domingo, 29 de outubro de 2017

Greve de claras em castelo -II


Prometi um segundo artigo sobre a desejada Ordem dos Professores e Educadores. Fica para quarta-feira, não pela data em si, mas pelo tempo de que conto dispor. Entretanto, tenho ainda o tema da greve para tratar.
 Para além dos números exatos da adesão real à greve da pretérita sexta-feira, há outras perguntas que têm de ser feitas e respondidas:
Ø  Por que motivo(s) na escola A , em dia de greve, tudo decorre na “mais absoluta das normalidades”, com praticamente todo o corpo docente a lecionar, e na escola B, ali ao lado (em muitos casos), a maioria dos professores está a faltar?
Ø  Por que motivo(s) a escola C está, em dia de greve, a “laborar” de acordo com a rotina quotidiana e a escola D, ali ao lado (em muitos casos), está encerrada?
É claro que, como muitos de nós, tenho duas hipóteses de explicação do fenómeno, mas pertencem ao inconsistente domínio da perceção intelectual. Carecem de sustentação mais sólida. Penso, por exemplo, no peso plúmbeo de certos diretores (escola A), no elevado número de funcionários em greve (escola D), no desaparecimento quase absoluto dos delegados sindicais… Temos de ir por aí, pois seria estúpido acreditar que, por ação de sucessivos caprichos concursais, certas escolas foram recheadas com um corpo docente descontente e reivindicativo e que, para outras, o destino decidiu enviar todos os professores conformados e obedientes que lá cabiam. Não tenho cérebro para tanto!
Nada melhor do que uma saudável lucidez, para dar passos firmes. Dura veritas sed veritas.

sábado, 28 de outubro de 2017

Greve de claras em castelo


Foi estrategicamente irrepreensível a FENPROF (Mário Nogueira), quando decidiu juntar-se à greve da Função Pública. Sabia que obteria um bom resultado, contabilizado em escolas encerradas, porque os funcionários dariam o esperado contributo decisivo. Desta forma, poderia proclamar um êxito superior ao real. Porém, a frieza da lucidez permanece intacta, e impõe-se aos atos vindouros.
Sinceramente, eu pagaria para ter conhecimento do número exato de professores que ontem fizeram greve. Sou uma pessoa sonhadora, mas gosto de erguer os meus sonhos a partir de uma realidade sólida. Só assim consigo acreditar neles. E para acreditar que é possível ir mais além na luta — fala-se em megamanifestações, em greves de cinco dias, em greves por tempo indeterminado… — é necessário conhecer, sem malabarismos interpretativos, o rigor dos números, que suspeito não serem muito auspiciosos.
Uma vez mais, acabei por sentir desapontamento com a adesão dos professores a uma ação de luta justíssima, mais do que justificada, no tempo e na forma escolhidos (havia — e há — motivos mais do que suficientes para uma adesão esmagadora, total). Senti, uma vez mais, uma corrosiva desilusão com tanto alheamento, tanta desculpa estúpida, tantas atitudes e palavras esquivas, tanto egoísmo, tanto individualismo, tanta falta de solidariedade e de união na classe docente, que já recebe lições de todos os restantes setores profissionais, incluindo aqueles que, nas escolas, os auxiliam no trabalho. Talvez até sinta uma vergonha que não ouso admitir!
Por todos estes infelizes motivos, não acredito que Mário Nogueira esteja realmente tão eufórico como verbaliza. E se assim for, como é lógico, o passo seguinte terá de ser, novamente, muito curto e comedido, pois não é prudente, em solo movediço, fazer impulso, para salto arrojado. 

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

O medo dos professores


É — tão lamentavelmente! — o sentimento que domina a esmagada maioria dos professores.
O medo dos professores provoca em mim, em diferentes momentos, os mais diversos sentimentos e emoções. Há ocasiões (muitas) em que, simplesmente, me faz pena. Muitas vezes, dá-me força para me erguer e lutar, com as armas que melhor manejo (as palavras). Porém, também me ocorre ter medo, muito medo, do medo que os professores sentem. Quando olho de frente o porvir. E também me acontece sentir apenas repugnância. Mas é um apenas mais do que suficiente para me alagar. Quando vejo, diante dos meus olhos, como em farsa teatral, os mais tristes papéis que o medo impõe a quem consegue subjugar. Sinto repugnância, nessas ocasiões, porque o medo é uma das antíteses de ser professor. É o mais fértil progenitor das cobardias.
Ver assim morrer quem, por ironia, permanece vivo, é uma lenta, silenciosa, corrosiva, dolorosa e frustrante forma de morrer também. 





