quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Ressuscitaram após a carta que escrevi a João Dias da Silva


Quando, há dias, disse no Facebook que estou disposto a trocar os meus “dez anos” de congelamento por uma bonificação na contagem do tempo para a reforma, estava muito longe de imaginar o fado de tais palavras. Era um mero desabafo, mas imediatamente se transformou numa enorme onda de empatia que me surpreendeu, quer pela dimensão quer pelo vertiginoso ritmo de crescimento. Fenómeno extremamente significativo! O descontentamento dos professores é profundo e colossal!
Como facilmente se compreende, eu não podia ignorar tantos e tantos colegas que se irmanaram no mesmo anseio. Não podia ficar passivo perante tão eloquente demonstração de um querer, perante os apelos diretos que os colegas me foram dirigindo. Não sendo eu membro do Governo, não sendo dirigente sindical, mas apenas um simples professor, só poderia fazer o pouco que estava ao meu alcance. Encaminhar a ideia para quem tem a incumbência de nos representar nos diálogos/negociações com a Tutela. Foi o que fiz, assumindo a responsabilidade das minhas palavras e dos meus atos. Não foi ousadia nenhuma, nenhuma afronta a ninguém, nenhum abuso, foi apenas o concretizar de uma obrigação moral involuntariamente granjeada, mas exercida com honra e dignidade, em perfeito exercício de liberdade de expressão de ideias, num contexto em que elas se fazem tão preciosas e tão prementes.
Confesso que — apesar das inúmeras “feridas de luta” que já conto — me surpreenderam e entristeceram algumas vozes que emergiriam do silêncio após a publicação da carta que enviei a João Dias da Silva. Outra deflagração inesperada (desta vez em contrafogo). Uns, à falta de melhor, resolveram atirar-se ao meu anonimato, outros (no seu pleno direito) não querem desviar-se das “exigências” que o seu sindicato está a negociar com o Governo, e outros acham que quem concordou com a ideia da conversão do tempo “congelado” em bonificação de tempo para a reforma não fez bem as contas, estando, por isso, a embarcar numa ilusão. Aqueles julgam ser mais lúcidos e deixam implícito que estes, apesar dos anos e da longa carreira, precisam de uma espécie de tutoria. Esquecem que ninguém solicitou absolutamente nada que deva ser imposto, proibido ou vedado a quem quer que seja. Foi puro exercício de liberdade e de cidadania, no máximo respeito por todas as liberdades e garantias, quer individuais quer coletivas. Não entendo nem aceito, por isso, a súbita e inusitada efervescência que a minha “obrigatória” missiva causou.
Quanto ao meu anonimato, julgo ser aceitável, porque o exerço em prol do coletivo a que pertenço e de forma digna. Não me parece que possa ser acusado de denegrir a imagem da classe docente. Espero que os meus colegas saibam respeitá-lo, por aquilo que aqui deixo quotidianamente: o melhor de mim. Estou, por isso, determinado a seguir em frente, pelo elevado caminho da retidão, ousando sempre partilhar o que sinto, dizer o que penso, semear as ideias que vou tendo. E faço-o com altruísmo, apesar ter estado sempre só quando sobre mim se abateram os frios ostracismos, as pérfidas retaliações, as imerecidas vinganças.
A. Marte é o nome que vos dei.

