quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O segredo propositadamente mal guardado




Luís Costa, 57 anos, professor do quadro de nomeação definitiva. Nestas lides, antes do Quadro Negro, já fui editor do Dardomeu, do DaNação, do Bravio e do Eramá. Sempre a reinventar-me, com periódicas e estratégicas retiradas, regressando sempre com renascidas crenças, renovada energia e acesos ímpetos, para assegurar o cumprimento da minha sina: nunca desistir. Não sou capaz.
Quando abri o Quadro Negro, não o fiz em absoluto anonimato. Para além do meu nicho familiar (como é óbvio) identifiquei-me a quem, por dever moral, tinha de me identificar. Quanto àqueles com quem, há uma década, tenho partilhado um modesto lugar nas trincheiras, fiz o suficiente para que eles me pudessem reconhecer: a “publicidade” habitual, na caixa de comentários dos seus blogues, e um discurso que, para eles, é quase como um código genético. Tenho a certeza de que, há muito, descobriram a verdadeira identidade de A. Marte. Na minha escola, fiz o suficiente para ser identificado, no final de outubro. Lancei uma garrafa ao mar. Ninguém me disse nada, mas estou convencido de que já “todos” têm conhecimento, desde essa altura. Posteriormente, como toda a gente sabe, escrevi aos líderes sindicais e ao próprio ministro da Educação (que, provavelmente, nem sequer leu a missiva). Como facilmente se conclui, o meu anonimato nunca o foi realmente, na plenitude.
Se assim é, por que motivo escolhi esta estratégia?
Embora já tenha dado aqui esta explicação, vou reiterar o seguinte: desta vez, só o fiz para poder ter uma pequena clareira temporal de integração na minha escola. Um pouco de paz, sem o costumeiro ruído daqueles que, na ausência de melhores argumentos, tentam enviesar o sentido das minhas crónicas, sugerindo que venho para aqui retratar o meu local de trabalho. Como não me podem castigar como desejariam, tentam assim minar o meu quotidiano, para que sejam outros a fazê-lo. E dado que não preciso de ajudas para me integrar com muita dificuldade — não sou uma pessoa nada “fácil” — vejo-me obrigado a recorrer a esta “invisibilidade” temporária, para não ter uma entrada catastrófica em cena. Já assim fiz há dois anos, quando criei o Bravio, que também começou com o meu anonimato e acabou na transparência total. Também nessa ocasião tinha acabado de mudar de escola.
No entanto, nem tudo é espectro, nestes temporários jogos de espelhos. É com um certo orgulho que vejo as minhas ideias, desligadas da minha assinatura, serem rápida e generalizadamente acolhidas: no final do primeiro mês, o Quadro Negro já tinha ultrapassado as 50 000 visitas; a carta exortativa que escrevi aos professores, nas vésperas da greve, foi lida por mais de 27 100 colegas.
Isto faz-me crer que o meu olho clínico e o meu discurso têm o seu espaço próprio nesta já longa odisseia de resiliência à qual, por uma questão de simplificação, convencionámos chamar “luta dos professores”. Sei que não é uma verdade absoluta, mas acreditar nessa “realidade” devolve-me mais facilmente ao calor das trincheiras. 


14 comentários:

  1. Deves estar a tentar bater algum recorde. Permite-me o conselho, estabiliza de uma vez para te podermos ler. Abraço

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    1. Sim. :)
      Vós nunca deixastes de me ler! Como facilmente se comprova, ponho as ideias que defendo muito acima de mim, do meu orgulho pessoal e do meu ego. Nesses baluartes... sou absolutamente estável.

      Tendes de compreender que o meu discurso, que tanto vos cativa, tem quase sempre um preço muito elevado para mim.
      Abraço, Alexandre!

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  2. Foi no dia 15 de outubro que nasceu!
    primeira frase
    "A desvitalização pedagógica dos professores é uma catástrofe consumada! " A. Marte
    Parece não ser só pedagógica. Alguns parecem gostar de submissão e ostracizam quem os defende.

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    1. Foi mesmo, Duilio! Foi no dia em que o país esteve "todo" a arder. Também atravessei o Norte, nesse fim de tarde, e foi obrigado várias vezes a desviar-me da rota. Cheguei a casa muito mais tarde do que pensava, mas cumpri o que pensava fazer nessa noite.

      Sei que me acompanhaste desde esse dia.

      Um grande abraço!

