domingo, 5 de agosto de 2018

O último lobo de Fearland



Não tive tempo, nem serenidade nem inspiração súbita que salvasse a minha promessa. Decidi então, em vez do pretendido naco de poesia inédito, recuperar um pequeno conto, que representa a solidão de quem luta e se mantém fiel a uma causa,  aqui representado pela Lua.

Só restava ele da numerosa alcateia que, outrora, dominara a temerosa montanha de Fearland. A maior parte dos seus pares fora definhando e morrendo paulatinamente, à medida que a caça fora rareando naquele habitat. Outros, por necessidade extrema, tinham-se aproximado demasiado da terra dos homens, acabando mortos, decapitados, embalsamados e exibidos para alimento do ego dos seus predadores. Alguns, atraídos por farejadas promessas de fartura, tinham partido em direção à mítica planície de Godland, em cujo coração estava o mais prodigioso bosque da Terra: Wonderwood.
Fearland, agreste e plena de estrias escarpadas, era como um gigantesco seio encimado por um enorme rochedo. Era ali que os habitantes de Treason Town — uma pequena cidade feita de casas de madeira, que ladeavam a única rua do burgo — viam diariamente o ascender da Lua na imensidão noturna. Mas também era ali que, invariavelmente, no preciso instante em que o astro começava a exibir o seu brilho e a sua redondez no céu, viam o único lobo de Fearland trepar até ao topo rochoso, esperar pacientemente o momento em que o corpo lunar ficava completamente suspenso no vão, e dar início a um delongado e plangente uivo, que parecia subir às alturas como um sinuoso fio de fumo saído de uma chaminé. Essa ode lupina só cessava quando a Lua já ia bem alta na negridão, com a distância expressa na sua decrescente forma, que, muito lentamente, se afastava no horizonte infinito. Nesse momento, o lobo descia pausadamente a aspereza do granítico mamilo de Fearland e mergulhava nas trevas, despertando o medo em Treason Town, cujos habitantes, conhecedores da escassez de caça — eles próprios a tinham gananciosa e desportivamente esgotado — temendo uma investida súbita da besta, se encerravam nos seus ventres amadeirados, espingardas prontas e estrategicamente colocadas. Mais tarde, à luz da candeia, cumprindo uma longeva tradição oral, semeavam, nas mentes dos mais novos, histórias terríveis de atrocidades cometidas pelas assassinas alcateias que habitaram aquele perigoso lugar.
O último lobo de Fearland, apesar das ameaças humanas e da fome que, amiúde, era obrigado a suportar durante vários dias, mantinha a sua simples rotina de animal selvagem: de dia — sempre ousou caçar à luz do dia — farejava, catava, perseguia e tomava as presas necessárias à sua tão temida sobrevivência; à noite, tinha aquele mágico e intrigante encontro com a Lua, a sua efémera companheira, que nunca se atardava, a única luz de presença que visitava regularmente a sua solidão. Depois da sua misteriosa vocalização, recolhia ao seu fojo e dormitava até aos primeiros folhos da madrugada. Antes mesmo de o canto dos galos se alargar nos ares frescos do crepúsculo, já ele sondava, com os seus prodigiosos sentidos, todas as brisas matinais. Instantes depois, num relâmpago, fazia-se à sua incerta e dificultosa jornada. Como no seu instinto animal não cabiam amanhãs, encarava cada dia como se fosse o único, respondendo à vida com o profundo e poderoso apelo vindo das profundezas do seu ser. Era o que a Natureza determinara que fosse. Era, simplesmente. Contudo, também o encantamento diário pelo luminoso astro e a sua lenta partida eram diariamente sentidos como únicos e últimos, intuídos e sofridos como morte. Era, enfim, este o mundo do animal mais odiado e mais perseguido daquela região: o último lobo de Fearland.
Um dia, as contingências da predação forçaram-no a uma exaustiva busca, seguida de uma obsessiva e extenuante perseguição por territórios que não conhecia perfeitamente. Já sucumbia a tarde quando, por fim, cravou os dentes na presa que lhe garantiria a centelha da vida por mais alguns dias. Todavia, no momento em que ergueu o seu poderoso pescoço, com a vítima suspensa na boca, estacou como se tivesse sido subitamente petrificado. A Lua já insinuava brilhos e alores no azul morrente do céu, bem por detrás do seu imponente trono rochoso. Tinha de ser célere como o vento! O seu instinto ditava-lhe que corresse imediatamente para lá. No entanto, um perigoso abismo se abria no seu já vertiginoso caminho: Treason Town. Tinha-se desviado imprudentemente dos seus habituais trilhos. Só atravessando Treason Town poderia chegar a tempo de se encontrar face a face com o astro celeste, no mágico momento em que parecia pousar no seu alçado rochedo. E o seu instinto ordenava-lhe que fosse, que fosse sem demoras.
Maquinalmente, abriu a boca e deixou cair a vítima. De seguida, num ápice, fez a primeira leitura do trajeto e lançou-se às encostas da montanha numa correria louca, ziguezagueando como o vento, entre arbustos, árvores e fragas. Nada parecia capaz de o deter ou de lhe refrear a vertiginosa cavalgada. Parecia correr não pela Lua, mas pela vida.
Porém, quando pôs as patas nos descampados átrios de Treason Town, abradou subitamente o ímpeto e, surpreendentemente, acabou mesmo por se deter na soleira da rua, sondando, primeiro uma sucessão de ruídos secos, confusos e apressados, depois os silêncios da cidade já recolhida e penumbrosa. Seria, por isso, mais fácil e mais cauteloso atravessar aquela fileira de abrigos como uma seta corrente. Não havia ali, com certeza, armadilhas montadas, e dificilmente lhe acertariam com um tiro. Todavia, irracionalmente, o lobo não retomou a corrida. Ancorou os olhos na Lua, cujo coração já se afeiçoava à dura redondez do penedo mais alto de Fearland, e enfrentou a passo lento o único corredor do burgo, repentinamente emudecido, mergulhado numa marmórea e agoirenta quietude. O animal parecia uma assombração atravessando vagarosamente um cemitério. Arriscava morrer ou, pior ainda, perder o seu vital momento de magia.
No momento em que começou a ladear as primeiras casas, já os seus sentidos tinham alcançado o seu mais perfeito apuramento. O olhar estava distante, mas o faro e a audição tinham-se tornado omnipresentes, quase divinos. Na sua lenta marcha, tão provocadora quão suicida, ousada e paradoxalmente frágil, o lobo conseguia pressentir toda a subtil e muda agitação que as tábuas e as vidraças das fachadas pretendiam ocultar: uma tranca lentamente deslizada, uma cortina ligeiramente aberta, uma exclamação abafada, um ranger interrompido, um cicio apenas labiado, o metálico som de uma carabina muito lentamente fechada, o gemer de um gatilho ligeiramente premido por um dedo trémulo, respirações contidas, corações galopantes, suores fétidos de ansiedade, ódio e medo. Seria fácil, muito fácil, abater a fera, que ousadamente desfilava naquele autêntico campo de tiro, sob o olhar inerte de duas longas filas de espingardas apontadas ao seu corpo. Por detrás daquelas duras paredes de madeira tosca, qualquer âmago aleivoso poderia tornar-se herói. Um indicador obediente, um estrondo de pólvora, um projétil atravessando um cano assente numa frincha estreita e… seria o fim da criatura má dos contos infantis. Contudo — fosse por medo, por falta de sangue frio, por hesitação, por paralisação dos movimentos ou… pelo respeito exalado por ousado animal selvagem, o último da sua espécie, que perpassava lenta e ostensivamente, de forma tão abnegada, tão à mercê dos ódios, das forças e das humanas fraquezas — ninguém ousou atentar contra a fera. Talvez alguns tivessem temido perder, com o assassinato do lobo, a última réstia de dignidade que lhes permitia encarar o seu próprio olhar no espelho e ainda sentir algum respeito; talvez outros, quiçá a maioria, tivessem apenas querido preservar o seu precioso alibi. Eram cobardes os adultos de Treason Town.
Estava estranhamente estranha aquela noite recém-nascida: o tempo parecia suspenso e a Lua, milagrosamente, não se movera. Parecia paciente, esperando o lobo.
Chegado ao fim da rua, o bicho bravio abeirou-se do pelourinho, alçou uma pata traseira, aqueceu-lhe a aspereza da base e retomou a sua estonteante galopada pelo escarpado peito montanhoso de Fearland. Atrás de si, Treason Town também pareceu regressar à vida, vomitando para a rua os seus habitantes, que preencheram o breu noturno com uma farta e prolongada saraivada de tiros aéreos e gritos despeitados.
Pouco depois, o silêncio caiu novamente sobre o burgo. Todos os olhares tinham sido subitamente atraídos para o rochedo mais alto, por cujo peito o lobo trepava, perto da exaustão. Viram-no alcançar o topo, desenhar-se perfeitamente diante da Lua e erguer-se para ela. Nesse instante o corpo celeste redobrou o brilho e inundou a Terra com um luar nunca visto. Parecia dia. Todos ficaram quedos, contemplativos e introspetivos. E já o astro ia alto, quando o silêncio foi quebrado pelas crianças, que apontavam exultantemente para a face cheia da Lua, onde — diziam — aparecera uma nova forma: a tatuagem de uma silhueta lupina.
O lobo nunca mais foi visto em Fearland. Para uns, morrera, para outros… partira apenas. Todavia, os adultos não o deixaram morrer no imaginário infantil de Treason Town, tentando gerar e perpetuar medos e ódios, descarregado sobre ele todos males, purgando nele as suas negras culpas. E acrescentaram a Lua ao seu vasto rol de maldições. No entanto apesar dessa educação, as crianças de Treason Town, no seu íntimo, em segredo, alimentavam uma admiração imensa por aquele lobo solitário, pela nobreza do seu porte, pela bravura que nunca viram nas suas humanas referências, que constantemente o esconjuravam e maldiziam. E quando a lua cheia beijava as alturas de Fearland, fosse da janela ou da rua, todas esperavam ansiosamente aquele momento mágico em que a sua lupina tatuagem coincidia com o mais alto rochedo da montanha, devolvendo, por momentos, o lobo ao seu velho e sólido trono. Acreditavam que aquele instante, aquele brevíssimo instante, despertava amores eternos.
As novas gerações de Treason Town acabaram por mudar radicalmente os topónimos.