domingo, 26 de novembro de 2017

O silêncio dos coniventes


Após o compromisso assinado pelos sindicatos e pelo Governo, no pretérito dia 18, os professores sofreram, no palco mediático, os mais infames ataques, as mais ultrajantes difamações, os mais miseráveis insultos. E tudo isto foi possível, diante de uma tribuna e de uma plateia de silêncios passivamente coniventes. Defenderam-se os ofendidos (a solo e a capella), os sindicatos e… pouco mais. Triste país!
Não consigo imaginar um ataque desta índole (tão repugnante, tão injusto e tão danoso) a outra classe ou grupo profissional sem que as respetivas chefias viessem imediatamente a terreiro repor a verdade e exigir respeito: estou a pensar nas forças militares, nos respetivos comandos e ministro que os tutela; estou a pensar nos médicos e no ministro da Saúde; estou a pensar na Polícia de Segurança Pública, na Guarda Nacional Republicana… Enfim, estou a pensar em setores do Estado não abandonados por quem os tutela e melhor os conhece. Chega a ser ofensivo o silêncio do ministro da Educação e dos seus secretários de Estado. Infelizmente, os professores já não estranham, pois estão habituados a muito pior, vindo de quem os governa, desde que a indigna ministra Maria de Lurdes Rodrigues começou a sua “intifada” difamatória contra a classe docente. Mas ainda a procissão vai no adro (embora já tenham saído os principais andores).
Onde estão os diretores e a sua verborreica associação? Concordam? Não concordam? Ainda são professores? Já não são professores? Sentem-se ofendidos? Não se sentem atingidos? Mas, afinal, não são eles que avaliam os professores? Não são eles, afinal, quem melhor conhece a sua competência, o seu trabalho, a sua de dedicação, o seu sacrifício diário, lutando contra tantas e tantas adversidades? Onde estão? Onde estão? Por que motivo(s) se calam quando a verdade e a realidade clamam pela sua voz? Estão, como sempre, infelizmente, a serenar nos verdes prados da tutela. Desta vez, a beber do cúmplice silêncio que vem de cima.
Os pais e encarregados de educação também conhecem muito bem a dimensão, a abrangência, as múltiplas valências, a desmedida dedicação e a qualidade do trabalho quotidiano dos professores. Porém, o que dizem de tanto vexame, de tanta desautorização pública aqueles que dizem representá-los? Nada! Absolutamente nada! Estão no mais anuente dos silêncios, a assistir a este execrável auto-de-fé, enquanto os mais pequenos, de olhos bem arregalados, aprendem as indevidas e mais perversas lições: que são ensinados e educados por gente gananciosa, preguiçosa e incompetente, gente que ninguém defende, porque, realmente, ninguém respeita. Triste país, aquele que assim menospreza e destrata os seus mestres! Misérrima ingratidão!
Se dúvidas houvesse, desamados professores do meu país, estariam agora completamente dissipadas. Estamos sós, absolutamente sós! Unamo-nos, pois! Unamo-nos mais e mais a cada dia que passa. Sejamos fortes e tão resilientes na luta como somos nos nas múltiplas missões quotidianas que tão generosamente assumimos! É a nossa dignidade que o reclama, é o fruto do nosso trabalho que o exige! Quando o respeito é devido e merecido mas não é exercido, é preciso saber impô-lo. Sem esse fator essencial, todo o nosso trabalho é estupidamente vão. 


sábado, 25 de novembro de 2017

O Darth Vader Moita



Encerro, com este artigo, a minha perda de tempo com Moita de Deus, um ser humano que faz do despudor, do espalhafato e do escândalo o seu guindaste promocional. Estamos a dar às suas palavras aquilo que elas pretendem (atenção e divulgação) e não o que realmente merecem (indiferença total).
Moita de Deus — para quem já não se recorda — é um daqueles “Darth Vaders” monárquicos que, nos primeiros minutos da madrugada de 10 de agosto de 2009, subiram à varanda da Câmara Municipal de Lisboa para “restaurar a monarquia”. Um corpo quadradito e pneumático, usando uma escada de pau, subiu à varanda do edifício, retirou a bandeira municipal e hasteou a monárquica. Depois, em grande pose, cinematograficamente triunfal, ofereceu-se ao mundo, com aquele ridículo capacete de Darth Vader enfiado até aos ombros. Disfarçadíssimo, como é bom de ver, e muito cool! Tão disfarçado que foi o único do grupo a ser constituído arguido.
Há dias, no programa “O último apaga a luz”, o nosso Darth Vader Moita, não com as luzes apagadas, mas com todas as lâmpadas fundidas, reconquistou a ribalta cinematográfica, já com algumas novidades na sua allure de herói espalhafatoso: enfatiotado, engravatado e com óculos inteligentes adormecidos sobre a penca, em vez do vistoso capacete de plástico encatrafiado na sua vertiginosa cabecinha. Mas estava igualmente inteligente, igualmente cool e igualmente ridículo. Um verdadeiro herói de comédia, portanto. No cinema, só encontro outro com potencial para o superar: Johnny English.


Um servo ao seu dispor, nobre cavaleiro Moita de Deus!

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Muito ajuda quem não estorva


