sexta-feira, 9 de março de 2018

Por favor, acobardem-se!




No ano passado, preenchi uma das minhas tardes sem componente letiva com aulas em regime de voluntariado. Quem me acompanha, presencialmente e neste mundo virtual, tem disso conhecimento, porque já abordei esse assunto diversas vezes. São horas que recordo com saudade, pois sempre me proporcionaram muito prazer de ensinar. Hoje, apesar DE TUDO, voltaria a pisar,  com o mesmo prazer, os mesmos trilhos.
Dei o equivalente a mais de um mês de aulas, um mês inteirinho. No entanto — miséria das misérias — saí dessa escola com uma falta injustificada, relativa a um dia em que estive na escola toda a manhã e toda a tarde (o motivo, creio eu, é sobejamente conhecido). Mas é uma “mancha” — uma mancha imerecida no meu currículo — que me vai acompanhar até ao final da carreira, prejudicando-me constantemente. Ainda há dias tive “nova consciência” de tal facto, quando, como todos os meus pares, validei os meus dados no SIGRHE. Lá estava o buraco negro. Apesar disso (e de outras baixezas associadas a este facto), voltaria a dar a cara por outro colega ou outra colega que fossem barbaramente agredidos. Apesar de ter já um interessante cadastro de castigos imerecidos (todos em nome de outrem), voltaria a repetir os mesmos atos. Sou estupidamente incorrigível e incorrigivelmente estúpido!
Foi este o bom pretexto que eu dei a alguém para se vingar de eu ser quem sou e como sou. É esse o preço que muita gente não está disposta a pagar. O silêncio é muito mais compensador. Por isso, caros colegas, tenham medo, muito medo! Resignem-se, cumpram, obedeçam, calem-se, acobardem-se e sejam bons serviçais, porque é essa a postura que compensa, é essa a postura que nos conduzirá ao respeito coletivo e à retoma dos nossos direitos (e talvez a futuras progressões na carreira, as que têm numerus clausus). Os outros valores estão a preços exorbitantes. Só gente extravagantemente estúpida é que cai na asneira de os exercer.

6 comentários:

  1. Gosto de ti assim! Um orgulho ter-te como Amigo! Beijo enorme

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  2. Totalmente correspondida, confiável amiga!
    Abraço

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  3. É engraçado como te "perco" e reencontro ao sabor de passeios blogosféricos casuais... é capaz de ser um sinal... afinal de contas é fácil reconhecer-te... cheguei ao blogue a partir de um comentário no Guinote e lá para o final deste texto dei comigo a pensar... hummmm isto é de lavra conhecida... quando acabei de ler e vi o autor, só confirmei o que já antecipava :) Como não poderia deixar de ser é um texto em que me revejo completamente... tal como tu, eu jamais ficarei em silêncio, simplesmente não sou capaz :) só acho que não perco nada com isso, pelo contrário, sinto-me lindamente assim, confesso que morreria profissionalmente se deixasse de enfrentar tiranias e injustiças!
    Grande abraço!!!

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  4. Eu sou assim, Ricardo! :) Sempre em transmutação para continuar igual a mim mesmo e... sobreviver nesta eterna luta. Contudo, quando soam as trombetas, estou sempre na linha da frente.

    Reencontrar-te é uma enorme satisfação. Vê lá se aguentas ESTE ABRAÇO!

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  5. Há 35 anos também eu adquiri um buraco negro. Fazer frente a um inspetor valeu-me a distinção.
    Saí 15 m mais cedo no tempo do horário duplo e do isolamento em escolas do primeiro ciclo. Não fui ao beija mão, por considerar que não havia luz suficiente e a eletricidade falhou e portanto
    a justificação era suficiente.

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    1. Embora compreenda a tua posição, devo dizer que são situações diferentes: eu passei na escola o dobro do tempo a que a minha componente letiva me obrigava. Apesar de saber que foi por solidariedade profissional e humana, jamais a direção me perguntou se queria repor as aulas (aulas que, apesar de tudo, eu repus e repus e voltei a repor...). Quiseram castigar-me e intimidar ainda mais aqueles que já me tinham deixado só, depois de assinarem um documento que os comprometia a fazerem o mesmo que eu fiz. Eram 39.

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