domingo, 31 de dezembro de 2017

Votos para 2018




Ao longo destes quatro últimos dias deste ano, fui manifestando, no Facebook, os meus desejos para 2018. Doze, no total, em quatro parcelas iguais: três dedicados aos professores, três dirigidos aos diretores, três relativos aos sindicatos e três respeitantes ao Ministério da Educação.
Decidi reuni-los e publicá-los também no Quadro Negro, para possibilitar uma visão de conjunto e, sobretudo, para proporcionar também a leitura a quem não navega naquela rede social.
Sonho demasiado? Talvez. Porém, não estou a desejar nada “do outro mundo”, mas apenas o que — creio eu e creem muitos professores — seria desejável e… perfeitamente possível. Não tenho dúvidas de que a realização progressiva destes desejos traria muita brancura a todo o sistema educativo: BRANCURA em toda a sua extensão simbólica.
Sei que faço erguer contra mim muitas antipatias, outras tantas más vontades e algumas aversões, mas também estou ciente de que tenho muitos mais colegas que me estimam, que se reveem nas ideias que expresso e nas lutas que travo. Sinto que a minha voz — por vezes pungente, por vezes aflita, por vezes estridente, por vezes implacável — é o som sintático de um mar de silêncios. Mas não é apenas por estes que aqui me dou (ao sacrifício, muitas vezes), é por todos, mesmo por quem me detesta, por quem gostaria de me ver arrasado numa arena quente. Ainda assim, continuo, porque só obedeço a princípios e valores, não a interesses nem a simpatias ou antipatias. E acreditai que não desfrutarei de alguns dos troféus pelos quais tanto me exponho. Não erguerei o seu ouro!
Para que não restem dúvidas sobre quem combato e o que combato, terei de dizer três frases inequívocas: “amo” a diretora da minha escola, tenho uma consideração ENORME pelo presidente do conselho geral e sou muito amigo de alguns diretores. No meu estandarte não estão nem os meus pés nem o meu umbigo. Não é a minha sombra que me move.
Porque é sobre os ombros dos professores que tudo cai e todos pisam, desejo a todos os meus colegas (todos, sem exceção) um 2018 de união, de libertação e de realização profissional. Nos arrabaldes desse anseio — já para lá dos limites da razão — ainda ouso sonhar com “O Ano dos Professores”. Agora, sim, já estou a voar!

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

O veneno da flexibilização


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É já um velho (e até oco) cliché, o de um pacto de regime em matérias educativas. O que se tem visto na última década prova de que, naquilo que os partidos do dito arco da governação consideram realmente importante, o entendimento é perfeito. Não tem havido descontinuidades. Estou a pensar no grande semáforo que tem orientado todas as reformas últimos dez anos: o embaratecimento da escola pública, com todos os danos colaterais que tal desígnio implica.
Em honra a esse deus insaciável, todos os sacrifícios se  autojustificam: o encerramento cego de escolas, tudo o que passou a “mega”, os congelamentos, a conversão dos escalões e toda a tralha administrativa, todo o terrorismo psicológico e toda a pressão externa — direta e indireta, avaliativa ou meramente contratual — conducente à instalação do chip da transição a granel. E os partidos que estiveram no Governo foram absolutamente fiéis a este paradigma, com as suas nuances, como é evidente, mas respeitando sempre o grande e sapiente vetor economicista. Por isso, mantiveram também os professores sob pressão constante, sob bullying constante, sob violência constante. Recorreram a um vasto leque de instrumentos de intimidação e de divisão: a culpabilização pública, a divisão arbitrária da carreira (a coroação dos titulares), a avaliação ilegítima, a burocracia alienadora, as falsas autonomias, os projetos pedagógicos com juros pagos à cabeça (as taxas de sucesso prometidas), as ações de inseminação artificial (as ações onde foram gerados os pretensamente autónomos planos de ação estratégica)… Enfim, uma interminável caravana. E sempre que um estratagema “ganhou” demasiados anticorpos, foi artificiosamente perfumado com novos aromas e lançado, novamente, como maná, sobre os mudos, acorrentados, violentados e manietados professores. O caso mais recente — e que promete aquecer o ano de 2108 — é o da flexibilidade curricular. Que me desculpe o seu papá, João Costa, mas é a mesmíssima treta de sempre (passar todos os alunos), embrulhada agora com tecido elástico. Só que tem um pequenino (pequerruchinho) problema: é um presente envenenado, altamente tóxico.
Esta versão que João Costa fez do velho lema “passam todos, de todas as maneiras e feitios” promete elevar ao cubo toda a burocracia já existente, na qual os professores já navegam à toa, cada vez mais distantes da sua real vocação, da sua verdadeira missão, da sua genuína essência. Esta “invenção” de João Costa promete cilindrar completamente a paciência dos professores, promete engolir ainda mais tempo dos cidadãos e pais que são também professores, promete retirar-lhes uma boa porção da soberania na avaliação dos alunos, promete dividi-los ainda mais, promete reacender a discórdia nas escolas. Mas também promete “sucesso”, o tal que se mede em pontos percentuais muito próximos da centena, a beijá-la languidamente. Lá isso promete. O resto não interessa, porque a Escola Pública é para quem não pode nem pode poder.
Para além das desilusões que muitos professores terão de digerir, motivadas pelo finório descongelamento da progressão na carreira, o ano de 2018, sobretudo no último terço, será mais um annus horribilis para os professores, se esta aberração da flexibilização for, como parece, coisa para vingar. O número dos que quererão abandonar o ensino vai ser muito mais exponenciado do que os números da falsa pedra filosofal do sucesso.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Director Gadjet