 Desta vez, o habitual bombardeamento a que os professores se sujeitam sempre que se unem para reclamar os seus direitos, só ocorreu depois da greve, e não antes, como soía acontecer. Talvez os tradicionais detratores da classe docente já não esperassem encontrar vida num grupo profissional tão vilipendiado, tão espoliado e massacrado na última década. Vieram tarde a terreiro, mas trouxeram na boca uma violência tão exacerbada e tão irracional, em certos casos, que roçou a bestialidade.
Como a justeza das reivindicações é inquestionável, as hostes adversas optaram por atacar brutalmente os professores, tentando denegrir publicamente o seu profissionalismo e a sua competência. Podia fazer um exercício intelectual sobre as motivações subjacentes a tanta animosidade, mas vou abster-me de revolver tão suja matéria, cujo odor é tão intenso que não exige olfato apurado. Vou, contudo, refletir um pouco sobre as reais consequências destes ignominiosos ataques perpetrados em nome da qualidade da educação, do ensino e do sucesso. Das duas, uma: ou esta gente põe “certos interesses” mesquinhos e imediatos muito acima dos interesses dos alunos (e da sociedade em geral) ou então não tem absolutamente nenhuma noção do que está a dizer e a fazer. Creio na primeira.
Na verdade, apesar de todos os obstáculos, de todos os constrangimentos, de todas as sobrecargas (da carga horária e da burocracia) que os sucessivos governos têm acrescentado ao trabalho docente; apesar de todos os danos causados, o corpo docente deste país, ainda que com notória dificuldade, tem sabido resistir a todas as adversidades, com muito empenho, dedicação e profissionalismo. Estes, porém, não têm sido os inimigos mais acérrimos do bom desempenho dos professores. Os mais corrosivos, os mais destruidores, os mais deletérios ataques são aqueles que gente inconsciente, inconsequente, irresponsável e egoísta dirige à autoridade dos professores. Porquê? Porque semeiam — na mente dos encarregados de educação e dos alunos — a desconfiança, a descrença, a desconsideração e até o desrespeito. Nada pode minar tanto o trabalho pedagógico dos professores como o desabrochar de tais sementes, cujos efeitos são profundamente nocivos para aqueles que estão em crescimento e que — a par de um sistema que já lhes dá a transição como rendimento mínimo garantido — veem neste linchamento público de quem ensina e educa uma confortável forma de desresponsabilização, de desinvestimento na concentração e no estudo, de desinteresse e de resignação. Afinal, se “todos”  — desde ministros a jornalistas, passando por comentadores a soldo — dizem que os professores são velhos e incompetentes e que é devido às suas incapacidades que os alunos não aprendem mais e melhor, o que pode fazer um jovem aluno pelo seu sucesso? Muito pouco, ou nada, porque há vozes no seu cérebro que lhe dizem constantemente que a causa não está em de si — na sua concentração, no seu empenho, na sua disciplina, na sua superação — mas diante de si, naquela figura que não sabe ensinar de modo a que ele possa compreender. Talvez lhe reste apenas o alheamento, a insubordinação ou a revolta.
Desautorizar publicamente toda uma classe — sobretudo a classe docente, porque ensina e educa quem ainda não tem toda a capacidade para interiorizar criticamente tudo o que ouve — é um autêntico atentado contra o sucesso educativo e escolar, mas é sobretudo um crime (porque se trata de torpe e injusta difamação de um grupo profissional) com incalculáveis consequências no crescimento daqueles que a escola poderia preparar muito melhor para a vida. Desautorizar publicamente os professores é como desautorizar os pais diante dos filhos, quer na moralidade do ato quer nas suas péssimas consequências, para uns, para outros e para a família. É isto que os professores têm vindo a suportar, é isto que o país deve agradecer a quem os estorva de forma tão permanente, tão obstinada e tão despudorada!

