segunda-feira, 20 de agosto de 2018

A descaminho de Paris

Continuo a esfolhear o meu cronicário pessoal, deixando a seleção dos textos a cargo, não de Cronos, mas do tato dos meus dedos. A crónica de hoje é apenas uma das infinitas folhas cadentes desse interminável outono transmontano, em particular, e da gente do interior, em geral.

Definhava a década de setenta. Com ela, esvaía-se, uma vez mais, o meu chão. Conseguira voltar ao ninho, após três anos de desterro bem curtidos. Porém, já estava de novo na rosa-dos-ventos. Apenas duas translações de inteireza no meu terrão e já o tempo trazia as velhas asas para me levar a beber o agror das milhas. As Moiras, diante do olhar amofinado da minha mãe, desfiavam do seu materno regaço o meu destino, e dobavam a minha vida em gigantescas rodas de fazer lonjuras.
Acabara o secundário com todas as portas abertas para o caminho que traçara: Arquitetura. Todavia, os fios do meu fado estendiam-se, novamente, como uma sombra prolongada de mim, para o lado avesso dos meus passos. A minha mãe, também ela a beber fel, não conseguia desfiar argumentos que pudessem mudar o rumo para o qual a minha vida, subitamente, teimava em resvalar. Tinha uma irmã a trabalhar em Paris. Podia ir para lá, para estudar francês. Numa tríade de anos, estaria de volta, com habilitações para o ensino. Depois, tal como já tinha sido “depois” cinco anos antes, se eu entendesse seguir outra rota, já com um ganha-pão garantido…
Num repente, a minha sina parecia repetir-se, como se lá em cima, no tear das três irmãs, as malhas da minha vida estivessem emaranhadas, numa geringonça com defeito, a querer desdenhar da minha fiação. Estava no bordado que eu iria para Paris, que trocaria as Ciências pelas Letras, a minha terra por outra terra, eu mesmo por um sucedâneo de mim.
Com os idos de setembro, foi-se alteando o meu céu, e as brumas vieram, ligeiras e sedentárias, alojar-se-me no peito. Como um condenado em contagem decrescente, também eu tentei moldar as horas, alongá-las como fios de lã a crescer de uma roca. Iludi o tempo como pude, tentei distraí-lo, a ver se ele se esquecia de mim, ou eu dele… Tudo em vão!
O dia da partida chegou frio, indiferente e pontual. Alheio aos rumores da minha melancolia, veio até mim com a sua foice afiada, decidido a ceifar-me de quase tudo o que eu era. Impotente, resignado, dei-me a ele com todo o estoicismo que pudera amealhar. Afinal, ali, naquelas terras esquecidas, enteadas mal-amadas de um padrasto distante e parcial, a partida secundava a morte nas certezas do destino. Somos como aves migratórias, nós, os Transmontanos.
Tal como a manhã, a tarde vestiu os seus véus mais cinzentos, escondendo as femininas formas da minha cidade, envolvendo-a de quietude e de alguma aparente nostalgia. Percorrendo as ruas, como quem descia da vida, fui sugado até à estação, onde a minha roda de amigos aguardava ver-me chegar, de malas nas mãos, para um derradeiro abraço, algumas palavras de alento, promessas de cartas, festas e farras à minha chegada, pelo Natal. Eram rosas brancas de quem sabia que o meu jardim já não era verde, que desbotava, nas rodas do tempo, de outono em outono, sem cessar. Tal como me arrancara, um pouco antes, a custo, do peito mais amado, metalizando os meus sentimentos, para lhe tornar menos custosa a despedida, também lhes ofereci o melhor sorriso que pude compor, um rosto enxuto e uma estampa lavada de bom humor.
Chegada a hora, o autocarro, já um pouco agastado de tanto rosnar, fez girar as rodas lentas e, ladeando o renque de braços que me acenavam, levou o longo corpo para a rua, e fez-se ao nevoeiro. Foi então que a solidão veio sentar-se comigo, enamorar-se de mim, fazer-se minha companheira, fazer em mim a poesia. Alei, outrei-me do meu vulto, e fiquei a vê-lo seguir, inerte, os penosos trilhos da fronteira, a caminho das prometidas portas de Paris. Depois, libertinamente, clandestinamente, dissipei-me na neblina e fui arreigar-me ao granito da muralha, aos telhados do velho casario, aos bancos do jardim, às lágrimas do rio, às velhas varandas raiadas, aos amistosos postigos, aos abraços cerrados dos meus amigos, ao colmo quente do meu ninho… ao meu Bem: o colo e o carinho da minha mãe.
Na verdade, nunca morei em Paris, como não morei em parte alguma que não tivesse o telúrio de que sou feito. Nunca deixei o meu terrão, o colo dos meus três tempos. É lá que estou, agora mesmo, sendo o poeta que vós ledes. Serei lá, também, a terceira era, infinitamente múltipla e diversa, quando chegar o meu depois.

domingo, 19 de agosto de 2018

O arranque

Continuo a aventurar-me no meu baú de escrita. Hoje, dou início a uma pequena série de crónicas poetizadas da minha vida. São excertos de um dos meus vários livros em gestação (há muito que não publico, mas tenho um ninho cheiinho de palavras). Não respeitarei a ordem cronológica, como é óbvio (os poetas não seguem esse critério). Vai ser… como deve ser: ao sabor da memória afetiva.