O "desanonimato" dá asas à minha liberdade criativa. Tão bom!!! Agora já posso voltar a mimar aqueles que mais amo. Como sei que há por aí muitas saudades destas minhas rabanadas...

A banalidade do mal e o sabor dos anos que passam



“Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo o dia.”
José Saramago

1. Passou o Natal das ocas farturas. Por comodidade e interesse, o Natal comercial tem varrido da memória dos homens o verdadeiro Natal, menos fantasioso, aquele em que Herodes, o Grande, ao saber do nascimento do Rei dos Judeus, mandou assassinar todos os recém-nascidos em Belém, para varrer o alegado concorrente. Segue-se a passagem de ano e é tempo do habitual balanço.
Em 2017, Portugal tornou-se moda para os turistas. Em 2017, assegura a santa madre Estatística, cresceu a economia, cresceu o emprego e registámos o mais baixo défice desde 1974. Em 2017, saímos do procedimento por défice excessivo e recebemos bulas purificadoras das agências de rating. Em 20017, um dos diáconos do totalitarismo financeiro, mas nosso, arrebatou o ceptro do Eurogrupo.
Prestes a findar 2017, o parecer do Tribunal de Contas sobre a Conta Geral do Estado de 2016 foi claro: de 2008 a 2016, foram-nos extorquidos 14,6 mil milhões de euros para acudir aos desmandos de banqueiros e amigos, soltos e impunes. Em 2017, os incêndios florestais fizeram 111 mortos e 350 feridos.
Em 2017, um político que foi de férias quando meio Portugal ardia, considerou saboroso o ano que finda.
Imagino como seria cómoda a vida de um governante que não se importasse com nada nem ninguém. Mas será possível governar sem se importar? Será possível governar sem a capacidade de nos colocarmos na pele daqueles que não conhecemos, mas sofrem? Será possível governar sem amar? No coração de quem ama, os êxitos efémeros não apagam o sofrimento perene nem as alegrias superficiais afastam a dor mais funda.
2. Felizmente recuperado das vertigens e falta de equilíbrio que a síndrome vestibular aguda lhe provocou, o ministro Tiago Brandão Rodrigues foi à Chamusca e caiu do cavalo da demagogia. Embalado pelo trote das referências à “metodologia expositiva” (Estado da Educação 2016, CNE, págs. 7, 27 e 28), alegadamente usada em excesso pelos professores, e instado a pronunciar-se sobre a matéria (PÚBLICO, 15.12.17), passou ao galope: “...esses dados dizem respeito ao ano lectivo 2015-2016, cujo início foi ainda da responsabilidade do anterior Governo. Tivemos a oportunidade de, sabendo nós como o estado da educação se apresentava nesse ano lectivo, poder desenvolver novas políticas públicas para dar resposta à estaticidade das salas de aula...”
Estática esteve a leitura do relatório por parte do patusco ministro. É que “esses dados” referem-se a 2012, como está no relatório que Tiago não leu. E a poderem, inquisitoriamente, ser ligados de modo isolado a algum Governo, então seria... ao do PS (Lurdes Rodrigues e Isabel Alçada).
3. A 19 deste mês, a página institucional da DGAE ofereceu-nos um texto de antologia propagandística sobre as inovações, velhas de décadas, do secretário de Estado João Costa, autor da prosa. Sob a epígrafe “Autonomia, Liderança e Participação”, disse-nos João Costa:
“O insucesso não é, pois, o problema de uma taxa que queremos reduzir, mas sim o problema de qualidade das aprendizagens e de justiça social que precisamos de resolver.”
O engenho ensaísta do secretário de Estado antecipou uma probabilidade inovadora: a taxa pode aumentar mas o insucesso diminuir. É uma questão de reescrever o que entendemos por qualidade das aprendizagens. E a caneta pedagógica é ele que a tem.
4. A secretária de Estado Alexandra Leitão, em representação do Governo, assumiu o compromisso de negociar com os sindicatos o modelo da recomposição da carreira dos professores, tendo por referência o actual estatuto, por forma a ser possível a recuperação do tempo de serviço. No exercício negocial em curso, o Ministério da Educação divulgou números falsos sobre as correspondentes implicações financeiras, com o óbvio intuito de iludir a opinião pública. Este procedimento é próprio de aldrabões. Apesar de deselegantes, há momentos em que determinadas palavras têm que ser usadas.
in Público, 27/12/2017