sábado, 18 de novembro de 2017

Os sofismas de José Manuel Fernandes


 Quando um profissional com a notoriedade de José Manuel Fernandes publica uma peça jornalística como a crónica que anteontem divulgou no Observador, sobre as atuais reivindicações dos professores, torna-se muito difícil, para um cidadão anónimo como eu, acreditar no jornalismo independente. Ainda assim, não vou confundir a árvore com a floresta. Direi apenas que foi prestado um mau serviço à classe e à opinião pública.
Todo o texto — concebido com o claro propósito de demonstrar que as pretensões dos professores são egoístas, injustas e alheias aos constrangimentos económicos que vivemos  — assenta num grosseiro sofisma. Incapaz de demonstrar por que motivo os docentes devem ser negativamente discriminados face aos restantes trabalhadores da administração pública (chega a dizer que os nossos argumentos parecem imbatíveis; e são, de facto) o cronista conduz o leitor, de forma capciosa, para territórios paralelos, fazendo crer que é essa a matéria que está em causa. Mas não é.
Os professores estão apenas a reivindicar o que é seu, por direito inalienável, e que foi vivido com muito esforço, muita dedicação, muito sofrimento, prolongado em cronologias impossíveis de contabilizar: o tempo. É esta elementar justiça mínima que os professores reclamam, após longos e penosos anos de “congelamento”, durante os quais cumpriram todas as condições legalmente definidas para a sua progressão na carreira. É, pois, de algo já passado, realizado e merecido que se trata, e não do futuro nem de regalias almejadas. Não é o sistema de avaliação que está em causa, não é a aludida horizontalidade da carreira, de que fala José Manuel Fernandes, é somente o não apagamento de quase uma década de árduo trabalho, na escola e em casa, a tempo inteiro. Qualquer cidadão comum entende e aceita como justa esta reivindicação, mas José Manuel Fernandes, jornalista reputado e independente, capaz de enxergar o que toda uma classe não vislumbra, acha que os professores — esses privilegiados que vivem numa “bolha”, num microcosmos de regalias paralelo àquilo a que chama o “mundo real” — estão fazer exigências ilegítimas, caprichosas e exorbitantes. O que levará um jornalista desta envergadura a tal posicionamento?
Quando não há argumentos sólidos (ou legítimos, como é o caso), mas há genuína motivação para incendiar o contraditório e tentar anular uma legítima pretensão, só resta ao antagonista o caminho da distração intelectual. Foi o que fez José Manuel Fernandes, ao desviar a discussão para a sua adjacência (os temas citados, levados à baixeza da citação de certas ações de formação, obliterando o restante universo, muito mais preponderante e significativo, com o único propósito de descredibilizar uma classe) e para as suas consequências (os onerosos encargos decorrentes do cumprimento desse dever do Estado, “na perspetiva do contribuinte”). Por outras palavras: José Manuel Fernandes admite, involuntária e implicitamente, que as reivindicações dos professores são legítimas, mas que não devem ser atendidas, ou seja, por razões que nada têm a ver com a justiça, deve ser subtraída uma boa parcela de tempo à carreira dos professores. José Manuel Fernandes, como muitos outros amigos da classe docente, acha que os professores devem continuar a ser negativamente discriminados, sacrificados e explorados, em prol do equilíbrio das contas públicas. Talvez, no seu íntimo, considere tal castigo merecido.
Na verdade, o insigne jornalista leva longe demais a sua argumentação, esquecendo os convenientes limiares da imparcialidade. Palavras como “bolha” e “carreira” (escrita com insinuantes aspas); expressões como “nem sabem”, “a antiguidade é um posto” e “no mundo real”; frases como “o mérito é algo que os professores sempre se opuseram a medir” e “choca ver como alguns se limitam a fazer as contas aos anos de serviço para reivindicar a subida de um ou mais escalões” são bem reveladoras, quer da sua isenção quer do domínio da matéria sobre a qual opina. E é tanto o seu fervor argumentativo, que chega a fazer comparações com o mundo empresarial, precisamente o que o Estado não quer. Seria extremamente ruinoso para o bolso dos contribuintes.
Já tinha manifestado a minha admiração pelo facto de, nas vésperas da pretérita greve, os conhecidos detratores da classe docente, em cortejo, não terem saído à rua. Talvez já não estivessem à espera que os professores fossem capazes de sair da “bolha” de resignação e medo. Vieram a posteriori, quando enxergaram a real dimensão da firme onda de descontentamento. Muito obrigado por nos terem dito, de forma tão eloquente, que devemos continuar! Caso contrário, seremos, até ao fim das nossas vidas, contribuintes muito especiais.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Não perde pela demora, José Manuel Fernandes!


Estou sem tempo nenhum, hoje. É que isto de ser professor tem as suas especificidades. Ainda vou trabalhar para a escola, quando a casa adormecer. No entanto, deixo aqui alguns retalhos da excelente peça de jornalismo sublime independente protagonizado por José Manuel Fernandes em crónica publicada hoje no Observador:
· «mas nem sabem como tal é injusto»;
· «deste inominável princípio em que “a antiguidade é um posto”»;
· «No mundo real, aquele que fica fora do ambiente protegido em que vivem os professores e os outros funcionários públicos, não é assim»;
· «Esta greve dos professores teve o mérito de nos recordar como é diferente a “bolha” em que vivem aqueles para quem este Executivo tem governado»;
· «não custa nada participar em acções de formação (mesmo quando estas são algo bizarras, como a formação em percursos pedestres ou em técnicas criativas de reciclagem»;
· «tudo isto se traduz num sistema de progressão quase automática»;
· «mas o mérito é algo que os professores sempre se opuseram a medir»;
· «choca ver como alguns se limitam a fazer as contas aos anos de serviço para reivindicar a subida de um ou mais escalões»;
· «sabemos que esse progresso [nos rankigs internacionais] se deve sobretudo a reformas que foram sendo introduzidas por sucessivos governos»;
· «antes de este Governo ter procedido à “devolução de rendimentos” de que uma das classes que mais beneficiou foi a dos professores» [erro de concordância: “que mais beneficiaram”].

