Quando iniciei a
carreira, tinha todo o tempo do mundo diante de mim. Mas também tinha tempo no
tempo em que vivia e trabalhava. Tinha tempo para SER, de corpo inteiro. Falhava-me,
muitas vezes, o dinheiro, mas tinha o melhor aliado de um professor: o tempo.
Com o tempo, fui perdendo
tempo: o que o próprio Tempo me foi subtraindo e aquele que me foi sendo
roubado, sobretudo no último decâmetro cronológico congelado. Perdi toda a
noção do tempo. Foi o descontrolo total: deixei de ter tempo para ler, para me
informar, para estudar, para planificar com tempo, para ensinar e educar com
tempo, para refletir, para consolidar com tempo, para repetir, criar rotinas, aperfeiçoar…;
deixei de ter tempo para assimilar as constantes mudanças (a todos os níveis) que,
em vórtice vertiginoso, inundaram a escola de instabilidade e indefinição;
deixei de ter tempo para ser o professor que fora até então. E o drama de ser
foi tragicamente agravado pela enxurrada de tarefas e de logros que me
desviaram criminosamente do meu espaço e me passaram a consumir o meu já tão
escasso tempo. Tornei-me um carente de tempo, um faminto de tempo, um… predador
de tempo. Fiz-me ladrão de tempo.
Comecei por roubar ao meu
próprio tempo: o saboroso tempo dos meus passatempos. Depois, tive de ousar
roubar o tempo dos amigos. Principiei com pequenos furtos e acabei por roubar
desalmadamente. Espoliei-os até à exaustão. Mais tarde, como o meu tempo docente
continuou a ser aleivosamente assaltado, fui obrigado a roubar os meus próprios
Templos. Tornei-me um cleptómano do meu Tempo Sagrado: desatei a roubar tempo
ao meu sono e aos meus sonhos. Passei a dormir muito menos e a sonhar muito menos
também. Cada vez menos, o que é leucémico num professor. Acabei nesta total
e irremissível indigência: roubo agora tempo aos Meus. Pecado capital! Talvez
por isso não mereça nem perdão, nem gratidão nem respeito. Sou um miserável de
tempo e do meu tempo.
Dou-me a um país que tem
dinheiro para quem rouba o que a tantos tanto tempo leva a amealhar, mas que
não tem dinheiro para dar a quem faz a gestação luminosa do tempo à custa de
tanto tempo roubado. A mim, POR FAVOR, pague-me o meu país, em tempo, o meu tempo congelado, que é de
tempo que ando famintamente carenciado. Mas, POR FAVOR, pague-me a tempo, senão
já não vou a tempo de ser minimamente saciado.
Brilhante!!!
ResponderEliminarObrigado Alexandre!
ResponderEliminarGosto que estejas comigo!
Muito bem dito! :)
ResponderEliminarObrigado, Alcides!
EliminarAdorei o seu texto ... devia assinar para podermos partilhar com direitos de autor.
ResponderEliminarRevejo-me de tal forma que me apetece mostrá-lo a todos ...
Abraço
Obrigado, Henriqueta!
EliminarPartilhe, a partir daqui (nas opções oferecidas, ou copiando o link). Se o imprimir, peço-lhe que diga que o autor é A. Marte, editor do blogue Quadro Negro.
Diria igual. Melhor, não. Também eu uso a expressão "...dias sem tempo para ter tempo..."
ResponderEliminarUm abraço fraterno.
Obrigado, Graça!
EliminarAbraço igualmente fraterno.
Aquela lengalenga que aprendemos em criança (o tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem...) deixou de ter sentido. Roubaram-nos o tempo de ter tempo para o tempo.
ResponderEliminar:)
Sem dúvida, Nêspera! :)
EliminarConcordo e não me venham com a léria que é o poder central que faz isso. Abaixo os burocratas...
EliminarNa quinta estive até às 19h na escola em reunião de ano. Na segunda vou ter outra de departamento às 14.30. A sastifação de recuperar o feriado roubado fica de certo modo atenuada. O tempo também o perdi, poe vezes já não sei a quantas ando.
ResponderEliminarCaso típico, Coelho!
EliminarMuita verdade.
ResponderEliminarInfelizmente, Elisa!
EliminarGostava de ter sido eu a escrever este texto... simplesmente brilhante... Vou partilhar
ResponderEliminarObrigado, Armando!
EliminarAs suas palavras deixaram-me sem palavras. Obrigada por partilhar de forma tão bonita a nossa voz, os nossos sentimentos. Não é só uma questão salarial ou de carreira, é o nosso tempo que tirámos aos nossos e que não volta. Partilhei. Ana Sofia Ribeiro
ResponderEliminarTambém agradeço, Ana Sofia, porque é desse "retorno" que quem escreve alimenta o seu alento. Sim, neste contexto, o tempo é a melhor moeda.
ResponderEliminarTexto muito bem feito...
ResponderEliminarObrigado, Dante!
EliminarPalavras certas, colega! Por vezes também penso que não terei tempo para viver o tempo da minha aposentação 😞
EliminarObrigado, Alda! Eu, idubitavelmente, troco tempo congelado (e o dinheiro correspondente) por tempo de reforma.
EliminarEu também. Não hesitaria um segundo, pois 37 anos são mais que suficiente
ResponderEliminarSem dúvida, Alda!
EliminarExcelente! Fez-me lembrar o tempo que perdi, em especial com a minha licenciatura à noite e não vi a minha filha crescer. Vou partilhar. Obrigada!
ResponderEliminarObrigado, Rosa!
EliminarNada a agradecer.
Extraordinário!!!!! Como eu gostaria de ter escrito este maravilhoso texto! Parabéns e espero que continue a deliciar-me com a sua escrita!
ResponderEliminarObrigado, Cristina!
ResponderEliminarCom tanto estímulo, intrínseco e extrínseco, a pena só pode escrever inspirada.
Fabuloso! Ainda estou "arrepiada". Parabéns.
ResponderEliminarObrigado, Luísa!
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