terça-feira, 30 de janeiro de 2018

As parábolas do sindicalismo geringonçado


As reuniões dos sindicatos com o ME têm uma banda muito estreita: vão de inúteis a inconclusivas. Resultados: uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Vai daí… aos líderes sindicais, dá-lhes para falarem ao povo através de parábolas. É, pois, necessário um especialista para traduzir o que eles querem realmente. E esse especialista é cá o rapaz. Até tenho antena parabólica e tudo. Bora lá à tradução.
É muito simples o assobio mensageiro de Mário Nogueira. Mais ou "grelos" isto:
“Camaradas professoras e camaradas professores (ou ao contrário e vice-versa), como já sabemos que não vamos levar praticamente nada do que é realmente importante, vamos ter de fazer uma festa de arromba com as canas que caíram na encosta do cemitério. E é um pau!»


domingo, 28 de janeiro de 2018

Letargia




Um estrondo redondo,
um safanão
que nos acordasse!

Uma força tamanha,
um turbilhão de sanha
que nos erguesse!

Uma injustiça medonha
que nos revoltasse
e libertasse da mordaça!

Um golpe potente,
fendente,
que estilhaçasse a vidraça!

Uma colher de peçonha
que nos fizessem beber
e nos curasse a vergonha!

Um diabo qualquer
que nos salvasse!

LC

sábado, 27 de janeiro de 2018

Caldeirada de sucesso




É certo e sabido: por mais estronça que seja a aparição pedagógica, encontrará sempre apóstolos, beatos e fiéis cumpridores. É aquela malta que obedece para cima e manda para baixo, é a outra malta adesivada, que adere a tudo o que os seus capatazes compram, é a malta de Olhão e que joga no Boavista, que só quer que a vidinha corra sem grandes sobressaltos, e é ainda a maltinha que não tem personalidade pedagógica e que toma por bom tudo que surge na passerelle. Malta cool, modernaça, que gosta de estar na moda, de ser a primeira a vestir e a passear os últimos gritos metodológicos, tudo nos trinques e tal e coisa e et cetera e tal.
Como também já é mais do que certo e sabido, por detrás desta geringonça flexível e moldável (mais uma, na imensa, luminosa e vistosa galeria de sucata) estão os velhos profetas do fim das retenções, do sucesso pleno, da escola pública low cost… enfim, aquela Malta (agora com maiúscula, para não ir a tribunal) que vê a escola pública como um aviário, ou seja, não um lugar de criação de aves (das que voam), mas uma fábrica de produção de carne tenrinha e baratucha. É Malta esperta, porque vai levando a água ao seu moinho, ora mandando, ora sugerindo, ora culpando, ora denegrindo, ora comprando, ora dividindo, ora poupando, ora subtraindo … Enfim, uma vasta panóplia de “andos” e “indos” que nos vão lixando enquanto nós vamos diminuindo, cantando e rindo.
Identificados que estão os verdadeiros flexibilizadores, bora lá então à “berdadeira” essência da flexibilização, explorando todas as suas inerências e concomitâncias relativas às suas mais íntimas subjacências lucidamente estúpidas. A tarefa, como se “bê”, não se afigura absolutamente nada fácil. Vamos precisar de muita argúcia, muita pertinácia, de outra tanta perspicácia e de um balde cheio de… minúcia. “Balha-nos” Santa Lúcia!
Estou metido num autêntico e inextrincável imbróglio conceptual!!! Vou ter mesmo de recorrer a uma simplificação semântica e a uma determinada normalização lexical — enfim, descer à Terra — para que todos, de forma mui democrática, possam enxergar, sem encandeamentos, toda a fosca luz deste conceito impulsionador da tão almejada ascensão social das classes mais desfavorecidas. Façamo-lo, pois, em jeito de receita de culinária, para chegar a tolos.

