domingo, 15 de outubro de 2017

Os Mediadores


Creio que os motivos que me trouxeram para esta realidade virtual e o ADN deste blogue estão bem representados no rosto que apresenta. Ainda assim, manda a “etiqueta” que a apresentação seja feita através de um texto paradigmático. Elegi “Os Mediadores”.


Os Mediadores

Estes intermináveis anos de terrorismo pessoal e profissional têm sido absolutamente corrosivos para os professores, sobre quem têm recaído (objetiva e subjetivamente) as culpas do insucesso escolar e os respetivos “castigos”. Com anuência dos próprios — devo dizê-lo — o poder político tem vindo a fulminar todo o profissionalismo docente, desprovendo paulatinamente os professores da capacidade de decidir (é lógico, uma vez que não confia na sua competência). Cada professor, individualmente, já não decide praticamente nada, nem sequer a sua ação letiva quotidiana, a essência da sua dignidade, do seu profissionalismo, do seu carisma enquanto pedagogo. Há cada vez mais “mediadores” entre o professor e os seus alunos. A ele, só lhe é pedido que aplique o que já está previamente decidido. E tudo se agrava a um ritmo vertiginoso. É extremamente preocupante!
A Tutela, enquanto vai vendendo autonomias e descentralizações, cria projetos de promoção do sucesso que não passam de contratos de promessa de compra e venda de transições em massa, com fins economicistas e graves consequências sociais. As escolas (os diretores) que os subscrevem, a troco de remessas de recursos materiais e humanos (colocação de muitos professores ao abrigo de “condições especiais”, por exemplo), comprometem-se, à cabeça, a atingir níveis de “sucesso” bem acima dos 90% e de forma gradativa. Depois, só têm de impor, na sua escola, os sucedâneos do PNPSE: os planos de ação estratégica (exógenos, pois claro, e devidamente apetrechados com minuciosas metodologias “importadas”), os Fénix… as flexibilizações… Enfim, enlatados aos quais os professores não se sentem vinculados, nos quais não acreditam, que até ridicularizam (em off) e que lhes limitam, de forma escandalosa, vergonhosa e indigna a conceção da sua ação pedagógica. Estão contra, sabem que tais imposições são redutoras do seu profissionalismo, do seu prestígio e da sua autoridade, mas obedecem. E, para não passarem vergonhas nem humilhações, até são capazes de fazer pública profissão de fé em tudo o que, intimamente, repudiam. No final, tudo “resulta”, mesmo que para tal seja necessário pressionar, coagir, ameaçar, entalar, votar notas, mandar repetir reuniões de avaliação… É deveras repugnante!
No quotidiano escolar, os oprimidos estão cada vez mais opressores. Mas só lhes resta oprimir o que está à mercê: os seus pares. Após a assinatura do referido contrato, os diretores e seus acólitos (os que eles escolhem para os cargos intermédios) constroem autênticos cilindros burocráticos que esmagam a autonomia, o ânimo, a crença, a energia, a autoimagem a autoestima… a vontade de ensinar/educar… a alma docente. Os professores-formiga já começam  o ano letivo completamente esmagados! Seguindo o mote mediador vindo de cima, os detentores de qualquer migalha de ascendência impõem aos seus subordinados todo o tipo de mediação da sua relação com os alunos. Já ninguém quer saber se o professor tem vinte, trinta ou mais anos de ensino, se tem um currículo e resultados que falam por si. A escola tem um enlatado curricular contratualizado, um diktat pedagógico que tem de impor aos implementadores, porque está inscrito no caderno de encargos como caminho obrigatório. Os professores estão a transformar-se em meros operários didáticos autocastradores, com as inevitáveis consequências, a todos os níveis. É insuportavelmente desolador!
A desvitalização pedagógica dos professores é uma catástrofe consumada!

5 comentários:

  1. Excelente texto! Relata a realidade que gostava que não existisse! Parabéns

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  2. Muito bom! Parabéns e boa sorte para o blogue.

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  3. Boa tarde!

    em primeiro lugar PARABÉNS!
    Aproveito também para deixar uma sugestão: VAMOS TODOS À LUTA! JÁ.

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  4. Ótimo texto! Boa sorte!

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