Amanhã, sem a pressão do dia seguinte, comentarei a preceito.


terça-feira, 14 de novembro de 2017

Sinais auspiciosos




Diz-me o meu “olho clínico” que amanhã vamos realizar uma extraordinária ação de luta. Será, sem dúvida, a terceira maior manifestação desta “era maldita”. Quanto à greve… todos os sinais indicam que os números serão altos, mas é preciso que sejam arrasadores. A diferença estará, creio eu, na mão dos professores que estão em situação contratual mais frágil. Serão eles o fiel desta balança.
Estão, de Norte a Sul, muitos autocarros preparados para rumar até à capital. A Correia Garção e a S. Bento serão muito pequeninas para tanta gente descontente. Esta é uma certeza, antecipada, à qual se juntam sinais a ter em forte consideração: os que vêm da mobilização dos professores na internet. As escolas estão no silêncio (há medo), mas a internet fervilha a bom fervilhar: multiplicam-se as publicações, multiplicam-se extraordinariamente os comentários (excelente sinal), multiplicam-se as partilhas dos artigos alusivos à greve, e as suas visualizações atingem números idênticos aos de 2008 e 2009 (a carta aberta que escrevi aos professores já vai a caminho dos 22 000 leitores). É soberbamente animador!
 Uma derradeira palavra aos contratados: Non abbiate paura!


domingo, 12 de novembro de 2017

Bilhete (aberto) aos diretores


A greve agendada para o próximo dia 15 não é um ataque à tutela nem um atropelo aos direitos dos alunos à educação e ao ensino, é apenas uma legítima ação de luta dos professores pelos seus direitos (entre os quais, por exemplo, consta um inquestionável e justíssimo descongelamento da progressão na carreira que não subtraia uma década de trabalho muito esforçado). É, pois, uma ação reivindicativa perfeitamente enquadrada nos elementares princípios democráticos.
Se é verdade que ainda vos considerais professores, então esta também é causa vossa. Deveis, por isso, assumir uma posição, sair do habitual silêncio multifuncional em que vos abrigais, quando se pugna pelos direitos da classe. Afinal, também é por vós que todos estamos a lutar.
Ninguém espera que façais greve, mas penso que é vosso dever dizer, pelo menos, se estais ou não estais inscritos nesta luta, se apoiais ou não apoiais esta importantíssima greve dos professores. Como? É muito fácil. Basta fazerdes o que fazeis já por rotina: mandatais o vosso prolixo representante (pode ser por e-mail) e, através da sua eloquência, dizeis claramente ao país de que lado estais. Que tal?  
Se não o fizerdes, a populaça docente vai pensar que preferis perder enquanto professores para ganhar como diretores. Não seria justo! 


sábado, 11 de novembro de 2017

Carta aberta aos professores


Caros colegas,
Está marcada uma greve para o próximo dia 15 de novembro. Sei que muitos de vós estais saturados de “pequenas” ações de luta que, aparentemente, não resultam em nada, ou em muito pouco. No entanto, se, na forma, esta é uma ação de luta igual a muitas outras, na essência é radicalmente diferente. Como já vos disse (creio que repetidamente), tem muito de derradeiro.
Embora sem a capacidade dinamizadora de outros tempos (para promover reuniões em muitas escolas, por exemplo), os sindicatos, conscientes da especial gravidade do momento, estão a investir fortemente neste protesto, elevando diariamente as expectativas (da classe, da sociedade e do Governo) relativamente à adesão dos professores. É, pois, crucial que a resposta seja esmagadora. Não direi que é o momento “do tudo ou nada”, uma vez que não creio que mesmo uma greve a 100% nos garanta tudo (estou convicto de que nenhum professor pensa assim). Todavia, tenho duas certezas, que passo a expor muito telegraficamente: só uma greve arrasadora nos dará capacidade negocial suficiente para recuperarmos o que ainda é possível recuperar; uma greve tímida, medrosa e avulsa será certidão de óbito — de óbito, disse bem — das nossas esperanças, das mais propaladas e daquelas que costumam ser as últimas a morrer, aquelas que ainda acalentamos, no nosso íntimo, mesmo quando já verbalizamos o contrário. Quem nos governa pensará, lucidamente, que se já não somos capazes de nos unir e erguer perante tão gigantesca injustiça (penso na questão mais objetiva e material: o apagamento de uma década, uma década de autêntica escravatura) então jamais seremos classe com força, união e solidariedade suficientes para reivindicar mais nada de vulto. Esmagar-nos-ão.
No próximo dia 15 de novembro, a nossa maior conquista não será de natureza material (a acontecer, será ainda difícil e virá a seu tempo); o nosso melhor troféu será a prova de vida. No próximo dia 15, toda a sociedade saberá se ainda estamos vivos ou se já somos aquilo em que muitos creem: sombras do que já fomos. No próximo dia 15, o nosso tesouro maior — o respeito — vai a leilão, mas a um leilão com um único licitador: a classe docente. É pegar ou largar!
O próximo dia 15 não será, de certeza, o dia de tudo, mas pode (facilmente) transformar-se no dia de nada. É isto que está em jogo, caros colegas!



sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Fazei lá mais uma forcinha, meus diretores!


