sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Bolhas de ilusão




Veio a praga, bárbara e plúmbea, prometendo perenidades de dor e castração. Veio faminta de mestres, promissora de rudeza e cegueira, ventre de negridões. Ao primeiro assomo, as vítimas ousaram reagir, mas foram vergadas. E o dia seguinte acordou noturno, e noturnos foram todos os nascituros desse ocaso. Ainda não amanheceu nem há no céu nenhum sinal de gravidez de luz.
Nessa eterna noite em que se transformaram todos os dias, foi despontando do chão, atapetado de medo, uma imensa constelação de bolhas de tristeza e falsa salvação. De egoísmo — diria um olhar desafetado — do egoísmo próprio de quem defende a própria vida; daquele egoísmo que nos despe de todos os princípios e valores e nos veste de primazia, com o mais primário dos instintos devidamente entronizado como imperador. Bolhas baças pululando no breu. Uma infinita irmandade de vivas solidões.
No interior de cada pequeno ventre, cada alma temerosa e inquieta vai agora fazendo a silenciosa gestação da sua esperança mais intrínseca, mais individual, mais única, mais egoísta: o seu ínfimo oásis, uma centelha de felicidade ilegítima, subtraída à luz, umbilicalmente alimentada do definhamento coletivo. Definhamento absolutamente coletivo, que, fatalmente, vai consumindo também, na sua silenciosa e inexorável corrosão, todas as felizes decrepitudes artificial e perversamente retardadas. Efémeros paraísos de morte adiada: bolhas de amizade, bolhas de cumplicidade, bolhas de proteção, bolhas de interesse, bolhas de esquecimento, bolhas de obediência, bolhas de silêncio, bolhas de assentimento, bolhas de invisibilidade, bolhas de água e sabão… bolhas de ilusão.
Estou no parapeito da noite, diante deste mórbido firmamento de desolação! É um gigantesco gineceu de agonia, que me dá vontade de chorar! Pudesse, com um grito — ainda que fosse o meu derradeiro — um grito agudo, pungente, rebentar todas estas perversas sementes, todos estes ventres que vão eternizando a noite com prematuros de escuridão! Pudesse, com uma tocha de liberdade, dizimar esta densa seara de escravidão! 

4 comentários:

  1. "Nesta eterna noite em que se transformaram todos os dias, foi despontando do chão, atapetado de medo, uma imensa constelação de bolhas de tristeza e falsa salvação. De egoísmo — diria um olhar desafetado — do egoísmo próprio de quem defende a própria vida; daquele egoísmo que nos despe de todos os princípios e valores e nos veste de primazia com o mais primário dos instintos devidamente entronizado como imperador. Bolhas baças pululando no breu. Uma infinita irmandade de vivas solidões."
    Escrita magnifica de que destaco este fragmento. Parabéns

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  2. Não me canso de dizer o quanto estou grato pela escrita.
    Qualidade na substância e na redação.
    Obrigado.

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