Ainda não tinha começado a desfolhar o bem-me-quer da contagem decrescente para as férias grandes, quando a má nova me foi dada: depois do verão, iria de malas aviadas para Mirandela, para a Escola Agrícola, o internato de onde acabara de sair um dos meus irmãos, o Tozé, sete anos mais velho do que eu. A mãe não tinha posses para me pagar um curso numa universidade. Ali, pelo contrário, as mensalidades eram baratas e a escola diplomava cedo e com portas escancaradas para o emprego! Aos dezoito anos, se tudo corresse bem, já seria regente agrícola e, se quisesse, poderia mesmo embarcar para Angola, onde o curso era salvo-conduto para regalados empregos. Se, no final, achasse que não era aquilo que queria realmente fazer na vida, sempre podia ir mais longe, trabalhando e estudando ao mesmo tempo. Assim se tinham feito grandes médicos, advogados, engenheiros…
Jamais me imaginara em tal destino! E de nada valeram todos os argumentos que os meus doze anos conseguiram descortinar. A decisão estava tomada!
Afundou-se-me o chão debaixo dos pés, e as pernas tremelicaram como raízes pendentes soltando a terra! Junho outonou subitamente, e o pez da noite, desde aquela hora, arreigou-se a mim como uma doença incurável. Num repente, vi o mundo, o meu mundo, arear-se-me para uma greta escura fendida no tempo: a família, a casa, os amigos, os vizinhos, os colegas, os lugares… tudo se escoava de mim abundantemente. Outrei-me e vi-me transportado para outro lugar, rodeado de gente estranha e encarnado numa vida que não era a minha! Senti uma boa parte mim morrer naquele instante!
Fosse por onde fosse, desse as voltas que desse à cabeça, acabava sempre por chocar com uma pequena frase que se me agigantava, me desmoronava as muralhas e me deixava, a cada embate, mais vergado, mais resignado, mais derrotado, sem reação: “A mãe não tem posses!”. E fui-me fechando no silêncio, esmoendo as minhas angústias, decantando a minha tristeza, procurando girassóis onde pudesse ir buscar luz para a dar a beber aos meus olhos. E lá fui, a muito custo, na minha arrastada mudez, vendo o calendário do verão a desfiar-se sofregamente.
Naquela altura, apesar de levar os estudos com alguma facilidade, ainda não sonhava com nenhuma profissão. Queria apenas continuar na boa companhia dos meus colegas, palmilhar diariamente, durante mais um punhado de anos, o mesmo caminho para a mesma escola, aquela onde tinha acabado o Ciclo Preparatório. Gostava de ali estar! Se fermentava no peito algum sonho, esse era o de ser jogador de futebol do Desportivo de Chaves. Tal como uma mancheia de catraios meus amigos, companheiros de inúmeras jornadas lidadas atrás de uma bola num terreiro empoeirado, também eu apostava nos treinos de captação de novos jogadores para a equipa de iniciados. Começavam nas soleiras de setembro. Mas nem sequer lá fui para ver! Para quê? Os da minha matilha ficaram quase todos na equipa. Eu… sem remédio, fiz as malas, como se estivesse a arrancar-me do chão para ir vegetar num vaso distante, sem o meu húmus, sem a minha chuva, sem os meus ventos, sem o meu céu velando sobre mim.
No definhar de setembro, quando o carro que me levou despareceu na primeira curva, ainda dentro do recinto da escola, senti-me no deserto, entalado nas minhas trouxas, que jaziam a meus pés. Apeteceu-me desatar a correr atrás dele, fugir dali, daquele degredo onde nada, absolutamente nada, me era familiar. Contudo, só os meus olhos foram, nas asas da imaginação, até às fronteiras do desengano! O meu corpo quedou-se inerte, sobre o largo alcatroado, apertando-me o coração cavalgante. Senti as pernas fazerem-se nuvens, mas segurei-me. Não chorei diante de ninguém!
As boas recordações que o meu irmão deixara na escola e algumas semelhanças físicas com ele valeram-me uma certa parcela de integração. Os mais velhos falavam-me dele com estima e admiração, sublinhavam traços comuns, e, com generosa esperteza, iam-me poupando aos piores requintes da praxe. No fundo, bem no fundo, acabei por sentir que não estava completamente apartado do meu mundo. Senti que a aura do meu irmão ficara ali para me proteger. E abracei-me a ela, com todas as forças que tinha, para lhe sentir a presença, a fraterna companhia.
Durante o dia, ora nos campos, ora nas oficinas, ora nas salas de aula ou nos recreios, sempre a desfolhar tarefas, sempre rodeado doutros catraios em constante e irrequieto chilreio, não tinha tempo nem espaço para mimar a minha tristeza. Porém, quando a noite descia, com o seu amplo manto de silêncio, e eu me encolhia na ostra, debaixo dos pesados cobertores de lã, vertia na minha abafada confidente todas as dores aprisionadas, carreadas furtivamente, como um pesado grilhão de ferro, nas costas do aquilino olhar do Sol.
A noite era o oráculo da minha mãe. No seu dorso alado e discreto, eu galgava todas as montanhas, bebia a distância de um só trago, e ia encostar a cabeça no colo materno, onde podia imaginar-me inteiro, desarrancado do meu terrão, e ser apenas eu, um frágil pinheirinho a resinar saudade. Treze anos... é muito cedo para sair de casa.

sábado, 18 de agosto de 2018

Puro Amor


Regresso à planície poética do meu pretérito recente, para celebrar, uma vez mais, a omnipotência do Amor.

Contra todas as normas, todos os princípios, todas as convenções, todos os preconceitos, todas as proibições… contra a sua própria vontade, Ele amava-a. Ele amava-a de corpo e alma, tanto quanto era possível a um homem amar uma mulher, bela de corpo e bela de alma. E carregava aquele involuntário e oculto amor, como quem carregava um pecado capital: longe dos ouvidos, longe dos olhares, longe dos sextos sentidos que o pudessem adivinhar. Porém, era apenas amor, puro amor, só amor, amor só, para além do Bem e do Mal.
Aos primeiros sinais, Ele tentara reprimi-lo, enclausurá-lo, deixá-lo definhar sem sustento. Em vão, tudo em vão, porque de tudo esse condor faz alimento. É um ditador, um portento que traz a liberdade e a prisão no mesmo encantamento e nos eleva ao altar maior da humanidade. O Amor é o Supremo Chamamento.
Contra todas as normas, todos os princípios, todas as convenções, todos os preconceitos, todas as proibições… contra a sua própria razão, o amor gestou no seu peito e fez-se fermento da imaginação. Ali, nenhuma mão poderia detê-lo, impedi-lo de ser Senhor, de gerar o seu maravilhoso mundo. Ali, naquele pedaço de firmamento, naquele ventre profundo, no verso do espaço e do tempo, brotou em flor. E Ele amava-a, ali, em corpo e alma; ali, fazia d’Ela a alegoria do próprio amor: labiava-lhe o corpo de ternura, ciciava-lhe indizíveis sensações, trazia-lhe a frescura do alvor, oferecia-lhe a magia do pôr do sol, vestia-lhe a ousadia das monções… Ali, Ele era feliz fazendo-a feliz; ali, naquele nicho de quimera, longe do impossível, o seu amor fazia e refazia a primavera.
Um dia, quando se abstraia do seu próprio sentimento, demorando o olhar no eterno destecer do tempo, percebeu que o tempo também se tece, que no tempo se anoitece e se faz a luz do dia, que o tempo tem um ventre atemporal. Nesse instante, sentiu o alor da maresia, vestiu a ousadia das monções, alou de corpo-alma para além dos brasões do Bem e do Mal, e encontrou o amor despido da razão: o puro amor… rei e senhor, no seu luminoso pedestal de sedução. Tinha a aura e o corpo d’Ela.
Contra todas as normas, todos os princípios, todas as convenções, todos os preconceitos, todas as proibições… contra a sua própria condição, Ele abriu-se em livro de poesia e ofereceu-lhe, num ovo de tempo, a estrela da eternidade que trazia. Contra todas as normas, todos os princípios, todas as convenções, todos os preconceitos, todas as proibições… contra o seu próprio sextante, Ela aceitou. O amor a impelia. E foram Deus, naquele instante em que o mundo, o outro mundo, parou, para eles serem tudo e sempre num só dia.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

A magia da senhora DT


Continuo a retirar recuerdos do meu baú blogosférico. Hoje, porém, cavo um pequeno hiato na poesia, para proporcionar alguns minutos de boa-disposição aos meus leitores.
Visto que o caráter pedagógico dos conselhos de turma é uma espécie em vias de extinção (no futuro, só os diretores darão notas... afinadas), decidi recuperar este divertido texto do meu extinto Eramá. Qualquer semelhança com a realidade é… deturpação vossa. Isto é mera fricção!