sábado, 4 de agosto de 2018

O Xaile da Noite

"Noite Estrelada", Vincent Van Gogh

Um dos textos mais populares do DaNação (um dos meus blogues extintos). Escrevi-o em dia de profunda deceção, madrugada adentro. Apertava-me o coração a entrega progressiva dos professores ao desânimo, à desistência imediata e ao ostracismo daqueles que se mantinham de armas na mão. Sentei-me onde agora me encontro, coloquei os auscultadores, para não incomodar ninguém, selecionei o tema “Bistro Fada”, com o volume no máximo, e teclei de rajada “O Xaile da Noite”, um texto cujas palavras são genes meus.

Mesmo quando ela se debruça sobre mim, loiramente sensual, e me conquista um sorriso de sol estampado de alegria de viver, eu digo-lhe francamente:
― Manhã, adoraria ver os teus olhos azuis em todos os meus acordares, mas não há noite em que não me despoje dessa tua luz, para reaprender diariamente a perder-te, e não ter medo de ser sem ti!
A seiva da minha liberdade, eu bebo-a em cada rodopio da esfera azul, numa estranha taça de dois fundos simétricos: empenho o meu tutano em tudo o que quero e acredito; beijo quotidianamente as mãos do mundo, este mundo, mas sem nada do que nele conquistei. E segredo-lhe:
― Plantaria no teu seio a minha liberdade, ó velado astro dos meus dias. No teu corpo árido seria capaz de reinventar a vida, e de nela pintar a minha estrela! No teu vazio eu aninharia um fascinante recomeço, como quem amanhece noutra encarnação. Não te temo! Talvez até te deseje em segredo de mim mesmo!
A estranha força do meu caráter, aquela que me permite dizer o mundo tal como ele se timbra nos meus olhos ― sem medo de não ganhar, sem medo de ver esfumar-se a minha sala de troféus ― brota abundantemente desta fonte em que me banho, ao deitar e ao acordar dos dias. Mas tu, caro leitor, tu deixaste apagar no céu as poucas estrelas cintilantes que nele, juntos, acendemos! Bebeste a resignação desse véu triste, como se as tuas retinas já não tivessem sede de luz. Talvez até já nem creias que a Fénix possa reerguer-se do chão lunar onde jazem, exangues, os teus sonhos. E eu, sem ti, sem o teu pigmento essencial, não posso pôr amarelo na noite escura. De nada vale a minha força! É inútil o meu labor aqui! Apenas te dou da minha presença, plangente violino ecoando em sepultura!
Nos parapeitos rasgados neste breu, pálidas, tremeluzem ainda algumas candeias, mas dão apenas de comer à noite faminta, fazendo parecer ainda mais negro o infinito luto do seu xaile. Cansadas e descrentes, um pouco como tu, também elas já desistiram de querer atear a madrugada. Algumas fenecem, outras parecem mesmo abraçar a sua luz, espelhada nas vítreas paredes do seu corpo. Alados como morcegos, em ansioso e cobiçoso revolteio, esvoaçam livremente os impostores, inconfessos amantes da escuridão. E o negrume é feito de silêncio e de marmórea paz!
O que fizeste ao teu Principezinho, amigo leitor? Em que encruzilhada da tua razão o abandonaste? Como deixaste amortecer em ti a sua chama? Sim, deixaste que todo o teu céu se fizesse adulto, e agora nada tens que cintile. Olha que leva com ele o dia, o teu Principezinho cadente! Um dia sem vontade de nascer!
Quando o pez da noite se fizer gelo no teu peito, e tu já nada tenhas a perder, talvez então queiras reacendê-lo com um beijo. Como um pirilampo de vida, também eu virei por ti! E se quiseres comigo pintar de véspera a negrura dessa noite, a teu lado lutarei!
Agora deixa-me dar-me a mim mesmo, que de mim, há muito, saudoso ando!