Completamente de acordo, Paulo Guinote!



quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Escola-alfaiate



Até compreendo a metáfora da escola-alfaiate, concebida pelo Senhor Ministro da Educação em dia destinado a fazer prova de vida. Não é uma relíquia literária, mas percebe-se, o que já não é mau de todo. Contudo, não deixa de ser fraquinha, tão fraquinha quão falaciosa, porque gera em nós a falsa ideia de currículo feito por medida, cintadinho, justinho ao corpo e ao cérebro de cada catraio e de cada catraia. Um ensino básico obrigatório por medida?
Dá-se então o surgimento desta metáfora em plenos preliminares da tão prometedora flexibilidade curricular, que anda de cochichos com a comadre municipalização. Não estaremos muito longe da verdade, se pensarmos que a escola-alfaiate pertence à linhagem do PNPSE, dos planos de ação estratégica, do mitológico Fénix… Terá, pois, os genes familiares, ou seja, será uma espécie de franchising da alta-costura economicista. Por medida, sim, mas com tecido e linhas fornecidos e com um exaustivo manual de instruções, que vão do corte até ao número de voltas que a agulha deve dar em cada botão que prende. Os alfaiates não serão criativos, serão meras máquinas de cortar e coser. Além disso, há que ter em consideração que se trata de um cluster de país pobre: o fato, para além de vestir bem e de ser moderninho, tem de ser baratucho. Missão impossível? Talvez não.
Há, de facto, uma boa solução para as escolas-alfaiate: tecido de licra e fato integral semelhante ao do homem-aranha, mas com várias cores disponíveis e alguns apliques, para personalizar o produto. É económico, leve, fácil de arrumar e de transportar e seca rápido. Lava-se à noitinha e de manhã já está pronto a vestir, pois nem sequer precisa de passagem a ferro(s). E as vantagens não ficam por aqui: com poucos tamanhos, podemos vestir todos os corpos e todas as mentes, sejam quais forem as suas… tendências.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Imperativo moral de fazer greve

Quadro tristemente habitual: muitos professores completamente alheados, idêntico grupo dos que pensam que um dia de greve não tem impacto nenhum, servindo apenas para perder dinheiro, e um punhado de monges da resiliência, vistos pelos demais como anjinhos.
Dos alheados não reza a História. Nem lhes dedico mais do que estas duas frases.
Entre os que não creem nos resultados de um só dia de luta, há muita gente cansada de greves “falhadas”, que se escoaram em entediantes guerras de números, nos telejornais das 20 horas, mas há também os profissionais da antítese (os que acham sempre que se fosse de outro modo é que seria bom). Embora entenda, até certo ponto, a descrença dos primeiros, tenho de dizer o seguinte: se nós temos razões para não acreditar na eficácia de um dia de paralisação (e, por isso não aderimos) também os sindicatos têm imensas razões para não se lançarem na aventura de vários dias de greve, sabendo que têm nas escolas uma classe profissional em adiantado estado de desmobilização. Bloqueio. E como se sai de um impasse destes? Respondendo de forma esmagadora a este apelo dos sindicatos, para que eles sintam e percebam que podem ir mais longe, tão longe quanto a dimensão da resposta vinda do terreno. Caso contrário, jamais sairemos deste pântano de inércia em que, lentamente, putrefazemos.
Felizmente, ainda tremeluz a aura dos monges da resiliência ativa, o já raro capital de esperança da classe docente. Agem de acordo com princípios e valores, cumprindo os ditames da sua consciência, alheios a cálculos, a perspetivas de adesão, a conjeturas... Cumprem o seu papel, ainda que tenham a certeza de que vão estar sós no tabuleiro da contenda. Esses, sim, são imprescindíveis. É neles que estão preservados, intactos, os genes da autoridade que a classe espera recuperar.
Hoje, curvo-me (não por subserviência, mas por respeito) diante daqueles que têm tal envergadura moral!