CALDEIRADA DE SUCESSO
Unte um caldeiro (tem de ser muito grande) com falsa autonomia, para não haver pegas. Depois, já em lume brando, pegue numa determinada porção do currículo e deite-o lá dentro. De seguida, adicione, uma a uma, todas as disciplinas, os respetivos coordenadores — previamente ensaboados —, as partes virtualmente interdisciplinares dos programas e respetivas metas. Vá mexendo essa massa toda muito lentamente, com paciência. Sem parar de mexer, polvilhe a mistura com essências de Word e Excel quanto baste. Posteriormente, quando o conjunto já apresentar alguma conformidade, acrescente um generoso engodo de papel moído e adicione água quanto baste. É então chegada a hora de atirar os professores lá para dentro (de mãos atadas, para não avaliarem). Caldeie tudo — tudo ao molho, uns sobre os outros, uns contra os outros —  e apimente a coisa enquanto volteia e revolteia o conjunto, em lume brando. Quando a mistura apresentar sinais de plena articulação e boa cozedura, acrescente as turmas e uma generosa dose de dolce far niente. Intensifique então a chama, para potenciar a saborosa litigância dos alimentos com os condimentos. Logo que a superfície da caldeirada dê os primeiros sinais de secura (bolhas de ar a rebentarem), desligue o fogão e envolva o caldeiro com folhas de jornal. Alguns minutos depois, avalie você mesmo e verá que a sua caldeirada está um “sussexo” de comer e chorar por mais.


quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Balelas




O “Dia do Perfil dos Alunos” e o perfil do Governo


Se há um “Dia Internacional da Comida Picante” (16 de Janeiro), um “Dia Mundial das Zonas Húmidas” (2 de Fevereiro), um “Dia do Engolidor de Espadas” (28 de Fevereiro), um “Dia Mundial da Higiene das Mãos” (5 de Maio), um “Dia Mundial do Mosquito” (20 de Agosto) e um “Dia Mundial do Pijama” (20 de Novembro), como esperámos tanto para enriquecer o arquivador da República com o “Dia do Perfil dos Alunos”?
A lacuna foi suprida a 15 de Janeiro transacto, com o glamour de uma festa muito moderna. No elenco principal brilharam Catarina Furtado, famosa apresentadora de espectáculos televisivos, e Fernando Santos, auspicioso treinador de futebol. O elenco secundário foi constituído por 323 “comunidades educativas” (designação do século XXI para aquilo a que os arcaicos da minha geração chamavam escolas).
Descido o pano deste Carnaval antecipado, arrisco o veredito da Quarta-feira de Cinzas.
No âmago da concepção que o secretário de Estado João Costa diz moderna está o logro de arrastar prosélitos acríticos para a criação do aluno novo, com um caudal de vacuidades que falharam há duas décadas. João Costa vem forjando a ilusão de que com iniciativas inferiores se obterão resultados superiores.
O modo como os alunos integram o que aprendem nas diferentes disciplinas foi objecto, na anterior experiência da denominada “gestão flexível do currículo”, de uma coreografia de actividades de “faz de conta” e de uma sobrecarga de burocracia escolar e procedimentos inúteis, que agora se repetem.
A riqueza de um sistema de ensino assenta na diversidade de soluções e não no centralismo de inquisidores pedagógicos. Qualquer suposto vanguardismo teórico ou qualquer preponderância de brigadas de bem-pensantes são elementos castradores da liberdade metodológica e da beleza de ensinar. Mas foi isso que se celebrou no “Dia do Perfil dos Alunos”, conseguido remake do “Dia do Luzito” ou do “Dia do Chefe de Quina”.
Não haverá, nunca, salutar transformação da educação pública sem real autonomia intelectual, pedagógica e profissional dos professores e das escolas. Não haverá, nunca, motivação intrínseca para a acção sem uma profunda descomplicação das leis e das normas, que personificam a burocracia sem sentido.
Mais que o perfil do aluno é importante reflectir sobre o perfil do Governo no que à Educação é identificável. Nesta área não são evidentes reflexos dos progressos económicos com que todos os dias o discurso oficial nos confronta. Os alunos tiritam com frio nas escolas porque não há dinheiro para ligar os aquecimentos. Muitos cursos profissionais estão subfinanciados. As negociações para a progressão na carreira docente são, antes, expedientes para retrocessos desrespeitadores do compromisso assinado com os sindicatos no passado dia 18 de Novembro de 2017. Eterniza-se a falta de pessoal auxiliar e evidencia-se, consequência persistente de tudo isto, a balcanização da classe docente, com o nascimento de facções hostis entre si, que não escondem lamentáveis ódios públicos, expostos nas redes sociais. Infelizmente, vejo defender o diferenciamento estatutário entre contratados e não contratados, professores do básico e professores do secundário, professores velhos e professores jovens.
Opressora e dominante, a burocracia disputa, hora a hora, o reduzido tempo que resta aos professores para ensinar. A última descoberta colocou as escolas num carreiro, vergadas à plataforma, mais uma, criada para recensear todos os docentes, registando, num desperdício escandalosamente redundante, todo o tipo de informação que lhes diz respeito, como se o monstro central não tivesse sucessivas bases de dados e registos biográficos sobre tudo o que respeita a todos, registos criminais incluídos. Estivesse eu errado e não teríamos essas sucessivas edições dos últimos anos sobre o “Perfil do Docente”, cheias de números, quadros e quadrinhos pica-miolos!
in Público, 24/01/2018



segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Kama Sutra da Avaliação de Desempenho



Como, segundo consta e transparece, já fervilha por aí o frenesim avaliativo, com imensos fornicoques a tomarem conta de avaliadores e avaliados, entendi que seria oportuno (re)ler a melhor literatura sobre tão delicada e tão envolvente matéria. Tal como diz o povo, quem vai pro mar prepara-se “enterra”.
 Depois de me debruçar demoradamente sobre o “estrado dá arte”, optei pelo melhor do melhor: os meus dez tomos do Kama Sutra da Avaliação, agora em edição revista, atualizada, comentada e com um novo grafismo na capa, assim a dar para a sensualidade do cabedal. Trata-se, como é óbvio, de uma sugestão de autoformação. Como tal, não há lugar nem a acreditação nem a creditação. Mas sempre é um boião de cultura que enriquece.
Aqui ficam os títulos e a respetiva orientação semântica:
TOMO I     – Da Homossexualidade (avaliação interpares);
TOMO II    – Do Adultério (avaliação de colegas de outros grupos);
TOMO III   – Do Incesto (avaliação de parentes e amigos de longa data);
TOMO IV   – Do Sadomasoquismo (para as vingançazinhas de estimação);
TOMO V    – Do Onanismo (para avaliadores que se “s’acham” orientadores de estágio);
TOMO VI   – Do Voyeurismo (para quem se deleita a observar aulas e/ou a ser observado);
TOMO VII – Dos Fetiches (para diretores e avaliadores perfeccionistas, que sentem prazer a conceber e a preencher grelhas bizarras e circunstanciadas até ao mais ínfimo pormenor);
TOMO VIII – Da Pedofilia (para quem se aproveita dos neófitos);
TOMO IX    – Da Concubinagem (para quem favorece a sua freguesia afetiva);
TOMO X   – Do Proxenetismo (para quem lucra com o negócio). Volume aconselhado ao Ministério da Educação).

