quinta-feira, 29 de março de 2018

Ao meu amigo Delfim




A primeira semana da primavera sempre foi, para mim, muito especial. Vários eventos familiares dourados, aos quais acrescentei o lançamento dos meus três rebentos literários, em anos consecutivos. Infelizmente, escrevi muito recentemente uma nota de cerrada negrura neste diário de cor e de luz (é a vida!) e um lembrete agridoce, por mor de um amigo que… há meses, decidiu partir.
O meu colega Delfim Peixoto foi, durante muito tempo, o único visitante do meu primeiro blogue: o Dardomeu. Sem a constante presença do Delfim, talvez o Dardomeu tivesse encerrado as portas pouco depois de nascer. As visitas diárias, então contadas com os dedos de uma mão, eram praticamente todas do Delfim, que comentava tudo o que eu publicava, nunca poupando as palavras que eram seiva e alor. Depois… o Dardomeu cresceu como cresceu… eu trouxe à tona outros blogues, e o Delfim foi ficando sempre, sempre… como um companheiro de estrada.
Como era, então, meu colega de escola — professor de música —, convidei-o para musicar o lançamento do meu primeiro romance, o Flor de Burel, na FNAC, dia 27 de março de 2009. Foi apenas a primeira de várias parcerias felizes, uma das quais na cidade que mais amo, onde — juntamente com a sua irmã e com a sua sobrinha, numa sala coroada com as telas do meu ilustre conterrâneo Nadir Afonso — me presenteou, de surpresa, com a sinfonia que mais me encanta: uma doçura de Bach. Ele sabia ser esse o som dos meus melhores tesouros da memória, o som dos meus momentos maiores, das minhas decisões mais importantes. Está, pois, guardado, na feérica galeria do inesquecível, o meu saudoso amigo Delfim Peixoto.
 Mudou de escola, um dia. Mais tarde, também eu mudei, duas vezes. Mas o nosso espaço habitual jamais mudou. Era por aqui que estávamos sempre em contacto, que íamos elogiando os poemas dados à luz — ele também poetava — e… aos poucos nos íamos conhecendo melhor, partilhando algumas intimidades… que foram com ele, e que também comigo irão, absolutamente incólumes.
Quis o destino que ele partisse muito pouco depois do meu afastamento da internet. É absolutamente certo que não há nenhuma relação entre os dois factos, mas… ficará sempre suspensa uma âncora que (quem sabe?) pudesse ter fundeado: uma palavra que pudesse ter sido uma mão firme capaz de segurar; uma palavra que pudesse deter o romper de um fio que definhava perigosamente; uma palavra que se pudesse ter transformado numa mesa de café, num desfiar de recordações, numa pequena brisa capaz de alentar uma chama decadente. Mas nenhuma amarra foi capaz de o reter no cais! Nenhuma amarra foi capaz!
Como eu andava, por essa altura, “longe de todos”, nas minhas serranias da solidão, só tardiamente soube da precoce partida do Delfim. Rezava-se já, no outro extremo da cidade, a missa que assinala o dia em que — dizem — Deus descansou, depois de fazer o mundo. Ironicamente, em mim, o Delfim acabou assim por viver mais sete dias. E está, por mim, condenado a renascer, em vários locais, sempre que dou colo ao Flor de Burel, ao Livro d’Água ou ao Alto-Relevo… sempre que ouço aquela brisa de Bach e… sempre que chega a primavera e me traz o tal regaço farto de momentos que a memória trata com sagrado afeto!
Até sempre, Delfim! Sabes que em outubro jamais te direi!

segunda-feira, 19 de março de 2018

Resolvi ir ver



Resolvi ir ver se está a chover em mim além, no lugar fronteiro ao lado de lá, ou seja, no lugar oposto ao oposto do lugar onde que me encontro. Não me parece ser uma constatação que exija muito tempo, mas sempre tem o seu quê. Enquanto não… dou folga ao meu pensamento, que me anda a doer que se farta. Talvez até arranje uma migalha cronológica para embriagar esta estúpida lucidez, que só me traz frustrações e voluntários ostracismos.
Enfim, vou ao cimo daquela montanha que fica defronte da montanha que tenho diante de mim, a ver se solto lá um uivo e me consigo ouvir aqui. Penso que me fiz… "estender"!