Noutros tempos, não muito distantes, quando um conselho de turma decidia votar a nota de um professor (expediente raro e só usado em situações mesmo muito especiais), caía o Carmo e a Trindade. O visado sentia que a sua autoridade e o seu profissionalismo (por vezes, o respeito) tinham sido beliscados. E lá teria as suas razões! Hoje em dia, votar notas não só se tornou moda como já entrou na mais normalíssima das rotinas. Eu diria mesmo que se tornou viral e viciante, a tal ponto que até há professores que votam contra a sua própria nota. Mas o sucesso pleno, tudo justifica, ao sucesso pleno tudo se perdoa. A febre é tanta, que já atingiu outros planetas do sistema solar.
A história que vou contar, não se passou em Portugal, nem na Europa, nem no planeta Terra, aconteceu em Neptuno. Em Neptuno, o sistema educativo é muito parecido com o nosso (refiro-me a Portugal). Acho mesmo que é nesse planeta que os nossos políticos mais visionários se inspiram para sacarem as suas reformas mirabolantes.
Acontece que num belo dia, no final do ano letivo de Neptuno, a DT que ia presidir ao primeiro conselho de turma de um ano terminal, quando atravessava o longo corredor que conduzia à sala de reuniões, foi picada por uma abelha asniática (espécie autóctone), cujo ataque é indolor, mas alucinogénio. As vítimas passam a ouvir e a seguir vozes que fremem constantemente no cérebro. Ora… o corredor foi suficiente para a nossa heroína ouvir tudo o que precisava: “Lembra-te de que é o primeiro conselho de turma. O que acontecer aí fará jurisprudência sobre os restantes. Vota a eito, que o desfecho é perfeito. Não deixes nenhum pupilo para trás. E nada temas, que a mão do Grande Irmão proteger-te-á.”
Passemos a fita à frente. Trsjjjjsjsjsjsjjsjjsjsjsjsjsjjsjs…. O conselho de turma já está nos finalmentes.
— Ora, caros colegas, nem vale a pena estarmos aqui a dirimir argumentos, pois todos sabemos que estes cachopos, apesar de gostarem de botânica, estudaram quase todas as árvores mas não estudaram um carvalho, o que é grave porque se trata da espécie dominante no nosso planeta. Por isso, vamos diretos ao assunto, porque não os queremos novamente aqui para o ano, não é verdade? Então é assim: temos três alunos com quatro negativas e dois com três, sendo que, em todos os casos menos num, as disciplinas de P e de M estão envolvidas. Os primeiros… nada feito, pois teríamos de votar duas notas o que é… indigesto. A não ser que algum colega queira, de livre vontade, subir a sua nota para três.
— Eu subo a nota do Brêtebe — disse, imediatamente o PCN (professor de CN) — e nunsa fala mainisso!
— Eu suvo o nível do Préjece — atacou a PI (professora de I).
— Ora, assim sendo, agora só temos um aluno com quatro. É o Blábláblá, coitado! É fraquinho, todos sabemos, mas estudou a zoologia quase toda, só não estudou um corno e aponta de outro. Vamos traumatizá-lo com uma retenção?
— Eu estou d’acordo co'a DT — acudiu a PFQ (professora de FQ). — Apesar de ter dois à minha disciplina, nota que não altero, porque ele é mesmo muito fraquinho, se for proposta a botação, eu digo já que boto a fabor da alteração.
— Mas o Blábláblá tem quatro negativas, colega! Mesmo que votássemos a tua nota, ele ainda ficava com três, com P e M, que significa chumbo certo no exame.
— Euê estou dispostoê a subirê a minha notaê — apostou o PM (professor de M).
— Então… só precisamos de votar a nota de FQ. Vamos a isso. Levantem lá as mãos… A nota foi alterada com apenas um voto contra: o do PP (professor de P). Assim… já está passado, pois nunca na vida tira 1 no exame de P. Vamos então aos casos dos alunos Juquejuque e Tiroliro. Não adianta votarmos as notas de G, no primeiro caso, nem de F no segundo, porque, se vão a exame com nega a P e M, estão feitos. Por outro lado, não vale a pena votar a nota de M, porque eles são meninos para tirarem 1 no exame e… lá vai tudo quanto a Maria votou. Assim sendo…
— Só nos resta uma saída: boutar a nouta de P — concluiu perspicazmente o PCN. Bamos a isso depressa qu’ou, a seguir, tenho outro conseilho de truma.
Nesse momento, antes que a DT passasse ao ataque, o PP tomou a palavra e explicou por A mais B todas as razões que justificavam a justeza do nível atribuído aos catraios e as implicações que tais votações tinham na credibilidade e na autoridade dos professores…
— Tudo bem, colega, mas já ninguém liga a isso! Agora é assim que se faz. É assim em todo o lado!
— Ó colega, a avaliação não deve de ser encarada  como castigo. Sabe muito bem que a Lei diz que a transição é a regra. A retenção só deve ser usada muito muito muito raramente. Quase nunca, por assim dizer.
— Se nós não botarmos isto, o pedagógico manda pa trás. E mesmo qu'isto passasse no pedagógico, daba logo motibo a um recurso. E todos nós sabemos o qu'a DREN (Direção Regional de Educação de Neptuno) faz aos recursos. Às tantas ainda aparecem por cá os Dalton, os irmãos Metralha, o Labo Mau, o Lorde Farquaad, o Diabo da Tasmânia…
— Pois é!!! E depois inda temos que boltar a reunir o CT, mesmo que já estéjamos noutro planeta. Bamos mas é botar a nota e prontos.
— O professor de PP quer dizer algo mais? — quis saber a DT.
— Sim, quero dizer que o céu lá fora está azul e que aqui está um calor que não se aguenta!
— Muito bem! Assim sendo, vamos lá levantar os bracinhos… O Brêtebe já está, com um voto contra. Novamente… O Préjece também está arrumado, com um voto contra. Agora para o Juquejuque… O Juquejuque já passou, com o mesmo voto contra. Agora o Tiroliro… O Tiroliro também já passou, com o habitual voto do contra. Podem até tirar 2 no exame de P que já ninguém os impede de se matricularem no Déci Moano.
— Missão cumprida. Parabéns!!! — Segredou-lhe a abelhinha asniática, com voz de mel.
A DT inchou, inchou, inchou tanto, que… saiu pela janela e ascendeu aos castelinhos brancos das nuvens. Os sobrantes… foram quase todos felizes para o próximo dominó.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Flor-de-lótus


Ainda em modo de férias, continuo a desenrolar a minha passadeira de escrita. Dou “prosipoesias” às tréguas da nossa eterna luta.
Em todos os blogues que já criei e encerrei, tive sempre um ou dois leitores que me fizeram companhia mais permanente (aquela que deixa marcas da sua passagem), fosse por se identificarem com as minhas, fosse por gostarem do modo peculiar como as expresso ou… por gostam da minha escrita. No Quadro Negro, tenho duas presenças que se destacam das demais: Duílio Coelho, editor do blogue Primeiro Ciclo (que dá, frequentemente, asas aos meus textos mais… “belicistas”) e Bea Triz, que não conheço, mas que trata com muito carinho os meus textos de pendor mais literário. Decidi, por isso, em pleno “armistício”, dedicar-lhe a republicação de um conto pleno de poesia. É um texto muito especial para mim, pois foi com ele que pus termo à curta carreira do meu pseudónimo literário (Flávio Monte). Matei o pseudónimo, não o escritor.

