terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

A minha gata



Já lhe dediquei uma crónica no Eramá. Dedico-lhe agora outra, porque ela merece.
Entrou na minha vida pelas mãos dos meus filhos mais velhos, que a salvaram de morte certa, nas vésperas do Natal, há três anos, numa rotunda das proximidades deste lugar onde moro. Todo o trânsito parou para que a vida da bichana não terminasse ali.
Era tão pequenina, que nem sequer sabia beber, muito menos comer. Tive de a tratar como a um bebé. Escusado será dizer que se pegou a mim como uma lapa. Ficava à porta, quando eu saía, e plantava-se prontamente nesse mesmo lugar, logo que a cadela, lá fora, anunciava a minha chegada. Depois… era a cola mais pegajosa que se pode imaginar. Tive mesmo de a suportar nos ombros, inúmeras vezes, sempre que fazia o que estou a fazer neste preciso momento. Não me largava nunca. E, sempre que tinha mesmo de lhe fechar uma porta, ficava a ouvir as suas queixas até lhe permitir, novamente, o acesso ao papá. Era assim a minha menina.
Há um punhado de meses, respondeu ao apelo mais íntimo e foi ver como era o mundo lá fora. Voltou grávida. Como é óbvio, nem lhe ralhei nem fui pelo bairro fora à procura do meliante que lhe prestou tal serviço. Para além de ter a certeza de que o respetivo dono não assumiria as responsabilidades do casamento, eu também não a queria ver a morar em casa alheia, sabe-se lá com quem e com que bicharada. Tive de me conformar e de lhe dar todo o apoio.
Teve três filhos quando setembro amadureceu. Demos um (uma, mais especificamente) a uma amiga chegada e ficámos com os restantes: uma rapariga, a Pompom, e um rapaz, um amarelo atraganado, chamado Tiki, que põe os nervos da minha mulher em franja. Os meus filhos acrescentaram-lhe um apodo: Coentrão. Não sei porquê, nem quero saber.
A minha menina fez-se senhora. É agora uma mãe muito responsável e inexcedível nos cuidados que presta aos seus filhos (é mãe). Já só brinca com eles, e raramente procura o meu colo, que agora é trono quase exclusivo dos infantes, sobretudo do terrorista, que, amiúde, dá um chega-para-lá na irmã, para ficar senhor absoluto, como um rei sol. A Dona Kika fica agora quase sempre em segundo plano, deixando o melhor de tudo para os catraios. Apenas se aninha nas minhas pernas quando os filhotes estão a dormitar algures, no sofá da sala, perto do aquecedor ou noutro colo. Mas são sempre momentos muito breves, que ela nem chega a aproveitar completamente, porque o sono dos bichanos é coisa mais leve que pena.
Com a maternidade, a minha gata tornou-se mais serena, mais ponderada, mais observadora e muito mais responsável. Parece que alguma voz, lá no seu íntimo, lhe disse que não devia agora dar “maus exemplos”. Mas não foi só ela que mudou: eu também fui impelido a mudar. Trato-a agora com muito mais cuidado, e nunca a repreendo diante dos filhos. Se, por acaso — o que acontece muito raramente — trepa para “lugares proibidos”, jamais lhe ralho ou digo “sape-gato”: pego nela com afeto, faço-lhe umas festinhas, e coloco-a delicadamente no chão. Os cachopos não verão jamais a mãe ser repreendida. Jamais a desautorizarei diante deles. Jamais, para que ela tenha sobre eles toda a autoridade, a autoridade que ela usa — de forma tão subtil e tão inteligente (é mãe), quando eu sou obrigado a colocar os seus rebentos sistematicamente no chão, sobretudo o atraganado do Tiki, que é também o mais carente de mimos e o mais meloso, ao ponto de se deitar e adormecer sobre a mão que maneja o rato do computador. Ela está sempre perto, em lugar estratégico, a observar. Quando a juvenil porfia é exagerada e a minha irritação se torna evidente, ela arrulha, como uma pomba, e eles seguem-na diligentemente para o andar de cima, onde estão os quartos. E por lá ficam, os três, até o dono acabar o seu trabalho. Mas quando é necessário, também lhes mostra quem manda, e de forma inequívoca!
A minha menina, que foi precocemente arrancada do leite da mãe, sem ter referências para ser gata nem mãe; que foi alimentada e criada por seres humanos, longe dos seus semelhantes, é agora uma mãe exemplar: generosa, extremamente carinhosa e muito rigorosa na educação dos filhos. Não percebo por que motivo há tantos seres humanos que ficam ofendidos quando comparados com outras espécies. Eu devo ser uma aberração, porque não me importo, e até aprendo muito com elas. Às tantas, já passei a linha e ainda não me apercebi.

2 comentários:

  1. Acredita que me vieram as lágrimas aos olhos ao ler este texto... e dei comigo a pensar... que bom seria certas pessoas também o lerem, por exemplo, diretores, governo, deputados, MEC, luminárias diversas em diversos meios (académico, media, ministérios, etc.). Só duvido muito é que mesmo que o lessem, o entendessem...
    Grande abraço e obrigado!

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  2. Sim, o texto é algo mais do que parece. Penso que alguns exemplares da mencionada "fauna" andarão por aqui, mas... estão imunes.

    Nada a agradecer, Ricardo. Grande abraço!

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