sexta-feira, 16 de março de 2018

Eles disseram silêncio




Eles disseram silêncio. E esse silêncio irmanou indistintamente. Sob o seu manto inerte, estiveram todos, e todos o silêncio amalgamou: os que sentei na galeria dos bons, os que sentei na galeria dos audazes, os que sentei na galeria dos independentes, os resistentes, os vendidos, os calculistas, os individualistas, os prepotentes, os castradores… Por estes dias, o silêncio a todos abraçou.
Não fosse o meu cérebro lupino — todo ele feito de instinto e coração — e ter-me-ia sentido um bandeirante idiota, agitando um estandarte esfarrapado, de um tempo deserdado, de um exército eternamente derrotado por maldição. Não fosse o meu cérebro selvagem — todo ele feito de instinto e coração — e ter-me-ia sentido um patriota apólida, defendendo um velho território desertado. Não fosse o meu cérebro lupino — todo ele feito de instinto e coração — e ter-me-ia sentido alma penada num purgatório agrilhoado. Não fosse meu cérebro lupino… e eu ter-me-ia sentido um jacobino sem revolução.
Eles disseram silêncio, e o seu silêncio foi apenas negridão.

Fiz a minha parte



Fiz a parte que me competia, não por imposição alheia, nem por simpatia, mas por imperativo de consciência. Continuo em paz com o espelho (meu ou alheio).
Solitário por vocação, gregário quando dobram os sinos. Sou assim, e sempre assim serei.

quinta-feira, 15 de março de 2018

Amanhã... a pronúncia do Norte



Amanhã, no seu último dia, a greve chega ao Norte. Não sei se foi seguido algum critério ou se se tratou de mera casualidade, sei apenas (e é quanto basta) que quis “o destino” que esta ação de luta terminasse para cá do Douro e do Marão, onde “mandam os que cá estão”.
Diz o povo — e com razão — que tudo está bem quando acaba bem. Seria, pois, excelente, para o impacto mediático, que a Gente do Norte encerrasse com chave “D’ouro” esta greve. Não podemos queixar-nos do dia marcado, porque (digam o que disserem) não poderia ser melhor. Também não poderemos queixar-nos da falta de um verdadeiro motivo, visto que, infelizmente, NÃO PODERIA SER PIOR. Podemos, é certo, ter uma ou outra reserva relativamente a estratégias, suposições, cansaços e desgastes, supostas instrumentalizações… mas nada disso, neste momento, é mais importante nem mais relevante para todos nós do que uma demonstração inequívoca da nossa disciplina, da nossa união e da nossa força. Mais certo do que tudo isto (e indesmentível) é o prolongado esbulho de que temos sido alvo, por parte de quem (des)manda; mais certa do que todas estas dúvidas e incertezas é a certeza de termos sido, sobretudo ao longo destes anos que nos pretendem sonegar, uma classe desautorizada, culpabilizada, humilhada, rebaixada… barbaramente violentada e explorada.
Colegas, os nove anos, quatro meses e dois dias que nos pretendem apagar não representam um tempo qualquer, um tempo normal, mas o pior período da nossa carreira, cerca de três mil e quatrocentas páginas de um diário que conta a noite mais longa e mais negra da História do Ensino em Portugal, uma noite cujo fim ainda tarda. Em honra dessa dorida negridão, mostremos orgulho, mostremos dignidade, FAÇAMOS LUTO AMANHÃ!


PS – Um abraço alado aos colegas dos Açores, que amanhã partilharão connosco esta gigantesca frente.

Não pode cair em saco roto



Há meia dúzia de dias, através do blogue Da Reitoria, tomei conhecimento deste comentário feito pelo editor de um dos “blogues docentes” mais populares, a propósito da conversão do tempo de serviço congelado numa bonificação na contagem do tempo para a reforma:
Trata-se de uma informação que chega ao detalhe de avançar um número, o que, de alguma forma, lhe acrescenta uns pozinhos de credibilidade (seja ela genuína ou não). Divulgada nas vésperas da greve, é óbvio que poderia ter tido (falta saber se teve ou não) um impacto muito negativo na adesão de muitos professores a esta forma de luta. Eu próprio o admito, pois também me apressei a escrever um artigo no qual pedi esclarecimentos urgentes aos sindicatos. E, se Mário Nogueira não tivesse sido tão claro nas declarações que fez à saída do Ministério, no dia 12, não estaria hoje de greve, como estou. Mais: teria apelado ao boicote, tal como afirmei num comentário feito no Facebook.
Considero, pois, que esta matéria não deve cair em saco roto. Alguém tem de esclarecer o que, de facto, aconteceu. Se os sindicatos consideram que tal informação é falsa, devem exigir retratação. Caso contrário, ficará sempre, no ar, sobre a transparência da sua conduta, essa nefanda e mui corrosiva suspeita.   