E fico por aqui. Não TOMO mais.


domingo, 21 de janeiro de 2018

CEM MIL




Ao acordar... estava já ultrapassado o redondinho número.
Aos três meses de vida — vida instigadora e subversiva  — já vieram ao Quadro cem mil olhares. Outros blogues ostentam números que, comparados com este, até podem ser considerados pornográficos. Contudo, aqui o editor está orgulhoso, dado que o seu produto nem é dos mais populares, nem dos mais vendáveis (nunca será, seja em que sentido for) nem dos mais politicamente corretos. Pelo contrário: este é um antro de desassossego, de abanões a safanões, de uivos que fraturam o silêncio da noite adormecida. Aqui, neste Quadro, há um lobo que assume na primeira pessoa o íntimo de um coletivo. E assume-o de forma abnegada, desassombrada, por vezes selvagem, pondo sempre os interesses da classe acima dos seus interesses individuais. Por vezes, a aldeia pensa que é mera autobiografia — punhal cravado no coração lupino — e o lobo fica abatido, por momentos, mas logo recupera, ergue-se de novo, arrosta a redondez da Lua e… volta a uivar, a clamar pela manhã!
Quero, pois, agradecer a todos aqueles que, até agora, tiveram a generosidade de vir ao meu fojo visitar-me, correndo sérios riscos de serem contagiados pela minha iníqua subversão. Estamos juntos!



sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Do século XXI? Não, quero muito melhor!




Percebo o que pretendem dizer e onde querem chegar aqueles que propagandeiam e tentam vender as ditas aulas do século XXI. No seu miolo, esse conceito preconiza um corte metodológico com o passado, fazendo crer que só com dinâmicas radicalmente diferentes, em espaços radicalmente diferentes e com uma revolucionária relação professor/alunos se pode motivar os jovens de hoje para as aprendizagens que este século exige e para as taxas de sucesso que se pretende alcançar. Profundamente errado, perigosamente enganador!
Em primeiro lugar, a evolução não se faz a partir do calendário. Ela é um continuum, com fases mais aceleradas e outras de maior conservadorismo. Por outro lado, ainda que queiramos — como é o caso — significar apenas o que se perspetiva ser um século de constantes e vertiginosas mudanças, também não faz grande sentido querer enxergar, no início dessa adivinhada voragem evolutiva, o que serão os restantes 82 anos, carregados de incógnitas. Portanto, na minha maneira de ver, este conceito não passa de mero sorvete propagandístico destinado a vender outras ideias que uma certa classe “pensante” deste país pretende instalar nas escolas, à revelia dos professores. E como sabem que os mais experientes estão contra, há que fazê-los passar por retrógrados, ultrapassados, avessos à mudança, causadores de desmotivação e insucesso. Profundamente errado, perigosamente enganador!
Recuso ser esse modernaço dessa escola modernaça que parecem ter saído de uma fissura aberta no tempo, caindo subitamente neste século, talvez vindos de uma dimensão atemporal ou mesmo do futuro, para ensinar os frutuosos caminhos do progresso. Não, eu quero melhor, muito melhor! Quero ser estafeta e testemunho de tudo e de todos os que me precederam, sem ruturas, sem quebras, em harmonia, perfeitamente compaginado com o devir do tempo. Quero ser eu, sendo também aqueles que me ajudaram a formar, como homem e como professor.
Sou, na verdade e com muito orgulho, um professor do século XIX, do século XX e do século XXI. As minhas aulas são orgulhosos frutos desses três séculos. Entrego-me inteiro, para que sejam tais tesouros. Como? Tentando diariamente ser a melhor síntese de todos os professores que mais me marcaram. Sou um pouco de todos eles, sendo mais este ou mais aquele, consoante a feição que mais me tingiu. Sou todos eles, sendo, tal como eles foram e/ou são, todos aqueles que os ensinaram e marcaram mais profundamente, os quais, por sua vez, também foram estafetas e testemunhos de outras luzes que os clarearam. Esforço-me por ser digno testemunho das capacidades comunicativas de uns, do bom humor de outros, da empatia de outros, da informalidade deste, da sagacidade daquele, da “teatralidade” de um ou de outro, da autoridade, do carisma, da verticalidade, da probidade, da sabedoria e da cultura de todos. Quero ensinar o que sei e o que somos todos aqueles que sou eu.
É tudo isto que tento ser, quotidianamente, quanto estou com os meus alunos, para que eles possam beber de mim o que quiserem, sem restrições, como quem bebe do tempo. Quero ser professor, professor sem qualquer qualificativo que diminua a grandiosidade e a intemporalidade daquilo que é um professor. Professor é designação bastante para definir tudo aquilo que sou e que tento ser quando estou no ventre com os meus amanhãs. É por isso que recuso a oca banalidade citada na introdução. Não, obrigado!