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Casco e churrasco



Este é o pior da tríade. Assinala o fim do reinado da Lurdocas e qualquer coisa mais. Tal como os anteriores, tem múltiplas significâncias de natureza local, ou seja, de índole escolar. Todavia, fui acometido de um ataque fulminante de amnésia seletiva e já não me lembro do que quis representar. Coisa da vida! Se não quiserem ler, podem crer que eu não me ralo muito. Amanhã, regressam os prosemas.


Na Quinta do Soslaio, a galinhada, unida e persistente, tanto cacarejou, tanto cacarejou, que a D. Gertrudes, cheia até à ponta dos seus cabelos lacados, decidiu vender a propriedade e ir montar a tenda para outras paragens. Ao que consta por aquelas bandas, ela fugiu com o padeiro, que já não via desde… sabia lá quando! Tudo se perdia já nas teias de aranha do tempo. Mas não se foi sem levar na trouxa os proventos da venda da herdade.
Quem comprou a quinta foi um tal Casco, especialista em passes e trespasses, em sociedade com o Baltasar, o dono da churrascaria Pitas e Sopitas e com uma simbólica participação acionista do Presidente da Junta, o senhor Caramelo. Mas, como o primeiro estava mais habituado a lidar com patos, decidiram «pular, ligeiramente, para outro ramo, sem, contudo, saírem da mesma árvore»: um daria ração a patos e o outro… enfim… trataria de os bronzear. O Caramelo ficaria apenas com parte dos lucros.
Os primeiros dias da sociedade foram consumidos com questões do domínio conceptual, intrinsecamente associadas à função apelativa da linguagem, com concomitâncias inerentes à problemática do marketing comercial, ou seja, havia que dar outro nome à churrascaria, pois não podia continuar a chamar-se Pitas e Sopitas.

— Que balente porcaria! — exclamou o Casco. — Chó nos faurtava mais esta despeja!
— Porcaria não, caneco, que num bamos bender recos! — Corrigiu o Baltasar.

E a tertúlia filosófica assim continuou, com este elevado nível, até altas horas da noite, desfiada ao sabor de uns mata-ratos e umas quantas garrafas de cerveja da marca Roskof. Mas a reunião foi deveras criativa e assaz frutífera. Vejamos alguns ensaios rejeitados, não por falta de qualidade estética — e até poética —, mas apenas porque só era possível escolher um nome, aquele que brilharia «dia e noute, nas letras gordas do telhado» (que virá no fim, como convém):
  Patos e Sopatos.
— Demajiado óbebio!
— Cascobal, ou Baltasco.
— Hummm… já munto batido!
— Patitas.
— Nada mal, num senhor, mas tínhamos que manter as pitas!
— Num forchojamente!
— Chim… comprendo, mas habiam de pensar qu’aqui chó che comia patas, ou cheja, patos do sexo femenino! Já biu a bronca qu’icho ia dar?! E o Caramelo? Certamente num ia aprobar, embora…
— Bom, adiante que che faz tarde, ou chedo, dependendo da prespetiba!
— Daqui a um cibo já cantó galo e nós inda aqui! Por falar no galo… num achas que le debíamos torcher qualquer couja?
— Boa ideia, Balta, deste-me uma ideia germinal! Olha-me chó este:

CASCO E CHURRASCO”.

Ovos sem casca



É a segunda narrativa da tríade “Galinhas ao poleiro”. Escrito em novembro de 2008, antecipa os desmandos dos xerifes de Nottingham e os arrabaldes do facilitismo instituído, o sucesso a qualquer preço e a expropriação da dignidade dos professores. Comicidade e seriedade fazem, aqui, um par perfeito.


Era noite cerrada na Quinta do Soslaio. O sol, veraneante e folgazão, estava ainda entretido, beijando as bronzeadas costas orientais africanas. Toda a bicharada dormia placidamente, sonhando com a quinta do lado, com as quintas a seguir, com as quintas mais distantes... Enfim, a galinhada, em corajosos sonhos, ia voando com asas de condor e atrevia-se a pular a cerca. Mas… uma figura sinistra estava prestes a cortar-lhes as rédeas aladas e a devolvê-las, abruptamente, «à sua mísera condição de animais de capoeira».
Tchícala, tchácala, tchícala, tchácala, tchícala, tchácala… Lá ia a Dona Gertrudes, acolitada pelos ludros rafeiros, direitinha ao galinheiro, batendo com as chinelas tailandesas nos calcanhares encardidos. A cabeleira esquálida, as narinas inchadas, arejando como boca bovina, os olhos vidrados de raiva, os punhos cerrados, espetados na ilharga avantajada e gelatinosa, anunciavam raios e trovões.
— Caaaapaaaataaaazaaaa! — expeliu a despótica proprietária da quinta, à entrada do chiqueiro.
Encolhida de medo — embora já muito menos do que outrora —, crista pálida, olhar errante perdido no chão, a galinha-capataz lá se abeirou da dona tirana, disposta a obedecer! Tudo, afinal, parecia um sonho, quando comparado com a tenebrosa carrinha do Pitas e Sopitas, a churrascaria do burgo.
— Há noutes que num drumo à bossa conta! Isto são obos que se beijam, suas parasitas dos infernos, suas gordas, alambazadas duma figa?! Ou te pões a pôr e fajes pôr como debe de ser, ou… faço contigo uma canja! Oubistejê?
E não tardou a saraivada de ordens, incontinentemente vomitadas sobre a desgraçada da galinha, que, enterrada nas suas penas pedreses salpicadas de saliva, lhe aparava a verborreia: a velhaca queria saber, ao certo, quantos ovos punha cada uma; se estavam a pôr às horas mais adequadas e seguindo os mais modernos métodos chilenos de pôr, como se fazia nas quintas dos “arrabaldesjê lá de longe”; queria que as galinhas fuinhas “olhassem” toda a galinhada, para impedir que alguma atrevida fosse pôr fora do ninho; “egigia” que todas, mas mesmo todas, se comprometessem a comer mais depressa, a passar mais tempo no ninho e a pôr “xijobos” por dia; e nada de tentar enganá-la com a “dibisão da obada” senão… senão… Já tinha mandado as “pitas-chefas” tirar um curso de puxar, para ensinarem as outras a “desobar” mais, mais e mais… e ainda mais!
— Mas… sucede que… todo o galinheiro se nega a pôr… nestas condições, que dizem ser desumanas! — atreveu-se a galinha, com as penas faciais coradíssimas.
— Tem piada! Vós nem sequer sois humanas! Não passais de reles galináceos! Como-bos os miolos! E rilho-bos os ossos! Bendo as bossas penas ò pelicreiro de Giestas de Baixo! Oubistejê? Mando-bos pó Pitas e Sopitas! Ou pondes, ou dezeis proque num pondes! Quero obos, obos, obos e maijobos! Sejam como forem… quero maijobos! Xijobos por dia!
Finda a preleção, mostradas as asquerosas e tartarosas dentuças dos canídeos rafeiros, a tirana avicultora  regressou ao seu casebre, tartamudeando injúrias babosas e repetindo o melódico efeito especial das suas chinelas tailandesas, compradas nos saldos: tchícala, tchácala, tchícala, tchácala, tchícala, tchácala…
Os saiotes da noite ainda não se tinham levantado completamente e a penumbra era ainda rainha sobre todo o galinheiro. A bicharada explodiu em ruidosos cocorocós de revolta, prometendo mundos e fundos, vendavais de indignação! A velhaca tinha ultrapassado todos os limites! A algazarra no galinheiro era tal, que aquele mais parecia uma barulhenta fábrica de pregos de aço.
Uma horita volvida, quando os primeiros cabelos do sol começaram a atravessar as largas nesgas das paredes de madeira velha, revelando a vermelhidão das cristas, toda aquela agitação atingiu um clímax de intensidade, seguido de uma súbita chuva de silêncio, um silêncio que parecia pesar como chumbo sobre o galinheiro. No entanto, toda aquela aparente calmaria desembocou num novo cacarejo, ainda mais ruidoso, mais estridente — tão sonoro que conseguiu arrancar a ditadora do seu sono roncante e vazio. Cambaleou até à janela, esfregou as pálpebras bugalhudas, arregalou os seus olhos bovinos e… ficou catatónica, cataléptica, paralítica de estupor. Lá fora, na fachada do galinheiro, uma longa faixa branca, pintada com excremento de galinha, dizia o seguinte:

