quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Os desautorizadores



Há uma longa lista de desautorizadores da classe docente, da qual também fazem parte, como é do conhecimento geral, muitos professores. São muitos os actantes, e os efeitos são proporcionais ao investimento e à concorrência. Hoje, porém, cingir-me-ei aos grandes protagonistas.
O poder político tem sido, na minha perspetiva, o grande dinamizador desta imperdoável ação de desvalorização pública dos docentes e de prejuízo da sua ação profissional. Na verdade, há séculos — tempo psicológico de quem vive estas peripécias ao minuto — que se dedica a legislar, a reformar, a inventar, a mexer e a remexer no quotidiano escolar, à revelia dos docentes: quase sempre contra a opinião de quem está no terreno ou ignorando pura e simplesmente o que pensa quem tem a missão de concretizar tudo o que é idealizado. Para além da estupidez inerente a tanta soberba, tanta presunção e tanta arrogância, há ainda a considerar os nefandos efeitos dessa postura, quer na sociedade em geral, quer nos encarregados de educação quer nos alunos. Absolutamente tóxicos!
Quem quer que ocupe a magna cadeira da Educação, ou as poltronas adjacentes, sabe imediatamente muito mais do que os professores, das grandes orientações políticas, axiológicas e organizacionais ao próprio ato didático. Sabe — porque estudou, ou porque leu estudos ou simplesmente porque manda — muito mais do que aqueles que andam, há uma vida inteira, a ensinar e a educar crianças, fazendo da escola a sua casa a tempo inteiro. Sabe e não hesita em demonstrá-lo à sociedade e à saciedade. O que pensam os profissionais do ensino, o que acham, o que pretendem, o que idealizam… não conta, não serve para nada. Quem manda ignora todo esse património, porque, no fundo, considera que os professores são incompetentes, retrógrados, resistentes à mudança… Tudo o que tem sido decidido transporta esta chancela. Mas o grande problema está nas profundas consequências de tão cancerígena postura.
Toda esta desconsideração, toda esta desautorização, toda esta humilhação… todo este prolongado atestado de nulidade, este constante e progressivo emudecimento de uma classe profissional, tão evidente ao olhar social, só pode ter efeitos perversos, severamente nocivos. A sociedade em geral e os pais dos alunos em particular olham para os professores de soslaio. Confiam na sua bonomia, mas desconfiam da sua competência, da sua capacidade de resposta face às exigências do mundo atual e às necessidades dos jovens de hoje. E passam esta reserva para os filhos: no que dizem, no que não dizem, no que deixam entender, no que insinuam, no que deixam escapar… Enfim, a desautorização transmite-se, multiplica-se, generaliza-se… e chega aos alunos, aos corredores da escola, às salas de aula. Os alunos, vulneravelmente, integram –na no seu íntimo, dão-lhe colo, primazias e, por vezes, trono absoluto. Se todos os dedos simbólicos apontam culpas à incompetência dos professores, o que pode a sociedade esperar das crianças? Que não os ouçam, que ignorem os seus avisos, conselhos e “sermões”, que não os respeitem; que não se interessem, que não se empenhem, que não se esforcem, que não procurem dar o seu melhor… Afinal, a culpa já está previamente atribuída e, no fim do ano, praticamente todos vão ter rendimento mínimo para transitar. É o que se pode esperar de quem não pode ver senão o imediato.
A desautorização dos professores tem este resultado iníquo, profundamente corrosivo e deformador nos alunos. Hoje, como consequência deste prolongado crime — desautorizar os professores é crime social — os docentes veem-se obrigados a trabalhar três vezes mais para produzirem uma parcela da aprendizagem (falo de aprendizagem, não de números) que, há um punhado de anos, conseguiam em muito menos tempo e com muito menos sofrimento. É esta a realidade atual.
O emudecimento dos professores tem sido tão granítico, tão sólido e tão esmagador, que até os próprios já desistiram de reclamar a sua voz. À voz crescente da Tutela, juntam-se agora outras vozes emergentes: a dos que dizem representar os diretores e a dos que dizem representar os pais e encarregados de educação. São estes tenores — bem afinados com o MEC — que agora falam em nome da Escola, em nome da voz que os professores deixaram esvaziar. Ainda há dias reclamavam, na imprensa, novos métodos de ensino nas salas de aula. E os professores lá estão, no seu insignificante cantinho, à espera de novas ordens.  

