sábado, 21 de outubro de 2017

Os desmobilizadores


As greves são ações de protesto que, apesar nascerem de razões muito concretas  — normalmente, situações de injustiça relativamente aos trabalhadores —, se alimentam e vivem muito da subjetividade dos envolvidos: um misto de indignação, de revolta, de crença, de fé, de sonho… Um trabalhador em greve nunca tem a certeza de ver satisfeitas, ainda que de forma parcial, as suas reivindicações, mas tem sempre a certeza absoluta de que vai perder a remuneração do(s) dia(s) de protesto, de que vai, objetivamente, acrescentar perdas às perdas já sofridas, na esperança de recuperar, pelo menos, uma parte dos seus direitos. No limite, pode mesmo agravar severamente a sua situação laboral. É esta a essência onírica das greves.
Os desmotivadores são especialistas em inundar o tabuleiro grevista com o seu racionalismo frio, cínico e calculista, ou seja, alagam a fervura nascente com água fria, conscientes de que, no palco das contestações, há muitas — demasiadas — almas hesitantes, periclitantes, indecisas, inseguras, receosas... à espera de um pequeno pretexto para se encostarem ao lado mais confortável. Então, se esse resquício de frieza vem de alguém com algum nome na praça, alguém com montra blogosférica muito concorrida… é tiro e queda.
Como reconhecer os franco-atiradores da desmotivação? É relativamente fácil. Aqui ficam algumas evidências discursivas:
Ø  greve à sexta ou à segunda: “é muito mal interpretada socialmente”; “as pessoas vão dizer que nós queremos é mais um fim de semana prolongado”:
Ø  greve à terça, quarta o quinta: “terá fraca adesão”; “mais vale ficarmos quietos e calados”;
Ø  um dia de greve:  “não resolve absolutamente nada”; “só serve para perder mais um dia de salário”;
Ø  vários dias de greve: não resulta, porque a classe está muito desunida, fragilizada, descrente”; “os professores não têm capacidade económica para aguentar”; “será um fracasso rotundo”;
Ø  greve às aulas: “não tem impacto nenhum e só serve para perturbar o andamento do ano letivo;
Ø  greve aos exames: “uma imoralidade, um claro prejuízo para os alunos, aqueles que nós devemos proteger e que nada têm a ver com as nossas reivindicações laborais”;
Ø  “os sindicatos usam-nos para satisfazerem interesses partidários”;
Ø  “teremos de arranjar novas formas de protesto, mais impactantes (digam quais, que nós dizemos criamos logo o antídoto)” …

É mais ou menos este o ideário dos agentes da desunião. Uns fazem-no por mera cobardia, outros porque são infiltrados (sobretudo na blogosfera) e outros porque são mesmo encostados, vendidos, traidores. Dizem defender a classe, mas apenas defendem os seus mesquinhos interesses. Vivem da cegueira e do medo. 

Sem comentários:

Enviar um comentário