DONA RASCA, TOMA LÁ OVOS SEM CASCA!

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Galinhas ao poleiro



A pedido de muitas famílias que não puderam estar presentes, hoje mudo um pouco o registo. Dou a vez ao prosador para reeditar um texto bem-disposto que teve o seu hall of fame em maio de 2008, em plena apoteose desta ditadura que ainda vigora nas escolas e da paranoia avaliativa, a ADD mais promíscua e mais pornográfica da História do Ensino. Mas o texto não esquece a mãe destas requintadas aberrações, aquela cujo nome, nessa época, não podia ser pronunciado. Trata-se de uma pequena trilogia, que vos será servida hoje e amanhã. No sábado, retomarei um velho "prosema"  e no domingo despedir-me-ei com um inédito naco de poesia.

No galinheiro da Quinta do Soslaio, estava a bicharada toda em alvoroço. A coisa andava feia e a dar para torto, desde que a D. Gertrudes, a proprietária — e viúva de três maridos mortos em circunstâncias muito esquisitas — fora tomar chá a casa de uma amiga, também ela detentora de idêntica herdade.
D. Gertrudes, a ambiciosa e não menos invejosa D. Maria Gertrudes Levada do Caneco, ficara possessa de raiva quando soubera, pela língua bífida da inocente amiga, que as suas galinhas eram as menos poedeiras das quintas daquela aldeia e arrabaldes.
— D’aurdeia e arrabaldesjjjjê!!! — repetira ela, vezes sem conta, a caminho de casa, dislálica de incredulidade. — Indes ver como se enxofra, minhas galinhas-chocas! Ai s’indes!
A danada da mulher chegara irreconhecível desse convívio: calcorreara o carreiro da horta batendo com as alpercatas no chão — olhos flamejantes, dardejantes de raiva, narinas inchadas, como se fossem fumegar; enxotara os cães, que iam, como sempre, lamber-lhe as mãos e roçar-lhe o pelo nas pernas; pontapeara os caldeiros do farelo e da lavadura; batera estrondosamente a porta de casa e… ninguém mais a vira, ou ouvira qualquer sinal de vida da velha bruxa. Os galináceos até ousaram pensar que a tirana fora lavar roupa no rio Letes, mas nem tempo tiveram para discernir se tal lhes ocorrera no sono ou na realidade.
No dia seguinte, aos primeiros sinais do parto do sol, até o galo fora apanhado — crista murcha e descaída sobre a cabeça desgrenhada — a cabecear de sono e com as persianas oculares ainda corridas. Os urros histéricos daquela mulher, secundados pelo servil ladrar aflitivo dos rafeiros, transformaram a penumbrosa capoeira num turbilhão de asas, penas, palhas e mil e um cacarejos. Algumas galinhas, acometidas de incontinência súbita, chegaram mesmo a pôr ovos prematuros, que se estatelaram no térreo rés do chão. Friamente e à vista de toda a galinhada, a simpática Gertrudinhas torcera-lhes o pescoço e levara-as amontoadas na carreta ferrugenta, para as vender ao Baltasar, o dono da casa de pasto Pitas e Sopitas. Pouco tempo volvido, regressara ao amedrontado galinheiro com brilhantes ideias reformistas: de castigo, a ração iria ser reduzida, porque as “piolhosas”, as “calaceiras” não andavam a pôr nada que se visse; queria mais um ovo por galinha na primeira semana, dois na segunda, três na terceira e “por aí adiante” até porem o dobro do que andavam a pôr “naquela altura”; empossava a galinha Pitazita como capataz do galinheiro e “num se falaba mais naquilo”; ela teria o dobro do farelo e umas doses extra de milho por semana, se os desejados “obos” aparecessem; ela poderia dar as bicadas que fossem necessárias para meter na linha toda e qualquer galinha desalinhada ou com menos vontade de pôr; a “capataza” escolheria uma galinha-chefe de cada secção de ninhos, para…enfim, para o que fosse preciso, mas sem doses de nada, porque “a coisa estaba feia, muito feia”! “Bastaba-les o títalo e o poder qu’isso daba”!
— Toca a pôr, toca a pôr! — dissera ela, secundada pelo rosnar raivoso dos seus rafeiros sujos e esquálidos, virando as costas aos galináceos encolhidos, em estado de estupor.
E era por isto, apenas por isto, que a bicharada estava em alvoroço. E, depois das primeiras pragas dirigidas à velha bruxa, o cacarejar foi direitinho para a Pitazita e suas acólitas — as nomeadas — que eram, nem mais nem menos, as delambidas que, antes, passavam as tardes com ela, empoleiradas na figueira em cacarejo baixinho, dizendo mal de todos os animais da quinta. E logo ela, que já não sabia sequer o que era pôr ovos, e muito menos pôr ovos naquele esterqueiro, que já não era limpo desde que o pobre do Florêncio — o último marido — morrera! A galinhada ainda chegou a propor-lhes que não aceitassem tão sujos cargos, mas elas logo declinaram tal hipótese, alegando que, se não fossem elas, seriam os rafeiros ou bestas ainda piores. E, depois… aquela carreta… Enfim, se toda a bicharada soubesse quanto lhes custava tal missão, quanto sofriam em segredo!…
— Isto não pode ser! Aqui fechadas, nesta imundice, sem quase nos podermos mexer, nós não podemos ser mais poedeiras! Já não sei o que é abrir as asas há… há…muito tempo! — desabafava de indignação uma galinha já com muitas luas vividas.
— Pois é — acrescentava outra, que fora oferecida por uma proprietária de uma quinta vizinha — mas, na quinta de onde eu vim, comíamos muito mais e éramos livres, andávamos à vontade pelo campo: ele era couves, ele era alfaces, ele era… o que houvesse! O que houvesse, nós comíamos! E o nosso galinheiro estava sempre limpo! Lá até dava gosto pôr e púnhamos que era um regalo! Vejam só: eu, desde que vim para aqui, só pus um ovo… e mirradito!
— E não há direito! Não é justo que a Pitazita coma a ração que nos tiraram a nós! — cacarejou uma galinha garnisé, a Vermelha, de papo levantado. — Ela, que já nem ovos põe! E não é justo que as nomeadas nos andem sempre a bicar, se nem sequer põem mais do que nós! E eu sei que, às escondidas, quando estamos todas aqui entaladas a puxar, a ver se sai alguma coisa, as aleivosas atiram-se à ração da Pitazita, que finge que não vê e cacareja para o lado. Não há direito!
— Pois não, pois não, pois não… — repetiu o galinheiro em coro, incapaz de ir mais além na argumentação e nos protestos. Mas… logo surgiu, saída do seu fojo escuro e fedorento a poderosa Pitazita. E toda a bicharada se calou, meteu o bico debaixo das asas encolhidas e, à rasca, puxou, puxou, até parir um ovo qualquer, mesmo sem casca. Ao primeiro cacarejar de alarme, apareceu a figura medonha de Gertrudes — galochas pretas até aos joelhos encardidos, mangas arregaçadas. Deitou as manápulas à Vermelha e… foi o que sabemos: acabou no Pitas e Sopitas.
O galo, esse, andava indiferente. Como a Natureza não lhe reservara tal obrigação, continuava a deitar-se e a levantar-se com as galinhas, que ele galava e voltava a galar com toda a satisfação…