segunda-feira, 12 de março de 2018

Farei greve!




Pela intervenção de Mário Nogueira, em geral, e pelo que diz sobre as (im)possibilidades de conversão do “tempo congelado” em bonificação na contagem do tempo de serviço para a reforma, em particular,  manda a disciplina “militar” que me posicione na linha da frente da greve. Enterro, pois, durante este tempo de combate, o machado da contestação à frouxidão e à ansiedade negocial dos sindicatos. “Outro valor mais alto se levanta”.
Os sindicatos — como todos nós — têm os seus defeitos e as suas virtudes, mas não podemos cometer a maior das asneiras: abandonar a retaguarda. Perderemos em toda a linha. Sejamos “disciplinados” agora e contestemos depois, veementemente, o que, na nossa opinião, devemos contestar. 

domingo, 11 de março de 2018

A Fenprof já "respondeu"




O Secretariado Nacional da Fenprof publicou, esta tarde, na sua página da internet, uma nota informativa que pode ser considerada como resposta ao meu precedente artigo. Ainda que não tenha sido redigida com esse propósito (admito perfeitamente que não, como é óbvio), aceito-a como tal.
Como apenas há meia dúzia de minutos tomei conhecimento deste texto (acabo de chegar a casa, vindo do “meu mundo transmontano”), vou limitar-me, para já, a uma brevíssima reação, aquela que, de forma muito sumária, deixei, num comentário no Facebook, ao colega que me alertou para tal (Duilio Coelho).
É qualquer coisa, mas muito pouco, no meu entender. Ficámos a saber que houve uma proposta do Governo, mas falta conhecer o seu verdadeiro teor. Apenas temos a análise que a Fenprof fez dessa matéria. Por outro lado, não me agrada nada que os sindicatos decidam a priori ou que queiram saber melhor do que eu o que é melhor para mim e que decidam por mim (é claro que este "mim" se refere a todos os meus pares). Penso que os sindicatos servem para nos representar e não para nos ditarem a nossa vontade. Não acredito, de todo, que queiram chegar a esse ponto, mas às vezes pode parecer. Também compreendo perfeitamente que não queiram assinar o que entendem ser nocivo para os professores, mas não devem ocultar nada. Nesse caso, pode o Governo avançar uma proposta "direta", para quem a quiser subscrever, por sua conta e risco.
Se bem me lembro, alguém prometeu levar este assunto à mesa das negociações (não foi o Mário Nogueira, é verdade). Então...  

sábado, 10 de março de 2018

Espero um desmentido dos sindicatos




Consta que o Governo pegou na minha ideia — troca do tempo congelado por uma bonificação na contagem do tempo para a reforma — e fez uma proposta concreta aos sindicatos, que a terão recusado, sem ouvir os eventuais interessados, sem sequer veicular tal informação. É o que consta.
É URGENTE QUE OS SINDICATOS VENHAM A TERREIRO ESCLARECER ESTA MATÉRIA, confirmando ou desmentindo (esclarecendo). Penso que Mário Nogueira e João Dias da Silva percebem perfeitamente o que está em jogo, as dúvidas que tal informação semeia na mente de muitos docentes e a repercussão que isso pode ter na adesão a greve e não só. TEMOS DE SABER SE É VERDADE OU NÃO!
Relembro que sempre falei a título pessoal e que foi nessa condição que escrevi ao ministro da Educação e aos líderes sindicais. Mas também devo dizer que a adesão dos professores a essa ideia foi imediata e avassaladora. Se beneficia o Estado ou se beneficia o indivíduo, é, para mim, secundário. Cada um de nós, em consciência e em liberdade, deve poder decidir, se o Governo quiser oferecer essa possibilidade. Uma vez que tal medida jamais pode ser imposta ao coletivo (nunca foi esse o propósito) também não é admissível o contrário. 
Por tudo isto (e algo mais), espero um desmentido, URGENTEMENTE!

sexta-feira, 9 de março de 2018

Por favor, acobardem-se!