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  3. Um abraço Luís continua o teu caminho aqueles que defendem verdadeiramente a classe docente e principalmente os seus alunos estão contigo. Melhor estamos juntos.

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    1. Obrigado pelo apoio, Armando!
      Um grande abraço!

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  4. Because we need you, and your knowledge don't go...

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  5. Carlos Santos (dos gatinhos). Só há pouco mais de meio ano comecei a frequentar os espaços do facebook e, mais concretamente, os dos professores.durante 5 anos frequentei o Fórum AutoHoje como "BLADERUNNER" onde sempre fui um pensador livre, mesmo contra-corrente, e angariei um conjunto de amizades virtuais "materializadas" em outros 5 anos considerado o melhor utilizador daquele espaço, mas também o ódio de tantos que não gostam de quem não vai atrás da carneirada e tem pensamento próprio, de quem defende interesses particulares ou amotina-se em bairrismos ideológicos e pessoais, ou que se sentia incomodado com quem denuncia tudo aquilo que o incomoda.
    Antes viver entre amores e ódio do que invisível. Soube quando chegou a hora de sair há 4 anos (com muita pena e incompreensão de quem me seguia diariamente), mas achei ser o momento de expor as minhas ideias no facebook porque, tal como o Luís, sou um espírito inquieto e inconformado.

    Acompanho regularmente o que dizia o "Quadro Negro, assim como o Duílio e o "ComRegras", porque me revejo nessa forma de estar na vida. achei que a nossa sociedade e mesmo os professores não estão ainda preparados para "escutar" certas ideias e ver aquilo que olham mas não veem ou não querem ver.

    O seu anonimato assemelha-se de certa forma à razão porque abandonei os cargos e delegado e dirigente sindical (dos que o fazem por carolice e continuam a dar o horário completo) - ter a liberdade de expressão sem condicionalismos.
    Lamento que muitos professores prefiram a comida mastigada a ter de a digerir; daí muitos não entenderem a profundidade da ironia ou a intencionalidade de uma alfinetada na hora certa com que habitualmente nos brindava. Por isso a importância de ser diferente, senão não eram necessárias tantas individualidades - bastava uma. Sacudir consciências costuma dar nisso, mas se entendo que dá algum desalento ser incompreendido e até injustamente insultado, também tem a virtude de provocar um grande gozo com palavras ter a força de abanar esta multidão tão adormecida.

    PARABÉNS pelo seu excelente contributo social e à classe que, certamente não desaparecerá, pois as ideias não morrem e a vontade está aí, pelo que certamente não deixará de inquietar o marasmo existencial de tantos espíritos demasiado quietos que se esquecem que viver não é o mesmo que estar vivos.
    Abraço e até um breve, colega

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  6. Sim, Carlos, ser ousado e frontal nestas lides tem sempre um alto preço. É preciso muita determinação (por vezes alguma dose de loucura) para permanecer, sabendo que é "sempre" das nossas hostes que vêm os golpes mais profundos.

    Muito obrigado pelo extenso comentário que redigiu e pelas palavras de apreço relativamente ao meu modesto contributo para esta nossa infindável resiliência, um contributo que vou manter, aqui mesmo, neste Quadro Negro, que continuarei a povoar de brancura, apesar de ter dito que, após a divulgação da minha identidade, me iria embora. A moral diz-me que posso quebrar todas as promessas de ir embora. Mas estou absolutamente proibido de prometer ficar e partir, de prometer regressar e não o fazer, de desistir mesmo. Desde que não cometa nenhum desses pecados mortais, sou ilimitadamente livre.

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  7. Ando por aqui, a tentar recuperar o que perdi. "(...) ser ousado e frontal nestas lides tem sempre um alto preço. É preciso muita determinação (por vezes alguma dose de loucura) para permanecer, sabendo que é "sempre" das nossas hostes que vêm os golpes mais profundos." Não posso estar mais de acordo. E também não posso estar mais contente por teres voltado, Companheiro!

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    1. Estes reencontros compensam bem as partidas e as ausências. A alegria é recíproca.

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  8. Ah, como eu gosto de vir aqui, independentemente do nome! Confesso, gosto de A. Marte. Sei lá... faz-me sentir em casa 👽 mas 'amartehei' de igual forma, Luís Costa 😊

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  9. Muito obrigado pelo incentivo e pela companhia, nêspera!
    Grande abraço!

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