Como sugeri no artigo
precedente, pensei que, apesar do meu “anonimato” (já tem de ser escrito com
aspas), a ação por mim desenvolvida pudesse conceder-me algum crédito de
confiança por parte daqueles por quem aqui tenho pugnado. Tudo o que aqui tenho
dito tem um único e inequívoco sentido. Por isso mesmo, entendi que uma tirada
irónica não ofereceria a menor reserva interpretativa a ninguém. Estava
enganado! De nada valera o meu coerente historial!
Muitos leitores — ávidos
de exteriorização de maus ímpetos ou de sublimação de recalcamentos — iniciaram
uma autêntica intifada verbal contra a minha pessoa. E de nada serviram as
explicações que fui dando nem o artigo que escrevi, cujo link colei na caixa de comentários, quase transformada em
escarrador docente. O apedrejamento continuou a sua inexorável sina (sangue na
alma!). Ver assim agir os meus colegas, como uma turba cega e descontrolada, tira-me
tempo de vida. Mas, ainda assim, vou explicar o que tantas “certezas”
levantou.
Como já tive ocasião de
referir, a piada irónica foi dada à luz (ou à escuridão, pelos vistos) no dia em
que foi publicado mais um daqueles sapientíssimos relatórios/estudos do CNE, com
odores que lembram David Justino. Uma vez mais, o envelhecimento da classe
docente, as aulas teóricas e o insucesso escolar surgem associados, o que é
absolutamente ignorante e insidioso. Nenhum país “com dois dedos de testa”
troca a sageza dos professores mais experientes pela energia e/ou pelos
conhecimentos dos neófitos. Nada tenho contra os mais novos, como é óbvio (não
venham agora eles no meu encalço!), nem acho que seja necessário argumentar a
seu favor. Seria uma estrondosa estupidez da minha parte.
Foi neste contexto que eu
tive este desabafo irónico e provocador: “Pois...
eu também acho que os professores mais velhos só atrapalham o esquema. Se
mandasse, impontava-os já para a reforma”.
“O que é isso de “atrapalhar
o esquema?”, perguntaram algumas almas intrigadas, julgando-me novinho e desejoso
de expulsar os “velhos” para ficar no lugar de um deles. Aqui está a enigmática
resposta: quem ainda tem memória do que já fomos são os mais velhos; quem
ainda vai manifestando consciência crítica são sobretudo os mais velhos; quem
ainda vai resistindo são os mais velhos (porque também são menos precários); é
dos mais velhos que os políticos medíocres se querem livrar, para instrumentalizarem,
de forma absoluta, a classe docente. Só não o fizeram porque não há dinheiro.
Houvesse um pouco mais de vil metal disponível... Foi isso que eu quis dizer.
Como é mais do que evidente — gritantemente evidente — o verbo “impontar”
denuncia este íntimo desejo da nossa “classe pensante”. Toda a declaração
irónica foi, de facto, produzida não na minha perspetiva, mas na desses
actantes dos nossos destinos. Pensei que isto não poderia escapar a ninguém,
pelo menos a ninguém que tivesse lido um texto meu. Estava enganado! Tenho
pena, muita pena!
Por vezes, a desilusão e
a mágoa fazem-nos valorizar mais as vozes de quem nos maltrata do que as que
nos afagam. Desta vez, decidi que não será assim. Sigo em frente, pelas minhas convicções
e por todos aqueles que me respeitam e me querem. Tenho essa obrigação moral. E
como a minha identidade só ainda é um enigma para quem anda muito distraído,
vou deixar-me ficar neste modesto recato, porque continuarei a exercê-lo com elevação
ética.
A. Marte
Lambejos
ResponderEliminarIgualmente, proflm.
EliminarO problema da classe docente tem sido esse. Uma inflexibilidade de pensamento que assola mais novos e mais velhos, não lhes permitindo a lucidez de verem que se perdem nesses ataques mesquinhos em vez de se fortalecerem juntos.
ResponderEliminarEu sou das mais velhas e entendi a sua ironia.
Boa noite
Casos como este deixam-nos a sensação de tudo ser efémero e vão. Parece que nada fica do que dizemos.
ResponderEliminarColega não fique triste e não desista.
ResponderEliminarLembre-se que hoje em dia os colegas que deviam ser unidos, semeiam muitas vezes a discórdia com não assuntos, basta assistir a uma reunião, seja ela de que proveniência for.
A coisa é de loucos!!! um mundo Kafkiano, dantesco, boçal mesmo.
Um professor com a s/categoria não pode nem deve deixar-se crucificar dessa maneira.
Tem a minha simpatia e solidariedade pelo que escreveu. Aliás admiro e não poderia estar mais de acordo com o que escreveu.
Fique bem
Maria Alves