No ano passado, preenchi uma das minhas tardes sem componente letiva com aulas em regime de voluntariado. Quem me acompanha, presencialmente e neste mundo virtual, tem disso conhecimento, porque já abordei esse assunto diversas vezes. São horas que recordo com saudade, pois sempre me proporcionaram muito prazer de ensinar. Hoje, apesar DE TUDO, voltaria a pisar,  com o mesmo prazer, os mesmos trilhos.
Dei o equivalente a mais de um mês de aulas, um mês inteirinho. No entanto — miséria das misérias — saí dessa escola com uma falta injustificada, relativa a um dia em que estive na escola toda a manhã e toda a tarde (o motivo, creio eu, é sobejamente conhecido). Mas é uma “mancha” — uma mancha imerecida no meu currículo — que me vai acompanhar até ao final da carreira, prejudicando-me constantemente. Ainda há dias tive “nova consciência” de tal facto, quando, como todos os meus pares, validei os meus dados no SIGRHE. Lá estava o buraco negro. Apesar disso (e de outras baixezas associadas a este facto), voltaria a dar a cara por outro colega ou outra colega que fossem barbaramente agredidos. Apesar de ter já um interessante cadastro de castigos imerecidos (todos em nome de outrem), voltaria a repetir os mesmos atos. Sou estupidamente incorrigível e incorrigivelmente estúpido!
Foi este o bom pretexto que eu dei a alguém para se vingar de eu ser quem sou e como sou. É esse o preço que muita gente não está disposta a pagar. O silêncio é muito mais compensador. Por isso, caros colegas, tenham medo, muito medo! Resignem-se, cumpram, obedeçam, calem-se, acobardem-se e sejam bons serviçais, porque é essa a postura que compensa, é essa a postura que nos conduzirá ao respeito coletivo e à retoma dos nossos direitos (e talvez a futuras progressões na carreira, as que têm numerus clausus). Os outros valores estão a preços exorbitantes. Só gente extravagantemente estúpida é que cai na asneira de os exercer.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Felícia




No início era o Verbo... no início era um ser unicelular… Não, no início… era a Felícia.
A Felícia era uma planta carnuda de grande porte. Tinha um enorme caule acastanhado, com alguns espinhos, e amplas folhas longitudinais. No cimo, uma exuberante flor azul, cujas pétalas aveludadas pareciam querer abraçar o céu. Era o ser essencial, pois todos os entes da Terra dela dependiam. A Felícia era eterna, e era a eterna mãe da Primavera. Quando toda a Natureza adormecia, enquanto tudo na Terra dormia, no gineceu da flor da Felícia já a Primavera estava em gestação. Depois… toda ela sorria, e dava à luz a esplendorosa Estação.
Um dia, não se sabe por que mistério — se foi um dilúvio, se uma gigantesca convulsão da Terra ou outro fenómeno qualquer — a flor da Felícia foi separada do seu pedúnculo e levada para longe, para muito longe do lugar onde sempre fora e sempre estivera. Durante muitos milénios, a Terra empalideceu: não voltou a ser Primavera. Porém, era eterna a Felícia, e nos seus genes estava o irreversível destino da vida.
Muitos trilhos desfiou o firmamento, muitos rodopios dançou a Terra em torno do Sol, incontáveis alores que a Lua deu… e a carnuda planta, a eterna e aveludada flor… fadadas para a união, foram ganhando humana forma, foram-se libertando do chão. E o inevitável mistério aconteceu: Ele (o caule), Ela (a flor), uma eternidade depois, reencontraram-se, e voltaram a ser a Felícia que sempre haviam sido. Após tanto tempo volvido, o milagre da Primavera reaconteceu. E toda a Terra, todo o mundo, desadormeceu do Tempo infecundo.
Uns dizem que foi Deus, outros espontânea geração. Os poetas... não concordam, e têm razão. No início, era a Felícia, e ainda hoje é assim. Por isso as mulheres gostam de flores, por isso são delicadas e aveludas como flores, e os homens… são como são. E a Primavera só existe porque a flor e o caule são um e sempre, em união. Esta é a Poética Verdade, sem qualquer contestação.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Guterres, Crato e as suas sombras