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Carta aberta aos administradores do Faceprof




Será, imperiosamente, muito sucinta esta missiva, pois apenas quero exprimir o meu profundo pesar pelo modo como geris e moderais o Faceprof: autênticos demiurgos daqueles que pertencem a esse grupo de professores. Mas não é do coletivo docente que vou falar, é apenas de mim e do modo como fui e estou a ser tratado por vós (como um proscrito).
De quantas vidas precisais para dar o que eu já dei à classe? Quem sois vós, para decidir que eu não tenho lugar num grupo docente? Qual de vós tem autoridade moral para decidir que a minha presença e as minhas ideias lesam os interesses dos professores? Quais são os verdadeiros motivos que suportam a vossa não assumida recusa? Aposto que não sois capazes de responder, de forma clara e inequívoca, a nenhuma destas questões.
O vosso silêncio, relativamente ao meu pedido de adesão, faz-me crer (agora) em possibilidades que descartei no passado: que a supressão de uma mensagem que divulguei no dia da greve (15/11), depois devolvida a vitrina cibernética, não terá sido tão automática como então me fizeram acreditar; que a “denúncia” do meu anonimato ao Facebook está relacionada com uma vontade latente de me verem fora desse grupo (não estou a afirmar que foram os administradores do Faceprof que o fizeram, mas apenas que tal facto serviu perfeitamente esse íntimo anseio). Mas… o que justificará tal desígnio? Sou divisionista, como sugeriu um dos administradores (“Eu optaria por captar energias que unissem”)? Uso termos impróprios? Exprimo ideias contrárias aos interesses dos professores e da Escola Pública? Envergonho a classe? Tenho a certeza absoluta de que não! Se fossem tão pudicos os demiurgos do Faceprof, não teriam deixado correr tanta tinta, quando (de forma completamente cega e injusta) foram muitos os que, sob os olhares cumplicemente passivos do Faceprof, me insultaram, usando termos indignos de uma classe que ensina e educa.
Não me parece correto — não é correto nem admissível — que os administradores de um grupo de professores se comportem como mentores ideológicos dos seus membros. Não me parece digno de um grupo de gente idónea, que alguém decida, por todos, o que é e quem é conveniente e/ou inconveniente. Não é aceitável que os vários milhares de membros desse grupo assistam passivamente a este “divino” controlo, pois não se trata de uma seita com juramento feito de mão assente sobre um conjunto de mandamentos impostos aos neófitos.
Se era o meu anonimato que tanto prurido estava a causar — apesar de ser inequívoca a minha entrega aos interesses da classe a que pertenço — agora está desfeito. Sou alguém que construiu uma reputação (ainda que modesta), nesta interminável odisseia dos professores. Sou alguém que tem estado sempre na linha da frente, aqui e na(s) escola(s), alguém que há dez anos verbaliza, com custos elevados, aquilo que muitos sentem, que muitos desejam, que muitos calam, que muitos consentem... Sou alguém cujo pensamento e cujo posicionamento (constante) não deixa dúvidas a ninguém (de boa fé). Sou o Luís Costa.
Dizei-me, Santos Senhores, por que não há um lugar para mim nesse grupo onde estão aqueles que, com entrega canina, tenho intransigentemente defendido?