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Professor do século XXI



É uma pena que os nossos governantes só tenham olhos para a Finlândia e não sigam os bons exemplos vindos dos States, de que é sublime exemplo a mais recente ideia de Trump: armar os professores.
Já me estou a imaginar, cheio de garbo e de autoridade, diante dos meus alunos, caladinhos e quietinhos como ratos, a beberem todas as minhas palavras, a seguirem todos e cada um dos meus movimentos… vendo, de vez em quando, o metal dissuasor da pistola a brilhar à contraluz… a coronha sempre presente… a prometer sair do coldre… É claro que arma seria apenas para os intrusos assassinos, mas estaria sempre no ar aquela possibilidade remota de eu me passar dos carretos... E eles haveriam de ter sempre consciência disso… e haveriam de ter muito medinho do mestre… e haveriam de estar sempre atentinhos, nunca a ajavardar as aulas, nunca a mandar boquinhas, nem a olhar para a janela, nem a enviar papeizinhos aos colegas, nem a apertar os malditos cordões das sapatilhas… reprimindo sempre a mais ínfima tentação da insolência… Que paraíso!!!
Uma vez que o nosso fado é imitar o que se faz lá fora, tenhamos pelo menos um critério muito rigoroso nas nossas escolhas, como fizeram os nossos clássicos. Copiemos apenas o melhor. Se o melhor é coboiada, então que seja a melhor das coboiadas.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Quando a OCDE se presta a animar festas