Num artigo publicado no Observador, Nuno Crato arguiu contra uma afirmação de António Guterres, feita a propósito do seu recente doutoramento honoris causa (“o que hoje fundamentalmente interessa no sistema educativo não é o tipo de coisas que se aprendem, mas a possibilidade de aí se aprender a aprender”), concluindo que “aprender a aprender, em vez de aprender, é o caminho direto para nada aprender, nem sequer aprender a aprender”.
Esta decantada polémica, na qual se projectam sombras negras de Guterres e Crato, é responsável por um erro de décadas, que tem partido ao meio o que só unido pode dar certo. Com efeito, as alterações que o sistema de ensino tem sofrido caracterizam-se ciclicamente por uma divisão de natureza bipolar: ora se hipervalorizam as ciências da Educação, com desprezo pelo valor intrínseco do conhecimento, ora se hipervaloriza o conhecimento puro, com ignorância daquelas. Ora se centra tudo no declarative knowledge (conhecimento “declarativo“, teórico, baseado no estudo dos factos) ora apenas se considera o procedural knowledge (conhecimento “processual“, prático, mesmo que o actor o não saiba explicar, mas tenha “competências”).
Diz Crato, agora e bem, invocando uma das ciências a que outrora chamou “ocultas”, que “a psicologia cognitiva concluiu que as capacidades não podem ser adquiridas independentemente das matérias concretas estudadas”.
Quanto a Guterres, é de pasmar, para quem ainda for capaz de se deixar pasmar, a falta de memória da maioria, apagada pelos feitos internacionais do engenheiro. O gosto pelo diálogo, como forma de controlo dos erros governativos (são dele as primeiras “competências essenciais” e o “estudo acompanhado”), gerou uma lúdica imobilidade, que o levou da “paixão pela Educação” ao “pântano”, de que fugiu, deixando no trajecto, como descoberta sua, políticos (Sócrates e Armando Vara) que reinaram nos labirintos do poder como novos deuses de um Olimpo de subúrbio. Mas acerta agora, quando defende a necessidade de prover os alunos com a capacidade de gerir os seus próprios processos cognitivos, tornando-os aptos para escolherem os melhores métodos de aprender. É disto, afinal, que se ocupa a metacognição, de John Flavel.
Para a Educação, em geral, é tão redutor ignorar o papel e a importância da metacognição como menorizar a precedência do conhecimento factual relativamente ao conhecimento experimental.
Como provavelmente acontecerá com a maioria dos professores, estou farto deste assunto. E há uma boa razão para isso: é que o facto de até agora não ter sido possível enfiar pela goela dos professores de bom senso nenhuma destas posições extremadas, só prova que qualquer delas é por eles rejeitada.
Quanto mais tempo passarem, governos do meio, da direita ou da esquerda, a tentarem alinhar em carreiros separados o que é indissociável, maior será o equívoco de base e a dimensão do erro. Falo de uma espécie de golpe de estado pedagógico, alternado mas permanente, que coloca na clandestinidade os professores de bom senso, os que protegem os alunos, no dia-a-dia da sala de aula, de normativos fundamentalistas e de sequestros ideológicos.
Esta enorme perda de tempo, dinheiro e energias, convenientemente acompanhada por pancadaria verbal infindável, radica na preponderância, na política educacional, do proselitismo sem bases sobre o estudo fundamentado e do totalitarismo pedagógico por etapas sobre a ética e a deontologia docentes. Estas visões políticas, supostamente tendentes a apressarem o caminho do sucesso dos nossos jovens, mais não têm conseguido que moer o juízo dos seus professores.
Há décadas que bato neste teclado palavras para defender os professores daquilo de que ética e deontologicamente discordam e são obrigados a fazer. Falhada cada hipótese de mudança, sobrevém a próxima esperança. Porque o interesse livre dos alunos e dos professores vai sempre à frente do interesse de qualquer dicionário político que os pretenda aprisionar, por decreto, no capítulo das ideologias.
in Público, 07/03/2018

