quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Os desautorizadores



Há uma longa lista de desautorizadores da classe docente, da qual também fazem parte, como é do conhecimento geral, muitos professores. São muitos os actantes, e os efeitos são proporcionais ao investimento e à concorrência. Hoje, porém, cingir-me-ei aos grandes protagonistas.
O poder político tem sido, na minha perspetiva, o grande dinamizador desta imperdoável ação de desvalorização pública dos docentes e de prejuízo da sua ação profissional. Na verdade, há séculos — tempo psicológico de quem vive estas peripécias ao minuto — que se dedica a legislar, a reformar, a inventar, a mexer e a remexer no quotidiano escolar, à revelia dos docentes: quase sempre contra a opinião de quem está no terreno ou ignorando pura e simplesmente o que pensa quem tem a missão de concretizar tudo o que é idealizado. Para além da estupidez inerente a tanta soberba, tanta presunção e tanta arrogância, há ainda a considerar os nefandos efeitos dessa postura, quer na sociedade em geral, quer nos encarregados de educação quer nos alunos. Absolutamente tóxicos!
Quem quer que ocupe a magna cadeira da Educação, ou as poltronas adjacentes, sabe imediatamente muito mais do que os professores, das grandes orientações políticas, axiológicas e organizacionais ao próprio ato didático. Sabe — porque estudou, ou porque leu estudos ou simplesmente porque manda — muito mais do que aqueles que andam, há uma vida inteira, a ensinar e a educar crianças, fazendo da escola a sua casa a tempo inteiro. Sabe e não hesita em demonstrá-lo à sociedade e à saciedade. O que pensam os profissionais do ensino, o que acham, o que pretendem, o que idealizam… não conta, não serve para nada. Quem manda ignora todo esse património, porque, no fundo, considera que os professores são incompetentes, retrógrados, resistentes à mudança… Tudo o que tem sido decidido transporta esta chancela. Mas o grande problema está nas profundas consequências de tão cancerígena postura.
Toda esta desconsideração, toda esta desautorização, toda esta humilhação… todo este prolongado atestado de nulidade, este constante e progressivo emudecimento de uma classe profissional, tão evidente ao olhar social, só pode ter efeitos perversos, severamente nocivos. A sociedade em geral e os pais dos alunos em particular olham para os professores de soslaio. Confiam na sua bonomia, mas desconfiam da sua competência, da sua capacidade de resposta face às exigências do mundo atual e às necessidades dos jovens de hoje. E passam esta reserva para os filhos: no que dizem, no que não dizem, no que deixam entender, no que insinuam, no que deixam escapar… Enfim, a desautorização transmite-se, multiplica-se, generaliza-se… e chega aos alunos, aos corredores da escola, às salas de aula. Os alunos, vulneravelmente, integram –na no seu íntimo, dão-lhe colo, primazias e, por vezes, trono absoluto. Se todos os dedos simbólicos apontam culpas à incompetência dos professores, o que pode a sociedade esperar das crianças? Que não os ouçam, que ignorem os seus avisos, conselhos e “sermões”, que não os respeitem; que não se interessem, que não se empenhem, que não se esforcem, que não procurem dar o seu melhor… Afinal, a culpa já está previamente atribuída e, no fim do ano, praticamente todos vão ter rendimento mínimo para transitar. É o que se pode esperar de quem não pode ver senão o imediato.
A desautorização dos professores tem este resultado iníquo, profundamente corrosivo e deformador nos alunos. Hoje, como consequência deste prolongado crime — desautorizar os professores é crime social — os docentes veem-se obrigados a trabalhar três vezes mais para produzirem uma parcela da aprendizagem (falo de aprendizagem, não de números) que, há um punhado de anos, conseguiam em muito menos tempo e com muito menos sofrimento. É esta a realidade atual.
O emudecimento dos professores tem sido tão granítico, tão sólido e tão esmagador, que até os próprios já desistiram de reclamar a sua voz. À voz crescente da Tutela, juntam-se agora outras vozes emergentes: a dos que dizem representar os diretores e a dos que dizem representar os pais e encarregados de educação. São estes tenores — bem afinados com o MEC — que agora falam em nome da Escola, em nome da voz que os professores deixaram esvaziar. Ainda há dias reclamavam, na imprensa, novos métodos de ensino nas salas de aula. E os professores lá estão, no seu insignificante cantinho, à espera de novas ordens.  

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