sábado, 27 de janeiro de 2018

Caldeirada de sucesso




É certo e sabido: por mais estronça que seja a aparição pedagógica, encontrará sempre apóstolos, beatos e fiéis cumpridores. É aquela malta que obedece para cima e manda para baixo, é a outra malta adesivada, que adere a tudo o que os seus capatazes compram, é a malta de Olhão e que joga no Boavista, que só quer que a vidinha corra sem grandes sobressaltos, e é ainda a maltinha que não tem personalidade pedagógica e que toma por bom tudo que surge na passerelle. Malta cool, modernaça, que gosta de estar na moda, de ser a primeira a vestir e a passear os últimos gritos metodológicos, tudo nos trinques e tal e coisa e et cetera e tal.
Como também já é mais do que certo e sabido, por detrás desta geringonça flexível e moldável (mais uma, na imensa, luminosa e vistosa galeria de sucata) estão os velhos profetas do fim das retenções, do sucesso pleno, da escola pública low cost… enfim, aquela Malta (agora com maiúscula, para não ir a tribunal) que vê a escola pública como um aviário, ou seja, não um lugar de criação de aves (das que voam), mas uma fábrica de produção de carne tenrinha e baratucha. É Malta esperta, porque vai levando a água ao seu moinho, ora mandando, ora sugerindo, ora culpando, ora denegrindo, ora comprando, ora dividindo, ora poupando, ora subtraindo … Enfim, uma vasta panóplia de “andos” e “indos” que nos vão lixando enquanto nós vamos diminuindo, cantando e rindo.
Identificados que estão os verdadeiros flexibilizadores, bora lá então à “berdadeira” essência da flexibilização, explorando todas as suas inerências e concomitâncias relativas às suas mais íntimas subjacências lucidamente estúpidas. A tarefa, como se “bê”, não se afigura absolutamente nada fácil. Vamos precisar de muita argúcia, muita pertinácia, de outra tanta perspicácia e de um balde cheio de… minúcia. “Balha-nos” Santa Lúcia!
Estou metido num autêntico e inextrincável imbróglio conceptual!!! Vou ter mesmo de recorrer a uma simplificação semântica e a uma determinada normalização lexical — enfim, descer à Terra — para que todos, de forma mui democrática, possam enxergar, sem encandeamentos, toda a fosca luz deste conceito impulsionador da tão almejada ascensão social das classes mais desfavorecidas. Façamo-lo, pois, em jeito de receita de culinária, para chegar a tolos.

CALDEIRADA DE SUCESSO
Unte um caldeiro (tem de ser muito grande) com falsa autonomia, para não haver pegas. Depois, já em lume brando, pegue numa determinada porção do currículo e deite-o lá dentro. De seguida, adicione, uma a uma, todas as disciplinas, os respetivos coordenadores — previamente ensaboados —, as partes virtualmente interdisciplinares dos programas e respetivas metas. Vá mexendo essa massa toda muito lentamente, com paciência. Sem parar de mexer, polvilhe a mistura com essências de Word e Excel quanto baste. Posteriormente, quando o conjunto já apresentar alguma conformidade, acrescente um generoso engodo de papel moído e adicione água quanto baste. É então chegada a hora de atirar os professores lá para dentro (de mãos atadas, para não avaliarem). Caldeie tudo — tudo ao molho, uns sobre os outros, uns contra os outros —  e apimente a coisa enquanto volteia e revolteia o conjunto, em lume brando. Quando a mistura apresentar sinais de plena articulação e boa cozedura, acrescente as turmas e uma generosa dose de dolce far niente. Intensifique então a chama, para potenciar a saborosa litigância dos alimentos com os condimentos. Logo que a superfície da caldeirada dê os primeiros sinais de secura (bolhas de ar a rebentarem), desligue o fogão e envolva o caldeiro com folhas de jornal. Alguns minutos depois, avalie você mesmo e verá que a sua caldeirada está um “sussexo” de comer e chorar por mais.


2 comentários:

  1. É verdade que muitos sabem matar; também não falta destreza para atingir o amigo com a lança por cima da mesa do banquete; Frank Kafka

    ResponderEliminar