domingo, 4 de março de 2018

As nossas verdades




Paulatinamente… vamos fazendo as nossas verdades, os nossos faróis, as nossas âncoras, o nosso porto seguro, a nossa terra firme… o nosso ventre perfeito.
Nas nossas verdades  — doces colmeias onde nos encerramos — há um mundo coerente onde nos amuralhamos e nos tornamos senhores absolutos. Das retinas das nossas verdades, vemos os outros mundos, lemos os outros mundos, sabemos os outros. Todos fazem sentido, todos são catalogáveis, rotuláveis e… facilmente redutíveis às nossas céleres verdades: nelas os erguemos, nelas os glorificamos, nelas os entronizamos, nelas os endeusamos, os tornamos imprescindíveis, parte de nós… mas também nelas os apontamos, os acusamos, os condenamos… quase sempre à revelia, sem contraditório e sem direito a defesa. As nossas verdades são a Verdade, dispensam contraditórios inúteis. No Tribunal das nossas verdades, somos implacáveis juízes: discriminamos, marginalizamos, ostracizamos, degredamos, executamos e… até matamos com vida. As nossas verdades são o nosso verdadeiro mundo. E o verdadeiro mundo, o mundo, cabe todo nas nossas divinas verdades.
Todos nos encerramos nas bolhas que são as nossas verdades, como deuses num pequeno universo de onde se vê e se lê, como em bola de cristal, todo o universo de bolhas que nos rodeiam, as bolhas onde estão encerrados todos outros deuses tão omniscientes como nós. Porém, vivemos sós, todos sós. E não somos senhores das nossas verdades, somos seus cativos, seus eternos degredados.
As nossas verdades deviam ter portas brancas e janelas francas, corredores e salas de estar onde as outras verdades, livremente, pudessem entrar. As nossas verdades deviam casar continuamente. 

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