terça-feira, 2 de janeiro de 2018

O meu íntimo baluarte


Van Gogh - Seara com corvos

         No início da década de 80, por brasões que sempre coloquei bem acima dos interesses e estatuto social, deixei a Sorbonne, sem hesitações. Tenho essas e outras memórias em livro que, a seu tempo, há de também ser publicado. Sinto muitas saudades dessa época e da cidade, onde regresso amiúde. Todavia, ainda não me arrependi dessa atitude.
Quando regressei a Portugal, regressei também ao ensino, como professor contratado. Tive sorte (e fui novamente feliz, na minha terra natal). No final desse ano, voltei a ter sorte, muita sorte mesmo. Recebi uma proposta para trabalhar na Porto Cálem, como superintendente, responsável pela casa e quinta dos Cálem, no Pinhão, e pelas adegas que a empresa tem na Régua e em S. Martinho de Anta. Tenho um curso geral de agricultura, mas creio que foi sobretudo por ser um homem de confiança de me empregaram. Os ingleses valorizam muito esse parâmetro. Tinha carro, casa e um vencimento superior àquele que recebia no ensino. E fui aumentado duas vezes no primeiro ano. A inflação era galopante, mas o meu patrão não se aproveitou, bem pelo contrário: ganhei poder de compra duas vezes.
Dois anos depois, voltei a ter sorte. Um casal de emigrantes (amigos da família), sabendo do meu íntimo desejo de continuar a estudar, “ofereceu-me”, aqui em Braga, um apartamento que não estavam a ocupar. Não hesitei. Despedi-me da empresa (cumprindo todas as normas e dando ao patrão o tempo necessário à transmissão de funções) e vim para a capital do Minho, com algum dinheiro no bolso (o último salário mais o correspondente ao subsídio de Natal dos meses já trabalhados), um jogo de lençóis, uma almofada e um cobertor. O “meu palácio” era novo, mas não tinha absolutamente nada. Nos primeiros dias, dormi no chão, depois lá comprei um colchão e só meses mais tarde, também por empréstimo, passei a dormir num sofá-cama. Deixei uma “vida de lorde” para me formar como professor, mas tive sorte, porque o que o futuro me reservou superou as minhas expectativas… até uma determinada encruzilhada do destino.
Volvidas duas normais décadas de ensino — com o seu inevitável carrocel de altos e baixos, com as suas dificuldades e carências, mas com dignidade — tudo começou a desmoronar à minha volta. Como num terramoto que tudo vai engolindo, remetendo-nos para áreas cada vez mais diminutas, fui-me refugiando em espaços cada vez exíguos, precariamente incólumes. Da "minha seara", pela qual deixei um sereno futuro de conforto, já pouco resta. Resta também muito pouco da soberania que me conferia realização, dignidade e respeito. E oiço, ao fundo (para meu maior tormento), a vozearia de uma interminável ópera, que me canta autonomias e sucessos que os meus olhos não vislumbram e profanos paraísos que a minha razão não consegue alcançar.
Atualmente, à semelhança do que acontece com muitos dos meus pares, luto com todas as armas e com todas as forças, para defender — cada vez com maior dificuldade e menor ilusão — o minúsculo baluarte que me resta: um pequeno retângulo de trigo crescente, que os corvos constantemente tentam invadir. Quando não for capaz de o defender dos pertinazes intrusos, morrerá a minha missão docente. Largarei tudo (TUDO) nesse dia! E então, sim, arrepender-me-ei severamente de ter abandonado a cidade do Amor.

5 comentários:

  1. Parabéns! Gostei muito do texto.
    Tomei conhecimento deste blogue há pouco tempo, mas estou curiosa por ler os outros posts.
    Também deixei uma atividade no setor privado para ingressar no ensino. Também com menor ilusão agora...
    Será que me arrependo? Acho que não.
    Feliz 2018!
    Conceição Teixeira

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    1. Obrigado, Conceição! Se bem entendi o seu gosto literário, sugiro que comece por este texto: "O meu tempo". Agora estou mais livre para escrever, porque desfiz o anonimato (que me amarrava bastante).

      Espero, sinceramente, que não se arrependa da opção.

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    2. Obrigada pela sugestão! Já li o texto e gostei muito! Não consegui deixar um comentário. Voltarei a tentar.

      Interessante... Cada vez corremos mais "atrás" de algo que não existe, o Tempo...

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