Perdera a conta às luas não dormidas e a tantos sóis maceradamente suportados. O deserto parecia crescer diante dos seus passos, mais tardios e graníticos a cada desfuturado lanço em direção ao mal adivinhado fim da aridez: a verdura intensa, a imensidão do mar… Estava nos confins da fé e da esperança. O porvir que o arrostava mostrava-lhe agora um sorriso vazio e negro, faminto de secura. E oferecia-lhe um frio abraço de silêncio.
O caminhante estacou no colo de uma duna. As terras do prometido sol nascente nem sequer podiam ser adivinhadas no remoto horizonte daquele imenso oceano de areia. Em redor… um labirinto de ondas sempre iguais, espectros de espelhos de nada em digressão de vertigem e calor. Contudo, apesar do aparente, talvez já estivesse mais próximo dos derradeiros limiares da finitude do que do seu desesperado epicentro! Talvez lhe faltasse beber apenas mais umas léguas de pedra moída pela minuciosa e infinita paciência do Tempo, no seu eterno devir! Ou talvez não: talvez estivesse, não sobre uma duna, mas nos lábios gretados de um abismo de negação!
E ali ficou, meditabundo, contemplativo, inerte como um cato, a fazer sombra sobre os seus próprios pés, enraizados na areia. E ali ficou, absorto, num hiato de tempo adormecido, à espera… não sabia bem de quê. Ali ficou, simplesmente, sem porquê de ficar nem prosseguir.
Subitamente, o Tempo acordou, e o caminhante tomou o verso do seu caminho. Como um peão do Destino, retomou os passos da última fonte onde bebera, alheio às ameaças que as longas distâncias já percorridas lhe faziam: de o devorar na exaustão da sua insana porfia. Fez-se ao caminho, como escravo retido e atraído por um invencível grilhão de sede. Voltou a percorrer todos os passos, todas as areias e todo o pó do deserto, todos os sóis e todas as luas. Voltou.
Era noite plena quando se ajoelhou, de novo, junto à derradeira fonte onde, profeticamente, num pretérito já indistinto, saciara a sua sede e se preenchera para a incerta caminhada. A Lua prateava as águas quietas, rondando luz na sua espelhada pele.
 Debruçou-se lentamente, como um crente, e bebeu. Bebeu infinitamente daquele liquefeito ventre de vida. Bebeu… como quem bebe os três tempos e se eterniza.
Quando se reergueu, viu uma flor-de-lótus, estrelada e dançante, sobre a suave inquietação das águas desadormecidas. Por instinto, apressou-se a colhê-la. Porém, a mesma força que para ali o impelira, travou-lhe a mão:
— Não me colhas, sequioso caminheiro! Se me colhes, tornas efémera e moribunda a minha eternidade!
O caminhante petrificou. Estaria, por certo, para lá do discernimento, resvalando já nas duvidosas ingremidades do delírio, se aquela voz ressurgisse das misteriosas águas noturnas. Testou os seus limites, suplicando intimamente pelo silêncio da flor.
— Se eu não te colher, bela flor, outrem o fará. Se ninguém por aqui passar, se mais ninguém te vir e te quiser, serás eternamente só. Ser só é como não existir: eternidade e morte de mãos dadas, silêncio e negridão. Serás eterna sem teres realmente existido.
Todavia… a flor respondeu.
— Se tu não me colheres, mais ninguém o fará. E jamais serei só.
— Porquê? Como podes ter tanta certeza assim? — indagou o errante, já alheio à razão que o impedia de falar com uma flor.
— Porque eu vivo em ti, poeta errante. Onde tu fores, eu irei; enquanto viveres, eu viverei; serei poesia, se me sentires; eterna, se me escreveres.
— Como podes viver em mim, misteriosa flor, e estrelar ubiquamente nesta fonte solitária deste deserto sem fim, onde a noite e o dia são faces distintas de um só silêncio? Não podes ser real! És a minha alucinação, desabrochada e florida! Passei demasiado tempo sem beber! Deliro…!
— Não poderia ser nem mais verdadeira nem mais real! E tu não estás perdido em deserto, afortunado poeta, és cativo do teu coração, a fonte que te gerou e te alimenta. Eu sou a luz que mantém estas águas vivas. Por isso, não me colhas, leva-me à eternidade, aqui, onde me tens.
— Tentar colher-te foi um impulso natural do homem, não do poeta, que tem como sagrada a beleza, real ou imaginada, não importa, porque não há fronteiras na poesia. Deixar-te-ei, por isso, incólume, flor incerta, pois não foi por ti que voltei a peregrinar todas as lonjuras do deserto, foi por essa pequenina fonte que tu dizes ser o meu próprio coração. Essas águas, onde te espelhas como estrela em noite escura, levá-las-ei comigo para onde vou. Se és tu que as alimentas e não elas que dão vida e luz às tuas níveas pétalas, então poderás continuar a perpetuar aqui a tua intangível beleza.
— A beleza nada é sem a poesia dos olhos que a contemplam! Se partires, a minha aura será tão inutilmente visível como a escuridão!
— Dobrei o deserto por estas águas, flor. São elas o meu destino e a maior porção da minha inteireza. Porém, não posso ficar eternamente agrilhoado nesta fonte e consagrar ao deserto a minha incompletude. Preciso, urgentemente, de descer ao térreo ventre, para unir e ressuscitar de mim as partes desavindas. Beberei o meu próprio coração. Depois… dar-me-ei ao milagroso ciclo das eternas finitudes.  
Após estas palavras, delicadamente, o caminhante redobrou o corpo, mergulhou a cabeça nas águas sombrias, sem tanger a flor que as coroava. E bebeu-as até à exaustão daquele pequeno vaso de naturais e espontâneas alquimias.
Quando se reergueu, abriu os olhos sobre o húmido chão exaurido e já não viu a flor da sua ilusão. A Lua descia no céu, onde noite fria se cobria com o seu xaile mais escuro. Sentiu-se devolvido e quase inteiro, derradeiro.
Sem noção do fluir do tempo, caminhou. Serpenteou, pesado e ausente, pelas inseguras curvaturas do deserto anoitecido. Subiu, por fim, como um sonâmbulo, à duna mais alta, que lhe ofereceu um colo de calor da sua areia mais fina. Alongou-se como uma sombra naquele macio peito inerte, e abriu os braços ao quieto firmamento. Pareceu-lhe então que todas as estrelas do céu desciam sobre a Terra, muito lentamente… suavemente… calmamente… pacificamente, como uma feérica e delicada chuva de silêncio. E a noite, já sem estrelas e sem Lua, finalmente, adormeceu.
Aos primeiros cabelos da aurora, a noite, paulatinamente, foi descobrindo o poeta da sua aconchegada escuridão, e ofereceu-o ao eterno ciclo da vida. E com o primeiro ouro da manhã, vieram os primeiros abutres, descrevendo incontáveis círculos de cobiça nas clareantes alturas. Porém, também foram despertados os ventos, que beijaram as areias, que correram, esvoaçaram, revolitaram no ar, redesceram e… serenaram sobre o poeta, poupando-o aos vorazes apetites das aéreas rapinas e ao deletério hálito do Sol.
Fez-se paz.
Quando invernou no Norte, num primitivo berço muito distante, a serrania deu à luz um imenso bando de ventos frios, sequiosos de lonjuras. Como aves respondendo ao supremo chamamento da Natureza, rumaram vertiginosamente para sul, arrastando com eles todos os rebanhos do céu. E nevou pela primeira vez no silencioso deserto da poesia adormecida.

domingo, 5 de agosto de 2018

O último lobo de Fearland



Não tive tempo, nem serenidade nem inspiração súbita que salvasse a minha promessa. Decidi então, em vez do pretendido naco de poesia inédito, recuperar um pequeno conto, que representa a solidão de quem luta e se mantém fiel a uma causa,  aqui representado pela Lua.