domingo, 22 de outubro de 2017

Ordem dos Professores e Educadores


Está na crista da atualidade a greve do próximo dia 27 e as razões que a motivam. São, sem dúvida, razões mais do que suficientes para tal (bastaria, como já aqui disse, a primeira enunciada pela Fenprof: “Descongelamento das progressões na carreira com recuperação de todo o tempo de serviço perdido”). Estarei, por isso, como sempre, na primeira linha de mais uma ação reivindicativa. Todavia, devo dizer que há questões muito mais profundas por resolver, questões que interferem diretamente com as singularidades do nosso trabalho, com a essência da nossa profissão, com a tão almejada, tão reclamada, tão perdida e tão pedida autoridade.
Congelamentos e descongelamentos, progressões na carreira, índices remuneratórios, concursos, contratos, períodos probatórios… são, indubitavelmente, assuntos importantíssimos. Deles depende toda a estabilidade e/ou instabilidade da nossa vida, logo do nosso desempenho quotidiano. Contudo, não é aí que reside a singularidade da nossa profissão, nem foi nessas condições de trabalho que fomos mais violentamente feridos e espoliados do que os demais trabalhadores do Estado. Podemos, num ou noutro aspeto (muito por culpa da nossa resignação) ter sofrido perdas algo mais gravosas, mas não tão gravosas como aquelas que temos sofrido na nossa autonomia pedagógica e na dimensão ética das nossas decisões quotidianas. São tão corrosivas, tão deletérias, que têm vindo a transformar pedagogos em meros implementadores de diretivas pedagógicas. As primeiras roubaram-nos alguma estabilidade, conforto, equilíbrio pessoal e social… mas só estas nos subtraíram a autoridade. Com a recuperação daquelas, viveremos melhor, mas só com estas recuperaremos o respeito que merecemos, o respeito inerente e tão essencial à nossa nobre missão.
Nunca foi, como atualmente, tão necessária, tão premente, tão vital para os professores, a criação de uma Ordem. Precisamos, urgentemente, de criar a Ordem dos Professores e Educadores, pois só assim — na minha maneira de ver — podermos reerguer-nos e sair do jugo em que nos deixámos amarrar. Precisamos de uma Ordem para exigir a definição deontológica do nosso Estatuto, para demarcar as nossas fronteiras éticas, para clarificar com precisão o que pode e não pode ser-nos exigido, o que podemos e/ou não podemos recusar, onde começa e onde acaba a nossa autonomia pedagógica (coletiva e individual)… Enfim, precisamos prementemente de uma Ordem para sermos efetivamente quem realmente somos conceptualmente e quem o país precisa que sejamos.

PS - Como já adivinho as velhas objeções, prometo tratar, no(s) próximo(s) texto(s), do “como” e do “quem”. 

sábado, 21 de outubro de 2017

Os desmobilizadores


As greves são ações de protesto que, apesar nascerem de razões muito concretas  — normalmente, situações de injustiça relativamente aos trabalhadores —, se alimentam e vivem muito da subjetividade dos envolvidos: um misto de indignação, de revolta, de crença, de fé, de sonho… Um trabalhador em greve nunca tem a certeza de ver satisfeitas, ainda que de forma parcial, as suas reivindicações, mas tem sempre a certeza absoluta de que vai perder a remuneração do(s) dia(s) de protesto, de que vai, objetivamente, acrescentar perdas às perdas já sofridas, na esperança de recuperar, pelo menos, uma parte dos seus direitos. No limite, pode mesmo agravar severamente a sua situação laboral. É esta a essência onírica das greves.
Os desmotivadores são especialistas em inundar o tabuleiro grevista com o seu racionalismo frio, cínico e calculista, ou seja, alagam a fervura nascente com água fria, conscientes de que, no palco das contestações, há muitas — demasiadas — almas hesitantes, periclitantes, indecisas, inseguras, receosas... à espera de um pequeno pretexto para se encostarem ao lado mais confortável. Então, se esse resquício de frieza vem de alguém com algum nome na praça, alguém com montra blogosférica muito concorrida… é tiro e queda.
Como reconhecer os franco-atiradores da desmotivação? É relativamente fácil. Aqui ficam algumas evidências discursivas:
Ø  greve à sexta ou à segunda: “é muito mal interpretada socialmente”; “as pessoas vão dizer que nós queremos é mais um fim de semana prolongado”:
Ø  greve à terça, quarta o quinta: “terá fraca adesão”; “mais vale ficarmos quietos e calados”;
Ø  um dia de greve:  “não resolve absolutamente nada”; “só serve para perder mais um dia de salário”;
Ø  vários dias de greve: não resulta, porque a classe está muito desunida, fragilizada, descrente”; “os professores não têm capacidade económica para aguentar”; “será um fracasso rotundo”;
Ø  greve às aulas: “não tem impacto nenhum e só serve para perturbar o andamento do ano letivo;
Ø  greve aos exames: “uma imoralidade, um claro prejuízo para os alunos, aqueles que nós devemos proteger e que nada têm a ver com as nossas reivindicações laborais”;
Ø  “os sindicatos usam-nos para satisfazerem interesses partidários”;
Ø  “teremos de arranjar novas formas de protesto, mais impactantes (digam quais, que nós dizemos criamos logo o antídoto)” …