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O segredo propositadamente mal guardado




Luís Costa, 57 anos, professor do quadro de nomeação definitiva. Nestas lides, antes do Quadro Negro, já fui editor do Dardomeu, do DaNação, do Bravio e do Eramá. Sempre a reinventar-me, com periódicas e estratégicas retiradas, regressando sempre com renascidas crenças, renovada energia e acesos ímpetos, para assegurar o cumprimento da minha sina: nunca desistir. Não sou capaz.
Quando abri o Quadro Negro, não o fiz em absoluto anonimato. Para além do meu nicho familiar (como é óbvio) identifiquei-me a quem, por dever moral, tinha de me identificar. Quanto àqueles com quem, há uma década, tenho partilhado um modesto lugar nas trincheiras, fiz o suficiente para que eles me pudessem reconhecer: a “publicidade” habitual, na caixa de comentários dos seus blogues, e um discurso que, para eles, é quase como um código genético. Tenho a certeza de que, há muito, descobriram a verdadeira identidade de A. Marte. Na minha escola, fiz o suficiente para ser identificado, no final de outubro. Lancei uma garrafa ao mar. Ninguém me disse nada, mas estou convencido de que já “todos” têm conhecimento, desde essa altura. Posteriormente, como toda a gente sabe, escrevi aos líderes sindicais e ao próprio ministro da Educação (que, provavelmente, nem sequer leu a missiva). Como facilmente se conclui, o meu anonimato nunca o foi realmente, na plenitude.
Se assim é, por que motivo escolhi esta estratégia?
Embora já tenha dado aqui esta explicação, vou reiterar o seguinte: desta vez, só o fiz para poder ter uma pequena clareira temporal de integração na minha escola. Um pouco de paz, sem o costumeiro ruído daqueles que, na ausência de melhores argumentos, tentam enviesar o sentido das minhas crónicas, sugerindo que venho para aqui retratar o meu local de trabalho. Como não me podem castigar como desejariam, tentam assim minar o meu quotidiano, para que sejam outros a fazê-lo. E dado que não preciso de ajudas para me integrar com muita dificuldade — não sou uma pessoa nada “fácil” — vejo-me obrigado a recorrer a esta “invisibilidade” temporária, para não ter uma entrada catastrófica em cena. Já assim fiz há dois anos, quando criei o Bravio, que também começou com o meu anonimato e acabou na transparência total. Também nessa ocasião tinha acabado de mudar de escola.
No entanto, nem tudo é espectro, nestes temporários jogos de espelhos. É com um certo orgulho que vejo as minhas ideias, desligadas da minha assinatura, serem rápida e generalizadamente acolhidas: no final do primeiro mês, o Quadro Negro já tinha ultrapassado as 50 000 visitas; a carta exortativa que escrevi aos professores, nas vésperas da greve, foi lida por mais de 27 100 colegas.
Isto faz-me crer que o meu olho clínico e o meu discurso têm o seu espaço próprio nesta já longa odisseia de resiliência à qual, por uma questão de simplificação, convencionámos chamar “luta dos professores”. Sei que não é uma verdade absoluta, mas acreditar nessa “realidade” devolve-me mais facilmente ao calor das trincheiras. 