Só restava ele da numerosa alcateia que, outrora, dominara a temerosa montanha de Fearland. A maior parte dos seus pares fora definhando e morrendo paulatinamente, à medida que a caça fora rareando naquele habitat. Outros, por necessidade extrema, tinham-se aproximado demasiado da terra dos homens, acabando mortos, decapitados, embalsamados e exibidos para alimento do ego dos seus predadores. Alguns, atraídos por farejadas promessas de fartura, tinham partido em direção à mítica planície de Godland, em cujo coração estava o mais prodigioso bosque da Terra: Wonderwood.
Fearland, agreste e plena de estrias escarpadas, era como um gigantesco seio encimado por um enorme rochedo. Era ali que os habitantes de Treason Town — uma pequena cidade feita de casas de madeira, que ladeavam a única rua do burgo — viam diariamente o ascender da Lua na imensidão noturna. Mas também era ali que, invariavelmente, no preciso instante em que o astro começava a exibir o seu brilho e a sua redondez no céu, viam o único lobo de Fearland trepar até ao topo rochoso, esperar pacientemente o momento em que o corpo lunar ficava completamente suspenso no vão, e dar início a um delongado e plangente uivo, que parecia subir às alturas como um sinuoso fio de fumo saído de uma chaminé. Essa ode lupina só cessava quando a Lua já ia bem alta na negridão, com a distância expressa na sua decrescente forma, que, muito lentamente, se afastava no horizonte infinito. Nesse momento, o lobo descia pausadamente a aspereza do granítico mamilo de Fearland e mergulhava nas trevas, despertando o medo em Treason Town, cujos habitantes, conhecedores da escassez de caça — eles próprios a tinham gananciosa e desportivamente esgotado — temendo uma investida súbita da besta, se encerravam nos seus ventres amadeirados, espingardas prontas e estrategicamente colocadas. Mais tarde, à luz da candeia, cumprindo uma longeva tradição oral, semeavam, nas mentes dos mais novos, histórias terríveis de atrocidades cometidas pelas assassinas alcateias que habitaram aquele perigoso lugar.
O último lobo de Fearland, apesar das ameaças humanas e da fome que, amiúde, era obrigado a suportar durante vários dias, mantinha a sua simples rotina de animal selvagem: de dia — sempre ousou caçar à luz do dia — farejava, catava, perseguia e tomava as presas necessárias à sua tão temida sobrevivência; à noite, tinha aquele mágico e intrigante encontro com a Lua, a sua efémera companheira, que nunca se atardava, a única luz de presença que visitava regularmente a sua solidão. Depois da sua misteriosa vocalização, recolhia ao seu fojo e dormitava até aos primeiros folhos da madrugada. Antes mesmo de o canto dos galos se alargar nos ares frescos do crepúsculo, já ele sondava, com os seus prodigiosos sentidos, todas as brisas matinais. Instantes depois, num relâmpago, fazia-se à sua incerta e dificultosa jornada. Como no seu instinto animal não cabiam amanhãs, encarava cada dia como se fosse o único, respondendo à vida com o profundo e poderoso apelo vindo das profundezas do seu ser. Era o que a Natureza determinara que fosse. Era, simplesmente. Contudo, também o encantamento diário pelo luminoso astro e a sua lenta partida eram diariamente sentidos como únicos e últimos, intuídos e sofridos como morte. Era, enfim, este o mundo do animal mais odiado e mais perseguido daquela região: o último lobo de Fearland.
Um dia, as contingências da predação forçaram-no a uma exaustiva busca, seguida de uma obsessiva e extenuante perseguição por territórios que não conhecia perfeitamente. Já sucumbia a tarde quando, por fim, cravou os dentes na presa que lhe garantiria a centelha da vida por mais alguns dias. Todavia, no momento em que ergueu o seu poderoso pescoço, com a vítima suspensa na boca, estacou como se tivesse sido subitamente petrificado. A Lua já insinuava brilhos e alores no azul morrente do céu, bem por detrás do seu imponente trono rochoso. Tinha de ser célere como o vento! O seu instinto ditava-lhe que corresse imediatamente para lá. No entanto, um perigoso abismo se abria no seu já vertiginoso caminho: Treason Town. Tinha-se desviado imprudentemente dos seus habituais trilhos. Só atravessando Treason Town poderia chegar a tempo de se encontrar face a face com o astro celeste, no mágico momento em que parecia pousar no seu alçado rochedo. E o seu instinto ordenava-lhe que fosse, que fosse sem demoras.
Maquinalmente, abriu a boca e deixou cair a vítima. De seguida, num ápice, fez a primeira leitura do trajeto e lançou-se às encostas da montanha numa correria louca, ziguezagueando como o vento, entre arbustos, árvores e fragas. Nada parecia capaz de o deter ou de lhe refrear a vertiginosa cavalgada. Parecia correr não pela Lua, mas pela vida.
Porém, quando pôs as patas nos descampados átrios de Treason Town, abradou subitamente o ímpeto e, surpreendentemente, acabou mesmo por se deter na soleira da rua, sondando, primeiro uma sucessão de ruídos secos, confusos e apressados, depois os silêncios da cidade já recolhida e penumbrosa. Seria, por isso, mais fácil e mais cauteloso atravessar aquela fileira de abrigos como uma seta corrente. Não havia ali, com certeza, armadilhas montadas, e dificilmente lhe acertariam com um tiro. Todavia, irracionalmente, o lobo não retomou a corrida. Ancorou os olhos na Lua, cujo coração já se afeiçoava à dura redondez do penedo mais alto de Fearland, e enfrentou a passo lento o único corredor do burgo, repentinamente emudecido, mergulhado numa marmórea e agoirenta quietude. O animal parecia uma assombração atravessando vagarosamente um cemitério. Arriscava morrer ou, pior ainda, perder o seu vital momento de magia.
No momento em que começou a ladear as primeiras casas, já os seus sentidos tinham alcançado o seu mais perfeito apuramento. O olhar estava distante, mas o faro e a audição tinham-se tornado omnipresentes, quase divinos. Na sua lenta marcha, tão provocadora quão suicida, ousada e paradoxalmente frágil, o lobo conseguia pressentir toda a subtil e muda agitação que as tábuas e as vidraças das fachadas pretendiam ocultar: uma tranca lentamente deslizada, uma cortina ligeiramente aberta, uma exclamação abafada, um ranger interrompido, um cicio apenas labiado, o metálico som de uma carabina muito lentamente fechada, o gemer de um gatilho ligeiramente premido por um dedo trémulo, respirações contidas, corações galopantes, suores fétidos de ansiedade, ódio e medo. Seria fácil, muito fácil, abater a fera, que ousadamente desfilava naquele autêntico campo de tiro, sob o olhar inerte de duas longas filas de espingardas apontadas ao seu corpo. Por detrás daquelas duras paredes de madeira tosca, qualquer âmago aleivoso poderia tornar-se herói. Um indicador obediente, um estrondo de pólvora, um projétil atravessando um cano assente numa frincha estreita e… seria o fim da criatura má dos contos infantis. Contudo — fosse por medo, por falta de sangue frio, por hesitação, por paralisação dos movimentos ou… pelo respeito exalado por ousado animal selvagem, o último da sua espécie, que perpassava lenta e ostensivamente, de forma tão abnegada, tão à mercê dos ódios, das forças e das humanas fraquezas — ninguém ousou atentar contra a fera. Talvez alguns tivessem temido perder, com o assassinato do lobo, a última réstia de dignidade que lhes permitia encarar o seu próprio olhar no espelho e ainda sentir algum respeito; talvez outros, quiçá a maioria, tivessem apenas querido preservar o seu precioso alibi. Eram cobardes os adultos de Treason Town.
Estava estranhamente estranha aquela noite recém-nascida: o tempo parecia suspenso e a Lua, milagrosamente, não se movera. Parecia paciente, esperando o lobo.
Chegado ao fim da rua, o bicho bravio abeirou-se do pelourinho, alçou uma pata traseira, aqueceu-lhe a aspereza da base e retomou a sua estonteante galopada pelo escarpado peito montanhoso de Fearland. Atrás de si, Treason Town também pareceu regressar à vida, vomitando para a rua os seus habitantes, que preencheram o breu noturno com uma farta e prolongada saraivada de tiros aéreos e gritos despeitados.
Pouco depois, o silêncio caiu novamente sobre o burgo. Todos os olhares tinham sido subitamente atraídos para o rochedo mais alto, por cujo peito o lobo trepava, perto da exaustão. Viram-no alcançar o topo, desenhar-se perfeitamente diante da Lua e erguer-se para ela. Nesse instante o corpo celeste redobrou o brilho e inundou a Terra com um luar nunca visto. Parecia dia. Todos ficaram quedos, contemplativos e introspetivos. E já o astro ia alto, quando o silêncio foi quebrado pelas crianças, que apontavam exultantemente para a face cheia da Lua, onde — diziam — aparecera uma nova forma: a tatuagem de uma silhueta lupina.
O lobo nunca mais foi visto em Fearland. Para uns, morrera, para outros… partira apenas. Todavia, os adultos não o deixaram morrer no imaginário infantil de Treason Town, tentando gerar e perpetuar medos e ódios, descarregado sobre ele todos males, purgando nele as suas negras culpas. E acrescentaram a Lua ao seu vasto rol de maldições. No entanto apesar dessa educação, as crianças de Treason Town, no seu íntimo, em segredo, alimentavam uma admiração imensa por aquele lobo solitário, pela nobreza do seu porte, pela bravura que nunca viram nas suas humanas referências, que constantemente o esconjuravam e maldiziam. E quando a lua cheia beijava as alturas de Fearland, fosse da janela ou da rua, todas esperavam ansiosamente aquele momento mágico em que a sua lupina tatuagem coincidia com o mais alto rochedo da montanha, devolvendo, por momentos, o lobo ao seu velho e sólido trono. Acreditavam que aquele instante, aquele brevíssimo instante, despertava amores eternos.
As novas gerações de Treason Town acabaram por mudar radicalmente os topónimos.

sábado, 4 de agosto de 2018

O Xaile da Noite

"Noite Estrelada", Vincent Van Gogh

Um dos textos mais populares do DaNação (um dos meus blogues extintos). Escrevi-o em dia de profunda deceção, madrugada adentro. Apertava-me o coração a entrega progressiva dos professores ao desânimo, à desistência imediata e ao ostracismo daqueles que se mantinham de armas na mão. Sentei-me onde agora me encontro, coloquei os auscultadores, para não incomodar ninguém, selecionei o tema “Bistro Fada”, com o volume no máximo, e teclei de rajada “O Xaile da Noite”, um texto cujas palavras são genes meus.

