sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

O meu tempo


Quando iniciei a carreira, tinha todo o tempo do mundo diante de mim. Mas também tinha tempo no tempo em que vivia e trabalhava. Tinha tempo para SER, de corpo inteiro. Falhava-me, muitas vezes, o dinheiro, mas tinha o melhor aliado de um professor: o tempo.
Com o tempo, fui perdendo tempo: o que o próprio Tempo me foi subtraindo e aquele que me foi sendo roubado, sobretudo no último decâmetro cronológico congelado. Perdi toda a noção do tempo. Foi o descontrolo total: deixei de ter tempo para ler, para me informar, para estudar, para planificar com tempo, para ensinar e educar com tempo, para refletir, para consolidar com tempo, para repetir, criar rotinas, aperfeiçoar…; deixei de ter tempo para assimilar as constantes mudanças (a todos os níveis) que, em vórtice vertiginoso, inundaram a escola de instabilidade e indefinição; deixei de ter tempo para ser o professor que fora até então. E o drama de ser foi tragicamente agravado pela enxurrada de tarefas e de logros que me desviaram criminosamente do meu espaço e me passaram a consumir o meu já tão escasso tempo. Tornei-me um carente de tempo, um faminto de tempo, um… predador de tempo. Fiz-me ladrão de tempo.
Comecei por roubar ao meu próprio tempo: o saboroso tempo dos meus passatempos. Depois, tive de ousar roubar o tempo dos amigos. Principiei com pequenos furtos e acabei por roubar desalmadamente. Espoliei-os até à exaustão. Mais tarde, como o meu tempo docente continuou a ser aleivosamente assaltado, fui obrigado a roubar os meus próprios Templos. Tornei-me um cleptómano do meu Tempo Sagrado: desatei a roubar tempo ao meu sono e aos meus sonhos. Passei a dormir muito menos e a sonhar muito menos também. Cada vez menos, o que é leucémico num professor. Acabei nesta total e irremissível indigência: roubo agora tempo aos Meus. Pecado capital! Talvez por isso não mereça nem perdão, nem gratidão nem respeito. Sou um miserável de tempo e do meu tempo.
Dou-me a um país que tem dinheiro para quem rouba o que a tantos tanto tempo leva a amealhar, mas que não tem dinheiro para dar a quem faz a gestação luminosa do tempo à custa de tanto tempo roubado. A mim, POR FAVOR, pague-me o meu país, em tempo, o meu tempo congelado, que é de tempo que ando famintamente carenciado. Mas, POR FAVOR, pague-me a tempo, senão já não vou a tempo de ser minimamente saciado. 

       

31 comentários:

  1. Obrigado Alexandre!
    Gosto que estejas comigo!

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  2. Adorei o seu texto ... devia assinar para podermos partilhar com direitos de autor.
    Revejo-me de tal forma que me apetece mostrá-lo a todos ...
    Abraço

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    1. Obrigado, Henriqueta!

      Partilhe, a partir daqui (nas opções oferecidas, ou copiando o link). Se o imprimir, peço-lhe que diga que o autor é A. Marte, editor do blogue Quadro Negro.

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  3. Diria igual. Melhor, não. Também eu uso a expressão "...dias sem tempo para ter tempo..."
    Um abraço fraterno.

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    1. Obrigado, Graça!

      Abraço igualmente fraterno.

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  4. Aquela lengalenga que aprendemos em criança (o tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem...) deixou de ter sentido. Roubaram-nos o tempo de ter tempo para o tempo.

    :)

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    1. Concordo e não me venham com a léria que é o poder central que faz isso. Abaixo os burocratas...

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  5. Na quinta estive até às 19h na escola em reunião de ano. Na segunda vou ter outra de departamento às 14.30. A sastifação de recuperar o feriado roubado fica de certo modo atenuada. O tempo também o perdi, poe vezes já não sei a quantas ando.

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  6. Gostava de ter sido eu a escrever este texto... simplesmente brilhante... Vou partilhar

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  7. As suas palavras deixaram-me sem palavras. Obrigada por partilhar de forma tão bonita a nossa voz, os nossos sentimentos. Não é só uma questão salarial ou de carreira, é o nosso tempo que tirámos aos nossos e que não volta. Partilhei. Ana Sofia Ribeiro

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  8. Também agradeço, Ana Sofia, porque é desse "retorno" que quem escreve alimenta o seu alento. Sim, neste contexto, o tempo é a melhor moeda.

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    1. Palavras certas, colega! Por vezes também penso que não terei tempo para viver o tempo da minha aposentação 😞

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    2. Obrigado, Alda! Eu, idubitavelmente, troco tempo congelado (e o dinheiro correspondente) por tempo de reforma.

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  10. Eu também. Não hesitaria um segundo, pois 37 anos são mais que suficiente

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  11. Excelente! Fez-me lembrar o tempo que perdi, em especial com a minha licenciatura à noite e não vi a minha filha crescer. Vou partilhar. Obrigada!

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  12. Extraordinário!!!!! Como eu gostaria de ter escrito este maravilhoso texto! Parabéns e espero que continue a deliciar-me com a sua escrita!

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  13. Obrigado, Cristina!
    Com tanto estímulo, intrínseco e extrínseco, a pena só pode escrever inspirada.

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  14. Fabuloso! Ainda estou "arrepiada". Parabéns.

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