O ciclo das loas à flexibilização curricular e ao perfil do aluno do século XXI, iniciado sob os auspícios de uma apresentadora televisiva e de um treinador de futebol, teve a festa de encerramento no passado dia 9. O animador convidado foi, agora, Andreas Schleicher. Profetizando como convinha aos organizadores, o homem previu, implicitamente, o fim dos exames do 12º ano, tal como hoje são conhecidos. Atrevido, disse que o novo modelo da flexibilidade curricular é a forma como os professores gostariam de dar as suas aulas. Vidente, falou de uma tensão existente nas nossas salas de aula.
Que Tiago Brandão e João Costa lhe tenham dado procuração para dizer o que disse, não duvido. Mas um pouco de recato para não anunciar tensão dentro de salas em que não entrou e não falar por professores que não ouviu, era exigível pela tensão, essa sim bem exposta publicamente, entre a sua condição, permanente, de director para a Educação da OCDE e o seu papel, temporário, de animador de uma romaria de directores aderentes e investigadores recorrentes.
Na celebração foram exibidos despojos do desvario desta desconstrução curricular: num agrupamento modelo, os alunos do 1º ano juntaram-se aos colegas do 10º para recolher e analisar rótulos; os do básico estão empenhados em descobrir porque sobem os balões de S. João e porque foram proibidos este ano. E enquanto um director diligente incensava a audiência com a “desarrumação das salas de aula” do seu agrupamento, promissão certa de futuro inovador, uma colega mais excitada leu, do seu caderninho de notas, afirmações dos professores mais entusiasmados: “há uma apropriação das aprendizagens essenciais pelos alunos”; “a aprendizagem é mais significativa”. Admiráveis resultados!
Claro que o sacerdote e os fiéis desta liturgia cor-de-rosa, recuperadora imprudente dos nossos idos anos 90, manifestaram no fim, em uníssono, profunda preocupação com os exames. Não será difícil compreender porquê. Mais difícil é assistir à participação da OCDE num ataque concertado ao papel dos exames na relativização dos critérios classificativos das escolas, ainda que sob dissimulado pretexto de discutir o acesso ao ensino superior.
Só ingénuos não divisaram a encomenda do Governo, subjacente às banalidades proferidas por Andreas Schleicher, repetindo os mantras do perfil e da flexibilidade, de João Costa. Só que falam os dois de inovação e de século XXI desenterrando metodologias descritas por Kilpatrick (para citar um entre outros) nada mais nada menos que em… 1918. Leu bem, caro leitor, 1918. E se quiser confirmar que não deliro e encontrar descritas considerações pedagógicas sobre a transversalidade disciplinar em detrimento das disciplinas isoladas, sobre as virtudes do trabalho colaborativo e de projecto, sobre as vantagens do ensino centrado no aluno e não no currículo a ser ensinado (tudo paradigmas usados por Andreas Schleicher como modernos, numa entrevista que concedeu ao Observador) e ainda sobre o ensino assente na experiência e nos problemas diários (os rótulos e os balõezinhos de S. João acima referidos), leia o artigo “The Project Method. The Use of the Purposeful Act in the Educative Process”, publicado por Kilpatrick, em 12 de Outubro de 1918 (Teachers College Bulletin, 10th. Series, nº 3. New York: Teachers College, Columbia University).
Enquanto o Governo se apresta a passar para a opinião pública a existência de um apoio que lhe permita generalizar o desastre da chamada flexibilidade curricular e das denominadas aprendizagens essenciais, continuam vigentes as metas curriculares de Nuno Crato, num alarde de hipocrisia política e incoerência discursiva, que não mereceu, como convinha, nenhuma referência na análise da OCDE. Veja-se a este propósito o artigo publicado neste jornal em 16 do corrente, sob a colorida epígrafe “Educação para um mundo melhor: um debate em curso a uma escala global”. É um repositório de vacuidades e afirmações futuristas, redigidas no mais refinado “eduquês”, assinado, em co-autoria com outros, pelo secretário de Estado João Costa, mas na condição de (que havia de ser?) … consultor do projecto da OCDE “Future of Education and Skills 2030”.
Não é nova a acção do Governo para tomar a OCDE por fiadora das suas políticas, como não é de agora o meu repúdio pela promiscuidade, que se repete, entre governantes e uma organização que defende e depende de interesses económicos, que não educacionais, e se presta a favorecer e legitimar políticas que acabam impostas aos actores nacionais. Com efeito, já em Fevereiro de 2009, um grupo de peritos de relevantes currículos, da OCDE, veio a Lisboa validar as políticas educativas do PS. Principescamente pagos, produziram um relatório cujas fontes documentais eram todas do Ministério da Educação. Só falaram com quadros do Ministério da Educação ou apoiantes do Governo. Havendo milhares de páginas publicadas na altura, de oposição às políticas de Sócrates, nem uma só mereceu a atenção dos ilustres peritos. Nem mesmo textos dissonantes, com origem na Assembleia da República, no Conselho Nacional da Educação, em associações científicas ou profissionais lograram ser considerados. Se os protagonistas e a cultura não mudaram, porque mudariam as práticas?
A montante deste episódio está mais outro relatório preliminar da OCDE, que recomenda o alargamento do regime que torna as universidades e os politécnicos fundações públicas de direito privado e dá aos politécnicos a faculdade de conferirem doutoramentos. A retomada do modelo fundacional para gerir as instituições de ensino superior é um salto sobre a realidade da última década, bem demonstrativa de que o privado olha o público para lhe sacar dinheiro e não para, financiando-o, cumprir alguma parte das suas obrigações sociais. Sendo factual, só um frete ao Governo, desresponsabilizando-o das suas obrigações, explica a persistência da OCDE em esgrimir com a decantada flexibilidade de gestão e a ilusória atracção do capital privado.
Do mesmo passo, na senda bolonhesa que comprimiu em três as antigas licenciaturas de cinco anos, o Conselho de Ministros apressou-se a aprovar um novo tipo de mestrados, a fazer em anunciadas parcerias com empresas, com metade da duração actual, e a reduzir os cursos técnicos superiores dos politécnicos que, em vez de dois anos, passarão a um, para os estudantes que cheguem com experiência profissional. Eis um oportuno upgrade, em modo “simplex”, da experiência colhida com o “sucesso” das “Novas Oportunidades”. Tudo inovando, modernizando, flexibilizando, centrado no aluno, rumo ao século XXI.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