Mesmo quando ela se debruça sobre mim, loiramente sensual, e me conquista um sorriso de sol estampado de alegria de viver, eu digo-lhe francamente:
― Manhã, adoraria ver os teus olhos azuis em todos os meus acordares, mas não há noite em que não me despoje dessa tua luz, para reaprender diariamente a perder-te, e não ter medo de ser sem ti!
A seiva da minha liberdade, eu bebo-a em cada rodopio da esfera azul, numa estranha taça de dois fundos simétricos: empenho o meu tutano em tudo o que quero e acredito; beijo quotidianamente as mãos do mundo, este mundo, mas sem nada do que nele conquistei. E segredo-lhe:
― Plantaria no teu seio a minha liberdade, ó velado astro dos meus dias. No teu corpo árido seria capaz de reinventar a vida, e de nela pintar a minha estrela! No teu vazio eu aninharia um fascinante recomeço, como quem amanhece noutra encarnação. Não te temo! Talvez até te deseje em segredo de mim mesmo!
A estranha força do meu caráter, aquela que me permite dizer o mundo tal como ele se timbra nos meus olhos ― sem medo de não ganhar, sem medo de ver esfumar-se a minha sala de troféus ― brota abundantemente desta fonte em que me banho, ao deitar e ao acordar dos dias. Mas tu, caro leitor, tu deixaste apagar no céu as poucas estrelas cintilantes que nele, juntos, acendemos! Bebeste a resignação desse véu triste, como se as tuas retinas já não tivessem sede de luz. Talvez até já nem creias que a Fénix possa reerguer-se do chão lunar onde jazem, exangues, os teus sonhos. E eu, sem ti, sem o teu pigmento essencial, não posso pôr amarelo na noite escura. De nada vale a minha força! É inútil o meu labor aqui! Apenas te dou da minha presença, plangente violino ecoando em sepultura!
Nos parapeitos rasgados neste breu, pálidas, tremeluzem ainda algumas candeias, mas dão apenas de comer à noite faminta, fazendo parecer ainda mais negro o infinito luto do seu xaile. Cansadas e descrentes, um pouco como tu, também elas já desistiram de querer atear a madrugada. Algumas fenecem, outras parecem mesmo abraçar a sua luz, espelhada nas vítreas paredes do seu corpo. Alados como morcegos, em ansioso e cobiçoso revolteio, esvoaçam livremente os impostores, inconfessos amantes da escuridão. E o negrume é feito de silêncio e de marmórea paz!
O que fizeste ao teu Principezinho, amigo leitor? Em que encruzilhada da tua razão o abandonaste? Como deixaste amortecer em ti a sua chama? Sim, deixaste que todo o teu céu se fizesse adulto, e agora nada tens que cintile. Olha que leva com ele o dia, o teu Principezinho cadente! Um dia sem vontade de nascer!
Quando o pez da noite se fizer gelo no teu peito, e tu já nada tenhas a perder, talvez então queiras reacendê-lo com um beijo. Como um pirilampo de vida, também eu virei por ti! E se quiseres comigo pintar de véspera a negrura dessa noite, a teu lado lutarei!
Agora deixa-me dar-me a mim mesmo, que de mim, há muito, saudoso ando!

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Casco e churrasco



Este é o pior da tríade. Assinala o fim do reinado da Lurdocas e qualquer coisa mais. Tal como os anteriores, tem múltiplas significâncias de natureza local, ou seja, de índole escolar. Todavia, fui acometido de um ataque fulminante de amnésia seletiva e já não me lembro do que quis representar. Coisa da vida! Se não quiserem ler, podem crer que eu não me ralo muito. Amanhã, regressam os prosemas.


Na Quinta do Soslaio, a galinhada, unida e persistente, tanto cacarejou, tanto cacarejou, que a D. Gertrudes, cheia até à ponta dos seus cabelos lacados, decidiu vender a propriedade e ir montar a tenda para outras paragens. Ao que consta por aquelas bandas, ela fugiu com o padeiro, que já não via desde… sabia lá quando! Tudo se perdia já nas teias de aranha do tempo. Mas não se foi sem levar na trouxa os proventos da venda da herdade.
Quem comprou a quinta foi um tal Casco, especialista em passes e trespasses, em sociedade com o Baltasar, o dono da churrascaria Pitas e Sopitas e com uma simbólica participação acionista do Presidente da Junta, o senhor Caramelo. Mas, como o primeiro estava mais habituado a lidar com patos, decidiram «pular, ligeiramente, para outro ramo, sem, contudo, saírem da mesma árvore»: um daria ração a patos e o outro… enfim… trataria de os bronzear. O Caramelo ficaria apenas com parte dos lucros.
Os primeiros dias da sociedade foram consumidos com questões do domínio conceptual, intrinsecamente associadas à função apelativa da linguagem, com concomitâncias inerentes à problemática do marketing comercial, ou seja, havia que dar outro nome à churrascaria, pois não podia continuar a chamar-se Pitas e Sopitas.

— Que balente porcaria! — exclamou o Casco. — Chó nos faurtava mais esta despeja!
— Porcaria não, caneco, que num bamos bender recos! — Corrigiu o Baltasar.

E a tertúlia filosófica assim continuou, com este elevado nível, até altas horas da noite, desfiada ao sabor de uns mata-ratos e umas quantas garrafas de cerveja da marca Roskof. Mas a reunião foi deveras criativa e assaz frutífera. Vejamos alguns ensaios rejeitados, não por falta de qualidade estética — e até poética —, mas apenas porque só era possível escolher um nome, aquele que brilharia «dia e noute, nas letras gordas do telhado» (que virá no fim, como convém):
  Patos e Sopatos.
— Demajiado óbebio!
— Cascobal, ou Baltasco.
— Hummm… já munto batido!
— Patitas.
— Nada mal, num senhor, mas tínhamos que manter as pitas!
— Num forchojamente!
— Chim… comprendo, mas habiam de pensar qu’aqui chó che comia patas, ou cheja, patos do sexo femenino! Já biu a bronca qu’icho ia dar?! E o Caramelo? Certamente num ia aprobar, embora…
— Bom, adiante que che faz tarde, ou chedo, dependendo da prespetiba!
— Daqui a um cibo já cantó galo e nós inda aqui! Por falar no galo… num achas que le debíamos torcher qualquer couja?
— Boa ideia, Balta, deste-me uma ideia germinal! Olha-me chó este:

CASCO E CHURRASCO”.

Ovos sem casca



É a segunda narrativa da tríade “Galinhas ao poleiro”. Escrito em novembro de 2008, antecipa os desmandos dos xerifes de Nottingham e os arrabaldes do facilitismo instituído, o sucesso a qualquer preço e a expropriação da dignidade dos professores. Comicidade e seriedade fazem, aqui, um par perfeito.


