sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

A minha ironia explicada a… quem não a entendeu e a quem não a quis entender

Como sugeri no artigo precedente, pensei que, apesar do meu “anonimato” (já tem de ser escrito com aspas), a ação por mim desenvolvida pudesse conceder-me algum crédito de confiança por parte daqueles por quem aqui tenho pugnado. Tudo o que aqui tenho dito tem um único e inequívoco sentido. Por isso mesmo, entendi que uma tirada irónica não ofereceria a menor reserva interpretativa a ninguém. Estava enganado! De nada valera o meu coerente historial!
Muitos leitores — ávidos de exteriorização de maus ímpetos ou de sublimação de recalcamentos — iniciaram uma autêntica intifada verbal contra a minha pessoa. E de nada serviram as explicações que fui dando nem o artigo que escrevi, cujo link colei na caixa de comentários, quase transformada em escarrador docente. O apedrejamento continuou a sua inexorável sina (sangue na alma!). Ver assim agir os meus colegas, como uma turba cega e descontrolada, tira-me tempo de vida. Mas, ainda assim, vou explicar o que tantas “certezas” levantou.
Como já tive ocasião de referir, a piada irónica foi dada à luz (ou à escuridão, pelos vistos) no dia em que foi publicado mais um daqueles sapientíssimos relatórios/estudos do CNE, com odores que lembram David Justino. Uma vez mais, o envelhecimento da classe docente, as aulas teóricas e o insucesso escolar surgem associados, o que é absolutamente ignorante e insidioso. Nenhum país “com dois dedos de testa” troca a sageza dos professores mais experientes pela energia e/ou pelos conhecimentos dos neófitos. Nada tenho contra os mais novos, como é óbvio (não venham agora eles no meu encalço!), nem acho que seja necessário argumentar a seu favor. Seria uma estrondosa estupidez da minha parte.
Foi neste contexto que eu tive este desabafo irónico e provocador: “Pois... eu também acho que os professores mais velhos só atrapalham o esquema. Se mandasse, impontava-os já para a reforma”.
“O que é isso de “atrapalhar o esquema?”, perguntaram algumas almas intrigadas, julgando-me novinho e desejoso de expulsar os “velhos” para ficar no lugar de um deles. Aqui está a enigmática resposta: quem ainda tem memória do que já fomos são os mais velhos; quem ainda vai manifestando consciência crítica são sobretudo os mais velhos; quem ainda vai resistindo são os mais velhos (porque também são menos precários); é dos mais velhos que os políticos medíocres se querem livrar, para instrumentalizarem, de forma absoluta, a classe docente. Só não o fizeram porque não há dinheiro. Houvesse um pouco mais de vil metal disponível... Foi isso que eu quis dizer. Como é mais do que evidente — gritantemente evidente — o verbo “impontar” denuncia este íntimo desejo da nossa “classe pensante”. Toda a declaração irónica foi, de facto, produzida não na minha perspetiva, mas na desses actantes dos nossos destinos. Pensei que isto não poderia escapar a ninguém, pelo menos a ninguém que tivesse lido um texto meu. Estava enganado! Tenho pena, muita pena!
Por vezes, a desilusão e a mágoa fazem-nos valorizar mais as vozes de quem nos maltrata do que as que nos afagam. Desta vez, decidi que não será assim. Sigo em frente, pelas minhas convicções e por todos aqueles que me respeitam e me querem. Tenho essa obrigação moral. E como a minha identidade só ainda é um enigma para quem anda muito distraído, vou deixar-me ficar neste modesto recato, porque continuarei a exercê-lo com elevação ética.

A. Marte 


5 comentários:

  1. O problema da classe docente tem sido esse. Uma inflexibilidade de pensamento que assola mais novos e mais velhos, não lhes permitindo a lucidez de verem que se perdem nesses ataques mesquinhos em vez de se fortalecerem juntos.
    Eu sou das mais velhas e entendi a sua ironia.

    Boa noite

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  2. Casos como este deixam-nos a sensação de tudo ser efémero e vão. Parece que nada fica do que dizemos.

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  3. Colega não fique triste e não desista.

    Lembre-se que hoje em dia os colegas que deviam ser unidos, semeiam muitas vezes a discórdia com não assuntos, basta assistir a uma reunião, seja ela de que proveniência for.

    A coisa é de loucos!!! um mundo Kafkiano, dantesco, boçal mesmo.

    Um professor com a s/categoria não pode nem deve deixar-se crucificar dessa maneira.

    Tem a minha simpatia e solidariedade pelo que escreveu. Aliás admiro e não poderia estar mais de acordo com o que escreveu.



    Fique bem



    Maria Alves

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