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Um barquinho de papel



Este texto foi escrito dias depois do anterior — “O meu poeta” — e na mesma escola, como é óbvio. É uma psicografia dos primeiros folhos crepusculares desta longa noite desaluada que se abateu sobre a Escola Pública.

O som da campainha desencaixotou o bulício da escola. Ao canto da sala, acotovelado sobre o mármore do balcão do pequeno bar, com todo o volumoso vazio à minha frente, curiosava a ansiosa entrada dos atores.
Pasta numa mão, livro de ponto na outra, eles foram chegando. Os primeiros… mais solitários, os restantes já em grupo, desenhando o mesmo ritual, o mesmo cénico percurso: o encarceramento dos livros de ponto, o estacionamento das cargas livrescas e… a ubiquação, antes do banquete de mimos no prazeroso cantinho. Num instante, o docentáculo parecia uma sala de espelhos apinhada: de um lado (o tangível), um grupo exuberando em sons, cores, odores, macios tocares, olhares luminares…; do outro, o mesmíssimo grupo, mas quieto e intangível, em tons de cinza, demorando plumbeamente nos lugares, de pé e de assento, de companhia a paredes e janelas… desfolhando lentos malmequeres.
Libertei o espaço, para que outros pudessem ofertar-se alguns minutos de consolo, e fui sentar-me num atalaiado canto, com as espectrais figuras evanescendo diante de mim. Por momentos, consegui subtrair-me com elas e mergulhar no seu silêncio, nas suas brumas, na sua quieta inquietude, nas pétalas malquerentes que estavam atapetando todo o quadriculado envernizado do chão. Estatuei-me: empederni por fora, e fui… mar profundo adentro.
O Telmo, plantado diante da vidraça, estatuava como eu, com a claridade de fora decalcada nas retinas inertes. Parecia um pedaço de tempo parado. A Jacinta, virgulada sobre uma pequena mesa circular, afundou o seu olhar encovado nas palmas das mãos, que acabaram por se arrastar lentamente pelas têmporas, acariciando depois os seus longos cabelos lisos, caídos na ravinosa curvatura do seu tronco. A Manuela, aninhada num pequeno assento, dava colo ao coração, desespinhando-o pacientemente como a um menino, o seu menino, caído num fractal de catos. A Noémia, tal como o Telmo, arrostando outra abertura, também tinha os olhos perdidos em penumbrosas veredas de uma mata de nenhures. Colava mais alguns cromos tristes nas páginas da sua já longa e deprimente coleção. A Custódia — mão esquerda escorando o cotovelo direito, onde se alavancava o braço que lhe chegava uma mão segurando um verdolengo pomo — parecia um engenho humano a esmoer pensamentos, a macerar frustrações. A Raquel, a sereníssima Raquel, com um longo fio de lã e uma velha agulha de tricô, retecia a malha desfiada do seu corpete de tristezas. O Carlos…
Retiniu o grito de chamada como se tivesse terrintado às avessas. E o ritual acordou obediente, seguindo-lhe o monótono compasso. Vi então que todos os espectros eram soldadinhos de chumbo pesando solidamente sobre o chão. Mas a porta, impiedoso bueiro, deglutiu o meu cenário de um só trago. Do outro lado, para onde escorreu toda a minha contemplação, estavam esbracejando silvas, que encobriam e ensombreciam o esqueleto de um antigo olival abandonado.
Eu não tinha aulas. Por isso, só por isso, continuei ali, chumbado ao meu canto, vertido no meu forro, a escrever um doloroso barquinho de papel.

terça-feira, 31 de julho de 2018

O meu poeta


Este texto foi escrito em 2011. Estava eu a lecionar na EB 2/3 de Real. Todavia, embora a inspiração tenha surgido numa aula concreta, numa experiência vivida — o primeiro teste do ano letivo — trata-se de uma visão poetizada da paisagem educativa a nível nacional. Subtraindo o facto de, no presente, estarmos em plenas férias escolares (antípodas do momento retratado no texto), a sua atualidade — creio eu — permanece intacta.  