É mais ou menos este o ideário dos agentes da desunião. Uns fazem-no por mera cobardia, outros porque são infiltrados (sobretudo na blogosfera) e outros porque são mesmo encostados, vendidos, traidores. Dizem defender a classe, mas apenas defendem os seus mesquinhos interesses. Vivem da cegueira e do medo. 

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Greve no dia 27


Serve o presente artigo apenas para solicitar aos professores que — aqui e na escola — não desautorizem os sindicatos nesta ação. Falar de agenda partidária, dos interesses do PCP... só enfraquece a nossa luta por aquilo a que, sem sombra de dúvidas, temos direito. Para mim, o primeiro ponto do pré-aviso — “Descongelamento das progressões na carreira com recuperação de todo o tempo de serviço perdido” — é motivo mais do que suficiente para aderir. Já demos muito (demasiado) para o peditório da crise. Podemos ter a “consciência contributiva” mais do que satisfeita. Além disso, tal como nos foi dito e imposto, cumprimos todos os requisitos para estarmos em condições de subir de escalão quando o descongelamento viesse a acontecer. O que agora nos querem impingir é um embuste: na verdade, não se trata de congelamento, mas de supressão.
Façamos a greve! A quem não estiver disposto a aderir, peço encarecidamente que não faça campanha contra! Muito ajuda quem não estorva.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Ainda as provas de aferição


Mas, desta vez, é para falar dos RIPA, os relatórios individuais das provas de aferição, que o Ministério envia aos encarregados de educação, através das escolas e entregues pelas mãos dos diretores de turma. Contêm, basicamente, uma descrição detalhada do que cada aluno fez, ou não fez (com quatro graus de proficiência), naquele conjunto de questões selecionadas para a prova, acrescentando, em certos casos, o que deveria ter sido feito e porquê. Nada, como é óbvio, contra estes esclarecimentos. A minha objeção é de outra índole.
Serei caso único ou há por aí mais alguém que, tal como eu, pense que o Ministério da Educação, ao transmitir estas informações diretamente aos encarregados de educação, está, uma vez mais, a ultrapassar e a desautorizar os professores? Será que as escolas não têm gente capaz de transmitir tais informações aos alunos e seus encarregados de educação? Não têm profissionais capazes de fornecer elementos muito mais abrangentes, logo mais interessantes e mais úteis sobre as dificuldades dos alunos? Ou será que não considera os professores confiáveis ou suficientemente capazes de expor esta informaçãozinha a pais e alunos sem a deturparem? Mais: será preciso todo este aparato das provas de aferição (e a consequente perturbação do normal funcionamento das escolas, no final do ano e em véspera de exames) para fornecer a todos os elementos da comunidade escolar tais informações? Será que os professores, sem intermediários, não têm já informação muito mais significativa na sua posse? Tenho a certeza de que sim.
Mesmo admitindo que as intenções do Ministério são apenas o que se assume que são e não aquilo que a minha paranoia teima em ver, ainda assim sou obrigado a chegar a esta triste conclusão: a tutela educativa escreve a pais para lhes dizer o que os filhos foram capazes de fazer num limitado conjunto de perguntas de uma determinada prova de uma certa disciplina, quando tem, nas escolas, profissionais capacitados para dizerem, não o que cada aluno foi capaz de fazer, mas o que é e não é capaz de fazer em cada disciplina. E é o que fazem, constantemente. A diferença é colossal. É por isso que duvido muito das boas intenções anunciadas.  