Era noite cerrada na Quinta do Soslaio. O sol, veraneante e folgazão, estava ainda entretido, beijando as bronzeadas costas orientais africanas. Toda a bicharada dormia placidamente, sonhando com a quinta do lado, com as quintas a seguir, com as quintas mais distantes... Enfim, a galinhada, em corajosos sonhos, ia voando com asas de condor e atrevia-se a pular a cerca. Mas… uma figura sinistra estava prestes a cortar-lhes as rédeas aladas e a devolvê-las, abruptamente, «à sua mísera condição de animais de capoeira».
Tchícala, tchácala, tchícala, tchácala, tchícala, tchácala… Lá ia a Dona Gertrudes, acolitada pelos ludros rafeiros, direitinha ao galinheiro, batendo com as chinelas tailandesas nos calcanhares encardidos. A cabeleira esquálida, as narinas inchadas, arejando como boca bovina, os olhos vidrados de raiva, os punhos cerrados, espetados na ilharga avantajada e gelatinosa, anunciavam raios e trovões.
— Caaaapaaaataaaazaaaa! — expeliu a despótica proprietária da quinta, à entrada do chiqueiro.
Encolhida de medo — embora já muito menos do que outrora —, crista pálida, olhar errante perdido no chão, a galinha-capataz lá se abeirou da dona tirana, disposta a obedecer! Tudo, afinal, parecia um sonho, quando comparado com a tenebrosa carrinha do Pitas e Sopitas, a churrascaria do burgo.
— Há noutes que num drumo à bossa conta! Isto são obos que se beijam, suas parasitas dos infernos, suas gordas, alambazadas duma figa?! Ou te pões a pôr e fajes pôr como debe de ser, ou… faço contigo uma canja! Oubistejê?
E não tardou a saraivada de ordens, incontinentemente vomitadas sobre a desgraçada da galinha, que, enterrada nas suas penas pedreses salpicadas de saliva, lhe aparava a verborreia: a velhaca queria saber, ao certo, quantos ovos punha cada uma; se estavam a pôr às horas mais adequadas e seguindo os mais modernos métodos chilenos de pôr, como se fazia nas quintas dos “arrabaldesjê lá de longe”; queria que as galinhas fuinhas “olhassem” toda a galinhada, para impedir que alguma atrevida fosse pôr fora do ninho; “egigia” que todas, mas mesmo todas, se comprometessem a comer mais depressa, a passar mais tempo no ninho e a pôr “xijobos” por dia; e nada de tentar enganá-la com a “dibisão da obada” senão… senão… Já tinha mandado as “pitas-chefas” tirar um curso de puxar, para ensinarem as outras a “desobar” mais, mais e mais… e ainda mais!
— Mas… sucede que… todo o galinheiro se nega a pôr… nestas condições, que dizem ser desumanas! — atreveu-se a galinha, com as penas faciais coradíssimas.
— Tem piada! Vós nem sequer sois humanas! Não passais de reles galináceos! Como-bos os miolos! E rilho-bos os ossos! Bendo as bossas penas ò pelicreiro de Giestas de Baixo! Oubistejê? Mando-bos pó Pitas e Sopitas! Ou pondes, ou dezeis proque num pondes! Quero obos, obos, obos e maijobos! Sejam como forem… quero maijobos! Xijobos por dia!
Finda a preleção, mostradas as asquerosas e tartarosas dentuças dos canídeos rafeiros, a tirana avicultora  regressou ao seu casebre, tartamudeando injúrias babosas e repetindo o melódico efeito especial das suas chinelas tailandesas, compradas nos saldos: tchícala, tchácala, tchícala, tchácala, tchícala, tchácala…
Os saiotes da noite ainda não se tinham levantado completamente e a penumbra era ainda rainha sobre todo o galinheiro. A bicharada explodiu em ruidosos cocorocós de revolta, prometendo mundos e fundos, vendavais de indignação! A velhaca tinha ultrapassado todos os limites! A algazarra no galinheiro era tal, que aquele mais parecia uma barulhenta fábrica de pregos de aço.
Uma horita volvida, quando os primeiros cabelos do sol começaram a atravessar as largas nesgas das paredes de madeira velha, revelando a vermelhidão das cristas, toda aquela agitação atingiu um clímax de intensidade, seguido de uma súbita chuva de silêncio, um silêncio que parecia pesar como chumbo sobre o galinheiro. No entanto, toda aquela aparente calmaria desembocou num novo cacarejo, ainda mais ruidoso, mais estridente — tão sonoro que conseguiu arrancar a ditadora do seu sono roncante e vazio. Cambaleou até à janela, esfregou as pálpebras bugalhudas, arregalou os seus olhos bovinos e… ficou catatónica, cataléptica, paralítica de estupor. Lá fora, na fachada do galinheiro, uma longa faixa branca, pintada com excremento de galinha, dizia o seguinte:

DONA RASCA, TOMA LÁ OVOS SEM CASCA!

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Galinhas ao poleiro



A pedido de muitas famílias que não puderam estar presentes, hoje mudo um pouco o registo. Dou a vez ao prosador para reeditar um texto bem-disposto que teve o seu hall of fame em maio de 2008, em plena apoteose desta ditadura que ainda vigora nas escolas e da paranoia avaliativa, a ADD mais promíscua e mais pornográfica da História do Ensino. Mas o texto não esquece a mãe destas requintadas aberrações, aquela cujo nome, nessa época, não podia ser pronunciado. Trata-se de uma pequena trilogia, que vos será servida hoje e amanhã. No sábado, retomarei um velho "prosema"  e no domingo despedir-me-ei com um inédito naco de poesia.