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A morte do Professor




Muito por ação política conscientemente manipuladora e exploradora do sacrifício e da dignidade de uma classe profissional, mas também com amplo consentimento impotente de quem obedece, contra a sua vontade e contra a sua razão, a verdade é que todo o ónus do insucesso está, atualmente, sobre os ombros dos professores. Aos alunos exige-se o mínimo e aos encarregados de educação ninguém exige praticamente nada. Até quando a corda aguentará?
O Ministério da Educação (ou, melhor dizendo, da Poupança Nacional) tem vindo a anafar gordurosamente o seu hediondo monstro burocrático, que produz números tão vistosos quão ilusórios e efémeros. O seu único leitmotiv é produzir tais números, ou seja, tais fins, sem olhar a meios. Esclareço: cilindrando, se necessário for, aqueles que ainda têm a seu cargo a incumbência de os atribuir (algo que também já tem os dias contados), ainda que para tal seja necessário desviá-los constantemente do seu genuíno e precioso trabalho (o pedagógico, pois claro) para os emaranhar constantemente em autênticas teias de burocracia de autojustificação, de autoavaliação, de exposição permanente às câmaras de vigilância intimidatória, ou de supervisão, se quisermos ser mais “assertivos”. E o que estas câmaras não conseguem enxergar, espera o Ministério que seja monitorizado pelo segundo setor, o da inquisição parental, hoje muito mais vocacionada para esta forma de pressão do que para a responsabilização e acompanhamento diário dos educandos. É (apenas) uma das expectáveis consequências de toda a ação terrorista que o ME tem vindo a realizar, sobretudo na última década. Resultado: estamos, cada vez mais, num mundo escolar às avessas.
No entanto, a desmesura e a brutalidade burocráticas, ainda que generalizadas, não são similares em todas as escolas: se numas é mau, noutras é pior ainda. Há contextos (em acelerada multiplicação) onde o referido espartilho já sufoca. É o caso das escolas que fizeram compras na Central de Promoção do Sucesso Escolar Injetado (os enlatados como o PNPSE e os seus Planos e Ação Estratégica, os Fénix, as flexibilizações, os contratos de autonomia dependente e à condição…). Aí, os professores comem papéis, bebem papéis, vestem papéis, escrevem papéis, imprimem papéis, furam papéis, agrafam papéis, arquivam papéis, enviam papéis, distribuem papéis… sem saberem já muito bem qual é o seu verdadeiro papel (de figurantes). Mas também aqui há exceções. Em algumas destas unidades fabris de serviço instrutivo certificado não se usa tanto o papel, sendo já mais comum o recurso aos documentos digitais, o que é melhor, porque a natureza é poupada, mas também tem um senão: dispara a tralha burocrática e o tempo consumido com nanopormenores de forma.
Talvez seja paranoia minha — consequência de uma longa e penosa década de trincheiras — mas quer-me parecer que, paulatinamente, todas as reuniões, mesmo as de avaliação dos alunos, têm muito pouco de pedagógico e muito mais de prestação de contas. Em certos casos, também de ajuste. Penso que está a ganhar clara ascendência, a caminho da exclusividade, a função “supervisora” do trabalho dos docentes, aos quais são pedidas todas as justificações e atribuídas todas responsabilidades. É uma onda crescente que tem no seu ventre, implícitas, muitas mensagens de desconfiança relativamente à competência e ao profissionalismo dos professores. Vem de cima, há muito tempo, e é facilmente captada pela comunidade, traduzindo-se numa desautorização constante e numa subalternização crescente dos docentes, que — ou porque os mandam ou porque receiam —  consomem cada vez mais tempo (excessivo mesmo, sem hipérbole) a conceber, a redigir e a preencher documentos que, direta ou indiretamente, são justificações do que fizeram ou não fizeram (autênticos mea culpa), avaliações diretas ou indiretas do seu trabalho, indução de ações e de métodos, exposição perante os seus pares, perante os alunos e perante os encarregados de educação…  Enfim, inadmissíveis intimidações e repugnantes formas de pressão para o almejado cem por cento.
“Acreditam” as iluminuras políticas que este big brother resulta. E resulta mesmo, na minúscula e imediata aceção que eles subentendem. Há, porém, um mundo de consequências, extremamente negativas, que só o tempo vai desnudar. Todavia, uma será muito mais precoce. Não, não é o dito burnout da classe docente, é mesmo a morte do Professor. Disse bem: a morte do Professor. 

