quinta-feira, 8 de março de 2018

Felícia




No início era o Verbo... no início era um ser unicelular… Não, no início… era a Felícia.
A Felícia era uma planta carnuda de grande porte. Tinha um enorme caule acastanhado, com alguns espinhos, e amplas folhas longitudinais. No cimo, uma exuberante flor azul, cujas pétalas aveludadas pareciam querer abraçar o céu. Era o ser essencial, pois todos os entes da Terra dela dependiam. A Felícia era eterna, e era a eterna mãe da Primavera. Quando toda a Natureza adormecia, enquanto tudo na Terra dormia, no gineceu da flor da Felícia já a Primavera estava em gestação. Depois… toda ela sorria, e dava à luz a esplendorosa Estação.
Um dia, não se sabe por que mistério — se foi um dilúvio, se uma gigantesca convulsão da Terra ou outro fenómeno qualquer — a flor da Felícia foi separada do seu pedúnculo e levada para longe, para muito longe do lugar onde sempre fora e sempre estivera. Durante muitos milénios, a Terra empalideceu: não voltou a ser Primavera. Porém, era eterna a Felícia, e nos seus genes estava o irreversível destino da vida.
Muitos trilhos desfiou o firmamento, muitos rodopios dançou a Terra em torno do Sol, incontáveis alores que a Lua deu… e a carnuda planta, a eterna e aveludada flor… fadadas para a união, foram ganhando humana forma, foram-se libertando do chão. E o inevitável mistério aconteceu: Ele (o caule), Ela (a flor), uma eternidade depois, reencontraram-se, e voltaram a ser a Felícia que sempre haviam sido. Após tanto tempo volvido, o milagre da Primavera reaconteceu. E toda a Terra, todo o mundo, desadormeceu do Tempo infecundo.
Uns dizem que foi Deus, outros espontânea geração. Os poetas... não concordam, e têm razão. No início, era a Felícia, e ainda hoje é assim. Por isso as mulheres gostam de flores, por isso são delicadas e aveludas como flores, e os homens… são como são. E a Primavera só existe porque a flor e o caule são um e sempre, em união. Esta é a Poética Verdade, sem qualquer contestação.

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