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

A minha ironia explicada a… quem não a entendeu e a quem não a quis entender

Como sugeri no artigo precedente, pensei que, apesar do meu “anonimato” (já tem de ser escrito com aspas), a ação por mim desenvolvida pudesse conceder-me algum crédito de confiança por parte daqueles por quem aqui tenho pugnado. Tudo o que aqui tenho dito tem um único e inequívoco sentido. Por isso mesmo, entendi que uma tirada irónica não ofereceria a menor reserva interpretativa a ninguém. Estava enganado! De nada valera o meu coerente historial!
Muitos leitores — ávidos de exteriorização de maus ímpetos ou de sublimação de recalcamentos — iniciaram uma autêntica intifada verbal contra a minha pessoa. E de nada serviram as explicações que fui dando nem o artigo que escrevi, cujo link colei na caixa de comentários, quase transformada em escarrador docente. O apedrejamento continuou a sua inexorável sina (sangue na alma!). Ver assim agir os meus colegas, como uma turba cega e descontrolada, tira-me tempo de vida. Mas, ainda assim, vou explicar o que tantas “certezas” levantou.
Como já tive ocasião de referir, a piada irónica foi dada à luz (ou à escuridão, pelos vistos) no dia em que foi publicado mais um daqueles sapientíssimos relatórios/estudos do CNE, com odores que lembram David Justino. Uma vez mais, o envelhecimento da classe docente, as aulas teóricas e o insucesso escolar surgem associados, o que é absolutamente ignorante e insidioso. Nenhum país “com dois dedos de testa” troca a sageza dos professores mais experientes pela energia e/ou pelos conhecimentos dos neófitos. Nada tenho contra os mais novos, como é óbvio (não venham agora eles no meu encalço!), nem acho que seja necessário argumentar a seu favor. Seria uma estrondosa estupidez da minha parte.
Foi neste contexto que eu tive este desabafo irónico e provocador: “Pois... eu também acho que os professores mais velhos só atrapalham o esquema. Se mandasse, impontava-os já para a reforma”.
“O que é isso de “atrapalhar o esquema?”, perguntaram algumas almas intrigadas, julgando-me novinho e desejoso de expulsar os “velhos” para ficar no lugar de um deles. Aqui está a enigmática resposta: quem ainda tem memória do que já fomos são os mais velhos; quem ainda vai manifestando consciência crítica são sobretudo os mais velhos; quem ainda vai resistindo são os mais velhos (porque também são menos precários); é dos mais velhos que os políticos medíocres se querem livrar, para instrumentalizarem, de forma absoluta, a classe docente. Só não o fizeram porque não há dinheiro. Houvesse um pouco mais de vil metal disponível... Foi isso que eu quis dizer. Como é mais do que evidente — gritantemente evidente — o verbo “impontar” denuncia este íntimo desejo da nossa “classe pensante”. Toda a declaração irónica foi, de facto, produzida não na minha perspetiva, mas na desses actantes dos nossos destinos. Pensei que isto não poderia escapar a ninguém, pelo menos a ninguém que tivesse lido um texto meu. Estava enganado! Tenho pena, muita pena!
Por vezes, a desilusão e a mágoa fazem-nos valorizar mais as vozes de quem nos maltrata do que as que nos afagam. Desta vez, decidi que não será assim. Sigo em frente, pelas minhas convicções e por todos aqueles que me respeitam e me querem. Tenho essa obrigação moral. E como a minha identidade só ainda é um enigma para quem anda muito distraído, vou deixar-me ficar neste modesto recato, porque continuarei a exercê-lo com elevação ética.