A minha gata



Já lhe dediquei uma crónica no Eramá. Dedico-lhe agora outra, porque ela merece.
Entrou na minha vida pelas mãos dos meus filhos mais velhos, que a salvaram de morte certa, nas vésperas do Natal, há três anos, numa rotunda das proximidades deste lugar onde moro. Todo o trânsito parou para que a vida da bichana não terminasse ali.
Era tão pequenina, que nem sequer sabia beber, muito menos comer. Tive de a tratar como a um bebé. Escusado será dizer que se pegou a mim como uma lapa. Ficava à porta, quando eu saía, e plantava-se prontamente nesse mesmo lugar, logo que a cadela, lá fora, anunciava a minha chegada. Depois… era a cola mais pegajosa que se pode imaginar. Tive mesmo de a suportar nos ombros, inúmeras vezes, sempre que fazia o que estou a fazer neste preciso momento. Não me largava nunca. E, sempre que tinha mesmo de lhe fechar uma porta, ficava a ouvir as suas queixas até lhe permitir, novamente, o acesso ao papá. Era assim a minha menina.
Há um punhado de meses, respondeu ao apelo mais íntimo e foi ver como era o mundo lá fora. Voltou grávida. Como é óbvio, nem lhe ralhei nem fui pelo bairro fora à procura do meliante que lhe prestou tal serviço. Para além de ter a certeza de que o respetivo dono não assumiria as responsabilidades do casamento, eu também não a queria ver a morar em casa alheia, sabe-se lá com quem e com que bicharada. Tive de me conformar e de lhe dar todo o apoio.
Teve três filhos quando setembro amadureceu. Demos um (uma, mais especificamente) a uma amiga chegada e ficámos com os restantes: uma rapariga, a Pompom, e um rapaz, um amarelo atraganado, chamado Tiki, que põe os nervos da minha mulher em franja. Os meus filhos acrescentaram-lhe um apodo: Coentrão. Não sei porquê, nem quero saber.
A minha menina fez-se senhora. É agora uma mãe muito responsável e inexcedível nos cuidados que presta aos seus filhos (é mãe). Já só brinca com eles, e raramente procura o meu colo, que agora é trono quase exclusivo dos infantes, sobretudo do terrorista, que, amiúde, dá um chega-para-lá na irmã, para ficar senhor absoluto, como um rei sol. A Dona Kika fica agora quase sempre em segundo plano, deixando o melhor de tudo para os catraios. Apenas se aninha nas minhas pernas quando os filhotes estão a dormitar algures, no sofá da sala, perto do aquecedor ou noutro colo. Mas são sempre momentos muito breves, que ela nem chega a aproveitar completamente, porque o sono dos bichanos é coisa mais leve que pena.
Com a maternidade, a minha gata tornou-se mais serena, mais ponderada, mais observadora e muito mais responsável. Parece que alguma voz, lá no seu íntimo, lhe disse que não devia agora dar “maus exemplos”. Mas não foi só ela que mudou: eu também fui impelido a mudar. Trato-a agora com muito mais cuidado, e nunca a repreendo diante dos filhos. Se, por acaso — o que acontece muito raramente — trepa para “lugares proibidos”, jamais lhe ralho ou digo “sape-gato”: pego nela com afeto, faço-lhe umas festinhas, e coloco-a delicadamente no chão. Os cachopos não verão jamais a mãe ser repreendida. Jamais a desautorizarei diante deles. Jamais, para que ela tenha sobre eles toda a autoridade, a autoridade que ela usa — de forma tão subtil e tão inteligente (é mãe), quando eu sou obrigado a colocar os seus rebentos sistematicamente no chão, sobretudo o atraganado do Tiki, que é também o mais carente de mimos e o mais meloso, ao ponto de se deitar e adormecer sobre a mão que maneja o rato do computador. Ela está sempre perto, em lugar estratégico, a observar. Quando a juvenil porfia é exagerada e a minha irritação se torna evidente, ela arrulha, como uma pomba, e eles seguem-na diligentemente para o andar de cima, onde estão os quartos. E por lá ficam, os três, até o dono acabar o seu trabalho. Mas quando é necessário, também lhes mostra quem manda, e de forma inequívoca!
A minha menina, que foi precocemente arrancada do leite da mãe, sem ter referências para ser gata nem mãe; que foi alimentada e criada por seres humanos, longe dos seus semelhantes, é agora uma mãe exemplar: generosa, extremamente carinhosa e muito rigorosa na educação dos filhos. Não percebo por que motivo há tantos seres humanos que ficam ofendidos quando comparados com outras espécies. Eu devo ser uma aberração, porque não me importo, e até aprendo muito com elas. Às tantas, já passei a linha e ainda não me apercebi.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