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A máfia dos incêndios


Impossível não falar!
Por uma questão de higiene interpretativa das minhas palavras, começo por dizer que o Governo não tem estado nada bem nesta matéria, que Constança Urbano de Sousa deve demitir-se ou ser demitida, nas próximas horas,  por todas as razões já sobejamente conhecidas e mais uma: permitir a focalização na raiz do problema. Enquanto estamos todos a pedir responsabilidades a um Governo que falhou redondamente, a máfia dos incêndios anda por aí, como o Diabo à solta.
Se um falhado qualquer, em nome do autoproclamado Estado Islâmico, investisse contra a multidão reunida numa praça e matasse várias dezenas de pessoas, todos os quadrantes políticos dariam as mãos num protesto veemente e uníssono. Como se trata de incendiários anónimos (mas muito poderosos e “exemplarmente” organizados) quase todas as vozes pedem a cabeça da ministra (com razão) e um mea culpa do Governo (que já devia ter acontecido). O problema está no silêncio que se gera à sombra desse clamor, no silêncio por onde se esquiva a máfia dos incêndios, no silêncio que protege os assassinos, os genocidas. É URGENTE FAZER CONVERGIR TODOS OS MEIOS PARA A SUA IDENTIFICAÇÃO.
É descaradamente claro que não são pobres-diabos os que estão nos bastidores deste autêntico arrastão incendiário. É urgente saber quem são e quais os motivos que os movem. É isso que as gentes desprotegidas querem realmente saber; é isso que as vidas perdidas (perdidas em autêntico inferno terrestre) exigem de nós enquanto povo; é isso que o aparelho do Estado, enquanto apoia generosamente quem perdeu, tem de descobrir, para depois punir severamente. Caso contrário, continuaremos a ser um povo refém, refém de mercenários, de piroterroristas impiedosos.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Tio João e titi Lurdes


O tio João guardou para a véspera do Dia do Professor a publicação dos resultados das provas de aferição. O malandreco tinha-a bem fisgada! Como guardava uma notícia aparentemente má, deixou passar as Autárquicas e apontou para esse dia em que a sociedade, uma vez mais, dedicaria uns minutinhos a bendizer a missão tão preciosa quão ingrata dos professores. “Tomai lá, incompetentes de um raio, passai o dia como mereceis: a justificar o insucesso com aspas!” E até já tinha o remédio para a cura, a velha banha da cobra da titi Lurdocas, apontada como uma seta ao coração do mal: mais formação para os professores. Ah ah ah ah! Enfim, competentes nos exames nacionais e incompetentes nas provas de aferição. Mas que evolução, em menos de quinze dias! E sem formação nenhuma!
Cada vez que vem aí coisa reformista, os professores levam pancada, para ficarem quietinhos. Flexibilidades, municipalizações…
Há dias, veio a público a titi, em pessoa, com uma ladainha muito parecida com a do sobrinho João: maus resultados no primeiro ciclo. E até afirmou saber exatamente onde está o cerne da maleita: é na leitura. Que os professores são muito críticos relativamente à não retenção no primeiro ano… e tal e coisa… Resumindo e concluindo: o que é que os incompetentes sabem dessa "ciência" que é ensinar os crianços? Nada! Em Portugal, quem sabe disso são os ministros, os seus secretários e uns quantos iluminados que não sabem o que é ter trinta catraios pela frente com a missão de os educar e ensinar. Mas são eles que ensinam os professores a ensinar. Remédio para tosse, titi Lurdes? Pois… “trabalho colaborativo dos professores”. Tradução: a culpa é dos professores.
Vamos lá ver se nos entendemos!
Há coisa de dez anos que os professores têm vindo a ser transformados em meros aplicadores, em executores de todos os ditames vindos do alto (do muito e do pouco alto). Há coisa de dez anos que a escola está a ser pensada e decidida de fora para dentro, que todo o bicho-careto anda a dizer aos professores como devem fazer o seu trabalho. E… quando as coisas não parecem correr bem, a culpa é de quem faz exatamente como lhe mandam? Não bate a bota com a perdigota! Sim, os professores terão uma parte da culpa (a de aceitarem ser operariado) mas o grosso da coisa má tem de ser assumido pelas impositivas elites pensantes. Se esta coisa do sucesso à pressão não correr bem, a culpa terá de ser especialmente endossada a quem se julgou muito mais conhecedor do que os profissionais que tutelou, ao ponto de lhes ditar como deviam fazer o seu trabalho quotidiano, uma aberração nunca vista na Saúde, na Justiça, nas Forças Armadas…
Professores, quereis saber onde está a autoridade perdida? Está aqui, precisamente aqui, neste cálice usurpado.

