sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

O veneno da flexibilização


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É já um velho (e até oco) cliché, o de um pacto de regime em matérias educativas. O que se tem visto na última década prova de que, naquilo que os partidos do dito arco da governação consideram realmente importante, o entendimento é perfeito. Não tem havido descontinuidades. Estou a pensar no grande semáforo que tem orientado todas as reformas últimos dez anos: o embaratecimento da escola pública, com todos os danos colaterais que tal desígnio implica.
Em honra a esse deus insaciável, todos os sacrifícios se  autojustificam: o encerramento cego de escolas, tudo o que passou a “mega”, os congelamentos, a conversão dos escalões e toda a tralha administrativa, todo o terrorismo psicológico e toda a pressão externa — direta e indireta, avaliativa ou meramente contratual — conducente à instalação do chip da transição a granel. E os partidos que estiveram no Governo foram absolutamente fiéis a este paradigma, com as suas nuances, como é evidente, mas respeitando sempre o grande e sapiente vetor economicista. Por isso, mantiveram também os professores sob pressão constante, sob bullying constante, sob violência constante. Recorreram a um vasto leque de instrumentos de intimidação e de divisão: a culpabilização pública, a divisão arbitrária da carreira (a coroação dos titulares), a avaliação ilegítima, a burocracia alienadora, as falsas autonomias, os projetos pedagógicos com juros pagos à cabeça (as taxas de sucesso prometidas), as ações de inseminação artificial (as ações onde foram gerados os pretensamente autónomos planos de ação estratégica)… Enfim, uma interminável caravana. E sempre que um estratagema “ganhou” demasiados anticorpos, foi artificiosamente perfumado com novos aromas e lançado, novamente, como maná, sobre os mudos, acorrentados, violentados e manietados professores. O caso mais recente — e que promete aquecer o ano de 2108 — é o da flexibilidade curricular. Que me desculpe o seu papá, João Costa, mas é a mesmíssima treta de sempre (passar todos os alunos), embrulhada agora com tecido elástico. Só que tem um pequenino (pequerruchinho) problema: é um presente envenenado, altamente tóxico.
Esta versão que João Costa fez do velho lema “passam todos, de todas as maneiras e feitios” promete elevar ao cubo toda a burocracia já existente, na qual os professores já navegam à toa, cada vez mais distantes da sua real vocação, da sua verdadeira missão, da sua genuína essência. Esta “invenção” de João Costa promete cilindrar completamente a paciência dos professores, promete engolir ainda mais tempo dos cidadãos e pais que são também professores, promete retirar-lhes uma boa porção da soberania na avaliação dos alunos, promete dividi-los ainda mais, promete reacender a discórdia nas escolas. Mas também promete “sucesso”, o tal que se mede em pontos percentuais muito próximos da centena, a beijá-la languidamente. Lá isso promete. O resto não interessa, porque a Escola Pública é para quem não pode nem pode poder.
Para além das desilusões que muitos professores terão de digerir, motivadas pelo finório descongelamento da progressão na carreira, o ano de 2018, sobretudo no último terço, será mais um annus horribilis para os professores, se esta aberração da flexibilização for, como parece, coisa para vingar. O número dos que quererão abandonar o ensino vai ser muito mais exponenciado do que os números da falsa pedra filosofal do sucesso.

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