No momento em que os professores deste país se preparam para uma greve que promete um reerguer da classe contra uma enxurrada de injustiças, de humilhações, de múltiplas explorações, de atentados à sua autoridade, de faltas de respeito e de consideração, vem à praça a figura que personifica toda esta repugnante situação.
Em crónica publicada anteontem no Diário de Notícias, a ex-ministra Lurdes Rodrigues decidiu — ou alguém lhe encomendou o servicinho — vir a terreiro falar dos diretores das escolas, exacerbando o que, na sua materna opinião, tem sido o superlativo contributo destes líderes para os grandes progressos que a Escola Pública fez desde que foram por ela criados, e que os professores, com o anunciado “levantamento”, no próximo dia 15, se preparam para começar a estragar (digo eu).
Creio ser inevitável estabelecer uma associação entre estes dois factos. No meu entender, esta senhora veio pedir, a quem criou, um reforço de gratidão, nestes dias em que o despertador da classe docente parece estar a tocar. É como se todas as palavras da crónica, sob as roupagens gráficas e fonéticas, transportassem uma única mensagem, repetida de lés a lés:   “Fazei lá mais uma forcinha, meus diretores!”



terça-feira, 7 de novembro de 2017

A tríade que os professores devem (re)conquistar


Precedem tudo o que de mais importante os professores reclamam. Sem essa tríade sucessiva (porque também integra duas precedências), a classe docente jamais concretizará o ouro das suas legítimas ambições. Poderá enxergar ilusórios vislumbres, mas jamais incorporará a essência pretendida.
É tão simples e sucinta quão perfeita: é urgente purgar o medo; purgado o medo, seremos unidos e solidários; unidos e solidários, seremos muito mais fortes. Estaremos então prontos para lutar (verdadeiramente), não como quem pede, como quem tenta, como quem brande uma determinação que não tem, mas como quem tem força suficiente para impor as legítimas pretensões que o movem.
Tudo começa, pois, no medo, esse tirano que alimentamos em demasia, a quem conferimos o poder de ser nosso superego ditador. Como o vencemos? Com a consciência de que ele é o progenitor de toda a nossa sujeição e de muitas das nossas perdas; com a consciência de que só seremos realmente livres, se ignorarmos a sua insidiosa voz e seguirmos em frente, de peito aberto à razão, à justiça, à probidade… enfim, àquilo que faz de nós professores de corpo inteiro.





segunda-feira, 6 de novembro de 2017

A classe-caracol


Atualmente, poucos duvidarão que a classe política do chamado arco da governação decidiu usar os professores como otários privilegiados da crise. Será castigo pelo laxismo geral? Será pena pesada por abuso de incompetência? Ou será por ser uma classe calada, resignada e obediente?
 As duas primeiras questões têm, na minha perspetiva, resposta fácil e rápida. Não querendo arriscar extrapolações nem generalizações, direi apenas (com modéstia) que os professores não receiam nenhuma comparação, no que toca a tempo dedicado à profissão. Também não receiam comparações no que toca a formação e qualificações para o exercício da profissão e das inúmeras vertentes que abrange. Os professores constituem, presentemente, uma autêntica classe-caracol, sempre com a escola às costas, seja a que horas for, estejam onde estiverem. Não é, de certeza absoluta, por falta de competência(s) nem de dedicação plena (muito mais do que plena) que os professores sofrem de discriminação negativa. Só nos resta, portanto, a terceira questão.
Para mim, a resposta também é óbvia. Vejo-a tão concreta e tão nítida como este ecrã de computador que tenho diante das retinas: somos maltratados porque estamos muito divididos, porque não somos tão solidários uns com os outros como somos com os alunos e com as comunidades que servimos; porque somos ousados, megalómanos, a aceitar todas as incumbências e responsabilidades que descarregam sobre nós, mas receamos dizer “não”, dizer “basta” quando se trata de nós mesmos; porque somos absolutamente renitentes quando se trata de um eventual prejuízo causado a alunos e/ou encarregados de educação, mas aceitamos pacificamente todos os prejuízos que nos infligem, como se fosse esse o nosso fado, a nossa única via; porque nos secundarizamos constantemente! É por isso que nos secundarizam tão facilmente!
Desta vez — porque o tempo tem muito de derradeiro — é chegada a hora de dizermos (POR UMA VEZ) “Nós primeiro!”

