sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Do século XXI? Não, quero muito melhor!




Percebo o que pretendem dizer e onde querem chegar aqueles que propagandeiam e tentam vender as ditas aulas do século XXI. No seu miolo, esse conceito preconiza um corte metodológico com o passado, fazendo crer que só com dinâmicas radicalmente diferentes, em espaços radicalmente diferentes e com uma revolucionária relação professor/alunos se pode motivar os jovens de hoje para as aprendizagens que este século exige e para as taxas de sucesso que se pretende alcançar. Profundamente errado, perigosamente enganador!
Em primeiro lugar, a evolução não se faz a partir do calendário. Ela é um continuum, com fases mais aceleradas e outras de maior conservadorismo. Por outro lado, ainda que queiramos — como é o caso — significar apenas o que se perspetiva ser um século de constantes e vertiginosas mudanças, também não faz grande sentido querer enxergar, no início dessa adivinhada voragem evolutiva, o que serão os restantes 82 anos, carregados de incógnitas. Portanto, na minha maneira de ver, este conceito não passa de mero sorvete propagandístico destinado a vender outras ideias que uma certa classe “pensante” deste país pretende instalar nas escolas, à revelia dos professores. E como sabem que os mais experientes estão contra, há que fazê-los passar por retrógrados, ultrapassados, avessos à mudança, causadores de desmotivação e insucesso. Profundamente errado, perigosamente enganador!
Recuso ser esse modernaço dessa escola modernaça que parecem ter saído de uma fissura aberta no tempo, caindo subitamente neste século, talvez vindos de uma dimensão atemporal ou mesmo do futuro, para ensinar os frutuosos caminhos do progresso. Não, eu quero melhor, muito melhor! Quero ser estafeta e testemunho de tudo e de todos os que me precederam, sem ruturas, sem quebras, em harmonia, perfeitamente compaginado com o devir do tempo. Quero ser eu, sendo também aqueles que me ajudaram a formar, como homem e como professor.
Sou, na verdade e com muito orgulho, um professor do século XIX, do século XX e do século XXI. As minhas aulas são orgulhosos frutos desses três séculos. Entrego-me inteiro, para que sejam tais tesouros. Como? Tentando diariamente ser a melhor síntese de todos os professores que mais me marcaram. Sou um pouco de todos eles, sendo mais este ou mais aquele, consoante a feição que mais me tingiu. Sou todos eles, sendo, tal como eles foram e/ou são, todos aqueles que os ensinaram e marcaram mais profundamente, os quais, por sua vez, também foram estafetas e testemunhos de outras luzes que os clarearam. Esforço-me por ser digno testemunho das capacidades comunicativas de uns, do bom humor de outros, da empatia de outros, da informalidade deste, da sagacidade daquele, da “teatralidade” de um ou de outro, da autoridade, do carisma, da verticalidade, da probidade, da sabedoria e da cultura de todos. Quero ensinar o que sei e o que somos todos aqueles que sou eu.
É tudo isto que tento ser, quotidianamente, quanto estou com os meus alunos, para que eles possam beber de mim o que quiserem, sem restrições, como quem bebe do tempo. Quero ser professor, professor sem qualquer qualificativo que diminua a grandiosidade e a intemporalidade daquilo que é um professor. Professor é designação bastante para definir tudo aquilo que sou e que tento ser quando estou no ventre com os meus amanhãs. É por isso que recuso a oca banalidade citada na introdução. Não, obrigado!

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