Ontem, as minhas turmas da manhã, todas de sétimo ano, fizeram teste. Dia místico para o professor-poeta.
Depois da leitura integral do conteúdo da prova, o mesmo manto de silêncio, que parecia encolhido no céu da boca da sala, desceu três vezes, sobre os três grupos, como em peça de três atos. Três vezes me sentei à secretária, para ligar o computador e dar vida à cadeia musical que preparara na minha velha retorta de pequeno alquimista: o violino da Sarah Chang, acariciando uma sinfonia de Bach; o piano de Keith Jarrett, soltando pétalas de rosa; um sereníssimo oceano musical de Mozart; várias brisas de Roy Todd… Fez-se paz no mundo.
Saudade do silêncio! Saudade do meu outeiro pedagógico! Saudade de soltar o olhar dos meus pastores pela jovem paisagem verdejante e quieta! Finalmente, o tão ansiado momento! Deixei entrar o poeta.
Alado se tornou o tempo. Atei a razão ao meu cajado cravado no chão, e desarvorei, voei com ele, criançamente intuitivo. Voei… E o tempo fez-se-me primeiro dia: aula de apresentação. Entraram as crianças, trajando sinestesias, humanizando o meu manso rebanho.
Ao fundo, os olhos da Gisela, descaídos sobre a mesa, seguiam o serpenteio da sua pena, que contava à folha o que ouvira ao coração. Eram tristes os seus olhos, dois órfãos que, de vez em quando, afilhavam para mim e me rasgavam o peito. Serena por fora, em lava por dentro, a Gisela estava-me chorando a vida.
Um pouco mais perto, junto à janela, as botas puídas do Tiago, cruzando e descruzando sem parar, lutavam com o frio dos seus pés inseguros. A camisola interior, branqueando até à palma da mão que não escrevia, escreveu-me tudo o que o seu dono menino — rosto pálido, olhar trémulo — não pôde.
Mesmo à minha frente, a Cátia: um girassol. As suas pétalas loiravam sobre uma aveludada folhagem de marca. Parecia que as teclas do piano tocavam para ela. Parecia que a música se ia caligrafando no confiante movimento das suas mãos; que o teste fora feito para ela; que o próprio mundo se fizera para ela.
Junto à porta… mais ao centro… no canto oposto da sala… paulatinamente, os meus catraios foram-se-me desoutrando, um a um, como meninos de cristal acabados de nascer. E o meu olhar rasgou-se. Bebi as dicotomias da vida, e souberam-me a fel. Apeteceu-me bater no mundo!
De súbito, uma sinistra figura invadiu o meu pasto. Na sua mão macilenta, balanceava uma lanterna apagada, que se abriu e soltou corvos famintos de amanhãs. Fez-se breu num instante, e o tempo desasou. Fiquei a sós com a noite. Fui à janela e encarei-a, como se ela fosse o meu poeta. Mas ela baixou o seu olhar amofinado, e contraiu o ventre como se fosse abortar um dia sem sol e sem fim. Depois soluçou, e acabou por verter copiosamente o que eu não pude.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Depois... libertaria!



Hoje e nos próximos dias, até domingo, o meu poeta será senhor soberano deste planalto solitário. Depois… vamos ambos à deriva, numa face da Lua. Senta-te, leitor. A… asa é tua.

— E tu, poeta, o que fazias depois?
— Depois… abria portas e janelas, como braços para abraços, e oferecia os espaços interiores ao ar e ao sol. Deixava-os correr a escola como crianças caprinas. Depois… reunia todos os mestres lá fora, sobre a verdura do jardim. Depois… dava as mãos ao azul e convocava as aves brancas para virem volitar sobre nós, fazendo círculos, em chilreio permanente. Depois… que fossem colher água em nascente pura e que vertessem uma gota em cada rosto, em cada olhar cinzento, para que as retinas pudessem também verter todas as lágrimas secas, purgar todas as dores internadas no silêncio. Depois… que me abrissem o peito. Um a um, com a delicadeza aveludada de uma pétala, beijava-lhes o coração. Depois… libertação. As aves partiam, em todas as direções, e os mestres fruíam da contemplação do ato, até o céu ser só azul, azul denso, intenso e sem fim.
— E depois…
— Depois… um frenesim de poesia. Os libertos plantar-se-iam na terra. Depois… dos seus pés brotariam raízes fundas, os seus troncos cresceriam, e os seus braços dariam ramos, dezenas de ramos, que dariam folhas e flores, que dariam amores, que seriam crianças, que cresceriam como árvores, que abririam os seus longos ramos, plenos de folhagem, e se fariam aves, aves sedentas de azul.
— E depois?
— Depois… os dias suaves. Todos compreenderiam que os mestres são olmos que dão aves.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

STOP – Dois erros estratégicos



«— Louco! — exclamou o Cavaleiro Negro. — Junto do Chrysus, a Espanha pedia aos seus filhos que morressem sem recuar: aqui é também a pátria que exige dos seus últimos defensores que não se votem a morte inútil. Fujamos! vos digo eu; porque a fuga não pode desonrar aqueles que mil vezes têm provado quanto desprezam a vida. Vede… Não são apenas alguns corredores que nos perseguem: são esquadrões e esquadrões de agarenos que transpõem aos nós a assomada.
Mas eles não o escutavam: Sanción, seguido dos seus nove companheiros, investia contra os árabes, que tinham entretanto chegado.»
Eurico o Presbítero, Alexandre Herculano

Como já aqui disse, prolongar insensatamente o sacrifício de quem luta, no terreno, é comprometer seriamente ações vindouras. Foi, a meu ver, o que, involuntariamente, o STOP acabou por fazer, ao decidir — após a realização de um inquérito, ao qual respondem, anonimamente, os que estão mesmo dispostos a lutar, mas também os que nem por isso e aqueles que nada têm a ver com a luta, mas querem atirar achas para a fogueira — ao decidir, dizia eu, manter e prolongar a greve, quando já não era possível vislumbrar relevantes efeitos práticos da mesma. Disse-o então e repito-o: na minha perspetiva, foi uma pequena loucura motivada por um entusiasmo quase adolescente. É cabeça fria — muito fria — que tais momentos exigem.
Quais foram os ganhos? Foi exposta a prepotência incompetente da diretora-geral da DGEstE, a repugnante subserviência de Filinto Lima, a abjeta amorfia de muitos dos nosso diretores e personalidade ziguezagueante da troica ministerial. Mas isso… já todos nós sabíamos, já todo o povo sabia. Apenas ganhámos clareza e nitidez. Muito pouco, portanto. Já quanto às perdas…
Temo que este insensato sacrifício não tenha apenas exposto os defeitos de quem manda, desde o castelo real aos muitos xerifes de Nottingham que vão semeando medos e servilismos nos territórios educativos. Temo que este esforço adicional, involuntariamente, tenha fragilizado os resilientes mais corajosos e determinados, que se foram vendo progressivamente isolados, em divergências e ruturas sucessivas com os seus pares; temo que esta insensata porfia, impensadamente, tenha aberto as portas aos medos docentes entretanto repelidos; temo que esta excessiva ousadia, inadvertidamente, tenha acabado por oxigenar o autoritarismo saloio de muitos diretores; temo, por tudo isto, que esta benévola loucura tenha comprometido, de alguma forma, as próximas (inevitáveis) ações de luta. Espero, sinceramente, que não!
Não sou ninguém para dar conselhos aos dirigentes do STOP, sou apenas mais um dos muitos soldadinhos de chumbo, mas um soldadinho de chumbo que, apesar de recentemente ter aderido formalmente ao sindicato (e isso diz muito) não abdica de ter voz independente e de dar a sua opinião, mesmo contra a corrente e contra muitos riscos, incluindo o da presunção e o do ridículo. Por isso, peço a quem o dirige um pouco mais de calculismo, de frieza estratégica e de “postura institucional”, sem abdicar da riquíssima proximidade e omnipresença que soube conquistar. Estar próximo dos professores (dos colegas) não significa poder fazer o que os colegas fazem no terreno. Eu e outros soldadinhos como eu podemos ridicularizar muitas figuras que dizem barbaridades contra nós, mas o STOP (penso eu) não o deve fazer nem deve partilhar tais “brincadeiras” nos seus placares cibernéticos. O STOP, mais tarde ou mais cedo, vai ocupar o seu lugar na mesa negocial. E convém que vá trajado a rigor, porque não lhe vai faltar oposição.
Deste lobo solitário que muito vos preza, admira e quer para vós só o melhor.