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Marcelo, António Costa, o Capuchinho Vermelho e os professores


Conhecendo o carisma de Marcelo Rebelo de Sousa, conhecendo jogo de cintura de António Costa e a ascendência que o primeiro tem sobre o segundo, não era preciso mais nada para um entendedor assim-assim poder futurar as consequências das “oportunas” palavras do Presidente da República (não se estragar agora o que foi conseguido com muito esforço e sofrimento), após o acordo assinado pelo Ministério da Educação. Para António Costa, foram ouro sobre cinzento: ouro, porque lhe escancararam as portas do recuo; cinzento, porque fora contra vontade que o Governo verbalizara o conteúdo do  dito acordo. Se não foi assim, sempre pareceu, e muito!
O que realmente destoa imenso neste quadro é o papel de Capuchinho Vermelho feito pelos sindicatos, que pouco ou nada parecem ter aprendido com os memorandos de entendimento de péssima memória. C’um catano, sindicatos, a nossa crença tem limites! Se não vos pondes mais finos e não aprendeis com aquele que dizem ter morrido de velho, ainda acabais por ficar na foto da interpretação como parceiros de marosca (que não sois, verdade seja dita e redita). Resumindo e concluindo: lembrai-vos sempre de perguntar ao Governo por que motivo tem aquela boca tão grande.
No topo da cauda, bem junto à foz do corpo, parece que estamos nós, os professores, com aquela horrível sensação de estarmos constantemente a ser “encaudados” e não sabermos nem porquê nem por quem
E é isto, vezes sem conta!  Irra!!!

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Já não acredito!




Não, já não acredito!
Não acredito que a seara acamada, há tanto tempo vergada à fúria do vento, ressequida pelo impiedoso estio, sujeita às torturas do invernoso frio delongado… não acredito que a seara prostrada e calcada se reerga do chão, um dia, e cresça aprumada para o céu!

Não, já não acredito!
Não acredito num véu devoluto de luz reacendida de outra luz fulgurante que o breu do tempo, lentamente, esmoreceu! Não acredito, mas luto incessantemente por esse luminoso milagre impredito! Luto contra a própria razão que me dita continuamente a vanidade da minha ação desesperançada e inconclusa. Encaro constantemente Medusa.

Não, já não acredito!
Em mim, a esperança desverdeceu. Mas… para além de mim, há todo o universo, todos os amanhãs…. tudo alheio à minha esperança e à razão que tenta ler o fado dos dias nascituros. E, ainda assim, serão puros esses dias. O que eu sei do porvir… é nada. O porvir há de ser, alheio ao meu crer particular: todo um mundo de esperanças além da esperança minha que morreu. E é por isso que eu ainda luto. Luto porque o meu brasão é perfeito e o depois um filão absoluto.
Dou-me inteiro, mesmo sem acreditar! 


