quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Muito ajuda quem não estorva


 Desta vez, o habitual bombardeamento a que os professores se sujeitam sempre que se unem para reclamar os seus direitos, só ocorreu depois da greve, e não antes, como soía acontecer. Talvez os tradicionais detratores da classe docente já não esperassem encontrar vida num grupo profissional tão vilipendiado, tão espoliado e massacrado na última década. Vieram tarde a terreiro, mas trouxeram na boca uma violência tão exacerbada e tão irracional, em certos casos, que roçou a bestialidade.
Como a justeza das reivindicações é inquestionável, as hostes adversas optaram por atacar brutalmente os professores, tentando denegrir publicamente o seu profissionalismo e a sua competência. Podia fazer um exercício intelectual sobre as motivações subjacentes a tanta animosidade, mas vou abster-me de revolver tão suja matéria, cujo odor é tão intenso que não exige olfato apurado. Vou, contudo, refletir um pouco sobre as reais consequências destes ignominiosos ataques perpetrados em nome da qualidade da educação, do ensino e do sucesso. Das duas, uma: ou esta gente põe “certos interesses” mesquinhos e imediatos muito acima dos interesses dos alunos (e da sociedade em geral) ou então não tem absolutamente nenhuma noção do que está a dizer e a fazer. Creio na primeira.
Na verdade, apesar de todos os obstáculos, de todos os constrangimentos, de todas as sobrecargas (da carga horária e da burocracia) que os sucessivos governos têm acrescentado ao trabalho docente; apesar de todos os danos causados, o corpo docente deste país, ainda que com notória dificuldade, tem sabido resistir a todas as adversidades, com muito empenho, dedicação e profissionalismo. Estes, porém, não têm sido os inimigos mais acérrimos do bom desempenho dos professores. Os mais corrosivos, os mais destruidores, os mais deletérios ataques são aqueles que gente inconsciente, inconsequente, irresponsável e egoísta dirige à autoridade dos professores. Porquê? Porque semeiam — na mente dos encarregados de educação e dos alunos — a desconfiança, a descrença, a desconsideração e até o desrespeito. Nada pode minar tanto o trabalho pedagógico dos professores como o desabrochar de tais sementes, cujos efeitos são profundamente nocivos para aqueles que estão em crescimento e que — a par de um sistema que já lhes dá a transição como rendimento mínimo garantido — veem neste linchamento público de quem ensina e educa uma confortável forma de desresponsabilização, de desinvestimento na concentração e no estudo, de desinteresse e de resignação. Afinal, se “todos”  — desde ministros a jornalistas, passando por comentadores a soldo — dizem que os professores são velhos e incompetentes e que é devido às suas incapacidades que os alunos não aprendem mais e melhor, o que pode fazer um jovem aluno pelo seu sucesso? Muito pouco, ou nada, porque há vozes no seu cérebro que lhe dizem constantemente que a causa não está em de si — na sua concentração, no seu empenho, na sua disciplina, na sua superação — mas diante de si, naquela figura que não sabe ensinar de modo a que ele possa compreender. Talvez lhe reste apenas o alheamento, a insubordinação ou a revolta.
Desautorizar publicamente toda uma classe — sobretudo a classe docente, porque ensina e educa quem ainda não tem toda a capacidade para interiorizar criticamente tudo o que ouve — é um autêntico atentado contra o sucesso educativo e escolar, mas é sobretudo um crime (porque se trata de torpe e injusta difamação de um grupo profissional) com incalculáveis consequências no crescimento daqueles que a escola poderia preparar muito melhor para a vida. Desautorizar publicamente os professores é como desautorizar os pais diante dos filhos, quer na moralidade do ato quer nas suas péssimas consequências, para uns, para outros e para a família. É isto que os professores têm vindo a suportar, é isto que o país deve agradecer a quem os estorva de forma tão permanente, tão obstinada e tão despudorada!

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