domingo, 5 de novembro de 2017

Greve de cinco dias


Se não fizermos uma greve esmagadora, no próximo dia 15, os sindicatos vão saber o que é a “defesa radical dos direitos dos professores”: um descongelamento simbólico, só para poder constar. Repito: se não fizermos uma greve arrasadora, podemos esquecer o tempo que ficou no congelador. Os sindicatos sairão desautorizados, e o Governo sentir-se-á à vontade para nos recoroar como otários da(s) crise(s).
Na minha modesta maneira de ver, ainda que façamos uma paralisação total, esse será apenas o átrio desta luta. Não pensem que será “trigo limpo, farinha Amparo”! O Governo cederá, mas (como é expectável) começará pelo mínimo dos mínimos, para ver se o povo sereno se contenta. E vai tentar dividir-nos (é o paradigma da última década), para ver se os remediados se calam e deixam os restantes a falarem sozinhos. É preciso que os sindicatos não façam também o seu habitual número: o de aceitarem um rebuçado qualquer só para cantarem vitória. É também imperioso que Mário Nogueira e João Dias da Silva não se deixem dividir, que determinem já, antes das negociações propriamente ditas, o que é inegociável, ou seja, o mínimo para fecharem acordo com o Governo. E que vão auscultando os professores!
De qualquer forma, tenho a certeza de que, depois do dia 15, será necessário prosseguir a luta. Por isso, avanço aqui a minha ideia para essa segunda fase: sou a favor de uma greve de cinco dias, mas repartida por cinco semanas, começando numa segunda e acabando numa sexta-feira. Creio que tem os ingredientes certos para esta contenda. Contudo, só no dia 15 saberemos se temos gente para prosseguir ou para amouchar. E não venham com a desculpa do dinheiro que a greve custa, porque sai incomensuravelmente mais cara a resignação!

sábado, 4 de novembro de 2017

O meu anonimato


Como já surgem leitores aparentemente mais interessados no meu anonimato do que nos artigos que escrevo, é chegado o momento de dar as explicações possíveis.
São sólidas e imperiosas as razões que estão na base desta minha opção de resistência, pelo corpo docente deste país (ao qual, orgulhosamente, pertenço) e pela Escola em geral. Foi isso mesmo que afirmei no artigo com que me apresentei à blogosfera. Vim para ser mais um benigno sopro de energia, não para outros fins. Não desejo protagonismo nem sou protocandidato a nada, desejo apenas ajudar a mudar o mau rumo que algumas políticas estão a impor-nos.
O que, para muitos, seria um autêntico palco de cobardias e/ou festival de indignidades, de toda espécie (refiro-me ao anonimato, claro), para mim, é uma séria limitação. Porquê? Porque a honra me impede de ser aqui tão direto e tão agressivo como costumo ser, quando se trata de lutar pela causa do ensino. Sentiria vergonha, se usasse esta benévola sombra para desferir ataques insultuosos a pessoas e/ou instituições; sentiria vergonha, se usasse o anonimato do Quadro negro para desaguar ódios de estimação e vinganças pessoais. Não, o meu blogue jamais servirá essas causas. Aqui, sempre pulsará o coração da Escola Pública, nada mais. Se algum dia pisar esse risco, digam-me, por favor, que eu me retratarei e escacarei imediatamente o Quadro Negro.
Decidi assinar como A. Marte (“amar-te”) com óbvio intuito de afirmar o meu anonimato, de dar a entender que se trata de um pseudónimo, uma vez que Marte não é apelido autorizado em Portugal. É, pois, por amor (à docência, aos docentes, ao ensino e à Escola Pública) que aqui estou. Gostaria, por isso, que se concentrassem na mensagem, nas ideias, e não no emissor, que (acreditem) não é por nenhum motivo indigno que tomou esta decisão editorial.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Desatino docente