sábado, 6 de janeiro de 2018

Haters



É uma teimosa coincidência. Sempre que publico determinadas ideias, eles surgem imediatamente, vindos do breu, com os seus papões, com os seus soundbites, com as suas tiradas amargas, com os seus insultos…Não sei se são haiters engajados, se apenas fanáticos simpatizantes de algumas ideologias, deste ou daquele partido, deste ou daquele sindicato… ou se meros freelancers a tentarem prosperar no submundo da boçalidade. Sei apenas que quando os “chamo”, eles aí estão.
A festa começou quando publiquei os primeiros artigos sobre a Ordem dos Professores e Educadores. Interpretei as primeiras farpadas como uma forma pouco polida de expressar uma opinião divergente. Todavia, quando divulguei a ideia da troca do “tempo congelado” por uma bonificação da contagem do tempo para a reforma — ideia que foi imediatamente acolhida por mais de um milhar de professores — percebi que havia ali militância, fosse ela de que tipo fosse. O foguetório hiperbolizou-se num instante: “Não venhas com trocas e baldrocas.”; “Os professores já têm quem os represente e defenda, não precisam de ti.”; “Vai-te embora, trocas e baldrocas!” And so on, and so on. Mais tarde, quando resolvi dar à luz algumas tiradas obviamente irónicas — como a de impontar para a reforma todos os professores mais velhos — o folguedo atingiu o seu ponto culminante. Inadvertidamente, escancarara o portão aos foliões. Aqueles que  me tinham presenteado em modo soft, já nos limites, vislumbraram nesses textos a oportunidade ideal para passarem ao modo hard, à boleia de um literalismo inadmissível. Mas resultou bem para eles, visto que muitos foram os que se deixaram ir na onda e se juntaram ao corso insultuoso (do pior). Quase conseguiram varrer-me do Facebook. Quaaaaase!
Anteontem resolvi voltar a tirar da gaveta o tema da Ordem e associá-lo a uma ideia de complementaridade da ação dos sindicatos. Foi imediato o “toca a reunir”. Só faltaram à chamada alguns dos mais trauliteiros, por motivos de “bloqueio higiénico”. Mas os lugares-comuns vieram todos (mais uma quota para pagar; mais um conjunto de parasitas a viverem à nossa custa; mais uma forma de controlo dos professores; a Ordem vai fazer a PACC aos professores…) com algumas beijocas cínicas à mistura: “Quem lhe disse que eu quero dialogar consigo?”; “Não o conheço e sou muito feliz assim!”; “Mais um que quer avaliar os professores?”; “Vê-se logo que não faz a mínima ideia do que é uma Ordem.” And so on, and so on. Tudo muito  "indocente"!
Como me nego a aceitar que professores comuns exibam tanta descortesia e uma visão tão estreita de temas como o da Ordem, só posso concluir que se trata de franco-atiradores mandatados (ou apenas com espírito de missão) para semearem ruído, para espantarem quem — julgam eles — põe em causa certos monopólios, como o da representação dos professores. Espero que não haja por aí quem se julgue dono das reivindicações docentes, e muito menos quem ache que os professores não precisam de se dar ao trabalho de pensar em soluções para os seus problemas, porque esse feudo já tem Senhor.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Chegou a resposta do Ministério da Educação



Contrariando muitas expectativas — de quem previu que o e-mail por mim enviado ao ministro da Educação seguiria diretamente para o lixo informático — recebi, há algumas horas, a resposta. Foi assinada pela Diretora dos Serviços de Gestão de Recursos Humanos e Formação, Maria João Martins Vieira. O conteúdo não é o ideal: esclarece que a matéria aludida é da competência da Caixa Geral de Aposentações e aconselha-me a encaminhar a proposta para essa instituição.
Não estranhei absolutamente nada a resposta lacónica e meramente administrativa. Como é óbvio, não esperava que o ministro da Educação tratasse de um assunto da competência do seu e de outros ministérios, e nem sequer me passou pela mente que pudesse ocupar-se de uma proposta de um professor em particular. Como facilmente se depreende, pretendia apenas fazer chegar a ideia ao Governo, para poder ser minimamente considerada, talvez encaminhada, talvez estudada…
A resposta da DSGRHF não é animadora, mas tem algo de positivo: sabemos que a missiva foi lida. Portanto, a ideia chegou onde e a quem eu pretendia que chegasse. Agora há que deixar o tempo fazer o seu trabalho (ou não).