A. Marte 


quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

DESILUSÃO E TRISTEZA




Estou, como é compreensível, absolutamente desiludido e muito triste com o cenário de incompreensão e de insulto ontem erigido no Facebook, a propósito de uma mensagem irónica que publiquei. Lamento profundamente que seja tão numeroso o grupo daqueles que a interpretaram com tão pobre literalismo e dos que, apesar de tudo o que tenho dito e feito aqui, neste universo “virtual”, não revelam nem consideração nem confiança. É desolador!
Nos arrabaldes da greve do pretérito dia 15 de novembro, escrevi uma carta de exortação, que foi lida por mais de vinte e sete mil leitores (penso que terão sido, na esmagadora maioria, professores). Entretanto, foram várias as ações de luta por mim encetadas, sobretudo em prol dos professores “mais velhos”, grupo ao qual pertenço, muito honrosamente: lancei ideias, no Facebook, que agregaram milhares de professores , em escassas horas; escrevi aos líderes sindicais e ao próprio ministro da Educação (para lhe dar a conhecer a ideia da troca do tempo congelado por uma bonificação na contagem do tempo para a reforma, que tanto consenso gerou; redigi um texto — algo poético, e precisamente sobre este tema — que foi, surpreendentemente, lido e “perfilhado” por mais de sete mil colegas. Enfim, tenho-me exposto e dado de uma forma que, presumia eu, me resguardaria, pelo menos, dos insultos dos meus colegas. Já não falo de consideração, nem de gratidão e muito menos de admiração, falo apenas de respeito. Até chegaram ao ponto de dizer que eu não sei escrever. Se usassem toda essa acrimónia e tão letal veneno contra quem nos tem desprestigiado, insultado, humilhado, usurpado, escravizado…
Enfim, talvez a minha deceção seja tão corrosiva, tão avassaladora e tão galopante que acabe por me conduzir à revelação da minha real identidade e ao consequente abandono desta causa. Começo a não ter espaço livre no corpo para tantas feridas fraternas. 


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Sementeira de misérias


Dizem alguns intelectos que devemos ignorar aqueles que, tendo varanda comunicacional estirada sobre o grande público, vêm à luz do dia semear as piores infâmias, vocalizar as mais injustas barbaridades contra os professores. Discordo radicalmente. Esses maledicentes de serviço prejudicam gravemente a nossa ação pedagógica e aqueles a quem ela se destina.
Na última década — não me canso de o afirmar e reafirmar — a autonomia e a autoridade do(s) professor(es) têm vindo a ser paulatinamente cilindradas. Tudo começou com aquela cujo nome não vou pronunciar, que era ministra daquele cujo nome também não vou verbalizar, e desde então o processo de culpabilização, de desautorização e de inferiorização da classe docente não mais conheceu abrandamento nem fim. Toda a gente passou a olhar o(s) professor(es) não através das retinas, mas através do dedo indicador. Até os próprios professores entraram nesta vertigem, ou melhor, neste espadachim de dedos em riste brandindo insinuações e culpas. A pedagogia e a autoridade de quem ensina e educa estão de luto há dez anos. Ora… foi precisamente neste contexto que os professores, já excessiva e criminosamente desautorizados, uma vez mais, foram injustamente vilipendiados no grande rossio. Triste país, aquele que assiste, passivamente, a tão degradante espetáculo! Triste país, aquele que não tem governantes com visão nem elevação moral suficientes para perceberem os danos que tão fétida maledicência provoca na recuperação daquele que o próprio Primeiro-ministro, qual máquina de dizer frases feitas, apelida de “maior défice”: o educativo. Triste país, aquele que tão maltrata os seus professores!
O que acontece quando todos estes agentes vêm a terreiro apontar o dedo da culpa, da incompetência e do desmazelo a quem ensina e educa os filhos de Portugal? Como será comentado (e em que termos), em casa de cada um dos alunos, este constante apedrejamento dos professores? Que “verdades” se instalarão no cérebro de alunos e encarregados de educação? À luz desses constructos, como interpretarão uns e outros os resultados escolares menos positivos?  De que forma estas “conclusões” interferem na ação de uns e de outros? Que repercussões terão estas “verdades” na atitude dos mais novos face à escola, ao(s) professor(es) e à sua própria aprendizagem? Que disfunções ocorrerão, na mente das crianças, a nível da perceção da sua ação decisiva na construção dos seis desempenhos? Que repercussões terá — a nível pessoal, profissional e social — esta irresponsável sementeira de externalização das culpas? O que pensará uma criança do país, da escola e da família, quando o “coro social”, em horário nobre, vem para o ecrã televisivo dizer que aqueles a quem são diariamente entregues, para por eles serem ensinados e educados, são, afinal, incompetentes, preguiçosos, gananciosos, inconscientes… “uma raça à parte”… uns miseráveis? O que se acenderá e/ou se apagará na mente das nossas crianças?
Triste país, aquele que não é capaz de enxergar tão lúcidas evidências! Pobre país, aquele que as enxerga e ignora! Miserável país, aquele que consente tão ignominiosos ataques a quem cultiva o seu futuro! Desgraçados, aqueles que, diariamente, têm de frutificar em searas tão invadidas, tão conspurcadas e tão vandalizadas!