terça-feira, 24 de julho de 2018

Carta de despedida – Um voo triste



De forma impulsiva, pensei em escrever este texto antes da publicação das listas do concurso interno antecipado. Cheguei mesmo a sentar-me aqui, diante do computador, e a escrever algumas linhas, que acabei por apagar. Afinal, as minhas palavras poderiam ser mal interpretadas, caso o “destino” ditasse a minha continuidade na Mosteiro e Cávado (pareceria que estava a tentar remendar uma tentativa frustrada). Mas agora estou livre de dizer, uma vez que vou mesmo embora.
Fui lá colocado no ano passado. A minha adaptação, como sempre, não foi nada fácil, apesar de ter encontrado um ambiente acolhedor. “Erros” meus (juramentos desta interminável cruzada docente), má fortuna (as eternas “fadas merdinhas” deste mundo) e amor ardente (a convicções, princípios e valores) trataram, como sempre, de me preceder e de criar o já rotineiro calvário que sou obrigado a subir. E foi ainda nesse contexto de adaptação que tomei e comuniquei, oralmente e por escrito, de forma circunstanciada, a decisão de sair, vaticinando que haveria um concurso interno, que eu seria colocado noutra escola e que os resultados dos meus alunos na Prova Final seriam a minha última palavra. Isto passou-se nos derradeiros dias de outubro e culminou no dia 1 de novembro, numa missiva de nove páginas. E tudo acabou por acontecer como eu então previ, até a dor que agora tenho a morder-me o peito! Infelizmente, já vou estando habituado!
Muitas manhãs, entretanto, foram dourando os dias; veludo de pétalas, entretanto, dado e recebido; mãos, entretanto, firmemente apertadas; braços, entretanto, genuinamente entrelaçados; olhares, entretanto, desvelados e tornados cristalinos. O entretanto… sem dúvida alguma… foi AMOR. Fomos transformando o meu calvário numa ingremidade de afetos. No entanto… abril, já cativo de cores e odores primaveris, fez-me arrostar o granítico peso da decisão tomada. Podia (e talvez devesse) ter recuado, mas não o fiz. O meu coração não foi capaz de vencer a força da palavra tão perentoriamente assumida. Sísifo fadado.
Nos últimos tempos, sobretudo nos declives do terceiro período, a pergunta, sempre acompanhada de expressões faciais e de olhares que não iludiam, tornou-se diária: “Achas que vais sair?”. Sim, achava que sim! E erguia-se-me a habitual ventania que faz rodopiar doces tristezas em mim! Suaves prestações deste fel!
Saio da Mosteiro e Cávado com a certeza da saudade no cais e na bagagem que transporto. De lés a lés, amei e fui amado. O meu calvário foi alando a minha cruz até ao azul intenso. Não levo, por isso, nenhum travo de amargor a não ser o da despedida. Sinto-me condor… a voar contra o vento! É outono!

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Para Mário Centeno, com... ardor!




Doutrinar como um asno engomado


A directora-geral da DGEstE informou as escolas sobre o modo expedito de concluir o ano lectivo, atropelando a lei e sequestrando os professores. Fê-lo a 20 deste mês, a pedido de “elevado número” de directores incapazes de assumir responsabilidades e autonomia, retomando na prática o que já havia dito na famigerada nota informativa de 11 de Junho. Como a situação era complicada, a diligente funcionária puxou pela cabeça e chamou a polícia. Depois, doutrinou como um asno engomado, apenas com um ligeiro senão: é que os conselhos de turma não são órgãos administrativos e, portanto, a sua geringonça argumentativa pariu mesmo abaixo de zero. A nota informativa, versão dois, é papel molhado, cujo destino não é a obediência, mas tão-só o lixo.
Com efeito, o Despacho Normativo n.º 1-F/2016, já da lavra do actual secretário de Estado João Costa, na senda aliás da anterior Portaria n.º 243/2012, dispõe claramente assim (artigo 23.º): “o conselho de turma, para efeitos de avaliação dos alunos, é um órgão de natureza deliberativa, sendo constituído por todos os professores da turma e presidido pelo diretor da turma”; compete ao conselho de turma “apreciar a proposta de classificação apresentada por cada professor, tendo em conta as informações que a suportam e a situação global do aluno”; “as deliberações do conselho de turma devem resultar do consenso dos professores que o integram, tendo em consideração a referida situação global do aluno”; “quando se verificar a impossibilidade de obtenção de consenso, admite-se o recurso ao sistema de votação, em que todos os membros do conselho de turma votam nominalmente, não havendo lugar a abstenção e sendo registado em ata o resultado dessa votação”. (Os sublinhados são meus).
Como pode uma directora-geral atentar tão despudoradamente contra um direito fundamental dos professores, o direito à greve? Como pode servir-se de outro, o direito às férias, para tentar tomá-los como reféns, num hediondo golpe de chantagem? Como pode, rasteiramente, ignorar o que fixa o Artº. 57º da Constituição? Como pode confundir a independência intelectual e profissional de um professor com o servilismo de um qualquer burocrata? Como pode confundir um acto pedagógico, colegial, consequência de ponderação responsável, com um mero acto administrativo, automático? Como pode ignorar as sucessivas disposições legais, que devia proteger por elementar dever de função, para tentar impor um comando ignaro, que as cilindra?
Fora este um ministro decente e dia 26, data limite do ultimato da patusca directora-geral, seria antes a data simbólica da demissão da dita. Por uma questão de higiene constitucional. Com efeito, esta senhora não entendeu que todas as formas reivindicativas, provocando desconforto nalguns, são, acima de tudo, uma forma de chamar a atenção da sociedade para a causa que as motiva. E não entendeu que não há greves só aos fins-de-semana e feriados. Esta senhora tem, de modo reiterado, tentado trucidar a nobreza do acto educativo, com a sua substituição pela vulgaridade do acto administrativo. Na sua lógica redutora, qualquer Lola do Simplex (o robot recentemente criado) a substituía (reconheço que com vantagem). Entendamo-nos: atribuir classificações finais sem validação pela presença de todos os elementos dos conselhos de turma é o abastardamento do acto educativo, é desleal e desonesto para alunos e professores e falseia os resultados finais.
Mas a lama não mancha apenas o Ministério da Educação. Mergulha nela a habitual bonomia de António Costa, que assiste, seráfico, ao acto degradante para o ensino público de trocar reuniões sérias e conformes com a lei, pela palhaçada, escandalosa e ilegal, de três ou quatro professores decidirem por nove ou doze, sem a presença mesmo do director de turma. Em tempo de celebradas reversões, este regresso à época das notas administrativas envergonha a deontologia elementar e a ética mínima. Como é hábito, os desqualificados que comandam devem brevemente dizer, numa qualquer televisão, que estão de consciência tranquila.
in Público, 23/07/2018