De regresso à minha solidão




De vez em quando, como agora, fico sem uma única gota de ilusão que me permita escrever sobre educação e/ou ensino. Procuro um fundo onde ancorar uma esperança qualquer e não encontro. Olho à volta — o agora, o depois, as movimentações insinuadas, os esboços que vão sendo desenhados, os simulacros em preparação, as alternativas que se vão perfilando em horizontes mais distantes… — e apenas enxergo negridões, negridões plurais de uma noite que parece não ter fim.
Talvez o meu silêncio seja menos doloroso e menos ruinoso, para quem me lê, do que os gumes das palavras que se andam amotinando no meu cérebro. Assim… não semeio sofrimento nem desesperança. Fico no meu canto a tentar apunhalar desilusões.
Mas… desenganem-se os meus cangalheiros: estou muito longe de estar morto ou desistente. O primeiro estado, em mim, sempre foi transitório e muito efémero; o segundo nunca mais que aparente.



sábado, 17 de fevereiro de 2018

Súplica




Inerte sobre um dos peitos da montanha. Diante de mim, lá ao fundo, a imensa seara abandonada parece um instante capturado de um mar revolto. Paradoxo visual: o relevo amorfo de uma medonha agitação jazendo sob um plácido manto de quietude sepulcral. Morrem-me as retinas no prenúncio crepuscular!
Tantas vezes calcorreei estas encostas! Tantas vezes deixei pele na rude aspereza das escarpas frias! Tantas vezes tive de comer a terra deste chão íngreme para ir suster as ventanias, desviar as pragas, afugentar os abutres que pairavam sobre o meu mar de oiro aveludado! Tantas vezes caí! Tantas vezes acabei só! Tantas vezes abandonado! Tantas vezes enganado! E sempre me reergui! Eterno nascituro do tempo, sempre me reinventei, sempre me multipliquei, sempre me fiz ironia do meu próprio fado!  
Mas todo o sempre de um simples ser humano tem um fim. O meu não sei se aconteceu na última descida aflita ao meu sacrário ameaçado. Sei apenas que, agora, estou aqui, novamente só, estranhamente estatuado defronte do rosto exangue da minha seara sem vida, praça da razão, que me avassala. Porém, o meu coração —  menino em rejeição — ainda me suplica veementemente que vá salvá-la!

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Greve salta-pocinhas



Uma coisa é certa: não podemos acusar os sindicatos de não aprenderem com as sucessivas experiências negociais em território ministerial. De tantas vezes reunirem com o Governo, acabaram por integrar no seu modus faciendi toda a sofisticação da atuação política. Tem mais requinte, agora, a postura sindical.
Fartos de greves do tipo beliscão, os professores reclamaram algo mais contundente, mais fraturante… enfim, uma greve de vários dias. E o que fizeram os sindicatos? Aquilo que têm feito os últimos elencos governamentais da Nação: fizeram a vontade aos seus eleitores, disseram que sim (à maneira política). A tática dos memorandos aplicada à arraia-docente: uma greve de vários dias, sim senhor, MAS sem deixar de ser uma greve de um só dia; uma espécie de greve salta-pocinhas com efeitos altamente demolidores, como facilmente se adivinha. E foi porque não se lembraram (ou porque os professores não reclamaram), senão teriam marcado uma greve nuclear, até ao final do período, quiçá do ano letivo: de agrupamento em agrupamento, ou de escola em escola; uma espécie de volta a Portugal grevista, ou seja, um autêntico tufão reivindicativo.
Estou entusiasmadíssimo com esta espécie de forma de luta que ontem foi anunciada. Espero que o Governo, no dia 12, não se lembre de propor uma qualquer declaração de compromisso, na qual se comprometa a prometer que vai prometer, só para se livrar dos efeitos destruidores desta terrível coreografia salta-pocinhas. Até tremo, só de pensar!



quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Miragem e má formação



A retoma económica começou quando decidimos seguir o nosso caminho, tomando as medidas que considerávamos mais ajustadas ao país que somos. Hoje, a Europa reconhece e admira o nosso desempenho. Por que carga de água certos cérebros continuam a querer copiar modelos que outros povos — povos com culturas e conjunturas muito diferentes das nossas — conceberam à sua medida.
Sempre fomos Grandes quando seguimos um caminho singular, aquele que os nossos passos pediam. Continuamos a ser grandes sempre que traçamos genuinamente o nosso destino. Não entendo, por isso, a estranha obsessão com a imitação, com a importação de fatos concebidos e costurados para outros corpos.
Quem crê que, copiando modelos de povos que há cem anos já apresentavam taxas de alfabetização por nós só recentemente alcançadas, pode, subitamente, igualar o desenvolvimento cultural/civilizacional desses povos não entende absolutamente nada de educação. Tal como as práticas pedagógicas, também as políticas educativas devem ser ajustadas àqueles a quem se destinam.
Encurtaremos muito mais rapidamente essas distâncias, se talharmos a nau à nossa lusitana medida: com os nossos professores, para os nossos alunos, contando com os nossos encarregados de educação, com o povo que somos, com as condições socioeconómicas que temos. Tudo o que se desviar desta estrela — creio eu — será miragem e má formação.

Fofinhos


terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Persona Non Grata



Declaro o ComRegras persona non grata no Quadro Negro.
Para mim, aquela que me parece ser a linha editorial do referido blogue transmite — não digo que seja intencionalmente — aos leitores demasiada resignação, demasiado conformismo com determinadas orientações políticas, organizacionais e pedagógicas que eu, aberta e frontalmente, combato, porque as considero ruinosas para a Escola Pública e para as expectativas socias daqueles que mais podem beneficiar desse serviço público de educação.
 São, para mim, em demasia as mensagens de irreversibilidade — de certas intenções e medidas, como a flexibilidade curricular, o regime de gestão, a regionalização… — sendo frequentemente reiterada a ideia de que é apenas uma questão de tempo. Não digo que a intenção seja a de incutir nos leitores o acatamento e a resignação, mas estou solidamente convencido de que é esse o efeito produzido.
Esta minha decisão nada tem de pessoal. Trata-se de uma atitude coerentíssima com aquela que tem sido a minha postura “bélica” desde que criei o Dardomeu. Não é radicalismo (penso eu), é clareza e alta definição. 

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Os recadeiros do regime



Os recadeiros do regime — os que dizem representar os diretores, os que dizem representar os pais, os que dizem “blogar” em prol dos professores… —, os recadeiros do regime declaram união a favor do fim os exames para acesso ao ensino superior. A declaração vale o que vale, vinda de quem vem, mas ficamos a saber o que o Governo quer: acabar com tais exames. Porquê?
Não sei nem posso afirmar nada a esse respeito, pois não possuo dons adivinhatórios, mas tenho um certo pressentimento. Cá para mim, já “se aperceberam” de que os PNPSE, os PAE, os Fénix e seus sucedâneos (os esporos do sucesso total à pressão) estão a produzir alunos muito pouco ambiciosos, com escassa capacidade de sacrifício, com muito pouca apetência para o estudo, pouca autonomia, “subsidiodependentes”... Como baixar gradativamente o grau de dificuldade não é sustentável, a prazo, o melhor é mesmo ir acabando com essas triagens inconvenientes.
Por mim, pacificava-se o sistema de vez: fim de todos os exames em toda a linha, fim das retenções em toda a linha. Depois… o mercado de trabalho que julgasse e triasse. O Estado lavaria daí as mãos, pouparia rios de dinheiro (rios como o Nilo) e todos seríamos licenciados, pelo menos. Quem não encontrasse portas abertas por cá que procurasse lá fora (fosse onde fosse).

PS – Um dia destes, declaro um certo blogue persona non grata. Qual será?

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Cumpleaños Feliz





D. Manuel Clemente faz 70 anos em julho. Tão distraído que ando com as coisas educativas, que quase deixava passar a grande efeméride dos seus 69 anos! Aqui fica, pois, a singela homenagem do Quadro Negro.
Quanto à recomendação de abstinência sexual aos recasados, eu acho muito bem. Bem feito, que é para não cometerem o mesmo erro duas vezes! E até digo mais: deviam usar uma espécie de pulseira eletrónica que fizesse tocar o sino sempre que certas distâncias fossem encurtadas.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Rânquingues - Batata e Cenoura