domingo, 15 de outubro de 2017

Os Mediadores


Creio que os motivos que me trouxeram para esta realidade virtual e o ADN deste blogue estão bem representados no rosto que apresenta. Ainda assim, manda a “etiqueta” que a apresentação seja feita através de um texto paradigmático. Elegi “Os Mediadores”.


Os Mediadores

Estes intermináveis anos de terrorismo pessoal e profissional têm sido absolutamente corrosivos para os professores, sobre quem têm recaído (objetiva e subjetivamente) as culpas do insucesso escolar e os respetivos “castigos”. Com anuência dos próprios — devo dizê-lo — o poder político tem vindo a fulminar todo o profissionalismo docente, desprovendo paulatinamente os professores da capacidade de decidir (é lógico, uma vez que não confia na sua competência). Cada professor, individualmente, já não decide praticamente nada, nem sequer a sua ação letiva quotidiana, a essência da sua dignidade, do seu profissionalismo, do seu carisma enquanto pedagogo. Há cada vez mais “mediadores” entre o professor e os seus alunos. A ele, só lhe é pedido que aplique o que já está previamente decidido. E tudo se agrava a um ritmo vertiginoso. É extremamente preocupante!
A Tutela, enquanto vai vendendo autonomias e descentralizações, cria projetos de promoção do sucesso que não passam de contratos de promessa de compra e venda de transições em massa, com fins economicistas e graves consequências sociais. As escolas (os diretores) que os subscrevem, a troco de remessas de recursos materiais e humanos (colocação de muitos professores ao abrigo de “condições especiais”, por exemplo), comprometem-se, à cabeça, a atingir níveis de “sucesso” bem acima dos 90% e de forma gradativa. Depois, só têm de impor, na sua escola, os sucedâneos do PNPSE: os planos de ação estratégica (exógenos, pois claro, e devidamente apetrechados com minuciosas metodologias “importadas”), os Fénix… as flexibilizações… Enfim, enlatados aos quais os professores não se sentem vinculados, nos quais não acreditam, que até ridicularizam (em off) e que lhes limitam, de forma escandalosa, vergonhosa e indigna a conceção da sua ação pedagógica. Estão contra, sabem que tais imposições são redutoras do seu profissionalismo, do seu prestígio e da sua autoridade, mas obedecem. E, para não passarem vergonhas nem humilhações, até são capazes de fazer pública profissão de fé em tudo o que, intimamente, repudiam. No final, tudo “resulta”, mesmo que para tal seja necessário pressionar, coagir, ameaçar, entalar, votar notas, mandar repetir reuniões de avaliação… É deveras repugnante!
No quotidiano escolar, os oprimidos estão cada vez mais opressores. Mas só lhes resta oprimir o que está à mercê: os seus pares. Após a assinatura do referido contrato, os diretores e seus acólitos (os que eles escolhem para os cargos intermédios) constroem autênticos cilindros burocráticos que esmagam a autonomia, o ânimo, a crença, a energia, a autoimagem a autoestima… a vontade de ensinar/educar… a alma docente. Os professores-formiga já começam  o ano letivo completamente esmagados! Seguindo o mote mediador vindo de cima, os detentores de qualquer migalha de ascendência impõem aos seus subordinados todo o tipo de mediação da sua relação com os alunos. Já ninguém quer saber se o professor tem vinte, trinta ou mais anos de ensino, se tem um currículo e resultados que falam por si. A escola tem um enlatado curricular contratualizado, um diktat pedagógico que tem de impor aos implementadores, porque está inscrito no caderno de encargos como caminho obrigatório. Os professores estão a transformar-se em meros operários didáticos autocastradores, com as inevitáveis consequências, a todos os níveis. É insuportavelmente desolador!
A desvitalização pedagógica dos professores é uma catástrofe consumada!