sábado, 21 de julho de 2018

Os Senhores Extraterrestres



Filinto Lima está cada vez mais extraterrestre. É um facto. Mas não é o único: aqueles que ele diz representar também estão. Jazem nas escolas, mas parecem pertencer a outro planeta, de outra galáxia, que os telecomanda.
Ainda há dias esta personagem disse A no dia D e, dias mais tarde (dia D+X), já dizia B (refiro-me à sua vénia diante da malfadada nota informativa do dia 11 de junho, dias depois transformada em recusa por, supostamente, ter sido considerada ilegal). Hoje, a mesma pessoa (Lima himself), novamente em modo protocolar, veio à praça bendizer, aclamar e subscrever uma diretiva que é ainda mais grave do que a citada nota. 
Desculpem-me os leitores, mas vou ter de adequar o registo de língua ao referente.
Na minha juventude, costumávamos chamar graxistas a estes gajos. Os graxistas eram uma casta que estava sempre de acordo com a autoridade das escolas, dos colégios e dos liceus: professores, presidentes, reitores… Estavam-se borrifando para os colegas, pois o que eles queriam era que a sua vidinha fosse fofinha e corresse sempre bem debaixo daquele guarda-chuva impermeável. E como nós adorávamos tratar da saúde aos graxistas! Alguns deles até eram mesmo bufos, e a esses… Adiante! 
O problema atual está na generalização do “graxismo”. Foi instituído por lei e agora há pelo menos um gaxista autómato em cada escola. Um “estudante pálido”, como diria Bernardo Santareno. São, em geral, gajos e gajas solitários, amedrontados e dispostos a quase tudo, no escrupuloso cumprimento da sua religiosa obediência. Que se danem os colegas, pois o que eles querem é ver-se livres das saraivadas vindas do céu dos manda-chuvas: “Meu querido S. Rodrigo, não me castigues a mim, castiga o meu amigo!”. E, como uma desgraça nunca vem só, também o “graxismo” é altamente contagioso. Que o digam aqueles que juram representar os pais e encarregados de educação.  A graxa já é tanta que até parece que vivemos numa mina de carvão.
Os diretores (nem todos, como é óbvio, mas quase) são uma espécie de peça de engrenagem. Lá longe, ao cair da tarde, uma mão aciona o maquinismo e… as peças, todas engatadas umas nas outras, entram num movimento simultâneo, compassado, sincronizado, automático, acéfalo, desumano… mas eficiente e eficaz. Já ninguém tem ideias próprias, objeções de consciência, limites para a obediência. Não, tudo isso é coisa do passado, letra morta e ultrapassada. Agora… tudo é administrativo e maquinal. O cérebro e o caráter tornaram-se exuberantes extravagâncias. 

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Capitão Pestana


Sei que, tecnicamente, não está um primor (estou sem tempo para esmeros), mas serve perfeitamente como significante. Espero não causar ciumeira.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

terça-feira, 17 de julho de 2018

Balanço e contas



Hoje é dia de balanço e contas aqui no Quadro Negro, que fez nove mesinhos há dois dias. Todavia, não é esse o principal motivo deste relatório. Também não é contágio da mania que anda por aí (de fazer contas já feitas). A razão é simples: a toca do lobo atingiu hoje as 200 000 visitas. Pas mal, n’est-ce pas?
Sei que há no mercado blogues com um share muito mais exuberante, porém, dou-me por sastifeito (o erro é propositado, queridos mirones). Para um blogue com as características do Quadro Negro (subversivo quanto baste, irreverente que até chateia, quase um antro de pecado, muito pouco informativo, com reflexões de meia tigela e ideais que não lembram ao Diabo com maiúscula…) não está nada mal (penso eu de que, como diria o dragouê das ántas).
Entre os cinco artigos mais lidos, está uma carta de exortação à greve de 15 de novembro (27 025 visualizações), um texto muito recente (“Os professores acordaram”, com quase 8 500), “O meu tempo”, que, no conjunto das duas edições também já tem idêntico número de leituras, mais uma carta dirigida aos colegas (“Aos professores ainda vivos”, com 6 772 visualizações) e, por fim, um “bilhete” enviado aos sindicatos, em março, a propósito de um boato (“Espero um desmentido dos sindicatos”, com 6 245 leitores). Ena, pá, tanta gente enganeitide and tão mal influencieitide (em itálico por se tratar de empréstimos à bancarrota)!
Como é visível na imagem, os meus perversos leitores residem quase todos em território nacional (é por estas e por outras que o país nunca mais se endireita). Os restantes do top five… é ver na imagem, como diria o nosso saudoso Guterres, que, “no seu tempo”, também já tinha a mania de mandar fazer contas (e, apesar disso...).
E prontes (outro erro propositado, ó cuscas de plantão), são estas as modestas contas do Lobo Mau. Será caso para fatiar um bolo bom, para mandar acender umas velinhas (aproveitando as contas para rezar o terço) ou para ir ver se beijo a Capucho Vermelho? Está difícil, uma vez que a primeira alternativa não me agrada e a segunda é a minha religião que não permite. Que se danem as contas, vou aproveitar só o balanço!
Digam o que disserem, este blogue… não tem comparação (modestamente, claro)!

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Como surpreender governantes - Ataque Total


Ora… aqui está a minha derradeira sugestão, desta vez para um ataque plataformista total, caso as ideias anteriores, devido a alguma anomalia do clima, não produzam os efeitos pretendidos.