No galinheiro da Quinta do Soslaio, estava a bicharada toda em alvoroço. A coisa andava feia e a dar para torto, desde que a D. Gertrudes, a proprietária — e viúva de três maridos mortos em circunstâncias muito esquisitas — fora tomar chá a casa de uma amiga, também ela detentora de idêntica herdade.
D. Gertrudes, a ambiciosa e não menos invejosa D. Maria Gertrudes Levada do Caneco, ficara possessa de raiva quando soubera, pela língua bífida da inocente amiga, que as suas galinhas eram as menos poedeiras das quintas daquela aldeia e arrabaldes.
— D’aurdeia e arrabaldesjjjjê!!! — repetira ela, vezes sem conta, a caminho de casa, dislálica de incredulidade. — Indes ver como se enxofra, minhas galinhas-chocas! Ai s’indes!
A danada da mulher chegara irreconhecível desse convívio: calcorreara o carreiro da horta batendo com as alpercatas no chão — olhos flamejantes, dardejantes de raiva, narinas inchadas, como se fossem fumegar; enxotara os cães, que iam, como sempre, lamber-lhe as mãos e roçar-lhe o pelo nas pernas; pontapeara os caldeiros do farelo e da lavadura; batera estrondosamente a porta de casa e… ninguém mais a vira, ou ouvira qualquer sinal de vida da velha bruxa. Os galináceos até ousaram pensar que a tirana fora lavar roupa no rio Letes, mas nem tempo tiveram para discernir se tal lhes ocorrera no sono ou na realidade.
No dia seguinte, aos primeiros sinais do parto do sol, até o galo fora apanhado — crista murcha e descaída sobre a cabeça desgrenhada — a cabecear de sono e com as persianas oculares ainda corridas. Os urros histéricos daquela mulher, secundados pelo servil ladrar aflitivo dos rafeiros, transformaram a penumbrosa capoeira num turbilhão de asas, penas, palhas e mil e um cacarejos. Algumas galinhas, acometidas de incontinência súbita, chegaram mesmo a pôr ovos prematuros, que se estatelaram no térreo rés do chão. Friamente e à vista de toda a galinhada, a simpática Gertrudinhas torcera-lhes o pescoço e levara-as amontoadas na carreta ferrugenta, para as vender ao Baltasar, o dono da casa de pasto Pitas e Sopitas. Pouco tempo volvido, regressara ao amedrontado galinheiro com brilhantes ideias reformistas: de castigo, a ração iria ser reduzida, porque as “piolhosas”, as “calaceiras” não andavam a pôr nada que se visse; queria mais um ovo por galinha na primeira semana, dois na segunda, três na terceira e “por aí adiante” até porem o dobro do que andavam a pôr “naquela altura”; empossava a galinha Pitazita como capataz do galinheiro e “num se falaba mais naquilo”; ela teria o dobro do farelo e umas doses extra de milho por semana, se os desejados “obos” aparecessem; ela poderia dar as bicadas que fossem necessárias para meter na linha toda e qualquer galinha desalinhada ou com menos vontade de pôr; a “capataza” escolheria uma galinha-chefe de cada secção de ninhos, para…enfim, para o que fosse preciso, mas sem doses de nada, porque “a coisa estaba feia, muito feia”! “Bastaba-les o títalo e o poder qu’isso daba”!
— Toca a pôr, toca a pôr! — dissera ela, secundada pelo rosnar raivoso dos seus rafeiros sujos e esquálidos, virando as costas aos galináceos encolhidos, em estado de estupor.
E era por isto, apenas por isto, que a bicharada estava em alvoroço. E, depois das primeiras pragas dirigidas à velha bruxa, o cacarejar foi direitinho para a Pitazita e suas acólitas — as nomeadas — que eram, nem mais nem menos, as delambidas que, antes, passavam as tardes com ela, empoleiradas na figueira em cacarejo baixinho, dizendo mal de todos os animais da quinta. E logo ela, que já não sabia sequer o que era pôr ovos, e muito menos pôr ovos naquele esterqueiro, que já não era limpo desde que o pobre do Florêncio — o último marido — morrera! A galinhada ainda chegou a propor-lhes que não aceitassem tão sujos cargos, mas elas logo declinaram tal hipótese, alegando que, se não fossem elas, seriam os rafeiros ou bestas ainda piores. E, depois… aquela carreta… Enfim, se toda a bicharada soubesse quanto lhes custava tal missão, quanto sofriam em segredo!…
— Isto não pode ser! Aqui fechadas, nesta imundice, sem quase nos podermos mexer, nós não podemos ser mais poedeiras! Já não sei o que é abrir as asas há… há…muito tempo! — desabafava de indignação uma galinha já com muitas luas vividas.
— Pois é — acrescentava outra, que fora oferecida por uma proprietária de uma quinta vizinha — mas, na quinta de onde eu vim, comíamos muito mais e éramos livres, andávamos à vontade pelo campo: ele era couves, ele era alfaces, ele era… o que houvesse! O que houvesse, nós comíamos! E o nosso galinheiro estava sempre limpo! Lá até dava gosto pôr e púnhamos que era um regalo! Vejam só: eu, desde que vim para aqui, só pus um ovo… e mirradito!
— E não há direito! Não é justo que a Pitazita coma a ração que nos tiraram a nós! — cacarejou uma galinha garnisé, a Vermelha, de papo levantado. — Ela, que já nem ovos põe! E não é justo que as nomeadas nos andem sempre a bicar, se nem sequer põem mais do que nós! E eu sei que, às escondidas, quando estamos todas aqui entaladas a puxar, a ver se sai alguma coisa, as aleivosas atiram-se à ração da Pitazita, que finge que não vê e cacareja para o lado. Não há direito!
— Pois não, pois não, pois não… — repetiu o galinheiro em coro, incapaz de ir mais além na argumentação e nos protestos. Mas… logo surgiu, saída do seu fojo escuro e fedorento a poderosa Pitazita. E toda a bicharada se calou, meteu o bico debaixo das asas encolhidas e, à rasca, puxou, puxou, até parir um ovo qualquer, mesmo sem casca. Ao primeiro cacarejar de alarme, apareceu a figura medonha de Gertrudes — galochas pretas até aos joelhos encardidos, mangas arregaçadas. Deitou as manápulas à Vermelha e… foi o que sabemos: acabou no Pitas e Sopitas.
O galo, esse, andava indiferente. Como a Natureza não lhe reservara tal obrigação, continuava a deitar-se e a levantar-se com as galinhas, que ele galava e voltava a galar com toda a satisfação…

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Um barquinho de papel



Este texto foi escrito dias depois do anterior — “O meu poeta” — e na mesma escola, como é óbvio. É uma psicografia dos primeiros folhos crepusculares desta longa noite desaluada que se abateu sobre a Escola Pública.

O som da campainha desencaixotou o bulício da escola. Ao canto da sala, acotovelado sobre o mármore do balcão do pequeno bar, com todo o volumoso vazio à minha frente, curiosava a ansiosa entrada dos atores.
Pasta numa mão, livro de ponto na outra, eles foram chegando. Os primeiros… mais solitários, os restantes já em grupo, desenhando o mesmo ritual, o mesmo cénico percurso: o encarceramento dos livros de ponto, o estacionamento das cargas livrescas e… a ubiquação, antes do banquete de mimos no prazeroso cantinho. Num instante, o docentáculo parecia uma sala de espelhos apinhada: de um lado (o tangível), um grupo exuberando em sons, cores, odores, macios tocares, olhares luminares…; do outro, o mesmíssimo grupo, mas quieto e intangível, em tons de cinza, demorando plumbeamente nos lugares, de pé e de assento, de companhia a paredes e janelas… desfolhando lentos malmequeres.
Libertei o espaço, para que outros pudessem ofertar-se alguns minutos de consolo, e fui sentar-me num atalaiado canto, com as espectrais figuras evanescendo diante de mim. Por momentos, consegui subtrair-me com elas e mergulhar no seu silêncio, nas suas brumas, na sua quieta inquietude, nas pétalas malquerentes que estavam atapetando todo o quadriculado envernizado do chão. Estatuei-me: empederni por fora, e fui… mar profundo adentro.
O Telmo, plantado diante da vidraça, estatuava como eu, com a claridade de fora decalcada nas retinas inertes. Parecia um pedaço de tempo parado. A Jacinta, virgulada sobre uma pequena mesa circular, afundou o seu olhar encovado nas palmas das mãos, que acabaram por se arrastar lentamente pelas têmporas, acariciando depois os seus longos cabelos lisos, caídos na ravinosa curvatura do seu tronco. A Manuela, aninhada num pequeno assento, dava colo ao coração, desespinhando-o pacientemente como a um menino, o seu menino, caído num fractal de catos. A Noémia, tal como o Telmo, arrostando outra abertura, também tinha os olhos perdidos em penumbrosas veredas de uma mata de nenhures. Colava mais alguns cromos tristes nas páginas da sua já longa e deprimente coleção. A Custódia — mão esquerda escorando o cotovelo direito, onde se alavancava o braço que lhe chegava uma mão segurando um verdolengo pomo — parecia um engenho humano a esmoer pensamentos, a macerar frustrações. A Raquel, a sereníssima Raquel, com um longo fio de lã e uma velha agulha de tricô, retecia a malha desfiada do seu corpete de tristezas. O Carlos…
Retiniu o grito de chamada como se tivesse terrintado às avessas. E o ritual acordou obediente, seguindo-lhe o monótono compasso. Vi então que todos os espectros eram soldadinhos de chumbo pesando solidamente sobre o chão. Mas a porta, impiedoso bueiro, deglutiu o meu cenário de um só trago. Do outro lado, para onde escorreu toda a minha contemplação, estavam esbracejando silvas, que encobriam e ensombreciam o esqueleto de um antigo olival abandonado.
Eu não tinha aulas. Por isso, só por isso, continuei ali, chumbado ao meu canto, vertido no meu forro, a escrever um doloroso barquinho de papel.