terça-feira, 6 de março de 2018

Ruído extremamente... disfuncional



Há cada vez mais ruído na blogosfera docente. Algum, especialmente agudo em determinadas ocasiões, é extravagantemente fraturante e particularmente inteligente, como o mais recente, o que fala do “mesmo conteúdo funcional” para justificar o mesmo salário para todos os professores, porque, segundo os propugnadores desta ideia, não faz sentido haver índices salariais diferentes para professores que “executam o mesmo conteúdo funcional”. Enfim!
A estes inteligentes eu pergunto: acham que, por exemplo, um professor de Educação Física e um professor de Português “executam o mesmo conteúdo funcional”? E fico por aqui.
Para que conste, apesar de muitos “apesares”, ainda vou preferindo as coisas como estão.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Presunção, estupidez e cegueira


Operários - Tarsila do Amaral

Frequentemente, deixamo-nos enredar na infindável parafernália de minudências em que os nossos afazeres, os nossos dias e a nossa vida, pessoal ou profissional, se transforma. De vez em quando, precisamos de um certo distanciamento, de um olhar simplificador que nos permita ver apenas o essencial, para não perdermos definitivamente a nossa Estrela Polar. É o que, modestamente, proponho fazer no parágrafo seguinte.
Os nossos políticos da Educação — por norma, gente paraquedista, alheia ao quotidiano escolar — nos últimos anos (há mais de uma década) “reformaram” tanto e tantas vezes, que transformaram o ensino num “espaço” inóspito para os professores. Dos que conheço pessoalmente e daqueles cuja opinião e cujo sentir, em todo o território nacional, vou auscultando diariamente, são muito raros os que gostam daquilo em que a Escola se transformou e continua a transformar; são muito raros aqueles que não estão saturados desta coisa desregulada e amorfa em que o quotidiano pedagógico se transformou e continua a transformar; são muito poucos — em todas as faixas etárias — os que não desejam realmente, intrinsecamente, abandonar a profissão ou antecipar a reforma.
É este o paupérrimo e revelador “estado da arte” no presente em que vivemos. É esta a inevitável consequência de tudo quanto os nossos omniscientes e omnipotentes políticos têm imposto aos professores. Mas mais revelador ainda — triste, preocupante e assustadoramente revelador — é vermos os políticos porfiarem na sua presunçosa e inexorável caminhada iluminista, achando que quem tem de mudar são os professores.
Qualquer criança, do primeiro ciclo, saberia dar a resposta certa.

domingo, 4 de março de 2018

As nossas verdades




Paulatinamente… vamos fazendo as nossas verdades, os nossos faróis, as nossas âncoras, o nosso porto seguro, a nossa terra firme… o nosso ventre perfeito.
Nas nossas verdades  — doces colmeias onde nos encerramos — há um mundo coerente onde nos amuralhamos e nos tornamos senhores absolutos. Das retinas das nossas verdades, vemos os outros mundos, lemos os outros mundos, sabemos os outros. Todos fazem sentido, todos são catalogáveis, rotuláveis e… facilmente redutíveis às nossas céleres verdades: nelas os erguemos, nelas os glorificamos, nelas os entronizamos, nelas os endeusamos, os tornamos imprescindíveis, parte de nós… mas também nelas os apontamos, os acusamos, os condenamos… quase sempre à revelia, sem contraditório e sem direito a defesa. As nossas verdades são a Verdade, dispensam contraditórios inúteis. No Tribunal das nossas verdades, somos implacáveis juízes: discriminamos, marginalizamos, ostracizamos, degredamos, executamos e… até matamos com vida. As nossas verdades são o nosso verdadeiro mundo. E o verdadeiro mundo, o mundo, cabe todo nas nossas divinas verdades.
Todos nos encerramos nas bolhas que são as nossas verdades, como deuses num pequeno universo de onde se vê e se lê, como em bola de cristal, todo o universo de bolhas que nos rodeiam, as bolhas onde estão encerrados todos outros deuses tão omniscientes como nós. Porém, vivemos sós, todos sós. E não somos senhores das nossas verdades, somos seus cativos, seus eternos degredados.
As nossas verdades deviam ter portas brancas e janelas francas, corredores e salas de estar onde as outras verdades, livremente, pudessem entrar. As nossas verdades deviam casar continuamente.