais acérrimos inimigos da Escola Pública.


PS - Alterei para "antissenexismo" o neologismo criado, por entender que esta é a forma mais adequada ao conceito que pretendo transmitir.


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