É um absurdo dos tempos que correm. Os professores, consumidos em mil e uma inutilidades diárias, têm cada vez menos tempo e menos paciência para a sua missão específica. É um descomunal desatino.
O dia a dia dos docentes é passado em constante tête-à-tête com o computador. Mas o pior é que a maior parte desse tempo (mal) passado nesse “jogo do sério” não é dedicada à conceção e avaliação dos atos pedagógicos, é consumida em moroso, meticuloso, desgastante  e (quase sempre) inútil trabalho burocrático: folhas de cálculo (com milhares de dados), grelhas, documentos ocos (como o PT, por exemplo); recebimento, consulta e resposta a e-mails; arquivamento de documentos em Word e PDF enviados por… um exército de gente. O correio eletrónico é uma fonte inesgotável de pequenos e grandes servicinhos que levam os professores à funcionalização, a tempo (quase) inteiro e em todos os espaços. Cada membro da comunidade escolar, isoladamente, envia o seu pequeno grão de granizo, mas aquele que recebe anda constantemente debaixo de uma violenta saraivada, que não mata, mas mói, mói lentamente até à impaciência, até à exaustão, até à desmotivação, até… enfim, à depressão, que já é a sombra de um perigosíssimo número de professores. Então se o(a) penitente for também diretor(a) de turma… é uma loucura! É uma loucura!
Há (mesmo nas escolas) muita gente que considera todo este esplendor técnico sinónimo de profissionalismo, de seriedade e de competência. Parece que tudo é pensado ao milímetro, ao segundo, com muita antecedência, com muito rigor… Parece, realmente! Mas temo que nos estejamos todos a perder em tão gigantesco tesouro de preciosas inutilidades. Temo, seriamente, que nos estejamos todos a deixar alienar por este premeditado ópio de quem nos quer “serviçalizar”.  Parecemos frades copistas, a copiar, a ilustrar e a encadernar evangelhos, em celas penumbrosas e frias, longe das pessoas e da verdadeira evangelização.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Ordem dos Professores e Educadores – Como e Quem



aqui opinei sobre a necessidade premente da criação da Ordem dos Professore e Educadores. E prometi, então, abordar também o “como” e o “quem” desta questão. É o que proponho fazer, sumariamente, neste artigo.
O Estado jamais terá interesse na criação de uma associação pública profissional de professores. Seja qual for a matriz política do(s) partido(s) que estiver(em) no Governo, o posicionamento face a esta pretensão docente jamais mudará. Trata-se de uma área que o poder político sempre quererá controlar (profissional, pedagógica e axiologicamente) e instrumentalizar, por múltiplas razões. Por estes motivos, será sempre vão esperar que o poder político legisle de modo a enquadrar facilmente a fundação de uma Ordem de Professores num normativo como a Lei 2/2013. Têm de ser os professores a impô-la ao Estado. Caso contrário, ainda haverá Pró-Ordem no século XXII.
A iniciativa terá de partir dos profissionais da docência, com voluntarismo, algum arrojo e muita sagacidade, tirando pleno partido das facilidades de comunicação que as redes sociais oferecem, quer para a auscultação do coletivo, quer para a agregação de sinergias quer para a angariação de meios necessários ao arranque formal e ao trabalho jurídico que terá de ser contratado, tendo em vista não só a conceção dos estatutos como a legalização e o reconhecimento estatal da associação (que muito dificilmente acontecerá de forma “pacífica”). O poder político prometerá estudar, protelará, arrastará ad eternum. Entretanto, os professores terão de dar continuidade ao processo, de forma revolucionária (a única viável, no meu entender): criando formalmente a sua associação profissional, contribuindo, como é óbvio, para a sua viabilidade financeira e passando a acatar as suas orientações. Desta forma, ela acabará por ser, mais tarde ou mais cedo, imposta ao poder político como legítima interlocutora e representante dos professores e educadores.
Fundar, em Portugal, uma Ordem de Professores e Educadores seria mais importante para a Educação e teria muito mais impacto no dia a dia escolar e no produto formativo das escolas do que muitas reformas educativas. Não tenho dúvidas. Creio que poucos professores e educadores terão. Será, pois, importantíssimo que os profissionais do ensino e da educação saibam conquistar para esta causa uma figura de reconhecida competência, de profundo conhecimento do sistema educativo e do sistema escolar, de idoneidade máxima, de elevado prestígio, de generalizado consenso; uma pessoa com carisma, autoridade moral e intelectual, muito respeitada pela classe política. Seria, na minha opinião, causa suficientemente grandiosa para dar máximo sentido a toda uma carreira profissional dedicada ao ensino.  
Podemos menosprezar ou até ignorar esta aspiração. Todavia, a sua necessidade não deixa de ser nem premente nem vital. Os professores estão num momento crucial da sua ainda curta existência histórica. O que está em jogo — com acelerados e brutais contornos, sobretudo nos últimos dez anos — tem tanto de inadiável como poderá ter de irreversível: ser funcionário letivo ou professor.  

Santana Castilho chumba Tiago Rodrigues & Companhia


Tenha vergonha!