terça-feira, 2 de janeiro de 2018

O meu íntimo baluarte


Van Gogh - Seara com corvos

         No início da década de 80, por brasões que sempre coloquei bem acima dos interesses e estatuto social, deixei a Sorbonne, sem hesitações. Tenho essas e outras memórias em livro que, a seu tempo, há de também ser publicado. Sinto muitas saudades dessa época e da cidade, onde regresso amiúde. Todavia, ainda não me arrependi dessa atitude.
Quando regressei a Portugal, regressei também ao ensino, como professor contratado. Tive sorte (e fui novamente feliz, na minha terra natal). No final desse ano, voltei a ter sorte, muita sorte mesmo. Recebi uma proposta para trabalhar na Porto Cálem, como superintendente, responsável pela casa e quinta dos Cálem, no Pinhão, e pelas adegas que a empresa tem na Régua e em S. Martinho de Anta. Tenho um curso geral de agricultura, mas creio que foi sobretudo por ser um homem de confiança de me empregaram. Os ingleses valorizam muito esse parâmetro. Tinha carro, casa e um vencimento superior àquele que recebia no ensino. E fui aumentado duas vezes no primeiro ano. A inflação era galopante, mas o meu patrão não se aproveitou, bem pelo contrário: ganhei poder de compra duas vezes.
Dois anos depois, voltei a ter sorte. Um casal de emigrantes (amigos da família), sabendo do meu íntimo desejo de continuar a estudar, “ofereceu-me”, aqui em Braga, um apartamento que não estavam a ocupar. Não hesitei. Despedi-me da empresa (cumprindo todas as normas e dando ao patrão o tempo necessário à transmissão de funções) e vim para a capital do Minho, com algum dinheiro no bolso (o último salário mais o correspondente ao subsídio de Natal dos meses já trabalhados), um jogo de lençóis, uma almofada e um cobertor. O “meu palácio” era novo, mas não tinha absolutamente nada. Nos primeiros dias, dormi no chão, depois lá comprei um colchão e só meses mais tarde, também por empréstimo, passei a dormir num sofá-cama. Deixei uma “vida de lorde” para me formar como professor, mas tive sorte, porque o que o futuro me reservou superou as minhas expectativas… até uma determinada encruzilhada do destino.
Volvidas duas normais décadas de ensino — com o seu inevitável carrocel de altos e baixos, com as suas dificuldades e carências, mas com dignidade — tudo começou a desmoronar à minha volta. Como num terramoto que tudo vai engolindo, remetendo-nos para áreas cada vez mais diminutas, fui-me refugiando em espaços cada vez exíguos, precariamente incólumes. Da "minha seara", pela qual deixei um sereno futuro de conforto, já pouco resta. Resta também muito pouco da soberania que me conferia realização, dignidade e respeito. E oiço, ao fundo (para meu maior tormento), a vozearia de uma interminável ópera, que me canta autonomias e sucessos que os meus olhos não vislumbram e profanos paraísos que a minha razão não consegue alcançar.
Atualmente, à semelhança do que acontece com muitos dos meus pares, luto com todas as armas e com todas as forças, para defender — cada vez com maior dificuldade e menor ilusão — o minúsculo baluarte que me resta: um pequeno retângulo de trigo crescente, que os corvos constantemente tentam invadir. Quando não for capaz de o defender dos pertinazes intrusos, morrerá a minha missão docente. Largarei tudo (TUDO) nesse dia! E então, sim, arrepender-me-ei severamente de ter abandonado a cidade do Amor.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Reis Magros




Passou o Natal, já passou o Ano Novo… mas ainda temos os Reis magros, que já vêm a caminho, do decerto de lá para o deserto de cá, com três cofres cheiros de couro, insensatez e irra.