Combém, de bez em quando, entrar no coração da besta praí depositar um peicemeiquer com bocação esplosiba. Bamos atão lá dentro, ò lugar onde moram as aurridículas e os ventríloquos.
Tomemos como exemplo a Escola A e a Escola B (que num existem, minha gente).
Pra faclitar a compriensão, reduzi a dez cachopos a população estudantil que foi a exame de 9.º ano (birtual, claro está, de Português ou de Matemática, tanto fás como fês).  Supônhamos qu’os catraios da Escola A e os moços da Escola B obtiberam os resultados qu’a grelha (que mora aqui no andar de baixo) bem escarrapacha, quer em percentaiges quer em Canibais. Difrenças e igualdades a contento, como se bê. Meiquior selfie.
Prantisto, é o c’o freguês quiser (beija-se o agrafe seguinte). S’estiber birado pra harmonias e tal e coisa, pra num lebantar ondas neim arranjar cuaflitos, dibulga o lado dereito  e dá-le ênfase merdiática (todos iguaijê); se está mais inclinado pra lobar tudo a eito, doa a quem doer, bota cá pra fora o lado esquerdo e põe a boca no trombone (tão difrentejê!). Dibide a malta toda e põe tudo à porra e à massa. Mas isto num é bom neim se fás, qu’os rânquingues já são bosta que chegue e que sobre pra nos atolarmos tolos numa autênteca perda.
Já agora, só mais um supônhamos. Bamos imaginar qu’os queques da Escola A tirabam todos 89% no exame e qu’os moleques da Escola B tirabam todos 50% na mesma proba. Na berdade, era uma difrença do catano (quase corenta pontos), mas se tudo fosse apresentado em Aníbais, essa difrença num se notaba quase nada: quatro pra uns e três pra outros. Um pontinho, assim uma espéce de paredes meias uns c’os outros, quase tu cá tu lá, a dar a entenderê qu´ò birar da esquina os da B apanham ou passam a perna aos da A.
Como estão a berê, meus caros leitores, os rânquingues, apesar de serem maus — reles mesmo — num são assiiiiiiiiiiiiim tão maus, proque se, por um lado, mostram qu’há difrenças e injustiças, por outro, não as escancaram todas, pra que nós num fiquemos munto tristejê e desanimadojê, pra que num andemos praí a batatada e pra que nos deiamos todos como irmãoje. Irmãoje ombro a ombro, ali à queima, numa competição muito renhida. Afinale, os rânquingues num são só a batata que parecem, também tenhem o seu quê de cenoura!
Ele há coisas neste imundo...!!!