domingo, 3 de dezembro de 2017

Escrevi ao Ministro da Educação


Como dos sindicatos… "nem água vai nem água vem", resolvi enviar a proposta de conversão do tempo de congelamento em bonificação do tempo para a reforma ao Ministro da Educação. Fi-lo a título pessoal. Se pretenderem seguir idêntico caminho, aqui fica o brevíssimo texto e o link (https://www.portugal.gov.pt/pt/gc21/area-de-governo/educacao/contactos) a que deverão aceder:


________, _____ de dezembro de 2017

Excelentíssimo Senhor Ministro da Educação,


Eu, _____________________, filho de _______________________e de ________________________, natural de ________________ e titular do cartão de cidadão n.º ___________________, professor do quadro de nomeação definitiva do Agrupamento de Escolas __________________________, considerando as evidentes e compreensíveis dificuldades negociais do justo processo de descongelamento da progressão na carreira; considerando também a minha profunda e crescente insatisfação profissional, resultante de um já longo contexto que tem superlativado, gradativamente e de forma descontrolada, o meu volume de trabalho quotidiano e a generalizada falta de respeito, quer pela minha profissão quer pela minha individualidade docente, venho, por este meio, requerer a Vossa Excelência a ponderação da viabilidade de uma eventual conversão do meu tempo de congelamento numa bonificação equilibrada do meu tempo para a reforma, de modo a que eu possa, de forma digna e saudável, antecipar a saída do sistema educativo, contribuído assim para o necessário e tão desejado rejuvenescimento da classe docente.

Com os meus mais respeitosos cumprimentos,


____________________________


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

O meu tempo


Quando iniciei a carreira, tinha todo o tempo do mundo diante de mim. Mas também tinha tempo no tempo em que vivia e trabalhava. Tinha tempo para SER, de corpo inteiro. Falhava-me, muitas vezes, o dinheiro, mas tinha o melhor aliado de um professor: o tempo.
Com o tempo, fui perdendo tempo: o que o próprio Tempo me foi subtraindo e aquele que me foi sendo roubado, sobretudo no último decâmetro cronológico congelado. Perdi toda a noção do tempo. Foi o descontrolo total: deixei de ter tempo para ler, para me informar, para estudar, para planificar com tempo, para ensinar e educar com tempo, para refletir, para consolidar com tempo, para repetir, criar rotinas, aperfeiçoar…; deixei de ter tempo para assimilar as constantes mudanças (a todos os níveis) que, em vórtice vertiginoso, inundaram a escola de instabilidade e indefinição; deixei de ter tempo para ser o professor que fora até então. E o drama de ser foi tragicamente agravado pela enxurrada de tarefas e de logros que me desviaram criminosamente do meu espaço e me passaram a consumir o meu já tão escasso tempo. Tornei-me um carente de tempo, um faminto de tempo, um… predador de tempo. Fiz-me ladrão de tempo.
Comecei por roubar ao meu próprio tempo: o saboroso tempo dos meus passatempos. Depois, tive de ousar roubar o tempo dos amigos. Principiei com pequenos furtos e acabei por roubar desalmadamente. Espoliei-os até à exaustão. Mais tarde, como o meu tempo docente continuou a ser aleivosamente assaltado, fui obrigado a roubar os meus próprios Templos. Tornei-me um cleptómano do meu Tempo Sagrado: desatei a roubar tempo ao meu sono e aos meus sonhos. Passei a dormir muito menos e a sonhar muito menos também. Cada vez menos, o que é leucémico num professor. Acabei nesta total e irremissível indigência: roubo agora tempo aos Meus. Pecado capital! Talvez por isso não mereça nem perdão, nem gratidão nem respeito. Sou um miserável de tempo e do meu tempo.
Dou-me a um país que tem dinheiro para quem rouba o que a tantos tanto tempo leva a amealhar, mas que não tem dinheiro para dar a quem faz a gestação luminosa do tempo à custa de tanto tempo roubado. A mim, POR FAVOR, pague-me o meu país, em tempo, o meu tempo congelado, que é de tempo que ando famintamente carenciado. Mas, POR FAVOR, pague-me a tempo, senão já não vou a tempo de ser minimamente saciado.