segunda-feira, 5 de março de 2018

Presunção, estupidez e cegueira


Operários - Tarsila do Amaral

Frequentemente, deixamo-nos enredar na infindável parafernália de minudências em que os nossos afazeres, os nossos dias e a nossa vida, pessoal ou profissional, se transforma. De vez em quando, precisamos de um certo distanciamento, de um olhar simplificador que nos permita ver apenas o essencial, para não perdermos definitivamente a nossa Estrela Polar. É o que, modestamente, proponho fazer no parágrafo seguinte.
Os nossos políticos da Educação — por norma, gente paraquedista, alheia ao quotidiano escolar — nos últimos anos (há mais de uma década) “reformaram” tanto e tantas vezes, que transformaram o ensino num “espaço” inóspito para os professores. Dos que conheço pessoalmente e daqueles cuja opinião e cujo sentir, em todo o território nacional, vou auscultando diariamente, são muito raros os que gostam daquilo em que a Escola se transformou e continua a transformar; são muito raros aqueles que não estão saturados desta coisa desregulada e amorfa em que o quotidiano pedagógico se transformou e continua a transformar; são muito poucos — em todas as faixas etárias — os que não desejam realmente, intrinsecamente, abandonar a profissão ou antecipar a reforma.
É este o paupérrimo e revelador “estado da arte” no presente em que vivemos. É esta a inevitável consequência de tudo quanto os nossos omniscientes e omnipotentes políticos têm imposto aos professores. Mas mais revelador ainda — triste, preocupante e assustadoramente revelador — é vermos os políticos porfiarem na sua presunçosa e inexorável caminhada iluminista, achando que quem tem de mudar são os professores.
Qualquer criança, do primeiro ciclo, saberia dar a resposta certa.

4 comentários:

  1. Luís, sábias palavras... escrita serena, sentida e vivenciada. Já tinha saudades... o desânimo, cansaço e escuridão tomou, de mansinho, as salas de professores... nada foi tomado por assalto ou por tirania... mas "carneiram" uma arte e amordaçaram, de forma congelada, os restantes!
    E para quando outro livro.... Que a escrita permaneça o espaço de livres pensamentos e imaginação. Bjo Felicia

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    1. Saudades recíprocas, Felícia. Tenho muitos escritos na gaveta. Há, por ali, livros a levedar. Não sei para quando. Estou cada vez mais esmagado pelo trabalho escolar (a realização profissional é inversa). Gostaria de deixar o ensino, mas não consigo.

      Obrigado pelas palavras-orvalho!

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  2. "Ariana Cosme e Rui Trindade, professores universitários, são dois dos sete consultores-assessores do Projeto de Autonomia e Flexibilidade Curricular, experiência-piloto que está em curso em 230 agrupamentos, e que permite uma nova organização curricular. Fundir disciplinas, acabar com os testes, apostar em projetos interdisciplinares são algumas possibilidades deste modelo. O desafio é pensar a escola de uma outra forma." Sara Oliveira - Educare.pt

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    1. Ainda bem que alguém nos vai tirar as cataratas, porque nós, os professores, precisamos de varas às riscas e de cães treinados. Eu acho que já não tenho cura pedagógica. As minhas cataratas são mais fortes do as do Niágara.

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