Os professores entre a frouxidão e a má-fé



Quem tenha acompanhado o comportamento negocial do Ministério da Educação após a assinatura do compromisso estabelecido com os sindicatos, em 18 de Novembro de 2017, vê inflexibilidade e má-fé. Entre outras, duas questões são determinantes no conflito latente, sendo que a ordem para as resolver não é arbitrária: primeiro, o reposicionamento correcto na carreira (porque os professores recém-vinculados não podem ser alvo das interpretações delirantes da secretária de Estado Alexandra Leitão); depois, (e só depois para não se amplificarem as injustiças de reposicionamentos incorrectos) a recuperação do tempo de serviço, como referido na declaração de compromisso e recomendado pela Resolução n.º 1/2018, da Assembleia da República.
O Estatuto da Carreira dos Educadores de Infância e dos Professores dos Ensinos Básico e Secundário diz, no número 3 do seu artigo 36º, que o ingresso na carreira se faz “no escalão correspondente ao tempo de serviço prestado em funções docentes e classificado com a menção qualitativa mínima de Bom, independentemente do título jurídico da relação de trabalho subordinado, de acordo com os critérios gerais de progressão”. Parece-me um texto claro, à luz da semântica linguística. Mas conhecendo a apetência da secretária de Estado Alexandra Leitão para apresentar como girafas gatos a quem simplesmente puxou pelo pescoço, percebo que queira colocar em escalões mais baratos os professores recentemente integrados na carreira, depois de décadas de trabalho escravo em funções docentes. O que não percebo é que sindicalistas experientes tenham caído na armadilha de “delegar” no Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República a decisão sobre se o tempo de serviço antes da profissionalização pode ser considerado para reposicionamento na carreira. Desconhecem, acaso, que quando ouvimos dois juristas esperam-nos, pelo menos, três opiniões? Para quê correr o risco de substituir factos por fictos?
A história da aplicação do estatuto é a história da consideração de todo o serviço docente, incluso o cumprido antes da profissionalização. Somar esse facto à clareza do supracitado artigo teria sido evidência suficiente para uma posição de força, negocial e ética, que não para a frouxidão das guerras de alecrim e manjerona em que os sindicatos sistematicamente se envolvem e que terminam, também invariavelmente, com a desistência no momento da ruptura clarificadora. Foi assim com o “memorando de entendimento” de 2008, foi assim com o “acordo de princípios” de 2010, foi assim com a greve à avaliação do 12º ano no tempo de Nuno Crato, está a ser assim com o compromisso de 18 de Novembro último. Trata-se de efemérides com traços comuns; num primeiro momento, provisório, os sindicatos parecem ganhar e o ministério consegue acalmar os ânimos das massas; num segundo momento, definitivo, o ministério, com má-fé, impõe por lei o que, anteriormente, tinha “acordado” ou “entendido” ser para negociar.
Findo o encantamento nupcial com Tiago Brandão Rodrigues, finda a coreografia negocial, traduzida em reuniões sem resultados, que se prolongam para além do que o senso comum faria supor, perde a força da razão e ganha a razão da força. Soçobra a coesão e substitui-se firmeza por frouxidão. A nova proposta de “reposicionamento” na carreira é um ardil arbitrário e injusto para atacar os professores. Mas a confusão que já introduziu serve bem a estratégia do Governo para arrastar o processo e multiplicar os conflitos dentro da classe docente. A resposta dilatada no tempo (12 a 16 de Março) e o instrumento escolhido no plenário de 2 de Fevereiro (greve pingada por regiões, de duvidoso impacto) pode prejudicar uma mobilização expressiva dos professores, num momento particularmente grave.
Não, não é discurso anti-sindicatos, que sem eles seria bem pior. É simples reconhecimento do que tem sido e receio de que volte a ser.

in Público, 07/02/2018

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Bolhas de ilusão




Veio a praga, bárbara e plúmbea, prometendo perenidades de dor e castração. Veio faminta de mestres, promissora de rudeza e cegueira, ventre de negridões. Ao primeiro assomo, as vítimas ousaram reagir, mas foram vergadas. E o dia seguinte acordou noturno, e noturnos foram todos os nascituros desse ocaso. Ainda não amanheceu nem há no céu nenhum sinal de gravidez de luz.
Nessa eterna noite em que se transformaram todos os dias, foi despontando do chão, atapetado de medo, uma imensa constelação de bolhas de tristeza e falsa salvação. De egoísmo — diria um olhar desafetado — do egoísmo próprio de quem defende a própria vida; daquele egoísmo que nos despe de todos os princípios e valores e nos veste de primazia, com o mais primário dos instintos devidamente entronizado como imperador. Bolhas baças pululando no breu. Uma infinita irmandade de vivas solidões.
No interior de cada pequeno ventre, cada alma temerosa e inquieta vai agora fazendo a silenciosa gestação da sua esperança mais intrínseca, mais individual, mais única, mais egoísta: o seu ínfimo oásis, uma centelha de felicidade ilegítima, subtraída à luz, umbilicalmente alimentada do definhamento coletivo. Definhamento absolutamente coletivo, que, fatalmente, vai consumindo também, na sua silenciosa e inexorável corrosão, todas as felizes decrepitudes artificial e perversamente retardadas. Efémeros paraísos de morte adiada: bolhas de amizade, bolhas de cumplicidade, bolhas de proteção, bolhas de interesse, bolhas de esquecimento, bolhas de obediência, bolhas de silêncio, bolhas de assentimento, bolhas de invisibilidade, bolhas de água e sabão… bolhas de ilusão.
Estou no parapeito da noite, diante deste mórbido firmamento de desolação! É um gigantesco gineceu de agonia, que me dá vontade de chorar! Pudesse, com um grito — ainda que fosse o meu derradeiro — um grito agudo, pungente, rebentar todas estas perversas sementes, todos estes ventres que vão eternizando a noite com prematuros de escuridão! Pudesse, com uma tocha de liberdade, dizimar esta densa seara de escravidão!